Depende do tamanho, e a faixa é larga: de uns US$ 300 milhões a mais de US$ 3 bilhões só para construir. Não é chute. A NASA publica esses valores num documento oficial, projeto por projeto, e os três números mais recentes são estes: o telescópio Roman fechou a construção em US$ 3,037 bilhões; o caçador de asteroides NEO Surveyor está em US$ 1,208 bilhão; e o observatório solar MUSE, em US$ 296,9 milhões. Este artigo mostra de onde sai cada número, o que está dentro dele e por que um custa dez vezes o outro.
Um aviso logo de cara: os valores são em dólar e não foram convertidos para reais. Conversão exige uma cotação do dia, que muda toda hora e envelhece o texto em uma semana. O que interessa aqui é a ordem de grandeza e a comparação entre as missões.
De onde saem esses números
Todo ano a NASA entrega ao Congresso americano um pedido de orçamento, um calhamaço público com a conta de cada programa. Dentro dele há uma tabela específica, de acompanhamento de grandes projetos, que traz custo de desenvolvimento, prazo e nível de confiança de cada missão em construção. Os dados que usamos aqui são do pedido para o ano fiscal de 2027 e, diz o próprio documento, estavam atualizados em 27 de fevereiro de 2026.
Duas regras de leitura são essenciais para não interpretar errado:
- Só entram na tabela os projetos com custo de ciclo de vida de US$ 250 milhões ou mais. Missão menor que isso não aparece ali — é financiada dentro de blocos maiores. É o mesmo limiar que decide o rigor de acompanhamento de uma missão, explicado em As 6 portas que toda missão da NASA tem de atravessar.
- O "ano-base" é o ano em que o projeto foi aprovado para construção, no portão chamado KDP-C. É naquele momento que a NASA registra quanto pretende gastar, e todo desvio posterior é medido contra esse compromisso. É uma prestação de contas, não uma estimativa solta.
Os três, lado a lado
| Telescópio | Ano-base | Custo prometido | Custo atual | Variação | Para quê |
|---|---|---|---|---|---|
| Roman | 2021 | US$ 2.898,1 mi | US$ 3.037,6 mi | +5% | Energia escura e planetas de outras estrelas |
| NEO Surveyor | 2023 | US$ 1.228,6 mi | US$ 1.208,3 mi | −1,6% | Achar asteroides que passam perto da Terra |
| MUSE | 2025 | US$ 296,9 mi | US$ 296,9 mi | 0% | Observar a coroa do Sol em alta velocidade |
Repare que só um dos três estourou o orçamento, e por 5%. O NEO Surveyor ficou mais barato que o prometido, e o MUSE está exatamente no valor combinado — este último, aliás, aparece pela primeira vez no relatório, porque acabou de entrar na fase de construção.
A tabela também traz o nível de confiança de cada estimativa: o Roman foi aprovado com mais de 70% e o NEO Surveyor com 86%. Em português claro, isso quer dizer "a chance de caber neste valor e neste prazo é de pelo menos 86%". A NASA não promete um número exato; promete uma probabilidade.
O que está dentro de US$ 3 bilhões
O documento abre algumas linhas do Roman, e elas ajudam a entender onde o dinheiro realmente vai:
| Linha do projeto | Prometido | Atual |
|---|---|---|
| Instrumentos (as câmeras) | US$ 661,6 mi | US$ 896,6 mi |
| Nave que carrega o telescópio | US$ 278,1 mi | US$ 417,2 mi |
| Integração e testes | US$ 183,2 mi | US$ 357,2 mi |
A linha mais cara é a dos instrumentos, e faz sentido quando se vê o que são. A câmera principal do Roman tem 300 megapixels e enxerga um pedaço de céu 200 vezes maior que o instrumento infravermelho do Hubble. O espelho tem 2,4 metros — o mesmo do Hubble —, mas pesa 186 quilos, menos de um quarto do peso do espelho antigo. Tirar três quartos do peso de um espelho sem deformá-lo é exatamente o tipo de coisa que custa caro.

Note também a terceira linha. Integração e testes quase dobrou, e essa é a etapa em que as peças prontas são juntadas e sacudidas, assadas e congeladas para ver se aguentam. É a parte que ninguém vê e sempre demora mais do que o previsto — o detalhe de como isso é feito está em Como se testa uma nave espacial antes de ela voar.
Por que o preço sobe (e por que, dessa vez, acabou bem)
O caso do Roman é didático. No papel do pedido de orçamento, além dos 5% a mais, o compromisso de lançamento escorregou de outubro de 2026 para maio de 2027 — sete meses de atraso formal.
Só que o documento foi fechado em fevereiro de 2026, e a realidade foi outra: o Roman decolou em 30 de agosto de 2026, antes das duas datas. Ou seja, a margem de folga que a NASA guardou no compromisso acabou não sendo usada. Vale a lição de leitura: a data "oficial" de um relatório de orçamento é a data que a agência se compromete a cumprir no pior caso, não a data que ela espera. O que o telescópio vai fazer agora está em Telescópio Roman: o que é e o que ele vai fazer.
Atraso, aliás, é quase sinônimo de custo. Uma equipe de centenas de pessoas e uma sala limpa alugada continuam custando dinheiro todo mês em que o lançamento não acontece.
Por que o MUSE é dez vezes mais barato
Comparar o MUSE com o Roman mostra o que encarece um telescópio. O MUSE é um observatório solar, vai voar por dois anos numa órbita baixa da Terra e tem um objetivo só: observar a atmosfera do Sol muito mais rápido do que os espectrógrafos anteriores conseguiam.
O Roman faz o contrário em todos os itens. Ele trabalha a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, num ponto de equilíbrio gravitacional chamado L2 — quatro vezes mais longe que a Lua, e um lugar de onde ninguém vai buscar o aparelho se algo quebrar, como explica O que é o ponto L2, onde ficam os telescópios. Tem missão principal de cinco anos, com combustível para pelo menos mais cinco. E vai gerar um arquivo de dados que, nos cinco primeiros anos, deve passar de 10 terabytes por dia.
A regra prática que sai daí é simples: o que custa não é o espelho, é a distância, a duração e a quantidade de coisas diferentes que o aparelho precisa fazer sem assistência.
Construir é só a primeira conta
Depois de pronto, o telescópio passa a ter uma mensalidade. No mesmo documento, o Roman tem US$ 166,8 milhões reservados para 2027, caindo para 91,4, depois 78,5, 73,0 e 70,9 milhões nos anos seguintes. Somando os cinco anos, a operação dá cerca de US$ 480 milhões — ou seja, construir o Roman custou mais de seis vezes o que vai custar operá-lo no primeiro quinquênio.
Para comparação, a linha do James Webb no mesmo pedido soma US$ 140 milhões por ano, somando operação e ciência. Quanto se paga para manter um aparelho antigo funcionando, e quem decide desligar, está detalhado em Quanto custa manter uma sonda ligada no espaço?.
Para onde vai o dinheiro, na prática
O pedido de orçamento lista os contratos principais de cada projeto, com empresa e cidade. No Roman, o conjunto óptico do telescópio foi feito pela L3Harris, em Rochester (Nova York); a montagem externa, pela BAE Systems, em Boulder (Colorado); os detectores, pela Teledyne, na Califórnia, e pela Hawaii Aerospace, em Honolulu; o centro de operações científicas fica em Baltimore e o centro de ciência, no Caltech, na Califórnia; o foguete foi comprado da SpaceX.

Duas conclusões honestas sobre essa lista. A primeira é que "custo de um telescópio" é, na maior parte, folha de pagamento de engenheiro e de técnico espalhada por uma dúzia de cidades, não um cheque para comprar um aparelho pronto. A segunda é que nenhuma empresa brasileira aparece nessa lista — o que não significa que não haja caminho: as portas de entrada existentes estão em 7 carreiras espaciais para seguir sem sair do Brasil.




