Muito mais do que a maioria das pessoas imagina, e muito menos do que custou construir. No pedido de orçamento que a NASA apresentou para o ano fiscal de 2027, manter o telescópio Hubble funcionando custa US$ 72,7 milhões por ano. O rover Curiosity, que anda em Marte desde 2012, sai por US$ 38 milhões anuais. A sonda Mars Reconnaissance Orbiter, que circula o planeta vermelho desde 2006, custa US$ 26 milhões.
Esses valores não incluem construir nada nem lançar nada. É o preço de manter aceso o que já está lá: gente trabalhando, antenas escutando, programas sendo atualizados, dados sendo guardados.
Para dar uma referência: manter o Hubble ligado por um ano custa aproximadamente o mesmo que um único lançamento de foguete Falcon 9, cotado em torno de US$ 70 milhões, como mostra Quanto custa lançar um foguete.
O que exatamente se paga
Uma nave em órbita ou em outro planeta não é um eletrodoméstico que fica ligado sozinho. Todo dia, alguém trabalha para ela.
A conta anual de uma missão em operação costuma incluir:
- Equipe de operações. Gente que planeja o que a nave vai fazer, escreve os comandos, confere a saúde dos equipamentos e reage quando algo dá errado — o que, em Marte, pode significar passar um fim de semana inteiro resolvendo um problema a 300 milhões de quilômetros.
- Tempo de antena. Nenhum dado chega à Terra sem uma antena apontada para a nave na hora certa.
- Manutenção de software. O programa que roda no solo e, às vezes, o que roda a bordo.
- Arquivo de dados. Guardar e distribuir o que a missão produziu, inclusive décadas depois.
- Ciência. No caso dos telescópios, a NASA financia com o mesmo dinheiro as bolsas dos pesquisadores que usam o aparelho. A verba do Hubble, por exemplo, cobre manutenção de software, operações e também as bolsas de observadores convidados.
É por isso que "desligar" uma missão não economiza só eletricidade: economiza salários, tempo de antena e contratos.
Os números do pedido de 2027
A tabela abaixo reúne o que o pedido de orçamento da NASA para o ano fiscal de 2027 reserva para algumas missões já em operação. O ano fiscal americano começa em 1º de outubro, então esse orçamento vale para o período que acabou de se iniciar.
| Missão | Lançada em | Pedido anual (2027) |
|---|---|---|
| Telescópio James Webb | 2021 | US$ 120,0 milhões |
| Telescópio Hubble | 1990 | US$ 72,7 milhões |
| Curiosity (Mars Science Laboratory) | 2011 | US$ 38,0 milhões |
| Mars Reconnaissance Orbiter | 2005 | US$ 26,0 milhões |
| Operações comuns de Marte (infraestrutura) | — | US$ 6,4 milhões |
Duas ressalvas importantes, para não vender certeza que não existe.
A primeira: isto é um pedido, não uma verba aprovada. Nos Estados Unidos, quem decide quanto a NASA recebe é o Congresso, e o valor final costuma ser diferente do que a agência pediu.
A segunda: os valores mudam de ano para ano. O próprio documento prevê que o Webb caia de US$ 120 milhões para US$ 110 milhões nos anos seguintes, e que a verba do Hubble permaneça em US$ 72,7 milhões até 2031, com a agência declarando que vai buscar "eficiências operacionais" — por exemplo, juntando sistemas de solo que hoje funcionam separados.

Por que a antena é um item de peso
Falar com uma sonda distante exige antenas enormes, e elas são poucas. A NASA opera a Rede do Espaço Profundo, com complexos espalhados pelo planeta de forma que sempre haja um deles voltado para a nave — funcionamento explicado em Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.
O ponto econômico é que essa rede é compartilhada. Dezenas de missões disputam as mesmas antenas, e cada uma recebe janelas de poucas horas. Quando uma missão nova chega, a fila aperta; quando uma antiga sai, sobra tempo para as outras.
É como um condomínio com uma única vaga de garagem para visitantes: ninguém paga uma garagem inteira, mas todo mundo paga a parte dele, e a briga é pelo horário.
O truque de dividir a conta
Essa lógica de rateio aparece explicitamente no orçamento. A linha "operações de missão de Marte", de US$ 6,4 milhões, não pertence a nenhuma sonda: ela paga os sistemas comuns usados por todas as missões marcianas. O documento diz, com todas as letras, que fazer assim sai mais barato e com menos risco do que cada projeto construir o seu próprio sistema.
Existe também um conjunto de ferramentas de operação de solo que, segundo o mesmo documento, atende 88 missões ao mesmo tempo. Nenhuma delas pagaria sozinha por aquilo.
É a mesma ideia de um prédio que tem um porteiro para 88 apartamentos em vez de 88 porteiros.
Quem decide desligar uma missão que ainda funciona
Aqui está a parte que surpreende: a maioria das missões não morre por quebra. Morre quando a conta anual deixa de valer a pena perto do que ela ainda vai descobrir.
Toda missão da NASA tem uma duração principal — três anos, cinco anos — e, quando essa fase acaba, ela entra em operação estendida, que precisa ser renovada. A renovação passa por uma revisão sênior, feita periodicamente, em que as missões em funcionamento são comparadas entre si: o que cada uma ainda entrega, por quanto, e o que se perderia se fosse desligada.
O orçamento mostra esse mecanismo em ação. Missões de observação da Terra como SMAP, GPM, ICESat-2 e GRACE-FO tiveram a operação estendida aprovada por uma revisão de 2023 até o ano fiscal de 2026 — e o próprio documento diz que o dinheiro depois disso depende das recomendações de uma nova revisão, prevista para 2026. São satélites saudáveis, produzindo dados, cujo futuro é decidido numa planilha.
O que acontece com os que não passam está contado em O que a NASA faz com um satélite quando ele se aposenta.
O caso do Chandra
Um exemplo concreto de como essa disputa é dura: o telescópio de raios X Chandra, em operação desde 1999, não aparece com uma linha de verba própria no pedido de orçamento da NASA para 2027. Procurar o nome dele no documento não devolve nenhuma ocorrência.
Isso não é o mesmo que dizer que o telescópio foi desligado — decisões orçamentárias passam pelo Congresso e mudam no caminho —, mas mostra o tamanho do aperto. O que o Chandra enxerga, e por que ele é insubstituível no que faz, está em Telescópio Chandra: o que ele enxerga que ninguém mais vê.
Vale a pena manter o velho ligado?
Em geral, sim, e por uma razão aritmética simples: o caro é construir e lançar.
Uma nave que já está lá, funcionando, entrega ciência por uma fração do custo de qualquer substituta. O Hubble, lançado em 1990, já mandou mais de um milhão de imagens para a Terra, segundo o próprio documento orçamentário, e em abril de 2025 começou seu 35º ano em órbita. Comparar US$ 72,7 milhões anuais com o preço de construir e lançar outro telescópio do mesmo porte não é comparação: é abismo.
O mesmo vale em Marte. Os US$ 38 milhões anuais do Curiosity pagam a operação de um laboratório sobre rodas que já atravessou mais de uma década de trabalho — e a comparação entre o que cada rover já fez está em Qual rover já andou mais em Marte? O novo recorde.
A conta só vira contra a missão quando o equipamento envelhece a ponto de entregar pouco, ou quando o dinheiro é necessário para algo que ninguém mais consegue fazer. É uma decisão desconfortável por natureza, porque significa desligar algo que ainda funciona.





