Quando um satélite da NASA chega ao fim da vida útil, ninguém simplesmente para de falar com ele. A agência executa um roteiro escrito antes do lançamento cujo objetivo é deixar o aparelho inerte: drenar a bateria até o fim, girar os painéis solares para longe do Sol, desligar todos os motores internos e, por último, desligar o rádio. Isso se chama passivação, e existe por um motivo prático: um satélite abandonado com energia sobrando explode, e cada explosão dessas enche a órbita de estilhaços por séculos. Este texto mostra o roteiro real de um satélite real, com os passos na ordem em que são dados.
A resposta curta: a NASA mata o satélite de propósito
Parece brutal escrito assim, mas é exatamente o que acontece. O objetivo declarado da operação é que não sobre, dentro do aparelho, nenhuma energia armazenada capaz de causar um estouro.
A regra que manda nisso é um requisito numerado da norma de lixo espacial da NASA, o 4.4-2. Ele diz, em resumo, que a energia guardada no satélite e no foguete precisa ser removida no fim da missão para evitar explosões e rachaduras que gerem detritos.
E a norma é explícita sobre as duas causas que se quer evitar: falhas internas, como uma bateria sobrecarregando ou um tanque pressurizando demais, e causas externas, como uma batida de micrometeoroide ou o aquecimento pelo Sol.
Não é teoria. Boa parte dos objetos catalogados em órbita hoje nasceu de corpos de foguete e satélites mortos que se partiram sozinhos, anos depois de terem sido abandonados.
O que conta como "energia armazenada"
Essa é a parte que surpreende: é muito mais coisa do que a bateria.
O plano de fim de missão de um satélite lista, item por item, tudo que guarda ou produz energia a bordo. Num satélite científico comum da NASA, a lista inclui:
| Tipo de energia | Onde ela está | O que se faz |
|---|---|---|
| Elétrica | bateria | drenada até o limite possível |
| Elétrica | painéis solares | giram para longe do Sol |
| Mecânica | rodas de reação | desligadas |
| Mecânica | motores de instrumento | esvaziados de energia |
| Térmica | tubos de calor | avaliados caso a caso |
| Química | tanques de combustível | esvaziados ou despressurizados |
As rodas de reação merecem explicação: são volantes pesados que giram muito rápido dentro do satélite. Girando um deles para um lado, o satélite inteiro vira para o outro — é assim que a maioria dos satélites aponta a câmera sem gastar combustível. Uma roda dessas rodando a milhares de rotações por minuto é energia pura, e precisa parar.
O roteiro real, passo a passo
Para não falar no abstrato, vale olhar o plano de fim de missão de um satélite concreto: o TIMED, lançado em 7 de dezembro de 2001 de uma base na Califórnia, num foguete Delta II que levou também um satélite franco-americano de oceanografia.

O TIMED tem 598 quilos, não tem motor nenhum e estuda a camada mais alta e menos explorada da atmosfera. O plano de aposentadoria dele, escrito pela equipe e aprovado numa reunião formal chamada revisão de descomissionamento, manda fazer o seguinte, nesta ordem:
- Desligar as regras automáticas que o satélite usa para se salvar sozinho — senão ele desfaz, por conta própria, tudo o que vier a seguir.
- Desligar os aquecedores da bateria.
- Ligar todas as cargas elétricas de uma vez, para que a bateria se esvazie o mais rápido possível.
- Girar os painéis solares 90 graus em relação ao Sol, de modo que parem de produzir corrente.
- Desligar o modo de segurança, as rodas de reação e os sensores de posição — a partir daí o satélite começa a girar sem controle, e é para isso mesmo.
- Desligar o transmissor.
Repare na ordem. A bateria é esvaziada antes de os painéis serem virados, porque, enquanto houver Sol batendo, ela recarrega. E o rádio é a última coisa a sair, porque é por ele que os comandos chegam.
Depois de desligar, eles passam três meses tentando ligar de volta
Esta é a parte do roteiro que quase ninguém imagina, e é a mais reveladora.
Desligado o transmissor, a equipe passa a vigiar a frequência do satélite uma vez por dia durante uma semana, para confirmar que não há transmissão nenhuma. Depois, uma vez por semana durante três meses — e, nessas verificações, eles tentam ligar a nave de novo.
Não é nostalgia. É teste: um satélite que responde não está morto, e um satélite que não está morto ainda tem energia, o que significa que a passivação falhou.
Só depois disso as antenas de solo são liberadas de qualquer responsabilidade com aquela missão. E o plano recomenda manter pelo menos um console de operações intacto até que o satélite esteja comprovadamente inerte.
As três saídas para quem está na órbita baixa
Passivar resolve o problema da explosão. Falta o do estorvo: onde o corpo fica.
A norma da NASA dá três opções para um satélite cujo ponto mais baixo da órbita esteja abaixo de 2.000 km:
- Deixar cair sozinho. O ar rarefeito das camadas altas freia o satélite até ele reentrar. A regra é que isso aconteça em até 25 anos depois do fim da missão, e nunca mais que 30 anos depois do lançamento.
- Fazer cair de propósito, com uma queima de motor que joga o satélite num ponto escolhido do oceano, assim que possível.
- Subir para uma órbita de estacionamento, acima de 2.000 km.
Existe ainda a quarta opção, para quem já está lá em cima: recolher o satélite e trazê-lo de volta em até dez anos. Nunca foi usada de forma rotineira — não existe caminhão de reboque espacial em serviço.
Para a faixa geoestacionária, a 36 mil km, a regra é outra: subir pelo menos 200 km acima dela e ficar lá por no mínimo cem anos. É a órbita-cemitério, já explicada em Quanto tempo um satélite fica no espaço antes de cair?.
O TIMED não tem motor, então não tem escolha: a disposição dele é passiva. Os cálculos da NASA preveem reentrada em cerca de 11 anos a partir de 2013, e a equipe de dinâmica de voo estimava que não ocorreria antes de agosto de 2037 — duas contas que não batem, e o plano registra as duas.
A regra dos 25 anos, e a dos cinco
O prazo de 25 anos saiu de uma proposta da própria NASA nos anos 1990 e foi adotado por outras agências, mas nunca teve força de lei: é uma diretriz.
Em 1º de outubro de 2022, a agência de telecomunicações dos Estados Unidos, a FCC, encurtou esse prazo para cinco anos para os satélites que ela licencia, com o argumento de que não dá mais para deixar satélite decaindo por décadas numa órbita cada vez mais cheia.
Como a FCC licencia boa parte do tráfego comercial do mundo, a regra pegou longe. Ela vale para satélites novos, não para os que já estavam lá em cima.
O risco de cair na cabeça de alguém
A norma trata disso com um número frio. Ela assume que qualquer pedaço que chegue ao chão com mais de 15 joules de energia pode ferir alguém — 15 joules é mais ou menos o impacto de um tijolo solto da altura de um degrau.
E fixa o limite: numa reentrada descontrolada, o risco de ferir uma pessoa não pode passar de 1 em 10.000.
O caso mais conhecido de reentrada descontrolada da NASA é o do satélite da foto de capa, o UARS, de 5.700 kg. Ele foi solto pelo ônibus espacial Discovery em 15 de setembro de 1991, foi desativado em dezembro de 2005 — quando a NASA gastou o que restava de combustível para baixar a órbita e encurtar a espera — e reentrou em 24 de setembro de 2011, sobre um ponto remoto do Pacífico Sul.
A NASA calculou que 26 pedaços, somando cerca de 540 kg, poderiam chegar ao chão. O risco estimado de atingir alguém foi de 1 em 21 trilhões, e nada atingiu. Até hoje não há registro confirmado de pessoa ferida por reentrada de objeto espacial, como mostram os episódios reunidos em Lixo espacial pode cair na sua cabeça? Os casos reais.
O que acontece com os dados
Um satélite aposentado deixa duas heranças, e a segunda é a que importa para a ciência.
O plano de fim de missão exige um relatório final de engenharia, com a história do aparelho, as anomalias que ele sofreu e o que ele conseguiu, entregue em até 60 dias depois do encerramento.
E exige um arquivo: desenhos, manuais de operação, telemetria bruta, relatórios de falha. Tudo guardado em formato eletrônico sempre que existir.
É por isso que o fim da entrega de dados novos de um satélite não apaga o que ele já mediu. Quando o veterano Suomi NPP parar de alimentar os sistemas de previsão, em 2 de novembro de 2026, o arquivo de tudo que ele viu desde 2011 continua de pé — detalhe que está em Quantos satélites observam a Terra o tempo todo?.





