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O que a NASA faz com um satélite quando ele se aposenta

Antes de abandonar um satélite, a NASA drena a bateria, vira os painéis para longe do Sol e desliga o rádio. Veja o roteiro real, passo a passo.

Publicado em 8 min de leitura
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Um satélite grande coberto de manta dourada sendo solto pelo braço robótico de um ônibus espacial, com o preto do espaço ao fundo
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. A resposta curta: a NASA mata o satélite de propósito
  2. O que conta como "energia armazenada"
  3. O roteiro real, passo a passo
  4. Depois de desligar, eles passam três meses tentando ligar de volta
  5. As três saídas para quem está na órbita baixa
  6. A regra dos 25 anos, e a dos cinco
  7. O risco de cair na cabeça de alguém
  8. O que acontece com os dados

Quando um satélite da NASA chega ao fim da vida útil, ninguém simplesmente para de falar com ele. A agência executa um roteiro escrito antes do lançamento cujo objetivo é deixar o aparelho inerte: drenar a bateria até o fim, girar os painéis solares para longe do Sol, desligar todos os motores internos e, por último, desligar o rádio. Isso se chama passivação, e existe por um motivo prático: um satélite abandonado com energia sobrando explode, e cada explosão dessas enche a órbita de estilhaços por séculos. Este texto mostra o roteiro real de um satélite real, com os passos na ordem em que são dados.

A resposta curta: a NASA mata o satélite de propósito

Parece brutal escrito assim, mas é exatamente o que acontece. O objetivo declarado da operação é que não sobre, dentro do aparelho, nenhuma energia armazenada capaz de causar um estouro.

A regra que manda nisso é um requisito numerado da norma de lixo espacial da NASA, o 4.4-2. Ele diz, em resumo, que a energia guardada no satélite e no foguete precisa ser removida no fim da missão para evitar explosões e rachaduras que gerem detritos.

E a norma é explícita sobre as duas causas que se quer evitar: falhas internas, como uma bateria sobrecarregando ou um tanque pressurizando demais, e causas externas, como uma batida de micrometeoroide ou o aquecimento pelo Sol.

Não é teoria. Boa parte dos objetos catalogados em órbita hoje nasceu de corpos de foguete e satélites mortos que se partiram sozinhos, anos depois de terem sido abandonados.

O que conta como "energia armazenada"

Essa é a parte que surpreende: é muito mais coisa do que a bateria.

O plano de fim de missão de um satélite lista, item por item, tudo que guarda ou produz energia a bordo. Num satélite científico comum da NASA, a lista inclui:

Tipo de energia Onde ela está O que se faz
Elétrica bateria drenada até o limite possível
Elétrica painéis solares giram para longe do Sol
Mecânica rodas de reação desligadas
Mecânica motores de instrumento esvaziados de energia
Térmica tubos de calor avaliados caso a caso
Química tanques de combustível esvaziados ou despressurizados

As rodas de reação merecem explicação: são volantes pesados que giram muito rápido dentro do satélite. Girando um deles para um lado, o satélite inteiro vira para o outro — é assim que a maioria dos satélites aponta a câmera sem gastar combustível. Uma roda dessas rodando a milhares de rotações por minuto é energia pura, e precisa parar.

O roteiro real, passo a passo

Para não falar no abstrato, vale olhar o plano de fim de missão de um satélite concreto: o TIMED, lançado em 7 de dezembro de 2001 de uma base na Califórnia, num foguete Delta II que levou também um satélite franco-americano de oceanografia.

Um foguete Delta II branco e verde subindo no fim da tarde, cercado por uma nuvem enorme de fumaça iluminada, com a logomarca da NASA numa torre ao lado
O lançamento de 7 de dezembro de 2001 que levou o TIMED ao espaço. Todo plano de aposentadoria de um satélite da NASA é escrito antes de uma foto como esta existir. Foto: NASA/KSC

O TIMED tem 598 quilos, não tem motor nenhum e estuda a camada mais alta e menos explorada da atmosfera. O plano de aposentadoria dele, escrito pela equipe e aprovado numa reunião formal chamada revisão de descomissionamento, manda fazer o seguinte, nesta ordem:

  1. Desligar as regras automáticas que o satélite usa para se salvar sozinho — senão ele desfaz, por conta própria, tudo o que vier a seguir.
  2. Desligar os aquecedores da bateria.
  3. Ligar todas as cargas elétricas de uma vez, para que a bateria se esvazie o mais rápido possível.
  4. Girar os painéis solares 90 graus em relação ao Sol, de modo que parem de produzir corrente.
  5. Desligar o modo de segurança, as rodas de reação e os sensores de posição — a partir daí o satélite começa a girar sem controle, e é para isso mesmo.
  6. Desligar o transmissor.

Repare na ordem. A bateria é esvaziada antes de os painéis serem virados, porque, enquanto houver Sol batendo, ela recarrega. E o rádio é a última coisa a sair, porque é por ele que os comandos chegam.

Depois de desligar, eles passam três meses tentando ligar de volta

Esta é a parte do roteiro que quase ninguém imagina, e é a mais reveladora.

Desligado o transmissor, a equipe passa a vigiar a frequência do satélite uma vez por dia durante uma semana, para confirmar que não há transmissão nenhuma. Depois, uma vez por semana durante três meses — e, nessas verificações, eles tentam ligar a nave de novo.

Não é nostalgia. É teste: um satélite que responde não está morto, e um satélite que não está morto ainda tem energia, o que significa que a passivação falhou.

Só depois disso as antenas de solo são liberadas de qualquer responsabilidade com aquela missão. E o plano recomenda manter pelo menos um console de operações intacto até que o satélite esteja comprovadamente inerte.

As três saídas para quem está na órbita baixa

Passivar resolve o problema da explosão. Falta o do estorvo: onde o corpo fica.

A norma da NASA dá três opções para um satélite cujo ponto mais baixo da órbita esteja abaixo de 2.000 km:

  • Deixar cair sozinho. O ar rarefeito das camadas altas freia o satélite até ele reentrar. A regra é que isso aconteça em até 25 anos depois do fim da missão, e nunca mais que 30 anos depois do lançamento.
  • Fazer cair de propósito, com uma queima de motor que joga o satélite num ponto escolhido do oceano, assim que possível.
  • Subir para uma órbita de estacionamento, acima de 2.000 km.

Existe ainda a quarta opção, para quem já está lá em cima: recolher o satélite e trazê-lo de volta em até dez anos. Nunca foi usada de forma rotineira — não existe caminhão de reboque espacial em serviço.

Para a faixa geoestacionária, a 36 mil km, a regra é outra: subir pelo menos 200 km acima dela e ficar lá por no mínimo cem anos. É a órbita-cemitério, já explicada em Quanto tempo um satélite fica no espaço antes de cair?.

O TIMED não tem motor, então não tem escolha: a disposição dele é passiva. Os cálculos da NASA preveem reentrada em cerca de 11 anos a partir de 2013, e a equipe de dinâmica de voo estimava que não ocorreria antes de agosto de 2037 — duas contas que não batem, e o plano registra as duas.

A regra dos 25 anos, e a dos cinco

O prazo de 25 anos saiu de uma proposta da própria NASA nos anos 1990 e foi adotado por outras agências, mas nunca teve força de lei: é uma diretriz.

Em 1º de outubro de 2022, a agência de telecomunicações dos Estados Unidos, a FCC, encurtou esse prazo para cinco anos para os satélites que ela licencia, com o argumento de que não dá mais para deixar satélite decaindo por décadas numa órbita cada vez mais cheia.

Como a FCC licencia boa parte do tráfego comercial do mundo, a regra pegou longe. Ela vale para satélites novos, não para os que já estavam lá em cima.

O risco de cair na cabeça de alguém

A norma trata disso com um número frio. Ela assume que qualquer pedaço que chegue ao chão com mais de 15 joules de energia pode ferir alguém — 15 joules é mais ou menos o impacto de um tijolo solto da altura de um degrau.

E fixa o limite: numa reentrada descontrolada, o risco de ferir uma pessoa não pode passar de 1 em 10.000.

O caso mais conhecido de reentrada descontrolada da NASA é o do satélite da foto de capa, o UARS, de 5.700 kg. Ele foi solto pelo ônibus espacial Discovery em 15 de setembro de 1991, foi desativado em dezembro de 2005 — quando a NASA gastou o que restava de combustível para baixar a órbita e encurtar a espera — e reentrou em 24 de setembro de 2011, sobre um ponto remoto do Pacífico Sul.

A NASA calculou que 26 pedaços, somando cerca de 540 kg, poderiam chegar ao chão. O risco estimado de atingir alguém foi de 1 em 21 trilhões, e nada atingiu. Até hoje não há registro confirmado de pessoa ferida por reentrada de objeto espacial, como mostram os episódios reunidos em Lixo espacial pode cair na sua cabeça? Os casos reais.

O que acontece com os dados

Um satélite aposentado deixa duas heranças, e a segunda é a que importa para a ciência.

O plano de fim de missão exige um relatório final de engenharia, com a história do aparelho, as anomalias que ele sofreu e o que ele conseguiu, entregue em até 60 dias depois do encerramento.

E exige um arquivo: desenhos, manuais de operação, telemetria bruta, relatórios de falha. Tudo guardado em formato eletrônico sempre que existir.

É por isso que o fim da entrega de dados novos de um satélite não apaga o que ele já mediu. Quando o veterano Suomi NPP parar de alimentar os sistemas de previsão, em 2 de novembro de 2026, o arquivo de tudo que ele viu desde 2011 continua de pé — detalhe que está em Quantos satélites observam a Terra o tempo todo?.

Quatro pessoas de uma equipe de operações reunidas diante de monitores numa sala de controle, uma delas em pé apontando para uma tela
Equipe de operações de voo trabalhando numa sala de controle em 2021. É uma equipe assim que executa, comando a comando, o roteiro de aposentadoria de um satélite. Foto: NASA/Goddard/Rebecca Roth

Perguntas frequentes

O que a NASA faz com um satélite velho?

Ela executa um plano de fim de missão escrito antes do lançamento: drena a bateria, gira os painéis solares para longe do Sol, desliga rodas de reação e instrumentos, esvazia tanques e, por último, desliga o transmissor. Depois decide se o satélite cai, sobe para uma órbita de estacionamento ou é deixado decaindo sozinho.

O que é passivação de um satélite?

É tirar do aparelho toda a energia que sobrou — elétrica, mecânica, térmica e química — para que ele não exploda depois de abandonado. Sem isso, uma bateria sobrecarregada ou um tanque pressurizado pode partir o satélite em centenas de pedaços, anos mais tarde.

Por que desligar o satélite se ele ainda funciona?

Porque o risco de ele se partir aumenta com o tempo, e cada pedaço gerado atrapalha quem ainda está trabalhando lá em cima. A passivação acontece quando a missão acaba, não quando o aparelho quebra.

Satélite desativado cai na Terra?

Depende da altura. Abaixo de 2.000 km, o ar rarefeito acaba derrubando o satélite, e a regra da NASA pede que isso ocorra em até 25 anos — prazo que a FCC reduziu a cinco anos, em 2022, para os satélites que licencia. Na faixa geoestacionária, a 36 mil km, não há queda: o satélite é empurrado para uma órbita acima dela.

Os dados de um satélite aposentado são apagados?

Não. O plano de fim de missão exige arquivar telemetria, desenhos, manuais e relatórios, e entregar um relatório final de engenharia em até 60 dias. O que o satélite mediu continua disponível depois de ele parar de medir.

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