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Telescópio Chandra: o que ele enxerga que ninguém mais vê

Raio X atravessa espelho comum. Veja o truque da pedra quicando na água que fez o Chandra funcionar, e por que ele mora a um terço do caminho da Lua.

Publicado em 8 min de leitura
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O telescópio Chandra inclinado para fora do compartimento de carga do ônibus espacial Columbia, com a Terra ao fundo, no dia em que foi solto em órbita
Foto: NASA
Neste artigo
  1. O problema: raio X atravessa espelho
  2. A solução: espelhos quase deitados, como pedra quicando na água
  3. O resultado: enxergar 2,4 milímetros a um quilômetro
  4. Por que o nome Chandra
  5. A carga mais pesada que um ônibus espacial já soltou
  6. A órbita que vai a um terço do caminho da Lua
  7. A primeira imagem já veio com uma descoberta
  8. O que ele está fazendo agora

O telescópio Chandra é o observatório de raios X da NASA, no ar desde 1999, e ele existe para ver uma coisa que nenhum telescópio comum vê: matéria muito quente e muito violenta. Gás a milhões de graus, o entorno de buracos negros, os restos fervendo de estrelas que explodiram. Luz visível não mostra nada disso, e por dois motivos independentes: o raio X não chega ao chão, porque a atmosfera o segura, e, quando chega a um espelho normal, ele atravessa o espelho. O Chandra resolveu os dois problemas com uma órbita absurda e com espelhos quase deitados, que refletem raio X do jeito que uma pedra quica na água. Este artigo conta como ele funciona e o que ele achou — inclusive esta semana.

O problema: raio X atravessa espelho

Comece pelo que parece detalhe e é o coração da coisa.

Num telescópio comum, a luz bate no espelho quase de frente e volta. Com raio X não funciona: num ângulo próximo da perpendicular, os raios X são absorvidos pela superfície do espelho ou passam direto por ele. A NASA é literal numa das suas páginas de divulgação: os raios X vão atravessar o espelho.

Pense em encostar a mão na água da piscina. De cima para baixo, com a palma na horizontal, a mão afunda. Quase deitada, rente à superfície, ela escorrega e espirra em vez de entrar. É a mesma intuição, e é exatamente a saída que a física do raio X permite.

A solução: espelhos quase deitados, como pedra quicando na água

A técnica se chama incidência rasante: em vez de apontar o espelho para a fonte, deita-se o espelho quase paralelo ao caminho do raio. Em ângulos muito pequenos, o raio X reflete com eficiência enorme — e a comparação que a própria NASA usa é a melhor possível: nessa condição, os raios X refletem na superfície do espelho como pedras quicando na superfície de um lago.

A consequência prática é que um telescópio de raios X não se parece em nada com o telescópio do seu imaginário. Em vez de um prato côncavo, ele é feito de cilindros afunilados encaixados um dentro do outro, como aquelas formas de bolo de diâmetros diferentes empilhadas, todas apontando para o mesmo foco lá na frente. O Chandra tem quatro pares de espelhos nesse arranjo, e eles mandam a luz para um ponto a dez metros de distância.

Um técnico de macacão de sala limpa ajoelhado ao lado de um conjunto cilíndrico de espelhos encaixados uns dentro dos outros
Os espelhos do Chandra sendo montados na Eastman Kodak, em Rochester, Nova York, em 1997. Os cilindros encaixados são a solução para refletir raio X: cada um é quase paralelo ao caminho da luz. Foto: NASA/MSFC

E eles são lisos a um ponto difícil de imaginar. A NASA diz que os espelhos foram polidos até a lisura de alguns átomos, e oferece a comparação: se a superfície da Terra tivesse esse acabamento, o maior acidente geográfico do planeta teria menos de dois metros.

O material também é escolhido para o trabalho: as ópticas são revestidas de irídio, metal escolhido pela alta refletividade justamente na faixa do raio X.

O resultado: enxergar 2,4 milímetros a um quilômetro

Antes do lançamento, as medidas do conjunto de espelhos deram menos de 0,5 segundo de arco na medida padrão de nitidez. "Segundo de arco" é a unidade de ângulo que vale 1/3600 de grau.

Traduzindo para algo tangível: meio segundo de arco é a capacidade de distinguir dois pontos separados por 2,4 milímetros a um quilômetro de distância (é conta nossa, e dá para refazer: meio segundo de arco equivale a 2,4 milionésimos de radiano). É a diferença entre ver uma mancha e ver que a mancha são dois objetos.

Comparado com o que existia antes dele, segundo a NASA, o Chandra tem oito vezes mais resolução e detecta fontes mais de vinte vezes mais fracas que qualquer telescópio de raios X anterior.

Por que o nome Chandra

O projeto nasceu de uma proposta não solicitada enviada à NASA em 1976 por Riccardo Giacconi e Harvey Tananbaum. No ano seguinte, o Centro Marshall de Voo Espacial e o Observatório Astrofísico Smithsoniano começaram o estudo que definiria a missão, então chamada de AXAF, sigla em inglês para Instalação Avançada de Astrofísica de Raios X. Nome de engenheiro.

Em 1999, às vésperas do lançamento, a missão foi rebatizada em homenagem a Subrahmanyan Chandrasekhar, ganhador do Nobel. É o mesmo Chandrasekhar do "limite de Chandrasekhar", a massa acima da qual uma anã branca não se sustenta e colapsa — ou seja, o nome do telescópio aponta para o assunto que ele melhor estuda. O que sobra depois de cada tipo de colapso está em O que sobra quando uma estrela morre?.

A carga mais pesada que um ônibus espacial já soltou

O Chandra subiu em 23 de julho de 1999, no ônibus espacial Columbia, na missão STS-93. A comandante era a coronel Eileen Collins, a primeira mulher a comandar um voo do ônibus espacial.

Com o foguete auxiliar acoplado, ele foi a maior e mais pesada carga já solta de um ônibus espacial. A tripulação não enrolou: o telescópio foi liberado poucas horas depois da chegada à órbita, quase a primeira coisa que fizeram. (O Columbia é o mesmo veículo que se perderia em 2003, história contada em Challenger e Columbia: os desastres do ônibus espacial.)

Depois de separado do foguete auxiliar, o Chandra sozinho tem 13,8 metros de comprimento — um ônibus urbano — por 4,2 metros de diâmetro, com 19,5 metros de envergadura de painel solar, mais que o comprimento de uma quadra de vôlei, que tem 18 metros. Pesa 4.800 quilos. Foram necessárias cinco queimas do próprio motor dele, a última quinze dias após o lançamento, para colocá-lo na órbita final.

A órbita que vai a um terço do caminho da Lua

Item Valor
Lançamento 23 de julho de 1999, ônibus espacial Columbia (STS-93)
Ponto mais distante da órbita 140.000 km (um terço do caminho até a Lua)
Ponto mais próximo 10.000 km
Duração de uma volta 63,5 horas
Tempo acima dos cinturões de radiação mais de 75% de cada volta
Comprimento / massa 13,8 m / 4.800 kg
Vida útil de projeto 5 anos

Essa órbita é o segundo truque da missão, e é tão importante quanto os espelhos.

O Chandra não fica em órbita baixa como o Hubble. Ele sobe a 140.000 km, que a NASA descreve como um terço do caminho até a Lua, e desce até 10.000 km, numa volta que leva 63,5 horas, pouco mais de dois dias e meio.

O motivo é higiene. Em volta da Terra existem faixas de partículas presas pelo campo magnético, que chiam em qualquer detector sensível; elas estão explicadas em O que é o cinturão de Van Allen?. Numa órbita tão alongada, o Chandra passa mais de 75% do tempo acima dessas faixas — e é nesse pedaço limpo da volta que ele observa. Em compensação, nada de conserto: o Hubble recebeu cinco visitas de astronautas; a 140.000 km de altura, ninguém nunca vai buscar o Chandra. A comparação com o telescópio que todo mundo conhece está em Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.

A vida útil de projeto era de cinco anos. O gás de manobra, único item perecível a bordo, foi dimensionado para mais de dez. Em 2026 a NASA ainda classifica a missão como ativa: são vinte e sete anos de operação.

A primeira imagem já veio com uma descoberta

Em 12 de agosto de 1999, menos de três semanas depois do lançamento, o Chandra focalizou raios X pela primeira vez. O alvo foi Cassiopeia A, o que sobrou de uma estrela que explodiu há cerca de 300 anos.

A imagem não foi só bonita. No meio dela havia um ponto brilhante que ninguém tinha visto antes: a primeira detecção do objeto compacto — provavelmente uma estrela de nêutrons — criado no colapso daquela estrela. Primeira luz, primeira descoberta.

Técnicos de macacão branco trabalham dentro de uma câmara cilíndrica gigante, com o conjunto de espelhos sobre trilhos
A montagem dos espelhos do Chandra na Instalação de Calibração de Raios X do Centro Marshall, em dezembro de 1996. A câmara reproduz o vácuo para medir a nitidez antes do voo. Foto: NASA/MSFC

O que ele está fazendo agora

Vinte e sete anos depois, continua trabalhando. Em 14 de outubro de 2026, a NASA publicou um resultado em que o Chandra e o telescópio europeu eROSITA encontraram gás difuso e quente no lugar de uma estrutura de rádio apelidada de "clave de sol", dentro de um aglomerado de galáxias.

O detalhe que faz o trabalho é típico do que só raio X entrega: a imagem de raios X é mais brilhante à esquerda e à direita do centro do aglomerado, e é essa assimetria que indica a direção da colisão entre os aglomerados — da esquerda para a direita. A batida empurrou partículas carregadas para fora a velocidades próximas à da luz, e são elas que acendem a estrutura em ondas de rádio. O trabalho foi liderado por Andrea Botteon, do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália, e publicado na revista Astronomy & Astrophysics.

É um bom resumo do que o telescópio faz: ninguém enxerga gás a milhões de graus; o Chandra enxerga, e, enxergando, consegue dizer de que lado veio o tranco num choque entre aglomerados de galáxias a uma distância que a luz leva uma eternidade para atravessar.

Perguntas frequentes

O que o telescópio Chandra observa?

Raios X vindos do espaço, que é a luz emitida por matéria muito quente e muito energética: gás a milhões de graus dentro de aglomerados de galáxias, o entorno de buracos negros, restos de supernovas e estrelas de nêutrons. Nada disso aparece em luz visível, e os raios X não atravessam a atmosfera, então só dá para observá-los de fora dela.

Por que os espelhos do Chandra são cilindros, e não pratos?

Porque raio X que bate de frente num espelho é absorvido ou passa direto. A saída é a incidência rasante: deitar o espelho quase paralelo ao caminho da luz, de modo que o raio X ricocheteie — segundo a própria NASA, como uma pedra quicando num lago. Esse arranjo produz cilindros afunilados encaixados uns nos outros, e não um prato côncavo.

De onde vem o nome Chandra?

Da homenagem a Subrahmanyan Chandrasekhar, ganhador do prêmio Nobel. Até 1999 a missão se chamava AXAF, sigla em inglês para Instalação Avançada de Astrofísica de Raios X. O nome foi trocado às vésperas do lançamento.

O telescópio Chandra ainda funciona?

Sim. Ele foi lançado em 23 de julho de 1999 com vida útil de projeto de cinco anos, e em 2026 a NASA continua classificando a missão como ativa — vinte e sete anos de operação. Em 14 de outubro de 2026 a agência publicou um resultado novo, sobre a colisão entre aglomerados de galáxias.

Por que o Chandra fica tão longe da Terra?

Para fugir dos cinturões de radiação em volta do planeta, que atrapalham detectores sensíveis. A órbita dele vai de 10.000 km a 140.000 km de altura, e ele passa mais de 75% de cada volta acima dessas faixas. O preço é que, a essa distância, nenhuma missão tripulada pode ir consertá-lo, como aconteceu cinco vezes com o Hubble.

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