Perguntas que todo mundo faz

O que é o cinturão de Van Allen?

São dois anéis de partículas presas pelo campo magnético da Terra, achados em 1958. O que são, onde ficam e por que um pedaço desce sobre o Brasil.

Publicado em 9 min de leitura
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Ilustração da Terra cercada por dois anéis achatados em amarelo e verde, que representam o cinturão de Van Allen visto de lado
Foto: NASA/Van Allen Probes/Goddard Space Flight Center
Neste artigo
  1. O contador Geiger que parecia ter quebrado
  2. São dois, e são feitos de coisas diferentes
  3. Por que uma partícula fica presa ali
  4. O pedaço que desce sobre o Brasil
  5. O que isso faz com satélite e com astronauta
  6. 2012: as sondas que acharam um terceiro cinturão
  7. O que mudou no que se sabia

O cinturão de Van Allen não é um só: são dois anéis enormes de partículas elétricas presas pelo campo magnético da Terra, um dentro do outro, envolvendo o planeta como duas rosquinhas encaixadas. Foram descobertos em 1958, pelo primeiro satélite americano, e levam o nome do cientista que liderou o projeto do aparelho que tropeçou neles. Eles não têm parede, não se veem a olho nu e não fazem mal a ninguém aqui embaixo — mas, segundo a NASA, oferecem perigo a satélites de comunicação e de GPS e a quem está no espaço, e por isso nenhuma missão é projetada sem levá-los em conta. Inclusive porque um pedaço deles desce bem mais perto do chão justamente sobre o Brasil.

O contador Geiger que parecia ter quebrado

Em 31 de janeiro de 1958, os Estados Unidos lançaram de Cabo Canaveral o Explorer 1, o primeiro satélite americano. Era um tubo fino, e a carga científica cabia num bolso: segundo a NASA, um contador Geiger preso a um gravador de fita em miniatura. Contador Geiger é o aparelho que estala quando passa radiação — aquele que aparece em filme, fazendo "tec-tec-tec" cada vez mais rápido perto de algo radioativo.

Quem cuidava do instrumento e da leitura dos dados era o físico James Van Allen. E os dados vieram estranhos: em certos trechos da órbita, o contador simplesmente parava de contar. Pela ficha da NASA, as contagens do Explorer 1 cessavam acima de 900 milhas, cerca de 1.450 km de altitude.

Um aparelho que para de responder costuma ser um aparelho quebrado. Não era. A explicação que ficou de pé é a oposta: havia radiação ali em quantidade tão grande que o contador saturava, como um ouvido que não distingue mais nada dentro de um show. A NASA resume o achado numa frase: a radiação era mil vezes maior do que qualquer um esperava.

O primeiro satélite americano, projetado para outra coisa, tinha acabado de encontrar a estrutura invisível que envolve o planeta.

Arte antiga em preto e branco do satélite Explorer 1, um tubo fino com ponta cônica, sobre um fundo estrelado e a curva da Terra
Arte de divulgação do Explorer 1 feita pelo Laboratório de Propulsão a Jato. Toda a carga científica do satélite era um contador Geiger ligado a um gravador de fita em miniatura. Foto: NASA/JPL

São dois, e são feitos de coisas diferentes

A primeira surpresa é que não é uma coisa só. A NASA descreve dois anéis concêntricos de partículas energéticas em volta do planeta — e eles não são feitos do mesmo material nem vêm da mesma origem.

Cinturão interno Cinturão externo
Do que é feito, principalmente Prótons Elétrons
De onde vem Raios cósmicos que batem na atmosfera da Terra Partículas de alta energia que vêm do Sol
Comportamento Mais estável Incha e encolhe conforme o Sol

O de dentro é feito predominantemente de prótons, e a origem é curiosa: ele é o resultado da interação dos raios cósmicos com a atmosfera — ou seja, nasce de uma colisão que acontece aqui mesmo, no limite do nosso ar. O que são esses raios está contado em O que são raios cósmicos?.

O de fora é majoritariamente de elétrons, e esses vêm de longe: são, nas palavras da NASA, bilhões de partículas de alta energia originadas no Sol que acabam presas no campo magnético da Terra. É por isso que ele é o instável dos dois — quando o Sol tem um acesso de raiva, é o cinturão externo que reage.

Sobre a altura, vale uma honestidade: cinturão não tem borda. É uma região onde a concentração de partículas sobe e desce, não um objeto com casca. A NASA dá um ponto de referência — cerca de 600 milhas da superfície, uns 966 km, é onde começa o primeiro dos dois enxames —, mas páginas diferentes descrevem a extensão de jeitos diferentes, umas contando a altitude a partir do chão, outras contando a distância a partir do centro do planeta em "raios terrestres". Quem procurar vai achar números que não batem; eles não batem porque medem coisas diferentes.

Por que uma partícula fica presa ali

Esta é a parte que vale entender, porque explica tudo o mais.

Uma partícula elétrica solta no espaço anda em linha reta. Perto de um planeta com campo magnético, não: ela não consegue atravessar as linhas do campo de lado. O que ela faz é girar em espiral em volta de uma linha magnética, correndo de um polo ao outro, e, ao chegar perto do polo, onde o campo é mais forte, ela volta — e refaz o caminho.

A comparação do dia a dia é uma bolinha de gude numa tigela funda: ela sobe pela parede de um lado, não tem energia para passar da borda, desce, atravessa o fundo e sobe do outro lado. Fica indo e voltando até alguém tirar a tigela. No caso da partícula, a "tigela" é magnética, e a viagem de um polo ao outro leva fração de segundo. Com o tempo, a região se enche.

É exatamente o mesmo mecanismo que vale em outros planetas, e no vizinho que leva o troféu de pior lugar do Sistema Solar — o caso dele está em O cinturão de radiação de Júpiter, o lugar mais hostil.

Quando o Sol manda uma rajada extra de partículas, parte delas consegue descer pelas linhas do campo até a alta atmosfera perto dos polos e acende o céu. É a mesma física das auroras, contada em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.

O pedaço que desce sobre o Brasil

Aqui a história fica brasileira.

O campo magnético da Terra não é uma bola bem-comportada centrada no meio do planeta: ele é torto e descentralizado. A consequência é que, sobre o Atlântico Sul — incluindo o sul do Brasil e o Paraguai —, o campo é mais fraco que em qualquer outro lugar. É a Anomalia Magnética do Atlântico Sul, e ela tem artigo próprio em O que é a Anomalia Magnética do Atlântico Sul?.

O efeito prático para quem voa por cima: com o campo mais fraco, as partículas presas descem mais. A NASA cita a Anomalia, ao lado dos cinturões de Van Allen, como fonte de partículas presas que preocupa em órbita baixa. Não é teoria: a Estação Espacial evita programar caminhadas espaciais justamente nas passagens sobre a região, e telescópios em órbita desligam instrumentos ao cruzá-la.

Dito com todas as letras, porque a confusão é comum: isso não representa risco para quem mora aqui embaixo. A atmosfera inteira está entre você e essas partículas.

O que isso faz com satélite e com astronauta

A NASA é direta: satélites que se aventuram nos cinturões podem ser danificados pela radiação, que também afetaria astronautas desprotegidos. E chama a atenção para um detalhe que piora com a tecnologia moderna — um único impacto de partícula pode bagunçar nossos instrumentos e eletrônicos cada vez menores. Quanto mais fino o circuito, menos energia é preciso para corromper um bit.

Por isso o projeto de qualquer missão começa decidindo onde ela vai morar. A maioria dos satélites fica em órbita baixa, por baixo dos cinturões. Quem precisa ficar mais alto convive com o problema, e quem vai à Lua atravessa a região depressa, em vez de ficar parado nela. Os números de dose que um astronauta recebe de fato, e o que eles significam em exames médicos conhecidos, estão em Quanta radiação um astronauta recebe de verdade?.

Há até telescópio projetado em volta dessa restrição. O observatório de raios X Chandra tem uma órbita alucinante, tão alongada que ele passa mais de 75% do tempo acima dos cinturões de radiação — é lá, fora do chiado, que ele consegue trabalhar. A história está em Telescópio Chandra: o que ele enxerga que ninguém mais vê.

2012: as sondas que acharam um terceiro cinturão

Em 30 de agosto de 2012 a NASA lançou duas sondas gêmeas feitas de propósito para morar dentro dos cinturões: as Van Allen Probes. Eram para durar dois anos e duraram quase sete.

Dois dias depois do lançamento — dois dias — um dos instrumentos foi ligado e viu uma coisa que não estava no mapa: um terceiro anel, que ninguém tinha registrado em mais de meio século de observação. Os cientistas acompanharam a estrutura nova por quatro semanas, até que uma onda de choque vinda do Sol passou e a desfez.

Imagem alaranjada da superfície do Sol com uma erupção brilhante à esquerda e um filamento escuro e retorcido atravessando o quadro
A proeminência solar de 31 de agosto de 2012, registrada pelo Observatório de Dinâmica Solar da NASA. A onda de choque que ela lançou pode ter sido uma das causas do terceiro cinturão que apareceu dias depois. Foto: NASA/SDO/AIA/Goddard Space Flight Center

O estudo saiu na revista Science, liderado por Daniel Baker, do Laboratório de Física da Atmosfera e do Espaço da Universidade do Colorado em Boulder, que também chefiava o instrumento responsável, o telescópio de elétrons e prótons relativísticos (REPT, na sigla em inglês). A NASA anunciou o achado em 2013.

Vale guardar o que isso significa: descobrir, em 2012, uma peça inteira de uma estrutura que envolve a Terra. A NASA registra que o terceiro cinturão voltou a aparecer mais tarde na missão, em períodos de grande atividade solar. Ele não é permanente; é uma coisa que acontece.

O que mudou no que se sabia

As mesmas sondas desmontaram outra certeza. Entre os dois cinturões existe uma faixa mais vazia, e por décadas se achou que ela se enchia de partículas mais ou menos uma vez a cada dez anos, só em tempestades muito grandes. Um estudo publicado em 28 de dezembro de 2015 no Journal of Geophysical Research mostrou que a faixa se enche de elétrons de energia mais baixa — até 0,8 MeV — na maioria das tempestades geomagnéticas. Os elétrons de energia mais alta, acima de 1 MeV, é que continuam sendo privilégio do cinturão externo.

MeV quer dizer megaelétron-volt, que é só a unidade com que se mede a energia de uma partícula, do mesmo jeito que quilowatt-hora mede a energia da sua conta de luz.

A lição de processo é a mais interessante. Em 1958, um contador que parou de contar encontrou os cinturões; em 2012, duas sondas feitas para estudá-los acharam um pedaço inédito em 48 horas. É um pedaço de natureza que fica logo ali em cima, atravessado todo dia por dezenas de naves — e ainda tem surpresa dentro.

Perguntas frequentes

O que é o cinturão de Van Allen?

São duas faixas em forma de anel, em volta da Terra, cheias de partículas elétricas presas pelo campo magnético do planeta. A de dentro é feita principalmente de prótons, que nascem do choque de raios cósmicos com a atmosfera; a de fora, principalmente de elétrons vindos do Sol. Foram descobertas em 1958 pelo satélite Explorer 1 e levam o nome de James Van Allen, o cientista responsável pelo instrumento.

O cinturão de Van Allen faz mal para quem está na Terra?

Não. A atmosfera inteira fica entre você e essas partículas, e elas não chegam ao chão. O risco existe para equipamento e para pessoas que estão em órbita, especialmente em naves que atravessam ou permanecem nas faixas de maior concentração.

Por que o cinturão de Van Allen passa mais perto do Brasil?

Porque o campo magnético da Terra é mais fraco sobre o Atlântico Sul, numa região que inclui o sul do Brasil, fenômeno chamado Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Onde o campo é mais fraco, as partículas presas descem mais. É por isso que a Estação Espacial evita caminhadas espaciais nessas passagens e satélites desligam instrumentos sobre a área.

Quantos cinturões de Van Allen existem?

Dois permanentes. Em 2012, as sondas Van Allen Probes registraram pela primeira vez um terceiro, temporário, que durou cerca de quatro semanas até ser desfeito por uma onda de choque do Sol. Segundo a NASA, ele voltou a aparecer mais tarde na missão, em períodos de atividade solar intensa.

Os astronautas da Apollo atravessaram o cinturão de Van Allen?

Atravessaram. A travessia é rápida e passa pela parte mais fina da região, em vez de permanecer dentro dela. Satélites em órbita baixa, como a Estação Espacial, ficam por baixo dos cinturões na maior parte do tempo.

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