Perguntas que todo mundo faz

Por que não existe gravidade artificial de verdade?

Girar a nave funcionaria mesmo, mas a conta pede um anel maior que a Estação Espacial. Veja por que nenhuma nave jamais voou com gravidade artificial.

Publicado em 7 min de leitura
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Astronauta correndo numa esteira dentro da Estação Espacial, presa ao equipamento por um colete com tiras elásticas
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. A única receita conhecida é girar
  2. A conta que mata a ideia
  3. O enjoo que não deixa girar rápido
  4. O experimento da NASA que terminou mais cedo
  5. O gradiente: a cabeça pesa menos que os pés
  6. E se a estação simplesmente girasse?
  7. O que se faz no lugar

A gravidade artificial não é ficção: a física permite, e a receita é conhecida desde o começo do século XX. Basta girar a nave. O problema é o tamanho. Para produzir no chão uma sensação igual à da Terra sem deixar a tripulação enjoada, o anel giratório precisaria ter mais de cem metros de diâmetro — maior que a Estação Espacial Internacional inteira. Nunca foi construído, e é por isso que nenhuma nave na história voou com gravidade artificial.

A boa notícia é que a conta é simples o bastante para qualquer um fazer. E, feita, ela explica tudo.

A única receita conhecida é girar

Não existe nenhum jeito conhecido de "criar gravidade" num botão. Gravidade de verdade vem de massa, e seria preciso carregar um planeta junto. O que dá para fazer é imitar o efeito da gravidade com movimento circular.

Você já sentiu isso. No ciclo de centrifugação da máquina de lavar, a roupa é jogada contra a parede do tambor e fica grudada lá. Num carro fazendo uma curva fechada, o seu corpo vai contra a porta. Em nenhum dos dois casos existe uma força puxando para fora: o que acontece é que o corpo tenta seguir em linha reta e a parede o força a fazer a curva. A parede empurra você, e esse empurrão é indistinguível do peso.

Numa nave em forma de anel girando, o piso fica do lado de fora. Você fica "em pé" com a cabeça apontando para o centro e os pés para a borda, e o chão empurra seus pés exatamente como o chão da sua casa empurra agora. Para quem está dentro, é peso. Para quem olha de fora, é só uma parede curva obrigando uma pessoa a girar.

A aceleração que você sente depende de dois números apenas: o raio do anel e a velocidade de rotação, medida em rotações por minuto (rpm). E é aí que a ideia trava.

A conta que mata a ideia

A aceleração cresce com o quadrado da rotação e, em compensação, cai quando o raio diminui. Isso significa que um anel pequeno precisa girar muito rápido para produzir a mesma sensação.

Rotação Raio necessário para 1 g Diâmetro do anel
1 rpm 894 m 1.789 m
2 rpm 224 m 447 m
3 rpm 99 m 199 m
4 rpm 56 m 112 m
10 rpm 8,9 m 18 m
20 rpm 2,2 m 4 m
30 rpm 1,0 m 2 m

Contas nossas, para uma aceleração de 9,81 metros por segundo ao quadrado, que é a da superfície da Terra.

Leia a tabela de baixo para cima e o dilema aparece inteiro. Um anel de 2 metros de diâmetro resolveria o problema de engenharia — mas teria de girar a 30 rpm, ou uma volta a cada dois segundos. Já um anel que gira devagar o suficiente para ninguém sentir nada precisaria ter quase dois quilômetros de ponta a ponta.

Os estudos da NASA sobre o assunto costumam adotar 4 rpm como teto do que um ser humano tolera sem passar mal. Nessa rotação, o anel teria 112 metros de diâmetro. A Estação Espacial Internacional, a maior estrutura que a humanidade já montou em órbita, tem 109 metros de comprimento — e levou mais de 40 voos de montagem para ficar pronta, como conta O que é a Estação Espacial Internacional?. Ou seja: o anel giratório mais modesto que serviria seria, sozinho, maior que tudo o que já foi construído lá em cima.

O enjoo que não deixa girar rápido

A saída óbvia seria aceitar um anel pequeno girando depressa. Ela esbarra num obstáculo que não é de engenharia, é de corpo humano: o efeito Coriolis.

Dentro de qualquer coisa que gira, um objeto que se move em linha reta parece desviar sozinho. Se você está num anel giratório e larga uma caneta, ela não cai nos seus pés: cai um pouco para o lado. Se você levanta o braço, ele resiste de um jeito estranho. Pior de tudo: cada vez que você vira a cabeça, o líquido dentro do seu ouvido interno — o órgão que informa ao cérebro onde é para cima — recebe um empurrão que não combina com o que os olhos estão vendo.

Essa discordância entre o que o ouvido sente e o que o olho vê é exatamente a receita do enjoo de movimento, o mesmo que ataca quem lê no banco de trás do carro numa estrada de serra. E quanto mais rápida a rotação, mais forte o efeito. É por isso que girar depressa não é uma solução: é só trocar um problema por outro.

O experimento da NASA que terminou mais cedo

Não é teoria. A NASA testou pessoas numa centrífuga de raio curto — um braço giratório de 3 metros em que o voluntário fica deitado, com os pés apoiados numa plataforma perto da borda.

Em um desses estudos, onze voluntários (seis homens e cinco mulheres, de 24 a 52 anos) foram girados para sentir 2,5 g nos pés e cerca de 1 g na altura do coração, por 60 a 75 minutos. Para conseguir isso com a plataforma entre 2,0 e 2,4 metros do centro, a centrífuga rodou entre 30,6 e 33,4 rpm.

Refizemos essa conta para conferir: com a plataforma a 2,0 metros, 2,5 g exigem 33,4 rpm; a 2,4 metros, exigem 30,5 rpm. Os dois extremos batem com o que a NASA publicou, o que confirma que a física descrita aqui é a mesma que girou aquelas pessoas.

E o resultado? Cinco das onze sessões foram interrompidas antes do fim — quatro por pré-síncope (a sensação de desmaio iminente, com queda de pressão) e uma por enjoo. A frequência cardíaca média subiu de 70 para 85 batimentos por minuto só com o início da rotação. Metade dos voluntários não aguentou uma hora de gravidade artificial de raio curto.

O gradiente: a cabeça pesa menos que os pés

O número mais revelador do experimento é a diferença entre 2,5 g nos pés e 1 g no coração. Num anel pequeno, a sua cabeça está muito mais perto do centro de rotação do que os seus pés — e, como a aceleração cai junto com o raio, ela sente bem menos.

Na prática, o corpo todo vive uma coisa impossível na Terra: os pés pesando duas vezes e meia o normal e o peito pesando o normal. O sangue é empurrado para as pernas com força e falta em cima, e é daí que vem a pré-síncope. Esse descompasso se chama gradiente, e ele só desaparece quando o anel é grande o suficiente para que a diferença entre a altura da cabeça e a dos pés seja irrelevante perto do raio. O que nos devolve, de novo, aos cem metros.

E se a estação simplesmente girasse?

Vale lembrar que a ausência de peso na Estação Espacial não é um defeito a ser corrigido: é o produto. Boa parte da ciência feita lá em cima só existe porque as coisas flutuam — cristais que crescem sem deformar, chamas que queimam em bola, fluidos que se comportam de um jeito que a gravidade esconde aqui embaixo.

Os astronautas flutuam porque estão em queda livre permanente ao redor da Terra, e não por falta de gravidade, como explica O que é gravidade? E por que os astronautas flutuam. Girar a estação acabaria com os experimentos, complicaria o acoplamento das naves, exigiria estrutura muito mais reforçada e consumiria combustível. Para uma estação da qual a tripulação volta para casa em poucas horas, não compensa.

Astronauta flutuando no meio do módulo laboratório da Estação Espacial, cercada de equipamentos presos nas quatro paredes
Peggy Whitson flutua no laboratório Destiny em fevereiro de 2008. Repare que não há chão: os equipamentos ocupam as quatro paredes, porque sem peso nenhuma delas é o piso. Numa estação giratória, metade desse espaço estaria no teto. Foto: NASA/JSC

A conversa muda quando se fala de uma viagem a Marte, que leva meses de ida e meses de volta. Aí os efeitos do corpo sem peso deixam de ser um detalhe, como mostra Os recordes de permanência no espaço (e o que o corpo sofre).

O que se faz no lugar

Como gravidade artificial não existe, a medicina espacial usa a alternativa mais chata e mais barata do mundo: exercício.

São duas horas e meia por dia, seis dias por semana, descritas em Como é a rotina de um astronauta na ISS (comida, sono, exercício). Uma esteira em que o astronauta corre preso por um colete de elásticos que o puxa para baixo, uma máquina de musculação a vácuo e uma bicicleta. Isso reduz a perda óssea pela metade, mas não a elimina: sem exercício, ossos perdem de 1% a 1,5% de massa por mês.

É um remédio incompleto para um problema que só a gravidade resolveria. E a gravidade, por enquanto, continua sendo algo que se visita, não algo que se leva junto.

Perguntas frequentes

Gravidade artificial é possível?

É possível em teoria, e a física é bem conhecida: basta girar a nave, e o piso curvo empurra a tripulação como se fosse peso. O obstáculo é prático. Para girar devagar o bastante e não causar enjoo, o anel precisaria ter mais de cem metros de diâmetro, maior que tudo o que já se montou em órbita.

Alguma nave já teve gravidade artificial?

Nenhuma. Nenhum veículo tripulado da história voou com gravidade artificial permanente. O que existe são experimentos com centrífugas de raio curto em laboratórios em terra, usados para estudar como o corpo reage.

Por que não basta girar a Estação Espacial?

Porque a ausência de peso é justamente o que ela produz: grande parte dos experimentos a bordo só funciona assim. Além disso, girar exigiria estrutura mais forte, combustível e tornaria o acoplamento de naves bem mais difícil.

O que é o efeito Coriolis numa nave giratória?

É o desvio aparente que qualquer movimento sofre dentro de algo que gira. Objetos soltos caem de lado, braços resistem de forma estranha e, principalmente, virar a cabeça confunde o ouvido interno. Essa confusão entre o que o ouvido sente e o que o olho vê causa enjoo, e é ela que impõe o limite de rotação.

Quanto um astronauta precisa se exercitar por não ter gravidade?

Duas horas e meia por dia, seis dias por semana, entre esteira, musculação e bicicleta. Mesmo assim, a perda de massa óssea continua, em torno de 1% a 1,5% por mês de voo.

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