Perguntas que todo mundo faz

O brilho do ar (airglow): por que o céu nunca escurece

Mesmo sem Lua, sem cidade e sem nuvem, o céu ainda emite luz. É o ar brilhando a 90 km de altura. Entenda o airglow, as cores dele e como vê-lo.

Publicado em 8 min de leitura
Compartilhar:
Faixa alaranjada de brilho do ar acompanhando a curva do horizonte da Terra, vista do espaço, com o oceano escuro e nuvens abaixo
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. O que é o brilho do ar, em uma frase
  2. Por que o ar brilha: a energia que sobra do dia
  3. As três cores e as três alturas
  4. Não é aurora: a diferença que confunde todo mundo
  5. Por que ele aparece em quase toda foto da Estação Espacial
  6. Dá para ver o brilho do ar do Brasil?
  7. O que a NASA quer com uma luz tão fraca

Vá para o lugar mais escuro que você conseguir, numa noite sem Lua, longe de qualquer cidade. Espere a vista se acostumar. Mesmo ali, o céu não fica preto. Sobra sempre um resto de claridade, e boa parte dela tem uma origem que quase ninguém imagina: o próprio ar está emitindo luz, por conta própria, a cerca de 90 km de altura. Esse fenômeno se chama brilho do ar (em inglês, airglow).

Não é poluição luminosa, não é a Lua escondida e não é aurora. É a atmosfera devolvendo, à noite, um pouco da energia que recebeu do Sol durante o dia — e ela devolve em forma de luz visível, em verde, vermelho e laranja.

O que é o brilho do ar, em uma frase

Brilho do ar é a luz própria que a alta atmosfera emite o tempo todo, de dia e de noite, em todo o planeta. Ele existe sobre a sua cabeça agora, independentemente de você conseguir enxergá-lo.

A diferença entre ver e não ver é só de contraste. Durante o dia, a luz do Sol espalhada pelo ar é bilhões de vezes mais forte, e o brilho do ar some dentro dela — pelo mesmo motivo que as estrelas somem: elas continuam lá, mas o fundo ficou claro demais. À noite, sem o Sol, aquela luz fraquinha finalmente aparece.

Por que o ar brilha: a energia que sobra do dia

A analogia mais honesta é aquele adesivo de estrelinha que brilha no escuro, colado no teto do quarto. Durante o dia ele "carrega": absorve luz. À noite, devolve devagar, em verde, sem precisar de pilha.

A atmosfera faz exatamente isso, só que com uma peça a mais. Segundo a NASA, as moléculas lá em cima absorvem radiação ultravioleta do Sol — a mesma radiação que queima a pele na praia. Essa energia quebra e excita átomos e moléculas, que ficam, digamos, "carregados".

Agora vem a parte que explica a altura. Um átomo carregado pode se livrar dessa energia de dois jeitos: batendo em outro átomo ou emitindo luz. Lá embaixo, onde você está, o ar é denso e os choques são constantes — a energia se perde em colisão, e nada brilha. Lá em cima, a 90 km, o ar é tão rarefeito que um átomo pode levar muito tempo até esbarrar em outro. Sem ter em quem bater, ele faz a única coisa que resta: acende.

Por isso o brilho do ar não é uma camada qualquer da atmosfera. Ele acontece numa faixa estreita e específica: alta o bastante para o ar ser rarefeito, baixa o bastante para ainda existir ar.

Noventa quilômetros, para dar escala, é o que um carro percorre em menos de uma hora de estrada — só que para cima. É também bem acima de onde voa qualquer avião de carreira, que fica perto dos 12 km, e um pouco abaixo da fronteira dos 100 km que separa oficialmente a atmosfera do espaço, explicada em Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km. Ou seja: o ar brilha quase na porta de saída do planeta.

As três cores e as três alturas

Cada cor do brilho do ar vem de uma substância diferente, e cada substância mora numa altura diferente. Os números abaixo são do Observatório da Terra da NASA.

Cor Quem emite Altura
Amarelo-alaranjado Sódio (Na) 85 a 90 km
Vermelho Hidroxila (OH), uma molécula de oxigênio com hidrogênio Mais ou menos a mesma altura do sódio
Verde Oxigênio atômico (O), átomos de oxigênio soltos 95 a 100 km

Repare que é sódio — o mesmo elemento do sal de cozinha — produzindo a faixa alaranjada. Ele chega lá em cima principalmente pela poeira que os meteoros deixam ao queimar, na mesma altura em que aquelas riscas de luz aparecem numa Chuva de meteoros hoje: horários e como ver do Brasil.

E repare também que o verde vem do oxigênio atômico: não o O₂ que você respira, mas átomos de oxigênio avulsos, separados pela radiação solar. Essa é a cor que aparece nas fotos em que a câmera aponta mais para cima; rente ao horizonte, costuma dominar o alaranjado do sódio.

Faixa alaranjada de brilho do ar sobre o horizonte da Terra, vista pela janela da Estação Espacial, com estrelas acima e nuvens iluminadas abaixo
A mesma faixa vista pela janela da Estação Espacial, com estrelas acima e nuvens abaixo. O tom amarelo-alaranjado é a assinatura do sódio, entre 85 e 90 km. Foto: Ronald Garan

Não é aurora: a diferença que confunde todo mundo

As duas coisas são verdes, as duas ficam na alta atmosfera e as duas aparecem em foto de astronauta. Mas são fenômenos diferentes, com causas diferentes.

A aurora, explicada em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil, é causada por partículas do vento solar — veja O que é o vento solar? O sopro que vem do Sol — que o campo magnético da Terra despeja perto dos polos. Ela tem forma: cortinas, arcos, raios verticais que se mexem em minutos. É um evento — às vezes tem, às vezes não tem, e depende da atividade do Sol naquela semana.

O brilho do ar não tem forma nenhuma. Ele é uma faixa lisa e contínua, do mesmo jeito em toda a volta do planeta, todas as noites do ano, acontecendo igualmente sobre o Acre e sobre a Noruega. Não depende de tempestade solar para existir.

Uma regra prática: se tem cortina e drama, é aurora; se é uma linha uniforme acompanhando a curva do horizonte, é brilho do ar.

Por que ele aparece em quase toda foto da Estação Espacial

Se você reparar nas fotos noturnas feitas da Estação Espacial, quase sempre há uma faixa colorida fininha desenhando a curvatura do planeta. É o brilho do ar — e tem um motivo geométrico para ele aparecer tão bem dali.

Da órbita, os astronautas olham a camada de lado, na horizontal. A luz atravessa centenas de quilômetros daquela mesma faixa fina antes de chegar à câmera, e o efeito se acumula, como olhar a borda de uma vidraça: de frente o vidro é transparente, de lado ele fica esverdeado. Quem está no chão olha a camada de baixo para cima, atravessando poucos quilômetros dela, e vê muito menos.

Dá para ver o brilho do ar do Brasil?

Dá, mas exige disciplina. Três condições, todas obrigatórias:

  • Céu realmente escuro. Não serve o quintal de casa nem a praia com orla iluminada. Serve o interior, a serra, o sertão — os mesmos lugares reunidos em Turismo astronômico: onde ver o céu mais estrelado do Brasil.
  • Sem Lua. Qualquer fase acima de um quarto já apaga o efeito.
  • Olhos adaptados. De 20 a 30 minutos sem olhar para a tela do celular. Esse é o passo que quase todo mundo pula.

Mesmo assim, a olho nu, o que você percebe é sutil: uma claridade fraca e sem fonte definida, geralmente mais notável a uns 10 ou 20 graus acima do horizonte, que não some quando você muda de direção. A cor costuma escapar, porque o olho humano praticamente não enxerga cor em luz muito fraca.

Onde ele aparece de verdade é na foto. Qualquer câmera moderna, num tripé, com 15 ou 20 segundos de exposição e sensibilidade alta, registra o verde que o olho não pegou. Se você já fotografou o céu numa noite escura e achou que a imagem "saiu esverdeada" por defeito da câmera, é bem possível que não fosse defeito: era o ar.

Vale dizer, por honestidade, que o brilho do ar não é a única coisa que impede o céu de ficar preto. Somam-se a ele a luz das estrelas que não conseguimos separar uma a uma, a poeira do Sistema Solar refletindo a luz do Sol, a chamada luz zodiacal, descrita em Quanta poeira espacial cai na Terra por dia?, e, quase sempre, a iluminação das cidades. O céu totalmente negro não existe nem no melhor lugar do planeta.

O que a NASA quer com uma luz tão fraca

Parece um detalhe bonito e irrelevante. Não é. Aquela faixa é um termômetro e um velocímetro de uma região da atmosfera que é difícil de medir de qualquer outro jeito: alta demais para balão e avião, baixa demais para satélite ficar orbitando sem cair.

Como o brilho muda conforme a temperatura, a densidade e os ventos daquela altura, fotografá-lo é uma forma de enxergar ondas e correntes invisíveis que atravessam a alta atmosfera — inclusive ondas disparadas por tempestades lá embaixo, na troposfera.

A NASA mantém missões dedicadas a isso, como a ICON, a GOLD e a TIMED, e acompanha se o brilho muda junto com o ciclo de 11 anos do Sol ou com o acúmulo de gases de efeito estufa. Esse ciclo está explicado em O que é o ciclo solar de 11 anos?. Esse segundo ponto é contraintuitivo e vale guardar: na alta atmosfera, mais gás de efeito estufa tende a esfriar e encolher a camada, ao contrário do que acontece perto do chão. Monitorar a cor do ar é uma das maneiras de checar isso.

Perguntas frequentes

O que é airglow?

É o nome em inglês do brilho do ar: a luz própria que a alta atmosfera da Terra emite, principalmente entre 85 e 100 km de altura, porque átomos energizados pela radiação do Sol liberam essa energia em forma de luz em vez de perdê-la em colisões. Acontece todas as noites, no mundo inteiro.

Qual é a diferença entre airglow e aurora?

A aurora é causada por partículas do vento solar guiadas pelo campo magnético para perto dos polos, tem forma de cortina e varia conforme a atividade do Sol. O brilho do ar é uma faixa lisa e uniforme, acontece em qualquer latitude, inclusive sobre o Brasil, e não depende de tempestade solar.

Por que o céu nunca fica completamente preto?

Porque sempre sobram fontes de luz: o brilho do ar, a luz somada de estrelas fracas demais para serem vistas separadamente, a poeira interplanetária refletindo a luz do Sol e, na maioria dos lugares habitados, a iluminação artificial das cidades.

Dá para fotografar o brilho do ar com celular?

Em celulares recentes com modo noturno e apoiados num tripé ou numa superfície firme, sim, em céu escuro e sem Lua. O verde aparece com mais facilidade na foto do que a olho nu, porque o sensor acumula luz durante segundos e o olho humano não.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX

Leia também

Mais em Perguntas
  • Perguntas

    Por que não existe gravidade artificial de verdade?

    A gravidade artificial não é ficção: a física permite, e a receita é conhecida desde o começo do século XX. Basta girar a nave. O problema é o tamanho. Para produzir no chão…

    ·7 min de leitura
  • Perguntas

    O que é o limite de Roche?

    O limite de Roche é a distância mínima que um corpo pode chegar de um planeta sem se despedaçar. Mais perto do que isso, a diferença de puxão da gravidade do planeta entre um…

    ·8 min de leitura
  • Perguntas

    As três leis de Kepler explicadas sem matemática

    As três leis de Kepler descrevem como qualquer coisa gira em volta de outra no espaço, e cabem em três frases: a órbita tem formato de elipse, e não de círculo; o planeta anda…

    ·8 min de leitura
  • Perguntas

    A estrela que você vê no céu já morreu?

    Quase certamente não. A frase "a estrela que você está vendo talvez já tenha morrido" é uma das mais repetidas quando o assunto é astronomia, e ela está errada para…

    ·7 min de leitura