O ciclo solar é o vaivém, de aproximadamente onze anos, em que o Sol sai de um período calmo, fica cada vez mais agitado, chega ao auge e volta a se acalmar. O termômetro desse ciclo é visível: o número de manchas solares na superfície. No fundo do ciclo, o Sol passa dias inteiros sem mancha nenhuma; no topo, fica pintado delas, e é nesses meses que explodem as erupções que acendem auroras e atrapalham satélites. E tem um detalhe que pouca gente sabe: no auge de cada ciclo, os polos magnéticos do Sol trocam de lugar. Este artigo explica o mecanismo e mostra em que ponto o Sol está agora, com os números que a NASA publica.
Mancha solar: o que é aquele ponto escuro
Comece desfazendo o apelido. Mancha solar não é buraco, nem sujeira, nem sombra de nada. Segundo a NASA, manchas solares são regiões mais frias do Sol, causadas por uma concentração de linhas de campo magnético.
O mecanismo é bonito e cabe numa frase. O Sol não é sólido: ele é gás elétrico em movimento permanente, e esse movimento arrasta junto as linhas do campo magnético. Com o tempo, as linhas se torcem, se viram e se embolam. Onde o emaranhado fica muito apertado, ele funciona como um nó na mangueira: bloqueia o calor que vinha de baixo e não deixa chegar à superfície. O resultado é um pedaço mais frio — e, como brilha menos que a vizinhança, aparece escuro na foto.
"Mais frio" aqui é relativo. A NASA dá os dois números: a mancha fica com frequência em torno de 6.000 graus Fahrenheit, enquanto o restante da fotosfera (a camada visível do Sol) está em torno de 10.000 graus Fahrenheit. Em Celsius, isso dá cerca de 3.300 °C contra 5.540 °C — ou seja, a parte "fria" do Sol tem mais que o dobro da temperatura do ferro derretido numa siderúrgica. Os outros números do Sol estão reunidos em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância.
O tamanho impressiona. As manchas, diz a NASA, costumam ter de 1.000 a 100.000 milhas de ponta a ponta — de 1.600 a cerca de 161.000 quilômetros. A maior registrada no ciclo anterior — é a que aparece na foto que abre este artigo — surgiu na borda do Sol em 18 de outubro de 2014 e cresceu até ficar com quase 80.000 milhas de ponta a ponta. A própria agência deu a comparação: dez Terras caberiam enfileiradas ao longo do diâmetro dela. Elas duram de dias a meses.
E não são só um sinal passivo. É dessas regiões ativas que normalmente irrompem as erupções solares e as ejeções de massa coronal — os eventos que mandam partículas na nossa direção.
O que sobe e desce é a contagem
Se as manchas aparecem onde o campo magnético está emaranhado, contar manchas é uma forma indireta de medir quão bagunçado o campo do Sol está. É isso que o ciclo solar mede.
A contagem diária de manchas é, nas palavras da NASA, o nosso registro mais longo de atividade solar. Gente observa manchas solares há mais de mil anos, e as acompanha em detalhe desde a invenção do telescópio, quatro séculos atrás. Poucas séries de dados científicos no mundo têm essa idade.

No fundo do ciclo — o mínimo solar — dá para passar semanas sem nenhuma mancha, como na foto acima. No topo — o máximo solar — o disco fica salpicado. Entre um extremo e outro passam uns cinco anos e meio, e o ciclo inteiro, de mínimo a mínimo, dura em média onze anos: do nascimento de uma criança até ela sair do ensino fundamental.
No auge, o Sol vira a própria bússola de cabeça para baixo
Esta é a parte que costuma espantar quem ouve pela primeira vez.
Mais ou menos a cada onze anos, no auge do ciclo, os polos magnéticos do Sol se invertem: o que era norte magnético vira sul, e vice-versa. Não é tempestade, não é explosão, é uma reorganização completa do campo da estrela — e é ela que explica por que a agitação sobe até certo ponto e depois cede.
A Terra também inverte os polos magnéticos, mas numa escala de tempo completamente diferente, de centenas de milhares de anos — o caso dela está em A inversão dos polos magnéticos vai acontecer?. O Sol faz isso uma vez por década, com a regularidade de um relógio meio desregulado.
Como são os polos do Sol de fato, vistos de perto pela primeira vez, está em Como são os polos do Sol? As primeiras fotos.
Em que pé estamos: o ciclo 25
Os ciclos são numerados. O que estamos vivendo é o ciclo 25.
Em 15 de outubro de 2024, há exatamente dois anos, a NASA, a agência americana de oceanos e atmosfera (NOAA) e o Painel de Previsão do Ciclo Solar anunciaram em teleconferência que o Sol tinha atingido o período de máximo do ciclo 25. Esse painel não é um comitê interno: é um grupo internacional de especialistas patrocinado pelas duas agências, que faz previsões de ciclo solar desde 1989.
Na ocasião, os cientistas disseram esperar que a fase de máximo durasse "mais um ano ou algo assim" antes de o Sol entrar na fase de declínio. A erupção mais forte do ciclo até aquele momento tinha sido uma classe X9.0, em 3 de outubro de 2024.
E teve o episódio que muita gente no Brasil acompanhou pelas fotos: em maio de 2024, uma sequência de erupções e ejeções de massa coronal produziu a tempestade geomagnética mais forte em duas décadas e, possivelmente, uma das maiores exibições de auroras registradas em 500 anos. Foram 82 erupções notáveis entre 3 e 9 de maio, nove delas de classe X, vindas principalmente de duas regiões ativas. O que uma tempestade dessas faz, e o que faria se fosse maior, está em Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia? — e o lado bonito do fenômeno, em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.
A previsão que a NASA publica, mês a mês
A NASA mantém uma tabela pública de previsão da atividade solar, atualizada periodicamente. Os valores abaixo são da atualização de julho de 2026 e mostram o número de manchas suavizado em 13 meses, no cenário central (percentil 50):
| Mês | Número de manchas previsto |
|---|---|
| Janeiro de 2026 | 104,1 |
| Abril de 2026 | 98,9 |
| Julho de 2026 | 93,1 |
| Outubro de 2026 | 85,4 |
| Dezembro de 2026 | 80,3 |
| Junho de 2027 | 66,8 |
| Dezembro de 2027 | 53,4 |
| Setembro de 2028 | 37,8 |
Duas ressalvas importantes, e elas valem mais que a tabela. Primeiro: isto é previsão estatística, não contagem observada. A própria NASA alerta que o método serve para projetar o restante do ciclo atual e não é capaz de prever o ciclo seguinte. Segundo: a previsão foi revista para baixo ao longo do tempo — a tabela de maio de 2025 projetava, para setembro de 2026, um valor perto de 103, e a de julho de 2026 projeta cerca de 88 para o mesmo mês. Previsão de ciclo solar muda, e muda bastante.
O que a tendência mostra é consistente com o que foi anunciado em 2024: a curva está caindo. O Sol parece estar, hoje, na descida do ciclo 25.
Por que só se sabe o pico depois que ele passou
Aqui está a honestidade que a própria NASA faz questão de registrar, e que explica por que este artigo não crava uma data.
Nas palavras do representante da NOAA no anúncio de 2024, "o mês em que a atividade solar atinge o pico no Sol não será identificado por meses ou anos". O motivo é simples: só dá para dizer que um ponto foi o máximo depois de acompanhar uma queda consistente depois dele. Antes disso, qualquer subida nova pode superar o recorde anterior.
Ou seja: em outubro de 2026, dois anos depois do anúncio, o pico do ciclo 25 já aconteceu, mas o mês exato ainda é assunto em aberto — e vai continuar sendo até que a descida esteja bem estabelecida nos dados. É uma das poucas áreas da ciência em que o evento mais importante só ganha data no retrovisor.
Por que isso importa para quem está no chão
Para o seu dia a dia, quase nada muda: o brilho do Sol varia pouquíssimo entre o máximo e o mínimo, e as estações do ano não têm nada a ver com isso.
O que muda está em cima. Em período de máximo, aumentam as erupções e as ejeções de massa coronal, e com elas: mais auroras, mais chance de interferência em rádio e GPS, mais risco para satélites, mais dose de radiação para quem está em órbita, e até mais arrasto atmosférico sobre satélites baixos, porque a alta atmosfera incha quando recebe mais energia. As partículas que o Sol manda vão parar, em boa parte, nas faixas magnéticas em volta da Terra explicadas em O que é o cinturão de Van Allen?.
É por isso que acompanhar o número de manchas de uma estrela a 150 milhões de quilômetros daqui deixou de ser curiosidade de astrônomo e virou item de planejamento para operador de satélite, companhia de energia e agência espacial.




