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Como são os polos do Sol? As primeiras fotos

Toda foto do Sol foi tirada da altura do equador dele. Em 2025 a sonda Solar Orbiter saiu do plano dos planetas e mostrou o polo sul pela primeira vez.

Publicado em 7 min de leitura
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A ogiva branca do foguete Atlas V com os logotipos da NASA, da ESA e o nome Solar Orbiter, erguida por guindaste ao anoitecer
Foto: NASA/Ben Smegelsky
Neste artigo
  1. Por que nunca ninguém tinha visto os polos do Sol
  2. Como a sonda saiu do plano: Vênus empurrando de lado
  3. O que apareceu: um ímã bagunçado
  4. Por que os polos decidem o ciclo do Sol
  5. A ficha da Solar Orbiter
  6. Solar Orbiter e Parker: duas sondas, dois trabalhos

Ninguém sabia como são os polos do Sol até 2025, porque nenhuma foto da história tinha sido tirada de um lugar que permitisse vê-los. Em 11 de junho de 2025, a Agência Espacial Europeia divulgou as primeiras imagens do polo sul solar, feitas pela sonda Solar Orbiter de um ângulo de 15 a 17 graus abaixo do equador do Sol. O que apareceu lá foi uma surpresa: em vez de um polo magnético limpo, um emaranhado com as duas polaridades misturadas no mesmo lugar.

E tem data marcada para melhorar. Em 24 de dezembro de 2026, a Solar Orbiter deve passar por Vênus de novo e usar a gravidade do planeta para inclinar ainda mais a órbita, até 24 graus.

Por que nunca ninguém tinha visto os polos do Sol

A resposta é geométrica e, quando cai a ficha, é meio óbvia.

A Terra, todos os outros planetas e praticamente todas as sondas que já existiram orbitam o Sol dentro de um mesmo disco achatado, chamado plano da eclíptica — o "tampo de mesa" invisível em que o Sistema Solar inteiro está montado. Esse plano passa perto do equador do Sol. Quem está dentro dele vê o Sol de lado, sempre.

É como morar numa cidade inteira construída na linha do Equador: você conhece bem a faixa central do planeta e nunca viu o Polo Norte. As sondas que observam o Sol, segundo a ESA, não passam de 7 graus de inclinação em relação ao equador solar. Sete graus não bastam: dali os polos aparecem sempre de esguelha, achatados contra a borda do disco, impossíveis de medir direito.

Houve uma exceção parcial. A missão Ulysses, da ESA com a NASA, sobrevoou os polos do Sol entre 1990 e 2009 — mas não levava nenhuma câmera. Ela mediu partículas e campos magnéticos no lugar onde estava, e isso é precioso, só que não produz imagem. A Solar Orbiter é a primeira a chegar lá com telescópios.

O Sol inteiro visto como um disco, com a estrutura da coroa aparecendo em volta, em cor falsa rosada
O Sol inteiro visto pelos satélites STEREO da NASA em 26 de março de 2007. A cor não é real: é luz ultravioleta traduzida para cores que o olho enxerga. Toda imagem como esta foi feita da altura do equador solar. Foto: NASA/JPL-Caltech/NRL/GSFC

Como a sonda saiu do plano: Vênus empurrando de lado

Mudar o ângulo de uma órbita em torno do Sol é caríssimo em combustível. Nenhum foguete lançado da Terra consegue levar uma sonda pesada para fora da eclíptica por força bruta.

A saída foi usar Vênus como trampolim. A cada passagem perto do planeta, a sonda rouba um pouco do movimento dele e sai com a órbita mais inclinada. É a mesma manobra que a BepiColombo usa para frear a caminho de Mercúrio, explicada em BepiColombo chegando a Mercúrio: por que a viagem levou 8 anos, só que aqui ela serve para virar o plano em vez de mudar a velocidade.

O calendário divulgado pela ESA é este:

Quando Inclinação em relação ao equador do Sol
Lançamento, fevereiro de 2020 dentro do plano dos planetas
Fevereiro de 2025 17 graus
24 de dezembro de 2026 (previsto) 24 graus
10 de junho de 2029 (previsto) 33 graus

Em fevereiro de 2025 a órbita foi inclinada em 17 graus e a sonda começou a parte "de alta latitude" da missão. O ângulo de onde ela enxerga o Sol varia ao longo de cada volta: na primeira campanha de observação dos polos, em 16 e 17 de março de 2025, ela via o Sol de 15 graus abaixo do equador solar, poucos dias antes de alcançar os 17 graus de visada máxima.

O que apareceu: um ímã bagunçado

Três instrumentos olharam o polo sul ao mesmo tempo. O PHI fotografa em luz visível e mapeia o campo magnético da superfície; o EUI fotografa em ultravioleta e mostra o gás de um milhão de graus da atmosfera externa; o SPICE separa a luz por temperatura e revela as camadas acima da superfície.

O achado principal foi do PHI, e contraria a intuição. Um ímã comum tem um polo norte de um lado e um polo sul do outro, bem separados. No polo sul do Sol, as duas polaridades estão presentes ao mesmo tempo, misturadas.

Isso não é defeito do Sol: é um momento. O campo magnético solar se inverte a cada 11 anos, e a inversão acontece justamente no pico de atividade — o mesmo ciclo que produz as manchas, as explosões e as tempestades descritas em Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?. A sonda chegou aos polos bem no meio da virada. Segundo a ESA, daqui a cinco ou seis anos o Sol atinge o mínimo de atividade, quando uma única polaridade deve ter se firmado em cada polo — e, pela primeira vez, vai haver câmera apontada para ver isso acontecer.

O SPICE fez outra estreia: mediu a que velocidade o gás se move no polo, usando o mesmo efeito que faz a sirene da ambulância mudar de tom ao passar por você. É assim que se descobre de onde, exatamente, sai o vento solar — um dos objetivos declarados da missão.

Por que os polos decidem o ciclo do Sol

Aqui está o motivo de tanto esforço para ver um pedaço de estrela que fica longe de nós.

O Sol não gira como uma bola sólida. O equador dá uma volta em cerca de 25 dias; os polos levam uns 36. Essa diferença vai torcendo o campo magnético ano após ano, como quem enrola um elástico, até ele se embolar, estourar em manchas e explosões e finalmente se inverter. (Pequeno acerto de números: o nosso O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância publica 35 dias para os polos, enquanto a ficha da ESA diz cerca de 36 — a rotação polar é difícil de medir justamente porque os polos nunca estavam à vista.)

Modelos de previsão do ciclo solar erram com frequência: ninguém consegue dizer com antecedência quando o próximo máximo chega nem quão forte ele será. E a peça que faltava nos modelos é exatamente a que ninguém nunca tinha medido — o que acontece nos polos. Não é curiosidade estética: previsão de tempestade solar depende disso, e tempestade solar derruba satélite, atrapalha GPS e sobrecarrega rede elétrica.

A borda do Sol vista de perto, em tons de vermelho, com duas proeminências de gás saindo do disco e se torcendo no espaço escuro
Duas proeminências na borda do Sol, observadas pelo Solar Dynamics Observatory da NASA entre 30 e 31 de julho de 2018. A imagem é luz ultravioleta extrema, mostrada em cor falsa. Foto: NASA/GSFC/Solar Dynamics Observatory

A ficha da Solar Orbiter

Item Valor
Lançamento fevereiro de 2020, foguete Atlas V, Cabo Canaveral
Parceria missão da ESA com participação da NASA
Massa no lançamento 1.800 kg
Instrumentos científicos 10
Tamanho do corpo 2,5 × 3,1 × 2,7 m
Comprimento com os painéis abertos 18 m
Aproximação máxima do Sol cerca de 42 milhões de km
Testada para suportar até 500 °C

Os 42 milhões de quilômetros merecem contexto: a Terra fica a cerca de 150 milhões de km do Sol, então a sonda chega a menos de um terço da nossa distância, entrando na faixa da órbita de Mercúrio. Ali ela recebe treze vezes mais calor solar que um satélite em órbita da Terra, e quem a protege é um escudo térmico preto.

Solar Orbiter e Parker: duas sondas, dois trabalhos

É comum confundir as duas, e a diferença é simples.

A Parker Solar Probe, da NASA, vai muito mais fundo: chega a cerca de 6,2 milhões de km da superfície e já atravessou a atmosfera do Sol, história contada em Parker Solar Probe: a sonda que tocou o Sol. Mas ela não tem câmeras apontadas para o Sol — a essa distância, nenhuma lente sobreviveria olhando de frente. A Parker é um sensor que mergulha e sente o que há em volta dela.

A Solar Orbiter fica mais longe e fotografa. A ESA descreve a relação assim: a Solar Orbiter fornece o contexto visual para o que a Parker mede lá dentro. Uma diz o que está acontecendo na superfície; a outra diz o que chegou aqui.

Perguntas frequentes

Alguém já viu os polos do Sol antes de 2025?

Com câmera, não. A sonda Ulysses, da ESA com a NASA, sobrevoou os polos solares entre 1990 e 2009, mas não levava nenhum instrumento de imagem: media partículas e campos no ponto onde passava. As primeiras imagens dos polos são da Solar Orbiter, divulgadas em 11 de junho de 2025.

Por que é tão difícil ver o polo de uma estrela que está ali no céu?

Porque a Terra, os planetas e quase todas as sondas orbitam dentro do mesmo plano achatado, que passa perto do equador do Sol. Dali os polos ficam sempre na borda do disco, vistos de esguelha. Para olhar de cima é preciso sair desse plano, e isso exige uma sequência de passagens perto de Vênus ao longo de anos.

O que acontece em 24 de dezembro de 2026?

É a data prevista pela ESA para a próxima passagem da Solar Orbiter perto de Vênus. A gravidade do planeta deve inclinar a órbita da sonda dos atuais 17 graus para 24 graus em relação ao equador solar, o que melhora a vista dos polos. Uma passagem seguinte, prevista para 10 de junho de 2029, levaria a inclinação a 33 graus.

O campo magnético do Sol realmente se inverte?

Sim, a cada cerca de 11 anos, no pico de atividade de cada ciclo. Foi exatamente esse momento que a Solar Orbiter flagrou: no polo sul, em março de 2025, as duas polaridades apareciam misturadas. Depois da inversão, uma delas vai predominando até o mínimo de atividade, dentro de cinco a seis anos.

Essas fotos dos polos são coloridas de verdade?

Em parte. O instrumento PHI fotografa em luz visível, que é a cor real. Já as imagens em ultravioleta, feitas pelo EUI e por telescópios como o da NASA usados neste artigo, registram uma luz que o olho humano não enxerga; a cor que você vê é uma tradução, escolhida para destacar estruturas.

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