Ninguém sabia como são os polos do Sol até 2025, porque nenhuma foto da história tinha sido tirada de um lugar que permitisse vê-los. Em 11 de junho de 2025, a Agência Espacial Europeia divulgou as primeiras imagens do polo sul solar, feitas pela sonda Solar Orbiter de um ângulo de 15 a 17 graus abaixo do equador do Sol. O que apareceu lá foi uma surpresa: em vez de um polo magnético limpo, um emaranhado com as duas polaridades misturadas no mesmo lugar.
E tem data marcada para melhorar. Em 24 de dezembro de 2026, a Solar Orbiter deve passar por Vênus de novo e usar a gravidade do planeta para inclinar ainda mais a órbita, até 24 graus.
Por que nunca ninguém tinha visto os polos do Sol
A resposta é geométrica e, quando cai a ficha, é meio óbvia.
A Terra, todos os outros planetas e praticamente todas as sondas que já existiram orbitam o Sol dentro de um mesmo disco achatado, chamado plano da eclíptica — o "tampo de mesa" invisível em que o Sistema Solar inteiro está montado. Esse plano passa perto do equador do Sol. Quem está dentro dele vê o Sol de lado, sempre.
É como morar numa cidade inteira construída na linha do Equador: você conhece bem a faixa central do planeta e nunca viu o Polo Norte. As sondas que observam o Sol, segundo a ESA, não passam de 7 graus de inclinação em relação ao equador solar. Sete graus não bastam: dali os polos aparecem sempre de esguelha, achatados contra a borda do disco, impossíveis de medir direito.
Houve uma exceção parcial. A missão Ulysses, da ESA com a NASA, sobrevoou os polos do Sol entre 1990 e 2009 — mas não levava nenhuma câmera. Ela mediu partículas e campos magnéticos no lugar onde estava, e isso é precioso, só que não produz imagem. A Solar Orbiter é a primeira a chegar lá com telescópios.

Como a sonda saiu do plano: Vênus empurrando de lado
Mudar o ângulo de uma órbita em torno do Sol é caríssimo em combustível. Nenhum foguete lançado da Terra consegue levar uma sonda pesada para fora da eclíptica por força bruta.
A saída foi usar Vênus como trampolim. A cada passagem perto do planeta, a sonda rouba um pouco do movimento dele e sai com a órbita mais inclinada. É a mesma manobra que a BepiColombo usa para frear a caminho de Mercúrio, explicada em BepiColombo chegando a Mercúrio: por que a viagem levou 8 anos, só que aqui ela serve para virar o plano em vez de mudar a velocidade.
O calendário divulgado pela ESA é este:
| Quando | Inclinação em relação ao equador do Sol |
|---|---|
| Lançamento, fevereiro de 2020 | dentro do plano dos planetas |
| Fevereiro de 2025 | 17 graus |
| 24 de dezembro de 2026 (previsto) | 24 graus |
| 10 de junho de 2029 (previsto) | 33 graus |
Em fevereiro de 2025 a órbita foi inclinada em 17 graus e a sonda começou a parte "de alta latitude" da missão. O ângulo de onde ela enxerga o Sol varia ao longo de cada volta: na primeira campanha de observação dos polos, em 16 e 17 de março de 2025, ela via o Sol de 15 graus abaixo do equador solar, poucos dias antes de alcançar os 17 graus de visada máxima.
O que apareceu: um ímã bagunçado
Três instrumentos olharam o polo sul ao mesmo tempo. O PHI fotografa em luz visível e mapeia o campo magnético da superfície; o EUI fotografa em ultravioleta e mostra o gás de um milhão de graus da atmosfera externa; o SPICE separa a luz por temperatura e revela as camadas acima da superfície.
O achado principal foi do PHI, e contraria a intuição. Um ímã comum tem um polo norte de um lado e um polo sul do outro, bem separados. No polo sul do Sol, as duas polaridades estão presentes ao mesmo tempo, misturadas.
Isso não é defeito do Sol: é um momento. O campo magnético solar se inverte a cada 11 anos, e a inversão acontece justamente no pico de atividade — o mesmo ciclo que produz as manchas, as explosões e as tempestades descritas em Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?. A sonda chegou aos polos bem no meio da virada. Segundo a ESA, daqui a cinco ou seis anos o Sol atinge o mínimo de atividade, quando uma única polaridade deve ter se firmado em cada polo — e, pela primeira vez, vai haver câmera apontada para ver isso acontecer.
O SPICE fez outra estreia: mediu a que velocidade o gás se move no polo, usando o mesmo efeito que faz a sirene da ambulância mudar de tom ao passar por você. É assim que se descobre de onde, exatamente, sai o vento solar — um dos objetivos declarados da missão.
Por que os polos decidem o ciclo do Sol
Aqui está o motivo de tanto esforço para ver um pedaço de estrela que fica longe de nós.
O Sol não gira como uma bola sólida. O equador dá uma volta em cerca de 25 dias; os polos levam uns 36. Essa diferença vai torcendo o campo magnético ano após ano, como quem enrola um elástico, até ele se embolar, estourar em manchas e explosões e finalmente se inverter. (Pequeno acerto de números: o nosso O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância publica 35 dias para os polos, enquanto a ficha da ESA diz cerca de 36 — a rotação polar é difícil de medir justamente porque os polos nunca estavam à vista.)
Modelos de previsão do ciclo solar erram com frequência: ninguém consegue dizer com antecedência quando o próximo máximo chega nem quão forte ele será. E a peça que faltava nos modelos é exatamente a que ninguém nunca tinha medido — o que acontece nos polos. Não é curiosidade estética: previsão de tempestade solar depende disso, e tempestade solar derruba satélite, atrapalha GPS e sobrecarrega rede elétrica.

A ficha da Solar Orbiter
| Item | Valor |
|---|---|
| Lançamento | fevereiro de 2020, foguete Atlas V, Cabo Canaveral |
| Parceria | missão da ESA com participação da NASA |
| Massa no lançamento | 1.800 kg |
| Instrumentos científicos | 10 |
| Tamanho do corpo | 2,5 × 3,1 × 2,7 m |
| Comprimento com os painéis abertos | 18 m |
| Aproximação máxima do Sol | cerca de 42 milhões de km |
| Testada para suportar | até 500 °C |
Os 42 milhões de quilômetros merecem contexto: a Terra fica a cerca de 150 milhões de km do Sol, então a sonda chega a menos de um terço da nossa distância, entrando na faixa da órbita de Mercúrio. Ali ela recebe treze vezes mais calor solar que um satélite em órbita da Terra, e quem a protege é um escudo térmico preto.
Solar Orbiter e Parker: duas sondas, dois trabalhos
É comum confundir as duas, e a diferença é simples.
A Parker Solar Probe, da NASA, vai muito mais fundo: chega a cerca de 6,2 milhões de km da superfície e já atravessou a atmosfera do Sol, história contada em Parker Solar Probe: a sonda que tocou o Sol. Mas ela não tem câmeras apontadas para o Sol — a essa distância, nenhuma lente sobreviveria olhando de frente. A Parker é um sensor que mergulha e sente o que há em volta dela.
A Solar Orbiter fica mais longe e fotografa. A ESA descreve a relação assim: a Solar Orbiter fornece o contexto visual para o que a Parker mede lá dentro. Uma diz o que está acontecendo na superfície; a outra diz o que chegou aqui.




