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Parker Solar Probe: a sonda que tocou o Sol

Ela já passou a 6 milhões de km do Sol a 690 mil km/h. Entenda como a Parker sobrevive e quando é o próximo mergulho, previsto para dezembro de 2026.

Publicado em 9 min de leitura
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O disco inteiro do Sol visto em ultravioleta extremo pelo observatório SDO, com manchas claras de atividade magnética e a atmosfera brilhando na borda
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. "Tocar o Sol" não é figura de linguagem
  2. O mistério que a missão existe para resolver
  3. Como ela não derrete
  4. Sete passagens por Vênus para chegar perto do Sol
  5. O recorde de 24 de dezembro de 2024
  6. O próximo mergulho: 1º de dezembro de 2026
  7. Por que isso importa para quem está aqui embaixo

A Parker Solar Probe é uma sonda da NASA que entrou na atmosfera do Sol e saiu inteira. Ela foi lançada em 2018, e em dezembro de 2024 passou a apenas 6,1 milhões de quilômetros da superfície solar, viajando a cerca de 690 mil quilômetros por hora — o objeto mais rápido que a humanidade já construiu. Nenhuma outra nave chegou nem perto disso.

E ela continua lá, dando voltas. O próximo mergulho está previsto para 1º de dezembro de 2026, por volta das 22h no horário de Brasília, quando ela deve passar de novo a cerca de 6,2 milhões de quilômetros da superfície do Sol — número que calculamos aqui a partir das efemérides do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e que explicamos no fim do artigo.

"Tocar o Sol" não é figura de linguagem

O Sol não tem superfície sólida. O que a gente chama de "superfície" é a fotosfera, a camada de onde sai a luz que enxergamos, a uns 5.500 °C. Acima dela existe uma atmosfera, e a camada mais externa dessa atmosfera se chama coroa — é aquele halo branco e irregular que só aparece durante um eclipse solar total.

Em 14 de dezembro de 2021, a NASA anunciou que a Parker tinha atravessado a borda da coroa e coletado partículas e campos magnéticos lá dentro. Foi a primeira vez na história que uma nave entrou na atmosfera de uma estrela. Daí a frase que a NASA usa para resumir a missão: a sonda "tocou o Sol".

O Sol totalmente encoberto pela Lua durante um eclipse total, com a coroa aparecendo como um halo branco e esfarrapado ao redor do disco preto
A coroa solar fotografada pela NASA no eclipse total de 2017. É esta camada, visível da Terra só durante a totalidade, que a Parker atravessa. Foto: NASA/Carla Thomas

O mistério que a missão existe para resolver

Esta é a pergunta que incomoda os cientistas há mais de sessenta anos e justifica a missão inteira.

A fotosfera do Sol está a cerca de 5.500 °C. A coroa, que fica acima dela e mais longe do centro quente, é muito mais quente — e aqui aparecem dois números que vale explicar, porque quem pesquisar vai achar os dois.

A página da NASA sobre a aproximação recorde da Parker diz que a coroa "pode passar de 1 milhão de graus Fahrenheit", o que dá cerca de 555 mil graus Celsius (conversão nossa). Já a faixa que a literatura solar costuma citar, e que este site publica em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância, é de 1 a 2 milhões de graus Celsius. Os dois estão certos: a coroa não é uniforme, e laços magnéticos ativos chegam a temperaturas muito mais altas que as regiões calmas. O que importa para o argumento é que, em qualquer dos números, ela é centenas de vezes mais quente que a superfície logo abaixo.

Isso é tão estranho quanto se afastar da fogueira e sentir mais calor. No Sol, a fonte de calor fica embaixo e o que está em cima é mais quente, e ninguém sabe exatamente por quê. As suspeitas envolvem o campo magnético, que se retorce e libera energia nas camadas altas, mas a prova exige medir ali dentro — e medir ali dentro exige estar ali dentro.

A segunda pergunta é parente: o que acelera o vento solar, aquela corrente de partículas que sai do Sol e banha o Sistema Solar inteiro, provocando as auroras e as tempestades que preocupam as redes elétricas, assunto de Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?.

Como ela não derrete

A resposta tem duas partes, e a primeira surpreende.

Primeira parte: o escudo. A Parker fica atrás de uma placa de espuma de carbono entre duas camadas de compósito, com 11,43 cm de espessura — quatro polegadas e meia. A NASA publica três números diferentes para a temperatura dessa placa, e os três estão certos, porque medem coisas diferentes:

Número O que ele significa
1.377 °C (2.500 °F) Temperatura que o escudo suporta por projeto, segundo a página da missão
1.427 °C (2.600 °F) Limite de projeto citado no comunicado do recorde de 2024, "quente o bastante para derreter aço"
982 °C (1.800 °F) Temperatura que a NASA esperava que o escudo atingisse de fato na passagem mais próxima

Enquanto a frente do escudo passa dos 900 °C, os instrumentos atrás dele ficam, nas palavras da própria NASA, "à temperatura ambiente confortável". A sonda é uma pessoa segurando uma tampa de panela na frente de um incêndio.

Segunda parte, e é a mais interessante: a coroa é quente, mas é quase vazia. Temperatura mede a velocidade das partículas; o calor transferido depende também de quantas partículas existem. Na coroa há tão pouca matéria que, mesmo a centenas de milhares de graus, o calor que ela entrega ao escudo é modesto. É a mesma razão pela qual você enfia a mão num forno a 200 °C e sente só ar quente, mas se queima na hora em que encosta na forma de metal: mesma temperatura, quantidades de matéria completamente diferentes.

Técnicos de macacão e touca branca instalando o escudo térmico circular na sonda Parker, numa sala limpa
A instalação do escudo térmico na Parker, em junho de 2018, pouco antes do lançamento. É esse disco que fica entre a sonda e o Sol durante todo o mergulho. Foto: NASA/Glenn Benson

Sete passagens por Vênus para chegar perto do Sol

Parece contraintuitivo, mas é difícil cair no Sol. A Terra, e tudo o que sai dela, se move a cerca de 107 mil km/h de lado. Para chegar perto do Sol é preciso se livrar dessa velocidade lateral — e isso custa muito mais combustível do que ir para fora do Sistema Solar.

A solução foi usar Vênus como freio. A Parker fez sete sobrevoos de Vênus entre 2018 e 2024, e em cada um deles entregou um pouco da própria energia ao planeta, encolhendo a órbita por etapas. Depois do último, em 6 de novembro de 2024, ela entrou na órbita final.

Essa órbita tem período de 88 dias — o mesmo tempo que Mercúrio leva para dar uma volta no Sol. Ela é bem alongada: o cálculo que fizemos a partir das efemérides do JPL dá 109,4 milhões de quilômetros no ponto mais distante e 6,9 milhões a partir do centro do Sol no ponto mais próximo, uma diferença de dezesseis vezes. Essa forma é proposital: a sonda passa pouquíssimo tempo no inferno e a maior parte do tempo longe, esfriando e enviando os dados.

O recorde de 24 de dezembro de 2024

Naquele Natal, a Parker chegou a 3,8 milhões de milhas da superfície do Sol, ou 6,1 milhões de quilômetros, viajando a 430 mil milhas por hora — 692 mil km/h (conversão nossa). É o objeto mais rápido já construído por seres humanos.

A NASA deu a melhor comparação para essa velocidade: nela, você sairia da Filadélfia e chegaria a Washington em um segundo. Traduzindo para o Brasil: a Parker cobriria a distância entre São Paulo e o Rio de Janeiro em dois segundos, e daria uma volta completa na Terra em pouco mais de três minutos (contas nossas).

Para a distância, a NASA usou uma imagem que vale repetir: se o Sistema Solar fosse encolhido até a distância Terra–Sol caber num campo de futebol americano, a Parker estaria a menos de quatro metros da linha de fundo.

Durante essas passagens, a sonda fica sem contato por dias: mergulha sozinha, grava tudo e só depois de sair envia um sinal avisando que sobreviveu. No recorde de 2024, esse sinal — um simples tom de rádio — chegou na noite de 26 de dezembro. É um bom exemplo de por que não existe controle remoto no espaço profundo, assunto de Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.

O próximo mergulho: 1º de dezembro de 2026

A lista oficial de eventos da missão, publicada no cabeçalho do sistema Horizons, vai até a passagem de junho de 2025. Para responder "quando é a próxima", calculamos aqui.

Pedimos ao Horizons, o sistema de efemérides do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, a posição da Parker em relação ao centro do Sol a cada seis horas entre setembro de 2026 e janeiro de 2027, e procuramos os mínimos. O resultado:

Evento Data e hora (Brasília) Distância do centro do Sol
Periélio anterior 4 de setembro de 2026 6,96 milhões de km
Afélio (ponto mais distante) 18 de outubro de 2026 109,4 milhões de km
Próximo periélio 1º de dezembro de 2026, ~22h 6,86 milhões de km

Como o raio do Sol é de 695.700 km, esses 6,86 milhões a partir do centro viram 6,16 milhões de quilômetros a partir da superfície — praticamente o mesmo valor do recorde de 2024, e dentro do "cerca de 6,2 milhões de km" que a página da missão descreve como a aproximação típica. Essa coincidência é a validação do cálculo: a nossa conta, feita por fora, reproduziu o número que a NASA publica.

Duas ressalvas honestas. A trajetória do Horizons está ajustada a rastreamento real até setembro de 2026; a partir daí é trajetória prevista, então a data pode mudar de algumas horas. E a velocidade que a nossa conta dá para esse periélio é de 687 mil km/h, um pouco abaixo dos 692 mil do recorde — a diferença de menos de 1% está dentro do que se espera de uma previsão orbital.

Não há nada para ver no céu: a sonda tem o tamanho de um carro pequeno. O que haverá é o anúncio da NASA alguns dias depois, confirmando que ela saiu inteira outra vez.

Por que isso importa para quem está aqui embaixo

Pode parecer curiosidade distante, mas não é. O vento solar e as explosões na coroa produzem as tempestades geomagnéticas que afetam satélites, GPS, rádio de aviação e redes elétricas.

Aviso já existe: uma nuvem de plasma leva de um a três dias para chegar, e as agências alertam nesse intervalo. O problema é a precisão. A medida que diz quão forte vai ser o estrago — a direção do campo magnético dentro da nuvem — só é feita pelas sondas entre nós e o Sol, e chega cerca de uma hora antes do impacto. Entender o que acelera o vento solar é o caminho para sair do "vem chuva por aí" e chegar ao "vai cair granizo na quinta à tarde". O que está em jogo está em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância.

Perguntas frequentes

A sonda Parker realmente tocou o Sol?

Entrou na atmosfera dele, que é o que a frase significa. Em 14 de dezembro de 2021 a NASA anunciou que a Parker tinha atravessado a borda da coroa, a camada externa da atmosfera solar, e medido partículas e campos magnéticos lá dentro. Foi a primeira vez que uma nave entrou na atmosfera de uma estrela. Ela não encosta em superfície nenhuma, porque o Sol não tem superfície sólida.

Por que a sonda não derrete?

Por duas razões. Ela fica atrás de um escudo de espuma de carbono de 11,43 cm de espessura, projetado para suportar cerca de 1.400 °C, enquanto os instrumentos atrás dele ficam à temperatura ambiente. E porque a coroa, apesar de estar a centenas de milhares de graus, é quase vazia: há tão pouca matéria ali que o calor efetivamente transferido ao escudo é muito menor do que a temperatura sugere.

Quando é a próxima passagem da Parker pelo Sol?

Pelo nosso cálculo com as efemérides do JPL, a próxima aproximação máxima está prevista para 1º de dezembro de 2026, por volta das 22h no horário de Brasília, a cerca de 6,2 milhões de quilômetros da superfície solar. Como se trata de trajetória prevista, a hora pode variar um pouco. As passagens se repetem a cada 88 dias.

Qual é o objeto mais rápido já construído pelo ser humano?

A própria Parker Solar Probe, que atingiu 430 mil milhas por hora, ou cerca de 692 mil km/h, na passagem de 24 de dezembro de 2024. Nessa velocidade, a distância entre São Paulo e o Rio de Janeiro seria vencida em dois segundos.

Por que a coroa do Sol é mais quente que a superfície?

Essa é exatamente a pergunta em aberto que a missão existe para responder. A fotosfera está a cerca de 5.500 °C e a coroa, acima dela, vai de centenas de milhares a milhões de graus, conforme a região. A hipótese principal envolve o campo magnético do Sol, que se retorce e libera energia nas camadas altas, mas confirmar o mecanismo exige medições feitas lá dentro — que é o que a Parker está coletando desde 2021.

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