A Parker Solar Probe é uma sonda da NASA que entrou na atmosfera do Sol e saiu inteira. Ela foi lançada em 2018, e em dezembro de 2024 passou a apenas 6,1 milhões de quilômetros da superfície solar, viajando a cerca de 690 mil quilômetros por hora — o objeto mais rápido que a humanidade já construiu. Nenhuma outra nave chegou nem perto disso.
E ela continua lá, dando voltas. O próximo mergulho está previsto para 1º de dezembro de 2026, por volta das 22h no horário de Brasília, quando ela deve passar de novo a cerca de 6,2 milhões de quilômetros da superfície do Sol — número que calculamos aqui a partir das efemérides do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA e que explicamos no fim do artigo.
"Tocar o Sol" não é figura de linguagem
O Sol não tem superfície sólida. O que a gente chama de "superfície" é a fotosfera, a camada de onde sai a luz que enxergamos, a uns 5.500 °C. Acima dela existe uma atmosfera, e a camada mais externa dessa atmosfera se chama coroa — é aquele halo branco e irregular que só aparece durante um eclipse solar total.
Em 14 de dezembro de 2021, a NASA anunciou que a Parker tinha atravessado a borda da coroa e coletado partículas e campos magnéticos lá dentro. Foi a primeira vez na história que uma nave entrou na atmosfera de uma estrela. Daí a frase que a NASA usa para resumir a missão: a sonda "tocou o Sol".

O mistério que a missão existe para resolver
Esta é a pergunta que incomoda os cientistas há mais de sessenta anos e justifica a missão inteira.
A fotosfera do Sol está a cerca de 5.500 °C. A coroa, que fica acima dela e mais longe do centro quente, é muito mais quente — e aqui aparecem dois números que vale explicar, porque quem pesquisar vai achar os dois.
A página da NASA sobre a aproximação recorde da Parker diz que a coroa "pode passar de 1 milhão de graus Fahrenheit", o que dá cerca de 555 mil graus Celsius (conversão nossa). Já a faixa que a literatura solar costuma citar, e que este site publica em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância, é de 1 a 2 milhões de graus Celsius. Os dois estão certos: a coroa não é uniforme, e laços magnéticos ativos chegam a temperaturas muito mais altas que as regiões calmas. O que importa para o argumento é que, em qualquer dos números, ela é centenas de vezes mais quente que a superfície logo abaixo.
Isso é tão estranho quanto se afastar da fogueira e sentir mais calor. No Sol, a fonte de calor fica embaixo e o que está em cima é mais quente, e ninguém sabe exatamente por quê. As suspeitas envolvem o campo magnético, que se retorce e libera energia nas camadas altas, mas a prova exige medir ali dentro — e medir ali dentro exige estar ali dentro.
A segunda pergunta é parente: o que acelera o vento solar, aquela corrente de partículas que sai do Sol e banha o Sistema Solar inteiro, provocando as auroras e as tempestades que preocupam as redes elétricas, assunto de Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?.
Como ela não derrete
A resposta tem duas partes, e a primeira surpreende.
Primeira parte: o escudo. A Parker fica atrás de uma placa de espuma de carbono entre duas camadas de compósito, com 11,43 cm de espessura — quatro polegadas e meia. A NASA publica três números diferentes para a temperatura dessa placa, e os três estão certos, porque medem coisas diferentes:
| Número | O que ele significa |
|---|---|
| 1.377 °C (2.500 °F) | Temperatura que o escudo suporta por projeto, segundo a página da missão |
| 1.427 °C (2.600 °F) | Limite de projeto citado no comunicado do recorde de 2024, "quente o bastante para derreter aço" |
| 982 °C (1.800 °F) | Temperatura que a NASA esperava que o escudo atingisse de fato na passagem mais próxima |
Enquanto a frente do escudo passa dos 900 °C, os instrumentos atrás dele ficam, nas palavras da própria NASA, "à temperatura ambiente confortável". A sonda é uma pessoa segurando uma tampa de panela na frente de um incêndio.
Segunda parte, e é a mais interessante: a coroa é quente, mas é quase vazia. Temperatura mede a velocidade das partículas; o calor transferido depende também de quantas partículas existem. Na coroa há tão pouca matéria que, mesmo a centenas de milhares de graus, o calor que ela entrega ao escudo é modesto. É a mesma razão pela qual você enfia a mão num forno a 200 °C e sente só ar quente, mas se queima na hora em que encosta na forma de metal: mesma temperatura, quantidades de matéria completamente diferentes.

Sete passagens por Vênus para chegar perto do Sol
Parece contraintuitivo, mas é difícil cair no Sol. A Terra, e tudo o que sai dela, se move a cerca de 107 mil km/h de lado. Para chegar perto do Sol é preciso se livrar dessa velocidade lateral — e isso custa muito mais combustível do que ir para fora do Sistema Solar.
A solução foi usar Vênus como freio. A Parker fez sete sobrevoos de Vênus entre 2018 e 2024, e em cada um deles entregou um pouco da própria energia ao planeta, encolhendo a órbita por etapas. Depois do último, em 6 de novembro de 2024, ela entrou na órbita final.
Essa órbita tem período de 88 dias — o mesmo tempo que Mercúrio leva para dar uma volta no Sol. Ela é bem alongada: o cálculo que fizemos a partir das efemérides do JPL dá 109,4 milhões de quilômetros no ponto mais distante e 6,9 milhões a partir do centro do Sol no ponto mais próximo, uma diferença de dezesseis vezes. Essa forma é proposital: a sonda passa pouquíssimo tempo no inferno e a maior parte do tempo longe, esfriando e enviando os dados.
O recorde de 24 de dezembro de 2024
Naquele Natal, a Parker chegou a 3,8 milhões de milhas da superfície do Sol, ou 6,1 milhões de quilômetros, viajando a 430 mil milhas por hora — 692 mil km/h (conversão nossa). É o objeto mais rápido já construído por seres humanos.
A NASA deu a melhor comparação para essa velocidade: nela, você sairia da Filadélfia e chegaria a Washington em um segundo. Traduzindo para o Brasil: a Parker cobriria a distância entre São Paulo e o Rio de Janeiro em dois segundos, e daria uma volta completa na Terra em pouco mais de três minutos (contas nossas).
Para a distância, a NASA usou uma imagem que vale repetir: se o Sistema Solar fosse encolhido até a distância Terra–Sol caber num campo de futebol americano, a Parker estaria a menos de quatro metros da linha de fundo.
Durante essas passagens, a sonda fica sem contato por dias: mergulha sozinha, grava tudo e só depois de sair envia um sinal avisando que sobreviveu. No recorde de 2024, esse sinal — um simples tom de rádio — chegou na noite de 26 de dezembro. É um bom exemplo de por que não existe controle remoto no espaço profundo, assunto de Como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui.
O próximo mergulho: 1º de dezembro de 2026
A lista oficial de eventos da missão, publicada no cabeçalho do sistema Horizons, vai até a passagem de junho de 2025. Para responder "quando é a próxima", calculamos aqui.
Pedimos ao Horizons, o sistema de efemérides do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, a posição da Parker em relação ao centro do Sol a cada seis horas entre setembro de 2026 e janeiro de 2027, e procuramos os mínimos. O resultado:
| Evento | Data e hora (Brasília) | Distância do centro do Sol |
|---|---|---|
| Periélio anterior | 4 de setembro de 2026 | 6,96 milhões de km |
| Afélio (ponto mais distante) | 18 de outubro de 2026 | 109,4 milhões de km |
| Próximo periélio | 1º de dezembro de 2026, ~22h | 6,86 milhões de km |
Como o raio do Sol é de 695.700 km, esses 6,86 milhões a partir do centro viram 6,16 milhões de quilômetros a partir da superfície — praticamente o mesmo valor do recorde de 2024, e dentro do "cerca de 6,2 milhões de km" que a página da missão descreve como a aproximação típica. Essa coincidência é a validação do cálculo: a nossa conta, feita por fora, reproduziu o número que a NASA publica.
Duas ressalvas honestas. A trajetória do Horizons está ajustada a rastreamento real até setembro de 2026; a partir daí é trajetória prevista, então a data pode mudar de algumas horas. E a velocidade que a nossa conta dá para esse periélio é de 687 mil km/h, um pouco abaixo dos 692 mil do recorde — a diferença de menos de 1% está dentro do que se espera de uma previsão orbital.
Não há nada para ver no céu: a sonda tem o tamanho de um carro pequeno. O que haverá é o anúncio da NASA alguns dias depois, confirmando que ela saiu inteira outra vez.
Por que isso importa para quem está aqui embaixo
Pode parecer curiosidade distante, mas não é. O vento solar e as explosões na coroa produzem as tempestades geomagnéticas que afetam satélites, GPS, rádio de aviação e redes elétricas.
Aviso já existe: uma nuvem de plasma leva de um a três dias para chegar, e as agências alertam nesse intervalo. O problema é a precisão. A medida que diz quão forte vai ser o estrago — a direção do campo magnético dentro da nuvem — só é feita pelas sondas entre nós e o Sol, e chega cerca de uma hora antes do impacto. Entender o que acelera o vento solar é o caminho para sair do "vem chuva por aí" e chegar ao "vai cair granizo na quinta à tarde". O que está em jogo está em O Sol em números: tamanho, temperatura, idade e distância.




