A NASA estima que cerca de 48,5 toneladas de material vindo do espaço entram na atmosfera da Terra por dia — mais ou menos o peso de uma carreta carregada, todo dia, sem parar. Quase tudo é poeira, com grãos da espessura de um fio de cabelo ou menores, e a maior parte vira vapor lá em cima. O que sobra e chega ao chão é bem menos: um levantamento feito na Antártida mediu 5.200 toneladas por ano, ou 14 toneladas por dia. As duas medidas não se contradizem: elas medem coisas diferentes.
Os dois números, e por que eles são diferentes
Quando alguém pergunta quanta poeira do espaço cai na Terra, a resposta depende de onde você coloca a balança.
No topo da atmosfera. A NASA publica, na ficha de meteoros e meteoritos, o valor de 48,5 toneladas (44 mil quilos) por dia. Isso é o que atravessa a fronteira do espaço e começa a cair. Em um ano dá cerca de 17.700 toneladas.
No chão. Um programa que durou quase vinte anos, conduzido por pesquisadores franceses do CNRS, da Universidade Paris-Saclay e do Museu Nacional de História Natural, mediu quanto de fato chega ao solo. A conta deu 5.200 toneladas por ano, ou 14,2 toneladas por dia.
| Onde se mede | De onde vem o número | Quanto |
|---|---|---|
| Entrando na atmosfera | Estimativa publicada pela NASA | 48,5 t por dia — 17.700 t por ano |
| Chegando ao chão | Micrometeoritos contados na neve da Antártida | 14,2 t por dia — 5.200 t por ano |
| Em cada metro quadrado do planeta | Cálculo nosso, a partir da linha acima | 10 microgramas por ano |
| Num telhado de 100 m² | Cálculo nosso | 1 miligrama por ano, cerca de 650 grãos |
Dividindo um pelo outro: só 29% do que entra sobrevive até o chão. O resto vira vapor entre 80 e 100 km de altura, no atrito com o ar. Cada um desses grãos, ao se desintegrar, produz um risco de luz de um segundo — a "estrela cadente" que todo mundo já viu. A diferença entre meteoro, meteorito e as outras palavras parecidas está em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.
Vale dizer que esses números têm margem larga. Diferentes métodos — satélites, radar, camadas de gelo, sedimento de fundo de oceano — dão respostas que vão de poucas toneladas a algumas centenas por dia. O intervalo entre 14 e 50 toneladas diárias é o que hoje tem mais apoio, e não é um valor fechado.
Como se mede isso no meio do gelo
A parte mais engenhosa da história é como as 5.200 toneladas por ano foram obtidas.
Os pesquisadores fizeram seis expedições ao longo de duas décadas à estação franco-italiana Concordia, no Domo C, a 1.100 km da costa da Terra Adélia, no meio da Antártida. O lugar foi escolhido porque quase não neva lá e porque não existe poeira terrestre para confundir: nada de areia, nada de fuligem de cidade, nada de pólen.
Eles derreteram neve, filtraram e contaram grão a grão: 1.280 micrometeoritos que não chegaram a derreter na queda e 808 esférulas cósmicas — bolinhas que derreteram e se solidificaram de novo, virando esferas perfeitas. Sabendo quantas partículas caíram numa área conhecida em um tempo conhecido, dá para estender a conta para o planeta inteiro. O resultado saiu na revista científica Earth and Planetary Science Letters.
As simulações do mesmo trabalho apontam a origem: a maior parte vem de cometas da família de Júpiter, e uma parcela menor, do cinturão de asteroides.
De onde vem toda essa poeira
Dois fabricantes, e os dois estão em atividade permanente.
O primeiro são os cometas. Cada vez que um cometa passa perto do Sol, o gelo dele vira gás e arrasta pó junto. Esse pó não vai embora: ele fica espalhado ao longo de toda a órbita do cometa, como farelo de pão caindo de um saco furado. Quando a Terra cruza uma dessas trilhas, temos uma chuva de meteoros — e é isso que explicamos em Chuva de meteoros hoje: horários e como ver do Brasil.
O segundo são as colisões no cinturão de asteroides. Milhões de pedras girando na mesma região, de vez em quando, se esbarram, e cada esbarrão vira cascalho, areia e pó. O tamanho e a densidade real desse cinturão estão em Cinturão de Asteroides: o que é e por que não virou planeta.

Falta uma peça para a história fechar. Se cometas e asteroides produzem poeira há bilhões de anos, por que o Sistema Solar não está entupido dela?
Porque a poeira cai no Sol. Um grão pequeno iluminado pelo Sol absorve luz de frente e reemite calor para todos os lados. Isso funciona como um freio suave, mas constante: o grão vai perdendo energia e espiralando para dentro até se vaporizar perto do Sol. O efeito tem nome — arrasto de Poynting-Robertson — e a consequência prática é que a nuvem de poeira que existe hoje precisa ser reposta o tempo todo. Ela não é um resto da formação do Sistema Solar; é produção corrente.
Dá para ver essa poeira a olho nu
Dá, e é uma das visões mais bonitas do céu brasileiro: a luz zodiacal.
Num lugar realmente escuro, longe de cidade, olhe para o oeste cerca de uma hora e meia depois do pôr do sol (ou para o leste, antes do amanhecer). Em certas épocas do ano aparece um cone de brilho fraco e difuso subindo do horizonte, inclinado, parecido com o clarão de uma cidade distante — só que não há cidade nenhuma naquela direção.
Isso é a luz do Sol refletida pelos grãos de poeira espalhados no plano do Sistema Solar. Você não está vendo uma poeira; está vendo bilhões de quilômetros de poeira somados. No Brasil, os melhores lugares são os mesmos que listamos em Turismo astronômico: onde ver o céu mais estrelado do Brasil — e as melhores épocas são as semanas em torno dos equinócios, quando o plano do Sistema Solar fica mais em pé em relação ao horizonte.
Quanto cai no seu telhado
Agora a conta que interessa para o leitor, feita aqui a partir das 5.200 toneladas anuais.
A superfície da Terra tem 510,1 milhões de km². Distribuindo aquelas 5.200 toneladas por tudo isso, cada metro quadrado recebe cerca de 10 microgramas de poeira espacial por ano.
Num telhado de 100 m² — uma casa comum —, isso dá 1 miligrama por ano. Um grão de areia grossa, daqueles de 1 milímetro, pesa cerca de 1,4 miligrama. Ou seja: o seu telhado acumula o peso de um grão de areia a cada ano e meio.
Em número de partículas o resultado impressiona mais. Uma esférula cósmica típica de 0,1 milímetro pesa cerca de 1,6 microgramas, então aquele miligrama anual corresponde a umas 650 partículas por ano caindo no telhado de 100 m². Elas estão lá. O problema é achá-las.
Existe gente que caça micrometeorito em calha de casa, e funciona — mas com uma ressalva séria: a esmagadora maioria das bolinhas escuras e magnéticas que aparecem numa calha é fuligem industrial, resíduo de freio de carro ou solda, não poeira espacial. Distinguir exige microscópio e olho treinado para o formato e a textura. Vale como brincadeira, não como certeza.
A Terra está engordando?
Está, e o efeito é ridiculamente pequeno.
Se a Terra tivesse ganhado 17.700 toneladas por ano desde que se formou, há 4,54 bilhões de anos, ela teria acumulado cerca de 8 × 10¹⁶ quilos. Parece muito até você comparar com a massa do planeta, que é de 5,97 × 10²⁴ quilos. A razão entre os dois é de uma parte em 74 milhões.
Para imaginar: é como se uma pessoa de 74 quilos ganhasse 1 miligrama ao longo da vida inteira — um milésimo de grama, invisível em qualquer balança de casa.
E a conta nem é de mão única. A Terra também perde massa continuamente, porque hidrogênio e hélio — os gases mais leves — escapam pelo topo da atmosfera para o espaço. É o mesmo tipo de processo que arrasou o céu do planeta vizinho, contado em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?. As duas contas, a de ganho e a de perda, são pequenas demais para mudar qualquer coisa sobre o nosso planeta.
Uma ressalva honesta para fechar: no começo do Sistema Solar o ritmo era muitíssimo maior. A Terra não se formou com poeira caindo a 48 toneladas por dia — ela se formou com pedras enormes caindo sem parar. As 48 toneladas de hoje são o que sobrou de um bombardeio que já foi violento.




