Curiosidades

Quanta poeira espacial cai na Terra por dia?

A NASA estima 48,5 toneladas por dia entrando na atmosfera, e só parte chega ao chão. Veja de onde vem essa poeira e quanto cai no seu telhado.

Publicado em 7 min de leitura
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A luz zodiacal, um cone de brilho fraco subindo do horizonte num céu estrelado, causada por poeira espacial iluminada pelo Sol
Foto: NASA/JPL-Caltech
Neste artigo
  1. Os dois números, e por que eles são diferentes
  2. Como se mede isso no meio do gelo
  3. De onde vem toda essa poeira
  4. Dá para ver essa poeira a olho nu
  5. Quanto cai no seu telhado
  6. A Terra está engordando?

A NASA estima que cerca de 48,5 toneladas de material vindo do espaço entram na atmosfera da Terra por dia — mais ou menos o peso de uma carreta carregada, todo dia, sem parar. Quase tudo é poeira, com grãos da espessura de um fio de cabelo ou menores, e a maior parte vira vapor lá em cima. O que sobra e chega ao chão é bem menos: um levantamento feito na Antártida mediu 5.200 toneladas por ano, ou 14 toneladas por dia. As duas medidas não se contradizem: elas medem coisas diferentes.

Os dois números, e por que eles são diferentes

Quando alguém pergunta quanta poeira do espaço cai na Terra, a resposta depende de onde você coloca a balança.

No topo da atmosfera. A NASA publica, na ficha de meteoros e meteoritos, o valor de 48,5 toneladas (44 mil quilos) por dia. Isso é o que atravessa a fronteira do espaço e começa a cair. Em um ano dá cerca de 17.700 toneladas.

No chão. Um programa que durou quase vinte anos, conduzido por pesquisadores franceses do CNRS, da Universidade Paris-Saclay e do Museu Nacional de História Natural, mediu quanto de fato chega ao solo. A conta deu 5.200 toneladas por ano, ou 14,2 toneladas por dia.

Onde se mede De onde vem o número Quanto
Entrando na atmosfera Estimativa publicada pela NASA 48,5 t por dia — 17.700 t por ano
Chegando ao chão Micrometeoritos contados na neve da Antártida 14,2 t por dia — 5.200 t por ano
Em cada metro quadrado do planeta Cálculo nosso, a partir da linha acima 10 microgramas por ano
Num telhado de 100 m² Cálculo nosso 1 miligrama por ano, cerca de 650 grãos

Dividindo um pelo outro: só 29% do que entra sobrevive até o chão. O resto vira vapor entre 80 e 100 km de altura, no atrito com o ar. Cada um desses grãos, ao se desintegrar, produz um risco de luz de um segundo — a "estrela cadente" que todo mundo já viu. A diferença entre meteoro, meteorito e as outras palavras parecidas está em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

Vale dizer que esses números têm margem larga. Diferentes métodos — satélites, radar, camadas de gelo, sedimento de fundo de oceano — dão respostas que vão de poucas toneladas a algumas centenas por dia. O intervalo entre 14 e 50 toneladas diárias é o que hoje tem mais apoio, e não é um valor fechado.

Como se mede isso no meio do gelo

A parte mais engenhosa da história é como as 5.200 toneladas por ano foram obtidas.

Os pesquisadores fizeram seis expedições ao longo de duas décadas à estação franco-italiana Concordia, no Domo C, a 1.100 km da costa da Terra Adélia, no meio da Antártida. O lugar foi escolhido porque quase não neva lá e porque não existe poeira terrestre para confundir: nada de areia, nada de fuligem de cidade, nada de pólen.

Eles derreteram neve, filtraram e contaram grão a grão: 1.280 micrometeoritos que não chegaram a derreter na queda e 808 esférulas cósmicas — bolinhas que derreteram e se solidificaram de novo, virando esferas perfeitas. Sabendo quantas partículas caíram numa área conhecida em um tempo conhecido, dá para estender a conta para o planeta inteiro. O resultado saiu na revista científica Earth and Planetary Science Letters.

As simulações do mesmo trabalho apontam a origem: a maior parte vem de cometas da família de Júpiter, e uma parcela menor, do cinturão de asteroides.

De onde vem toda essa poeira

Dois fabricantes, e os dois estão em atividade permanente.

O primeiro são os cometas. Cada vez que um cometa passa perto do Sol, o gelo dele vira gás e arrasta pó junto. Esse pó não vai embora: ele fica espalhado ao longo de toda a órbita do cometa, como farelo de pão caindo de um saco furado. Quando a Terra cruza uma dessas trilhas, temos uma chuva de meteoros — e é isso que explicamos em Chuva de meteoros hoje: horários e como ver do Brasil.

O segundo são as colisões no cinturão de asteroides. Milhões de pedras girando na mesma região, de vez em quando, se esbarram, e cada esbarrão vira cascalho, areia e pó. O tamanho e a densidade real desse cinturão estão em Cinturão de Asteroides: o que é e por que não virou planeta.

O rastro de poeira deixado por um cometa ao longo da própria órbita, registrado em infravermelho
O cometa 65P/Gunn e o rastro de poeira que ele deixa pelo caminho, visto em infravermelho pelo telescópio WISE. As cores são artificiais: o olho humano não enxerga infravermelho. Foto: NASA/JPL-Caltech/UCLA

Falta uma peça para a história fechar. Se cometas e asteroides produzem poeira há bilhões de anos, por que o Sistema Solar não está entupido dela?

Porque a poeira cai no Sol. Um grão pequeno iluminado pelo Sol absorve luz de frente e reemite calor para todos os lados. Isso funciona como um freio suave, mas constante: o grão vai perdendo energia e espiralando para dentro até se vaporizar perto do Sol. O efeito tem nome — arrasto de Poynting-Robertson — e a consequência prática é que a nuvem de poeira que existe hoje precisa ser reposta o tempo todo. Ela não é um resto da formação do Sistema Solar; é produção corrente.

Dá para ver essa poeira a olho nu

Dá, e é uma das visões mais bonitas do céu brasileiro: a luz zodiacal.

Num lugar realmente escuro, longe de cidade, olhe para o oeste cerca de uma hora e meia depois do pôr do sol (ou para o leste, antes do amanhecer). Em certas épocas do ano aparece um cone de brilho fraco e difuso subindo do horizonte, inclinado, parecido com o clarão de uma cidade distante — só que não há cidade nenhuma naquela direção.

Isso é a luz do Sol refletida pelos grãos de poeira espalhados no plano do Sistema Solar. Você não está vendo uma poeira; está vendo bilhões de quilômetros de poeira somados. No Brasil, os melhores lugares são os mesmos que listamos em Turismo astronômico: onde ver o céu mais estrelado do Brasil — e as melhores épocas são as semanas em torno dos equinócios, quando o plano do Sistema Solar fica mais em pé em relação ao horizonte.

Quanto cai no seu telhado

Agora a conta que interessa para o leitor, feita aqui a partir das 5.200 toneladas anuais.

A superfície da Terra tem 510,1 milhões de km². Distribuindo aquelas 5.200 toneladas por tudo isso, cada metro quadrado recebe cerca de 10 microgramas de poeira espacial por ano.

Num telhado de 100 m² — uma casa comum —, isso dá 1 miligrama por ano. Um grão de areia grossa, daqueles de 1 milímetro, pesa cerca de 1,4 miligrama. Ou seja: o seu telhado acumula o peso de um grão de areia a cada ano e meio.

Em número de partículas o resultado impressiona mais. Uma esférula cósmica típica de 0,1 milímetro pesa cerca de 1,6 microgramas, então aquele miligrama anual corresponde a umas 650 partículas por ano caindo no telhado de 100 m². Elas estão lá. O problema é achá-las.

Existe gente que caça micrometeorito em calha de casa, e funciona — mas com uma ressalva séria: a esmagadora maioria das bolinhas escuras e magnéticas que aparecem numa calha é fuligem industrial, resíduo de freio de carro ou solda, não poeira espacial. Distinguir exige microscópio e olho treinado para o formato e a textura. Vale como brincadeira, não como certeza.

A Terra está engordando?

Está, e o efeito é ridiculamente pequeno.

Se a Terra tivesse ganhado 17.700 toneladas por ano desde que se formou, há 4,54 bilhões de anos, ela teria acumulado cerca de 8 × 10¹⁶ quilos. Parece muito até você comparar com a massa do planeta, que é de 5,97 × 10²⁴ quilos. A razão entre os dois é de uma parte em 74 milhões.

Para imaginar: é como se uma pessoa de 74 quilos ganhasse 1 miligrama ao longo da vida inteira — um milésimo de grama, invisível em qualquer balança de casa.

E a conta nem é de mão única. A Terra também perde massa continuamente, porque hidrogênio e hélio — os gases mais leves — escapam pelo topo da atmosfera para o espaço. É o mesmo tipo de processo que arrasou o céu do planeta vizinho, contado em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?. As duas contas, a de ganho e a de perda, são pequenas demais para mudar qualquer coisa sobre o nosso planeta.

Uma ressalva honesta para fechar: no começo do Sistema Solar o ritmo era muitíssimo maior. A Terra não se formou com poeira caindo a 48 toneladas por dia — ela se formou com pedras enormes caindo sem parar. As 48 toneladas de hoje são o que sobrou de um bombardeio que já foi violento.

Perguntas frequentes

Quantas toneladas de poeira espacial caem na Terra por dia?

A NASA estima cerca de 48,5 toneladas por dia entrando na atmosfera. Do material que entra, só uma parte chega ao chão: medições feitas na Antártida apontam 5.200 toneladas por ano, ou 14,2 toneladas por dia. O restante vira vapor entre 80 e 100 km de altura.

O que é um micrometeorito?

É um grão de material vindo do espaço, em geral menor que 2 milímetros, que sobreviveu à entrada na atmosfera e chegou ao chão. Quando o grão derrete na queda e se solidifica em forma de bolinha, ele recebe o nome de esférula cósmica.

De onde vem a poeira espacial?

Principalmente de cometas, que soltam pó toda vez que passam perto do Sol, e de colisões entre asteroides. As simulações do estudo feito na Antártida apontam os cometas da família de Júpiter como a fonte da maior parte dela.

Dá para achar poeira espacial no telhado de casa?

Cai de fato: um telhado de 100 m² recebe algo como 650 partículas por ano, pelo cálculo a partir das 5.200 toneladas anuais. Encontrá-las é outra história. Quase tudo que se acha numa calha é fuligem, resíduo de freio ou solda, e separar o que é espacial exige microscópio.

A Terra está ficando mais pesada por causa dessa poeira?

Tecnicamente sim, mas de forma irrelevante. No ritmo de hoje, 4,54 bilhões de anos de poeira somariam uma parte em 74 milhões da massa do planeta. E a Terra também perde massa o tempo todo, pelo escape de hidrogênio e hélio no topo da atmosfera.

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