Marte e vida fora da Terra

Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?

Marte já teve rios e um céu espesso. Hoje tem menos de 1% do ar da Terra. Entenda o que arrancou a atmosfera dele e por que aqui isso não aconteceu.

Publicado em 7 min de leitura
Compartilhar:
O pôr do sol em Marte visto pelo rover Curiosity, com o Sol pequeno e branco baixo no horizonte e um brilho azulado em volta dele, no céu acinzentado e poeirento do planeta
Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS/Texas A&M Univ.
Neste artigo
  1. Como sabemos que Marte já teve uma atmosfera espessa
  2. O escudo que Marte perdeu
  3. O vento solar como ladrão paciente
  4. Por que 100 gramas por segundo bastaram
  5. A gravidade também conta
  6. E Vênus, que é quase do tamanho da Terra?
  7. Dá para devolver a atmosfera de Marte?

Marte perdeu a atmosfera porque ficou sem campo magnético e ficou pequeno demais para segurar o próprio ar. Sem o escudo magnético, o vento solar — o fluxo de partículas que o Sol sopra o tempo todo — passou a arrancar gás do alto da atmosfera marciana e a jogá-lo no espaço, pouco a pouco, durante bilhões de anos. A Terra escapou disso porque tem um núcleo de metal derretido que gira e gera um campo magnético protetor, e gravidade suficiente para segurar o que sobrou.

O resultado está nos números: a pressão do ar na superfície de Marte é de 6,36 milibares, contra 1.013 na Terra. Ou seja, 0,63% da nossa — menos de um centésimo.

Como sabemos que Marte já teve uma atmosfera espessa

Não é chute: é a paisagem que denuncia. Marte tem vales que só água corrente escava, leitos de rio secos, deltas em forma de leque na entrada de crateras e minerais que só se formam com água líquida por perto.

E aqui está o detalhe que transforma tudo em prova: hoje seria impossível ter rios em Marte, mesmo se alguém despejasse água lá. Com uma pressão de 6 milibares, a água não fica líquida — ela ferve e evapora quase imediatamente, mesmo gelada. Para existir rio, tinha que existir ar por cima empurrando. Logo, Marte já teve uma atmosfera bem mais espessa que a de hoje.

O que os rovers acharam desse passado molhado está em Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram.

O escudo que Marte perdeu

A Terra tem, no centro, um núcleo de ferro derretido que gira e se movimenta. Esse metal em movimento funciona como um dínamo e gera o campo magnético do planeta — o mesmo que faz a agulha da bússola apontar para o norte. Ele envolve a Terra inteira e desvia a maior parte do vento solar, como a proa de um barco abre a água.

Marte tem hoje nenhum campo magnético global. Mas nem sempre foi assim. Partes da crosta do hemisfério sul marciano estão fortemente magnetizadas, e a NASA lê isso como o traço deixado por um campo magnético que existiu há cerca de 4 bilhões de anos. É como achar o imã de geladeira ainda grudado numa parede de uma casa cuja rede elétrica foi desligada há muito tempo: a marca ficou, a fonte não.

Por que o dínamo parou? Porque Marte é pequeno. Ele tem cerca de metade do diâmetro da Terra, e corpos pequenos perdem calor mais rápido — pelo mesmo motivo que uma xícara de café esfria antes de uma panela cheia. O interior de Marte esfriou, o metal parou de circular do jeito necessário, e o campo se desligou. A partir dali, a atmosfera ficou exposta.

Ilustração do vento solar atingindo Marte, com o Sol à esquerda soltando filamentos de luz e partículas coloridas escapando do planeta em forma de rastros
Ilustração da NASA mostrando como uma tempestade solar arranca gás do alto da atmosfera de Marte. Não é uma foto: é uma representação feita a partir dos dados da sonda MAVEN. Foto: NASA/GSFC

O vento solar como ladrão paciente

Com o escudo desligado, entra em cena o vento solar. Ele não é vento de ar: é um fluxo de partículas eletricamente carregadas que o Sol sopra em todas as direções, a centenas de quilômetros por segundo. O mesmo fluxo que, aqui, é desviado pelo campo magnético e acaba produzindo as luzes que explicamos em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.

Em Marte, sem escudo, ele age direto. A sonda MAVEN, da NASA, chegou ao planeta em 21 de setembro de 2014 justamente para medir isso, e o mecanismo que ela flagrou é engenhoso: o vento solar carrega consigo um campo magnético e, ao passar raspando por Marte, gera um campo elétrico. Esse campo elétrico acelera átomos eletrizados do alto da atmosfera marciana e os atira para fora, como uma funda.

A velocidade do roubo foi anunciada em 5 de novembro de 2015, nas revistas Science e Geophysical Research Letters: cerca de 100 gramas de gás por segundo. Parece pouco, e é mesmo: dá 8,6 toneladas por dia, o peso de um caminhão carregado.

Por que 100 gramas por segundo bastaram

Aí está a pergunta que quase nenhum texto responde, e a conta é simples de fazer.

A atmosfera que Marte ainda tem pesa cerca de 2,5 × 10¹⁶ kg (dá para calcular a partir da pressão, da gravidade e do tamanho do planeta). No ritmo de hoje, 100 gramas por segundo durante 4 bilhões de anos levariam embora cerca de 1,3 × 10¹⁶ kg — ou seja, mais ou menos metade do ar que ainda existe lá.

Repare no que isso significa: o gotejamento de hoje, sozinho, não explica a perda de uma atmosfera espessa. Marte perdeu muito mais do que isso. A conclusão é que o ritmo já foi bem maior no passado — e é exatamente o que a MAVEN observou: a erosão aumenta muito durante tempestades solares, e o Sol jovem era bem mais violento e ativo do que é hoje. O grosso do roubo aconteceu cedo, quando o Sol tinha temperamento ruim e Marte já estava sem escudo.

Em 2017, a NASA fechou a conta por outro caminho. Medindo o argônio marciano — um gás que só pode sair do planeta por ser "chutado" para o espaço —, a MAVEN e o rover Curiosity concluíram que 65% de todo o argônio de Marte foi perdido para o espaço, junto com a maior parte dos outros gases, inclusive o gás carbônico. Foi assim que se confirmou que a maior parte do ar marciano não afundou no solo nem congelou: ele foi embora.

O que uma tempestade solar forte é capaz de fazer, inclusive aqui, está em Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?.

A gravidade também conta

Campo magnético não é a história inteira. Tem a conta da gravidade, e ela é impiedosa com planetas pequenos.

Para escapar de vez de um planeta, um átomo precisa passar da velocidade de escape. Em Marte ela é de 5,03 km/s. Na Terra, 11,19 km/s — 2,2 vezes maior. Quanto menor a velocidade de escape, mais fácil para um átomo aquecido pelo Sol ganhar impulso suficiente e sumir.

A comparação com uma panela ajuda: a Terra é uma panela funda e tampada, Marte é uma frigideira rasa. O mesmo chiado leva o conteúdo da frigideira embora e deixa o da panela quieto. A ideia de velocidade de escape, sem fórmula, está em O que é gravidade? E por que os astronautas flutuam.

Somando a massa de tudo, a Terra tem hoje cerca de 214 vezes mais ar que Marte.

A comparação lado a lado deixa a diferença clara:

Marte Terra
Pressão na superfície 6,36 mbar 1.014 mbar
Do que o ar é feito 95,1% gás carbônico, 2,59% nitrogênio, 1,94% argônio 78,08% nitrogênio, 20,95% oxigênio
Velocidade de escape 5,03 km/s 11,19 km/s
Gravidade na superfície 3,73 m/s² 9,82 m/s²
Raio médio 3.389,5 km 6.371 km
Campo magnético global não tem tem
Temperatura média −59 °C 15 °C

Valores das fichas planetárias da NASA.

Ilustração da sonda MAVEN, com painéis solares abertos, sobrevoando a superfície alaranjada de Marte
Ilustração da sonda MAVEN em órbita de Marte. Ela chegou ao planeta em setembro de 2014 e é a missão dedicada a entender como a atmosfera marciana foi embora. Foto: NASA/GSFC

E Vênus, que é quase do tamanho da Terra?

Vênus estraga qualquer explicação simples, e por isso vale citá-lo. Ele também não tem campo magnético global, é quase do tamanho da Terra — e, em vez de ter perdido a atmosfera, tem uma atmosfera 90 vezes mais pesada que a nossa.

A lição é que não existe uma causa única. O que decide o destino do ar de um planeta é a combinação entre tamanho, gravidade, campo magnético, distância do Sol e o que está guardado no subsolo. Marte juntou o pior de vários fatores: pequeno, frio por dentro, sem escudo. Vênus juntou outra combinação, igualmente extrema, contada em Por que Vênus é mais quente que Mercúrio?.

Dá para devolver a atmosfera de Marte?

Essa é a pergunta que aparece toda vez que alguém fala em morar lá. A resposta honesta, com o que se sabe hoje, é não — pelo menos não com a tecnologia atual e não em escala humana de tempo.

Dois problemas se somam. O primeiro é de estoque: não está claro que exista, no solo e nas calotas de Marte, gás carbônico suficiente para engrossar a atmosfera até algo respirável ou até permitir água líquida estável. O segundo é de ralo: mesmo que alguém conseguisse liberar tudo, o vento solar continuaria arrancando o ar, porque o campo magnético não voltaria. Seria encher de água uma banheira sem tampa no ralo — possível enquanto a torneira estiver aberta, impossível de manter.

Por isso os planos sérios de ocupação falam em viver dentro de estruturas pressurizadas, e não ao ar livre. O que já foi anunciado nessa direção está em O plano da SpaceX pra colonizar Marte é possível?.

Perguntas frequentes

Por que Marte perdeu a atmosfera?

Porque perdeu o campo magnético que a protegia, há cerca de 4 bilhões de anos, e é pequeno demais para segurar o ar pela gravidade. Sem o escudo, o vento solar passou a arrancar gás do alto da atmosfera e a jogá-lo no espaço. A sonda MAVEN mediu esse roubo acontecendo hoje: cerca de 100 gramas de gás por segundo, com picos durante tempestades solares.

Marte já teve água líquida na superfície?

Tudo indica que sim. Há vales escavados por água corrente, leitos de rios secos, deltas e minerais que só se formam na presença de água. Como hoje a pressão é baixa demais para a água ficar líquida, essas marcas só fazem sentido se o planeta tiver tido uma atmosfera bem mais espessa no passado.

Por que a Terra não perdeu a atmosfera?

Por duas razões que se somam. A Terra tem um núcleo de ferro derretido em movimento que gera um campo magnético global, e ele desvia a maior parte do vento solar. E tem massa suficiente para que a velocidade de escape seja de 11,19 km/s, mais que o dobro da de Marte, o que dificulta muito a fuga dos átomos.

Quanto ar existe em Marte hoje?

A pressão na superfície é de 6,36 milibares, cerca de 0,63% da pressão ao nível do mar na Terra, e varia com a estação. O ar é formado por 95,1% de gás carbônico, 2,59% de nitrogênio e 1,94% de argônio. Somando tudo, a Terra tem cerca de 214 vezes mais ar que Marte.

Dá para recriar uma atmosfera em Marte?

Com o que se sabe hoje, não. Provavelmente não há gás carbônico armazenado suficiente para engrossar a atmosfera ao ponto necessário e, ainda que houvesse, o vento solar continuaria arrancando o ar, porque o campo magnético não voltaria sozinho. Por isso os projetos de ocupação falam em módulos pressurizados, não em céu aberto.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX