Vênus é mais quente que Mercúrio por causa da atmosfera. Mercúrio está muito mais perto do Sol, mas é uma bola de rocha praticamente pelada: o calor que chega de dia escapa inteiro de noite. Vênus está envolto numa camada de gás carbônico tão espessa que o calor entra e quase não consegue mais sair.
O resultado é que Vênus é o planeta mais quente do Sistema Solar, com cerca de 465 °C na superfície — mais quente que a chapa de um fogão no máximo, quente o bastante para derreter chumbo. E, diferente de Mercúrio, ele mantém essa temperatura de dia, de noite, no equador e nos polos, quase sem variação.
Os dois planetas lado a lado
| Mercúrio | Vênus | |
|---|---|---|
| Distância média do Sol | ~58 milhões de km | ~108 milhões de km |
| Temperatura de dia | até ~430 °C | ~465 °C |
| Temperatura de noite | ~−180 °C | ~465 °C (praticamente a mesma) |
| Atmosfera | quase nenhuma | 96,5% de gás carbônico |
| Pressão na superfície | praticamente zero | 92 vezes a da Terra |
| Duração do dia | 176 dias terrestres | 243 dias terrestres |
Repare na linha da temperatura noturna. É ali que está a história inteira.
A resposta curta: um cobertor de 92 atmosferas
A atmosfera de Vênus pesa. Na superfície, a pressão é 92 vezes maior que a do nível do mar na Terra. Isso equivale a estar a cerca de 900 metros de profundidade no oceano — mais fundo do que qualquer mergulhador chega, território de submarino de pesquisa.
E essa atmosfera é feita quase inteira de gás carbônico (96,5%), o gás que melhor segura calor. A luz do Sol atravessa as nuvens, esquenta o chão, o chão devolve esse calor na forma de radiação infravermelha — e o gás carbônico absorve essa radiação e a devolve para baixo, repetidamente. O calor entra com facilidade e sai com muita dificuldade.
Mercúrio não tem nada disso. Tem só uma camada finíssima de átomos arrancados do solo pelo vento solar, tão rarefeita que não conta como atmosfera de verdade. Sem cobertor, o lado iluminado ferve e o lado escuro congela. A diferença entre o dia e a noite em Mercúrio é de mais de 600 graus — a maior de todos os planetas.
O efeito estufa, explicado com o carro no estacionamento
Todo brasileiro já fez o experimento sem querer: deixar o carro estacionado no sol, no meio da tarde, com os vidros fechados. Quando você volta, o volante está impossível de segurar e o ar lá dentro está muito mais quente do que o ar da rua.
Por quê? A luz do Sol atravessa o vidro sem dificuldade e esquenta os bancos e o painel. Mas o calor que essas superfícies devolvem tem mais dificuldade de sair. Resultado: a temperatura dentro sobe muito acima da de fora, mesmo o carro recebendo exatamente o mesmo sol que a calçada ao lado.
A atmosfera de Vênus é o vidro do carro, multiplicado por milhares. (Sendo justo com a física: o carro esquenta principalmente porque o vidro impede o ar quente de circular para fora, enquanto a atmosfera segura a radiação infravermelha. Os mecanismos não são idênticos, mas a sensação de "o calor entra e não sai" é exatamente a mesma.)
Vale dizer que o efeito estufa não é vilão em si. A Terra também tem um, e é graças a ele que a temperatura média do nosso planeta é de agradáveis 15 °C. Sem nenhum efeito estufa, a Terra seria uma bola congelada, com média abaixo de zero. O problema, em Vênus, é a dose.

A reviravolta: Vênus absorve menos sol que Mercúrio
Esta é a parte que fecha o argumento de vez, e quase nunca é contada.
Vênus não está apenas mais longe do Sol — ele também reflete a maior parte da luz que recebe. As nuvens dele são branquíssimas e devolvem para o espaço cerca de 70% da luz solar que chega. É justamente por isso que ele é o objeto mais brilhante do nosso céu depois do Sol e da Lua, aquele ponto que muita gente confunde com avião, como explicamos em Qual é aquela estrela brilhante no céu? Vênus, Júpiter ou Marte.
Mercúrio faz o oposto: a superfície dele é escura, parecida com asfalto, e reflete só uns 12%. Ele engole quase toda a luz que recebe.
Some as duas coisas. Por estar quase o dobro mais longe, Vênus recebe menos de um terço da luz solar por metro quadrado que Mercúrio recebe. E, desse pouco, ainda devolve 70% para o espaço. No fim das contas, cada metro quadrado de Vênus absorve algo em torno de um décimo da energia solar que um metro quadrado de Mercúrio absorve.
Um décimo da energia — e ainda assim é o planeta mais quente do Sistema Solar. Não existe demonstração melhor do poder de uma atmosfera.
Mercúrio, o planeta dos dois extremos (e do gelo)
Já que estamos aqui: Mercúrio é bem mais estranho do que "o planeta mais perto do Sol".
O dia dele é lento de um jeito difícil de imaginar. Entre um nascer do sol e o seguinte passam-se 176 dias terrestres. Ou seja, o "dia" de Mercúrio dura o equivalente a dois anos dele — porque o ano de Mercúrio, a volta em torno do Sol, leva só 88 dias. Quem estivesse em pé na superfície veria o Sol atravessar o céu lentamente, ao longo de meses.
São esses meses de exposição contínua que fazem o lado iluminado chegar a 430 °C, e os meses de escuridão seguidos que derrubam a temperatura para −180 °C.
E aí vem a curiosidade que deixa todo mundo de queixo caído: existe gelo em Mercúrio. Nos polos do planeta há crateras fundas cujo fundo nunca recebeu um raio de sol, porque o eixo de Mercúrio é praticamente reto e o Sol nunca sobe alto o bastante ali. Dentro dessas crateras a temperatura fica permanentemente abaixo de zero, e a sonda americana MESSENGER confirmou que há gelo de água acumulado no fundo delas.
O planeta mais próximo do Sol tem geleiras. É o mesmo princípio das sombras de Mercúrio e dos polos da Lua — e é uma das coisas que a missão europeia e japonesa que está chegando lá pretende estudar melhor, como contamos em BepiColombo chegando a Mercúrio: por que a viagem levou 8 anos.
Como Vênus virou isso: o efeito estufa que fugiu do controle
Vênus tem quase o mesmo tamanho e quase a mesma massa da Terra. É o nosso planeta gêmeo em dimensões. Então por que um virou jardim e o outro, forno?
A hipótese mais aceita é a de um efeito estufa descontrolado. A história, em linhas gerais, é assim:
- Vênus provavelmente teve água líquida no começo, talvez oceanos rasos.
- Estando mais perto do Sol, recebeu calor suficiente para evaporar parte dessa água.
- Vapor de água também segura calor. Mais vapor no ar, mais calor retido; mais calor, mais evaporação. A coisa se retroalimenta.
- Lá em cima, a luz ultravioleta do Sol quebrou as moléculas de água, e o hidrogênio, leve demais, escapou para o espaço. A água foi embora e não voltou.
- Sem água líquida, o gás carbônico que na Terra acaba preso em rochas e oceanos ficou todo no ar. Sobrou a atmosfera que existe hoje.
Modelagens climáticas feitas pela NASA sugerem que Vênus pode ter sido habitável por um bom tempo antes disso acontecer. É uma hipótese em estudo, não um fato estabelecido — não existe registro geológico disponível para confirmar, justamente porque a superfície atual é jovem e foi refeita por vulcanismo.
Seja como for, Vênus é o laboratório natural mais próximo sobre o que uma atmosfera pode fazer com um planeta. E é uma das razões pelas quais procurar mundos parecidos com o nosso é mais difícil do que parece, como discutimos em Os planetas mais parecidos com a Terra já descobertos.
Dá para pousar em Vênus?
Dá — mas não por muito tempo.
A União Soviética conseguiu, numa sequência de missões chamadas Venera, nos anos 1970 e 1980. A primeira a transmitir da superfície foi a Venera 7, em 1970, que aguentou pouco mais de 20 minutos.
O recorde ficou com a Venera 13, que pousou em 1º de março de 1982. Os engenheiros esperavam que ela durasse 32 minutos naquele ambiente. Ela durou 127 minutos — quatro vezes mais — e nesse tempo raspou e analisou uma amostra de solo e transmitiu as primeiras fotografias coloridas já feitas da superfície de outro planeta. Depois, o calor e a pressão venceram a eletrônica.
Para se ter ideia do problema: uma sonda em Vênus enfrenta ao mesmo tempo o calor de um forno industrial, a pressão do fundo do mar e nuvens de ácido sulfúrico. Por isso as missões modernas preferem orbitar e mapear por radar — o mapa da capa deste artigo foi montado com dados de radar da sonda Magellan e de sondas anteriores — ou planejar balões que fiquem flutuando a 55 km de altitude, onde, curiosamente, a temperatura e a pressão são quase as da superfície da Terra.

Se você quiser situar os dois no quadro geral, a ordem e os dados de todos os vizinhos estão em Quantos planetas tem o Sistema Solar? A ordem e os dados.




