Perguntas que todo mundo faz

Cinturão de Asteroides: o que é e por que não virou planeta

Fica entre Marte e Júpiter, tem mais de 1 milhão de rochas e quase nada de matéria. Entenda o que é o Cinturão de Asteroides e por que os filmes erram.

Publicado em 7 min de leitura
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O planeta anão Ceres inteiro, cinzento e coberto de crateras, fotografado pela sonda Dawn; é o maior objeto do Cinturão de Asteroides
Foto: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA
Neste artigo
  1. Onde fica e que tamanho tem
  2. Por que ele nunca virou planeta
  3. O mito do campo de asteroides
  4. Quanta coisa tem lá, de verdade
  5. Do que os asteroides são feitos
  6. Como sabemos tudo isso

O Cinturão de Asteroides é uma região em forma de anel entre as órbitas de Marte e Júpiter, onde estão mais de um milhão de rochas com mais de 1 km de largura, sobrando da formação do Sistema Solar. Ele nunca virou planeta por um motivo com nome e sobrenome: Júpiter. E, ao contrário do que todo filme mostra, atravessá-lo é uma das coisas mais tranquilas que uma nave espacial faz.

Se você juntasse todos os asteroides do cinturão numa bola só, ainda assim não daria para montar uma Lua. É pouca coisa espalhada por um espaço gigantesco.

Onde fica e que tamanho tem

Marte orbita a 1,5 vez a distância da Terra ao Sol. Júpiter, a 5,2 vezes. O cinturão ocupa o vão entre os dois, com a maioria dos asteroides entre aproximadamente 2 e 3,3 vezes a distância Terra–Sol. Ceres, o maior objeto de lá, fica a 2,8 vezes essa distância — 413 milhões de km do Sol.

Para ter ideia do vazio: uma nave que sai da Terra rumo a Júpiter leva meses só para cruzar o cinturão. Não é uma faixa estreita de pedras; é um território com bilhões de quilômetros de largura, no qual as pedras são a exceção e o vácuo é a regra.

A palavra "cinturão" engana um pouco. Os asteroides não estão todos no mesmo plano, como as pedrinhas de um anel de Saturno. As órbitas são inclinadas umas em relação às outras, então o conjunto parece mais uma nuvem achatada, grossa, do que um aro.

Por que ele nunca virou planeta

A resposta curta é Júpiter. A longa é bonita.

Planetas se formam por acúmulo: grãos de poeira se grudam, viram pedras, pedras viram pedregulhos, pedregulhos se batem devagarinho e vão se juntando até virar um mundo. Isso só funciona se as batidas forem lentas. Bateu devagar, gruda; bateu rápido, estilhaça.

Quando Júpiter se formou, a gravidade dele começou a chacoalhar tudo que estava por perto, acelerando as órbitas da vizinhança. As rochas daquela faixa passaram a se cruzar em alta velocidade. A partir daí, cada encontro virou uma pancada destrutiva em vez de uma colagem. Como resume a NASA, a gravidade do recém-nascido Júpiter pôs fim à formação de corpos planetários naquela região e fez os pequenos se despedaçarem uns contra os outros.

Ou seja: o cinturão não é um planeta que explodiu, como se dizia antigamente. É um planeta que nunca chegou a nascer — um canteiro de obras abandonado. É a diferença entre uma casa demolida e um terreno com tijolos espalhados que nunca viraram parede.

Os outros oito conseguiram se formar, e as fichas de cada um estão em Quantos planetas tem o Sistema Solar? A ordem e os dados.

O mito do campo de asteroides

Aqui vai a parte que mais surpreende quem só conhece o cinturão pelo cinema: você poderia atravessar o Cinturão de Asteroides de olhos fechados e não acertaria nada.

Vamos fazer a conta. Espalhe entre 1,1 e 1,9 milhão de asteroides maiores que 1 km (é a estimativa da NASA) pela área do anel entre 2,1 e 3,3 vezes a distância Terra–Sol. O resultado é que, em média, cada asteroide tem uns 500 mil km só para ele — mais que a distância da Terra à Lua, que é de 384.400 km.

E essa conta é generosa, porque ignora a espessura do cinturão. Na prática a separação é ainda maior. Por isso, se você estivesse de pé sobre um asteroide do cinturão, olhando em volta, não veria nenhuma pedra flutuando: veria estrelas, e talvez um ponto de luz fraco aqui ou ali. Nada de desviar de pedregulho como no filme.

Mais de uma dezena de naves já cruzaram o cinturão — as Voyager, a Galileu, a Cassini, a Juno, a New Horizons — e nenhuma precisou desviar de nada. O risco real de colisão é tão baixo que os engenheiros nem consideram esse o problema difícil da viagem.

O asteroide Ida, alongado e coberto de crateras, com sua pequena lua Dactyl como um ponto arredondado à direita, sobre o fundo preto do espaço
O asteroide Ida e a lua dele, Dactyl, fotografados pela sonda Galileu em 28 de agosto de 1993, de 10.870 km de distância. Foi a primeira prova definitiva de que asteroides podem ter luas. Foto: NASA/JPL

Quanta coisa tem lá, de verdade

O cinturão impressiona no número de pedras e decepciona na balança. Somando todos os asteroides, a massa total fica abaixo da massa da nossa Lua. É como ter um milhão de grãos de arroz espalhados num campo de futebol: são muitos grãos, mas dá menos de um prato.

E essa pouca coisa está mal distribuída. Dois objetos sozinhos concentram boa parte de tudo:

Objeto Diâmetro O que é
Ceres 952 km Planeta anão; sozinho tem 25% da massa do cinturão
Vesta cerca de 530 km O maior asteroide propriamente dito

Ceres é grande o bastante para a própria gravidade tê-lo arredondado: ele é uma bola, não uma batata. Os 952 km de diâmetro dele são pouco mais que a distância em linha reta entre o Rio de Janeiro e Brasília, que é de cerca de 930 km. Ele leva 4,6 anos para dar uma volta no Sol.

Ceres também tem uma história de identidade parecida com a de Plutão. Descoberto por Giuseppe Piazzi em 1801, foi tratado como planeta no começo. Depois virou asteroide, e desde 2006 é classificado como planeta anão, por ser grande e diferente demais dos vizinhos rochosos. A mesma reunião que criou essa categoria mudou a vida de outro corpo, como contamos em Por que Plutão não é mais um planeta? A história completa.

Vesta, com cerca de 530 km, é o maior objeto que continua sendo chamado de asteroide. Ele é diferente dos outros: tem camadas, como um planeta de verdade, com núcleo, manto e crosta. Chegou a ser um mundo em formação e parou no meio do caminho.

O asteroide Vesta visto de perto pela sonda Dawn, com a superfície cinzenta cheia de crateras e sulcos, sobre o fundo preto do espaço
Vesta fotografado pela sonda Dawn em 2011. A barra branca indica a escala: 40 km. Dawn foi a primeira nave a orbitar dois destinos diferentes, Vesta e depois Ceres. Foto: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA

Do que os asteroides são feitos

Eles não são todos iguais, e a cor denuncia a receita:

  • Tipo C, de carbono: mais de 75% de todos os asteroides. São escuros, quase pretos, e ricos em compostos de carbono, rocha e argila. Refletem menos de 10% da luz que recebem — mais escuros que asfalto.
  • Tipo S, de silicatos: cerca de 17%. São os pedregosos, mais claros e mais brilhantes.
  • Tipo M, de metal: a minoria. Ricos em ferro e níquel, provavelmente pedaços do núcleo de corpos que se partiram.

O tipo M é o motivo de uma missão em andamento. A sonda Psyche, da NASA, partiu em outubro de 2023 rumo ao asteroide que dá nome a ela, um mundo rico em metal, e a chegada está prevista para meados de 2029. A ideia é olhar de perto algo parecido com o que existe no centro da Terra, em um lugar onde dá para pousar.

Como sabemos tudo isso

Três caminhos, todos com resultado no bolso.

Sondas. A Galileu fotografou o asteroide Ida em 1993 e achou, de brinde, uma lua de 1,5 km em volta dele — batizada de Dactyl. Foi a primeira confirmação de que asteroide também pode ter lua. Depois, a Dawn orbitou Vesta e Ceres, o que permitiu mapear os dois.

Meteoritos. Boa parte das pedras que caem na Terra vem do cinturão, estilhaçada em alguma colisão e empurrada para cá. Elas são amostras grátis, entregues em casa, e o Brasil tem casos famosos — a diferença entre cada nome que a imprensa usa está em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

Telescópios de vigilância. Os mesmos programas que catalogam o cinturão vigiam as rochas que chegam perto da Terra. Vale dizer, para tirar o peso do peito: os asteroides do cinturão não são a ameaça; eles estão longe e comportados. O trabalho de vigilância é explicado em Um asteroide vai atingir a Terra? O que a NASA monitora de verdade.

Perguntas frequentes

O que é o Cinturão de Asteroides?

É a região entre as órbitas de Marte e Júpiter onde orbita a maior parte dos asteroides do Sistema Solar — entre 1,1 e 1,9 milhão de rochas maiores que 1 km, mais milhões de pedras menores. Todas são restos da formação do Sistema Solar, há cerca de 4,6 bilhões de anos, que nunca chegaram a se juntar num planeta.

Por que o Cinturão de Asteroides não virou um planeta?

Por causa da gravidade de Júpiter. Ela acelerou as órbitas das rochas daquela faixa, e assim as colisões passaram a ser rápidas e destrutivas em vez de lentas e "grudentas". Sem batidas suaves, nada se acumula. O cinturão não é um planeta que explodiu: é um planeta que nunca se formou.

Uma nave consegue atravessar o Cinturão de Asteroides?

Consegue, com facilidade. Os asteroides estão separados, em média, por mais de meio milhão de quilômetros — mais que a distância da Terra à Lua. Mais de dez naves já atravessaram o cinturão sem nunca precisar desviar de nada. A imagem de campo de pedras voando lado a lado é invenção do cinema.

Qual é o maior objeto do Cinturão de Asteroides?

Ceres, com 952 km de diâmetro, que sozinho concentra 25% da massa do cinturão. Desde 2006 ele é classificado como planeta anão, e não mais como asteroide. O maior objeto ainda chamado de asteroide é Vesta, com cerca de 530 km.

Os asteroides do cinturão podem cair na Terra?

Os do cinturão, em geral, não: eles ficam entre Marte e Júpiter. O que cai na Terra são fragmentos, arrancados em colisões e desviados ao longo de milhões de anos, e asteroides de outra família, que já têm órbitas próximas da nossa. Esses últimos são os que a NASA monitora de perto.

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