Curiosidades

O que é o espectro eletromagnético?

A luz visível é uma fatia minúscula do que existe. Entenda ondas de rádio, infravermelho, raios X e por que as fotos do espaço têm as cores que têm.

Publicado em 6 min de leitura
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Nebulosa do Caranguejo em cores vivas de rosa, roxo, verde e amarelo, formada pela combinação de imagens de cinco telescópios diferentes
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. Uma única diferença: o tamanho da onda
  2. A lista completa, do rádio ao raio gama
  3. Por que você enxerga só uma fatia
  4. O que a atmosfera deixa passar, e o que ela barra
  5. Cada telescópio enxerga uma faixa, e só
  6. Então as cores das fotos do espaço são reais?
  7. O que cada faixa revela no céu

O espectro eletromagnético é a lista completa de todos os tipos de luz que existem no universo, organizados do mais "esticado" ao mais "apertado". E a parte que os seus olhos enxergam — o arco-íris inteiro, do vermelho ao violeta — é uma fatia minúscula dessa lista. Tudo o mais é luz também: ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho, ultravioleta, raios X e raios gama.

São todos o mesmo fenômeno. A única diferença entre a luz do abajur e o raio X do dentista é o tamanho da onda. Essa frase é a chave do assunto inteiro, e é por causa dela que a NASA constrói telescópios tão diferentes uns dos outros.

Uma única diferença: o tamanho da onda

Pense numa corda de varal amarrada na parede. Se você balança a ponta devagar, faz ondas longas e espaçadas. Se balança bem rápido, faz ondas curtas e apertadas. É a mesma corda e o mesmo movimento — muda só o comprimento de onda, que é a distância de uma crista até a crista seguinte.

A luz funciona assim. Onda longa é onda de rádio. Onda curta é raio gama. E entre os dois extremos cabe tudo o que existe, inclusive a estreita faixa que a evolução ensinou o olho humano a captar.

Três coisas andam juntas e sempre no mesmo sentido:

  • Quanto mais curta a onda, maior a frequência (ela vibra mais vezes por segundo).
  • Quanto maior a frequência, mais energia cada pedacinho de luz carrega.
  • Por isso raio gama atravessa chumbo e onda de rádio atravessa a sua casa sem machucar ninguém.

A lista completa, do rádio ao raio gama

Os valores abaixo são os publicados pelo Imagine the Universe, material educativo do Centro Goddard da NASA.

Faixa Comprimento de onda Energia Onde você encontra
Rádio de 1 cm a 1 km A menor de todas Rádio FM, TV, Wi-Fi; gás frio entre as estrelas
Micro-ondas — Pouco acima do rádio Forno de micro-ondas; galáxias próximas
Infravermelho de 1 a 100 micrômetros Acima das micro-ondas Controle remoto, visão noturna; poeira entre estrelas
Visível de 400 a 700 nanômetros Acima do infravermelho Vaga-lume, lâmpada, estrelas
Ultravioleta Menor que o visível De poucos a cerca de 100 eV O Sol (é o que queima a pele); objetos muito quentes
Raios X Muito menor de 100 a 100 mil eV Radiografia, raio X de bagagem; gás quentíssimo no espaço
Raios gama O menor de todos Acima de 100 mil eV Medicina nuclear; as explosões mais violentas do universo

Para dar escala: um nanômetro é um milionésimo de milímetro. A luz vermelha que você enxerga tem 700 nanômetros — cerca de cem vezes mais fina que um fio de cabelo. E a onda de rádio no outro extremo da tabela pode ter um quilômetro, ou seja, é mais de um bilhão de vezes maior que a luz visível. Tudo isso é a mesma coisa física.

Por que você enxerga só uma fatia

Olhando a tabela, a faixa visível ocupa de 400 a 700 nanômetros. Em comparação com o resto, é quase nada — o equivalente a conseguir ouvir uma única oitava de um piano com milhares de teclas.

Não é coincidência que seja justamente essa faixa. É nela que o Sol emite a maior parte da energia e, principalmente, é ela que atravessa a atmosfera e chega ao chão. Enxergar em raio X não teria servido para nada: não há raio X vindo do céu que chegue até aqui.

O que a atmosfera deixa passar, e o que ela barra

Esta é a razão de existirem telescópios espaciais. Segundo a NASA:

  • Chegam ao nível do mar: ondas de rádio, luz visível e parte do ultravioleta.
  • Chegam parcialmente: alguns comprimentos do infravermelho, observáveis do alto de montanhas.
  • Não chegam: a maior parte do restante da radiação vinda do espaço.

Ou seja, a atmosfera é uma parede com duas janelas: uma grande para o rádio e uma estreita para a luz visível. Todo o resto do universo fica do lado de fora.

Daí a conta: balões sobem a uns 35 km e ficam meses; foguetes passam da atmosfera mas duram poucos minutos; satélite em órbita é a única solução para observar por anos. É por isso que telescópios como o Hubble ficam a centenas de quilômetros de altura em vez de numa montanha, como conta Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.

Cada telescópio enxerga uma faixa, e só

Isso explica por que a NASA não constrói "o telescópio bom" e sim vários telescópios diferentes. Cada um é projetado para uma faixa do espectro, com espelhos, detectores e temperaturas próprios.

O James Webb enxerga no infravermelho, e é por isso que ele vê através das nuvens de poeira que escondem estrelas recém-nascidas: a onda do infravermelho é longa o bastante para contornar os grãos de poeira, enquanto a luz visível bate neles e se espalha. Vale o mesmo raciocínio para enxergar galáxias muito distantes, cuja luz chega esticada. As descobertas estão reunidas em As descobertas mais impressionantes do telescópio James Webb.

Região da constelação de Órion em luz infravermelha, com nuvens de gás em tons de azul, verde, laranja e vermelho e estrelas brilhando no meio
Órion em infravermelho. A olho nu, essa região aparece como um borrão esbranquiçado; a poeira que esconde a cena na luz visível fica transparente no infravermelho. Foto: NASA/ESA/JPL-Caltech/IRAM

Já um telescópio de raios X enxerga o oposto: gás a milhões de graus, matéria caindo em buraco negro, restos de estrelas que explodiram. São coisas quentes e violentas demais para emitirem no visível.

A mesma lógica explica por que a cor de uma estrela já entrega a temperatura dela, assunto de Por que as estrelas têm cores diferentes?.

Então as cores das fotos do espaço são reais?

Esta é a pergunta que todo mundo faz, e a resposta honesta tem duas partes.

Primeira parte: a informação é real. Não há tinta, não há invenção e não há inteligência artificial desenhando nada. Cada cor na imagem corresponde a uma medida de verdade, feita por um detector, de luz que realmente chegou ali.

Segunda parte: a cor exibida é uma tradução. Quando o telescópio mede infravermelho ou raio X, não existe "a cor" daquilo, porque o olho humano não tem como enxergar aquela faixa. Então os cientistas fazem o que um mapa faz com altitude: atribuem cores. O padrão mais comum é manter a ordem do espectro — a onda mais longa vira vermelho, a intermediária vira verde, a mais curta vira azul.

A foto de capa deste artigo é o exemplo perfeito: a Nebulosa do Caranguejo combinando cinco telescópios ao mesmo tempo, do rádio ao raio X. Nenhum olho humano veria aquilo. Cada cor ali é uma faixa diferente do espectro, medida separadamente e empilhada numa imagem só — e justamente por isso a imagem mostra mais do que qualquer olho mostraria.

Chamar isso de "falso" seria tão injusto quanto chamar um raio X de tornozelo de desenho. Sobre as nebulosas em si, vale ler O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.

O que cada faixa revela no céu

Uma forma prática de guardar tudo: cada faixa do espectro é especialista em um tipo de coisa.

Faixa O que ela revela melhor
Rádio Gás frio, pulsares, o eco do Big Bang
Infravermelho Poeira, estrelas em formação, galáxias muito distantes
Visível Estrelas comuns, planetas, a aparência "natural" das coisas
Ultravioleta Estrelas jovens e muito quentes
Raios X Gás a milhões de graus, buracos negros devorando matéria
Raios gama Explosões de supernova e os eventos mais energéticos conhecidos

É por isso que a astronomia moderna quase nunca usa um telescópio só. Observar o mesmo objeto em várias faixas é como examinar um paciente com estetoscópio, radiografia e ressonância: cada aparelho responde uma pergunta que os outros não respondem.

Perguntas frequentes

O que é o espectro eletromagnético, em uma frase?

É o conjunto de todos os tipos de radiação eletromagnética, do rádio ao raio gama, ordenados pelo comprimento de onda. Todos são o mesmo fenômeno físico, e a luz visível é apenas a estreita faixa entre 400 e 700 nanômetros que o olho humano consegue detectar.

Qual é a diferença entre luz visível e onda de rádio?

Só o tamanho da onda, e por consequência a energia. A onda de rádio pode chegar a um quilômetro de comprimento; a luz visível tem centenas de nanômetros. Ambas viajam à mesma velocidade e obedecem às mesmas leis.

Por que existem telescópios no espaço se tem telescópio na Terra?

Porque a atmosfera barra quase tudo. Só as ondas de rádio, a luz visível e parte do ultravioleta chegam ao chão. Para observar raios X, raios gama e a maior parte do infravermelho é preciso estar acima do ar.

As cores das fotos do Hubble e do Webb são verdadeiras?

Os dados são verdadeiros; as cores são uma tradução. Quando a imagem é feita em faixas que o olho não enxerga, atribui-se uma cor visível a cada faixa medida, normalmente preservando a ordem do espectro. É um código de leitura, não um enfeite.

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