Perguntas que todo mundo faz

O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver

Nebulosa é uma nuvem de gás e poeira entre as estrelas. Os cinco tipos, por que umas brilham e outras são manchas pretas, e quais dá para ver do Brasil.

Publicado em 8 min de leitura
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Parede de nuvens alaranjadas de gás e poeira da nebulosa da Carina, com picos e vales parecidos com montanhas, sob um céu azul salpicado de estrelas brilhantes
Foto: NASA ESA CSA STScI
Neste artigo
  1. Do que uma nebulosa é feita (e por que ela é mais vazia que o vácuo)
  2. Por que umas brilham e outras são manchas pretas
  3. Os berçários: de onde vieram o Sol e você
  4. Nebulosa planetária: o nome mais errado da astronomia
  5. Restos de supernova: quando a estrela é grande demais
  6. O que dá para ver do Brasil (e quando)

Uma nebulosa é uma nuvem gigante de gás e poeira flutuando entre as estrelas. Só isso. Nada de misticismo: é matéria-prima do universo espalhada num espaço enorme, geralmente hidrogênio, e às vezes com estrelas nascendo lá dentro ou morrendo bem no meio dela.

O nome vem do latim nebula, "névoa" — e é assim que aparecem no telescópio: manchinhas esfumaçadas. Aquelas fotos coloridas e dramáticas que você vê na internet são reais, mas foram feitas com horas de exposição e filtros que nenhum olho humano tem.

Duas coisas surpreendem quem entende de nebulosa pela primeira vez: elas são absurdamente vazias, e você é feito de uma. Vamos às duas.

Do que uma nebulosa é feita (e por que ela é mais vazia que o vácuo)

A receita é simples: cerca de 90% de hidrogênio, quase 10% de hélio, e um punhado de tudo o mais — oxigênio, carbono, nitrogênio, e uns grãos de poeira do tamanho de fumaça de cigarro.

A densidade é a parte que ninguém espera. No ar da sua sala existem cerca de 25 quintilhões de moléculas em cada centímetro cúbico, um cubinho do tamanho de um dado de jogo — número que aparece em Existe som no espaço? Por que ninguém ouve nada lá fora. Dentro de uma nebulosa densa, esse mesmo cubinho tem algumas centenas ou alguns milhares de átomos.

Traduzindo: uma nebulosa é um vácuo melhor do que o melhor vácuo que a humanidade consegue fabricar em laboratório. Se você atravessasse uma delas com uma nave, não veria nuvem nenhuma pela janela. Não tem névoa para ver de perto.

Então por que ela aparece nas fotos? Porque é enorme. A Nebulosa de Órion tem 24 anos-luz de largura: é pouquíssima coisa por metro cúbico, mas somada ao longo de trilhões de quilômetros dá uma nuvem visível do outro lado da galáxia. É o efeito de uma neblina rala — a dois metros você não vê, a dois quilômetros ela esconde a cidade.

Por que umas brilham e outras são manchas pretas

Uma nebulosa não tem luz própria como uma estrela. O que muda de uma para outra é o que ela faz com a luz das estrelas em volta. São três respostas possíveis, e elas dão nome a três tipos.

Ela absorve a luz e devolve em outra cor. Quando existe uma estrela muito quente por perto, a luz ultravioleta dela arranca elétrons dos átomos de hidrogênio. Quando os elétrons voltam ao lugar, o gás devolve a energia em luz própria, com uma cor característica: o rosa-avermelhado que domina quase toda foto de nebulosa. É a nebulosa de emissão. Funciona como a lâmpada de neon do letreiro da farmácia — o mesmo princípio, gás excitado emitindo cor própria.

Ela reflete a luz como um espelho empoeirado. Se a estrela vizinha não é quente o bastante para ionizar o gás, os grãos de poeira apenas espalham a luz que chega. E espalham melhor o azul do que o vermelho, exatamente como a atmosfera faz aqui em cima da nossa cabeça. Por isso a nebulosa de reflexão é sempre azulada.

Ela bloqueia a luz. Uma nuvem espessa de poeira, sem estrela por perto para acendê-la, aparece como um buraco preto recortado contra o fundo estrelado. É a nebulosa escura, ou de absorção. A mais famosa do céu do Brasil é o Saco de Carvão, ao lado do Cruzeiro do Sul, que povos indígenas já usavam como referência — parte da constelação da Ema, em Constelações: as 88 oficiais e as que se veem do Brasil.

Na prática, a maioria das nebulosas grandes é os três ao mesmo tempo, em pedaços diferentes. A de Órion é um exemplo clássico disso.

Os berçários: de onde vieram o Sol e você

Nebulosas de emissão são quase sempre berçários de estrelas, e esse é o papel mais importante que elas cumprem.

O processo demora milhões de anos e começa pequeno. Alguma coisa comprime um pedaço da nuvem — a onda de choque de uma supernova vizinha, ou só a passagem por um braço da galáxia. Aquele pedaço fica mais denso, então puxa mais gás pela gravidade, então fica mais denso ainda. É uma bola de neve. No centro, a pressão e a temperatura sobem até acender a fusão nuclear, e nasce uma estrela.

Uma nuvem grande não faz uma estrela: faz centenas ou milhares de uma vez, como uma turma de escola. As mais pesadas queimam rápido, ficam azuis e escaldantes, e a luz ultravioleta delas acende o resto da nuvem — que é o que se vê na foto de capa deste artigo.

A parte boa: o Sol nasceu assim, há 4,6 bilhões de anos, numa nebulosa que já se dispersou. E os átomos de cálcio dos seus ossos e o ferro do seu sangue estavam todos naquela nuvem, fabricados antes por estrelas que viveram e morreram. Nebulosa não é só paisagem: é a cadeia de reciclagem do universo.

Nebulosa planetária: o nome mais errado da astronomia

Comecemos pelo aviso: nebulosa planetária não tem nada a ver com planeta.

O nome nasceu no século 18. Nos telescópios pequenos daquela época, esses objetos apareciam como discos pequenos, redondos e esverdeados — parecidos com Urano, que tinha acabado de ser descoberto. O termo, atribuído a William Herschel, pegou e nunca mais saiu. Hoje todo astrônomo acha ruim e todo mundo continua usando.

O que é de verdade: o cadáver ainda quente de uma estrela parecida com o Sol.

Quando uma estrela de massa média fica sem combustível, ela incha, fica instável e começa a soprar as próprias camadas de fora para o espaço, em ondas. Sobra no centro um caroço branco e escaldante — uma anã branca — que ilumina o gás expelido por fora. O resultado são as formas mais bonitas e delicadas do céu: anéis, ampulhetas, borboletas.

Nebulosa em forma de ampulheta, com paredes de gás em vermelho e verde formando dois funis simétricos e, bem no centro, um ponto branco brilhante cercado por um anel esverdeado
A Nebulosa da Ampulheta, fotografada pelo Hubble. O pontinho no centro é o que sobrou da estrela; toda a estrutura colorida em volta é a atmosfera que ela expulsou. Foto: NASA/JPL-Caltech/ESA, the Hubble Heritage Team STScI/AURA

Essas nebulosas são efêmeras pelos padrões do universo: duram algumas dezenas de milhares de anos e se dissolvem, virando matéria-prima para a próxima geração de estrelas.

O Sol vai terminar assim, daqui a uns 5 bilhões de anos — não com uma explosão, apesar do que muita gente acha, como mostra O Sol vai explodir? Quando e o que acontece com a gente.

Restos de supernova: quando a estrela é grande demais

Estrelas muito mais pesadas que o Sol têm outro fim, bem mais violento: explodem. O que sobra espalhado é o remanescente de supernova, o quinto tipo de nebulosa.

O caso mais documentado é a Nebulosa do Caranguejo, a 6.500 anos-luz daqui. A explosão que a criou foi vista da Terra no ano de 1054, e astrônomos chineses registraram por escrito uma "estrela convidada" que apareceu do nada, ficou visível até de dia por semanas e só sumiu quase dois anos depois. Aquele gás continua se afastando a cerca de 1.100 quilômetros por segundo — daria para ir de São Paulo ao Rio em menos de meio segundo.

A diferença entre os dois tipos de cadáver importa: as nebulosas planetárias devolvem ao espaço principalmente carbono e nitrogênio; os restos de supernova são as únicas fábricas de elementos mais pesados que o ferro. Ouro, prata e o urânio dos reatores saíram de eventos assim.

O que dá para ver do Brasil (e quando)

Aqui vem a boa notícia: o hemisfério sul tem as melhores nebulosas do céu, e a Europa e os Estados Unidos não as veem.

Nebulosa Onde procurar Melhor época Precisa de quê
Órion (M42) Logo ao lado das Três Marias Dezembro a março Olho nu em céu escuro; binóculo já mostra o formato
Carina (NGC 3372) Constelação da Carina, na Via Láctea do sul Fevereiro a maio Binóculo; telescópio pequeno mostra muito
Tarântula Dentro da Grande Nuvem de Magalhães Novembro a fevereiro Binóculo, longe da cidade
Saco de Carvão (escura) Colado no Cruzeiro do Sul Abril a julho Olho nu em céu bem escuro
Anel (M57) Constelação da Lira, baixa no norte Junho a agosto Telescópio de 100 mm ou mais

A Nebulosa de Órion é a porta de entrada. Ache as Três Marias e procure a manchinha esfumaçada ao lado. Um detalhe que os mapas importados erram: no Brasil ela aparece acima do cinturão, porque vemos Órion de cabeça para baixo em relação ao hemisfério norte. Fica a 1.340 anos-luz e é a região de formação de estrelas mais próxima da Terra.

A Nebulosa da Carina é a campeã e quase ninguém no Brasil sabe que ela existe. Tem 7 vezes o tamanho da de Órion — cerca de 260 anos-luz de ponta a ponta — e está a 7.500 anos-luz. De Porto Alegre e São Paulo ela sobe alto no céu; de Londres, não nasce nunca. Foi um pedaço dela que o telescópio James Webb fotografou na imagem que abre este artigo, uma das primeiras que ele divulgou e que está em As descobertas mais impressionantes do telescópio James Webb.

Duas bolhas alaranjadas e avermelhadas em forma de halteres, saindo para os lados de um ponto central ofuscante, com filamentos de gás ao redor
A Homúnculo, dentro da nebulosa da Carina: o gás que a estrela Eta Carinae cuspiu numa erupção vista da Terra em 1843. É uma nebulosa que nasceu na frente dos nossos telescópios. Foto: NASA, ESA and the Hubble SM4 ERO Team

Dentro da Carina mora a Eta Carinae, uma das estrelas mais pesadas e instáveis conhecidas. Em 1843 ela teve uma erupção que a tornou a segunda estrela mais brilhante do céu por algumas semanas, e o gás expelido naquele episódio formou a nebulosa da foto acima. Ela é uma séria candidata a virar supernova — e a próxima nebulosa de remanescente do bairro. A história dela está em Qual é a maior estrela do universo? E por que o Sol é pequeno.

Para qualquer uma dessas vale a mesma regra: saia da cidade, deixe os olhos se acostumarem ao escuro por 20 minutos e não olhe para o celular. Nebulosa tem pouco contraste, e Lua cheia atrapalha tanto quanto poste de rua. Onde achar céu escuro no país está em O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre nebulosa e galáxia?

Tamanho e conteúdo. Uma nebulosa é uma nuvem de gás e poeira dentro de uma galáxia, com dezenas de anos-luz de largura. Uma galáxia é o conjunto inteiro: centenas de bilhões de estrelas, mais todas as nebulosas entre elas, com dezenas ou centenas de milhares de anos-luz de diâmetro. A confusão tem raiz histórica — até os anos 1920 as galáxias eram chamadas de "nebulosas espirais", porque ninguém sabia que estavam fora da Via Láctea.

As cores das fotos de nebulosa são reais?

São reais, mas não são o que o seu olho veria. As cores correspondem a luz que a nebulosa emite de verdade, só que muitas vezes fora da faixa visível, ou fraca demais para acionar as células de cor da retina. Os astrônomos atribuem cores visíveis a cada gás — costuma-se usar verde para o oxigênio e vermelho para o enxofre, por exemplo — para que a composição química apareça na imagem. No telescópio, a olho nu, quase toda nebulosa é acinzentada.

Dá para ver nebulosa a olho nu?

Algumas, sim, em céu escuro e longe de cidade. A de Órion aparece como uma manchinha embaçada ao lado das Três Marias, e a da Carina e a Tarântula também são visíveis sem instrumento nenhum se o céu ajudar. Não espere cor nem detalhe: o olho humano tem pouquíssima sensibilidade a cor com luz fraca. Um binóculo simples já muda completamente a experiência.

Existe nebulosa perto da Terra?

Nenhuma nebulosa fica perto pelos padrões humanos. A mais próxima que forma estrelas é a de Órion, a 1.340 anos-luz — mais de 12 quatrilhões de quilômetros. O Sistema Solar está atualmente dentro de uma região de gás mais rarefeito chamada Nuvem Interestelar Local, mas ela é tão tênue que não conta como nebulosa nem aparece em foto nenhuma.

Uma nebulosa é quente ou fria?

As duas respostas são extremas. O gás de uma nebulosa de emissão chega a 10.000 graus, aquecido pela radiação das estrelas jovens; já uma nebulosa escura, sem estrela para acendê-la, fica na casa dos 260 graus negativos. Mas "quente" aqui engana: com tão pouca matéria por metro cúbico, uma nebulosa de 10.000 graus não queimaria uma nave que a atravessasse.

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