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Constelações: as 88 oficiais e as que se veem do Brasil

O que é uma constelação, por que são 88, quais aparecem no céu do Brasil em cada estação e como reconhecer as mais fáceis a olho nu, sem aplicativo.

Publicado em 7 min de leitura
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Céu noturno cheio de estrelas com a faixa da Via Láctea, fotografado atrás de capim alto em uma praia escura
Foto: NASA/Glenn Benson
Neste artigo
  1. Constelação é um bairro, não um desenho
  2. Por que 88, e de onde vieram os nomes
  3. As que aparecem no céu do Brasil, estação por estação
  4. Um método de três passos para reconhecer sem aplicativo
  5. O zodíaco são 13, e não 12
  6. As constelações dos povos do Brasil
  7. Elas vão mudar

Uma constelação é um pedaço do céu com fronteiras definidas, e existem exatamente 88 delas, cobrindo a esfera celeste inteira como os estados cobrem o mapa do Brasil. Os desenhos que a gente aprende, o caçador, o escorpião, a cruz, são só os "pontos turísticos" de cada pedaço. Do Brasil dá para ver, ao longo do ano, quase todas as 88, e algumas das mais bonitas do céu, como o Cruzeiro do Sul e o Escorpião, ficam bem em cima da nossa cabeça. Este guia explica o que uma constelação é de verdade, quais aparecem em cada estação e como reconhecer as fáceis sem aplicativo nenhum.

Constelação é um bairro, não um desenho

Todo mundo aprende que constelação é um grupo de estrelas que forma uma figura. Isso era verdade até 1928. Naquele ano, a União Astronômica Internacional, o órgão que também rebaixou Plutão, dividiu o céu inteiro em 88 regiões com fronteiras precisas, sem deixar buraco nem sobreposição. Desde então, constelação é a região, e não o desenho. Qualquer estrela, planeta ou galáxia está dentro de alguma das 88, mesmo que não faça parte de figura nenhuma.

É como um bairro: a Liberdade, em São Paulo, tem um portal famoso, mas o bairro é tudo o que está dentro da linha no mapa, portal incluído. Por isso a Lua e os planetas "entram" e "saem" de constelações ao longo do ano; eles estão atravessando os bairros do céu.

As figuras conhecidas que não são constelações oficiais têm outro nome: asterismo. As Três Marias são um asterismo, o cinturão da constelação de Órion. O "bule" de Sagitário e a "foice" de Leão também. E o desenho que os livros mostram é convenção: as estrelas de uma constelação não têm nada a ver umas com as outras. Estão a distâncias completamente diferentes e só parecem vizinhas porque estão na mesma direção, como dois prédios que parecem colados na foto mas ficam em ruas distintas.

Por que 88, e de onde vieram os nomes

Quarenta e oito constelações vêm da Grécia antiga, catalogadas pelo astrônomo Ptolomeu no século 2, e muitas delas eram mais antigas ainda, herdadas da Babilônia. São as dos mitos: Órion, Touro, Leão, Escorpião, Andrômeda, Pégaso.

As outras quarenta foram criadas entre os séculos 16 e 18, quando navegadores europeus chegaram ao hemisfério sul e encontraram um céu que os gregos nunca viram. Por isso o céu do sul tem nomes de instrumentos e bichos exóticos: Telescópio, Microscópio, Bússola, Relógio, Tucano, Grou, Camaleão, Peixe Voador. O Cruzeiro do Sul, apesar de famoso, entrou tarde e é a menor das 88. A maior é a Hidra, uma cobra comprida que ocupa um quarto da volta do céu.

Os nomes oficiais são em latim, e cada estrela principal ganha uma letra grega em ordem aproximada de brilho: Alfa do Centauro, Beta do Cruzeiro. Já os nomes próprios, como Sirius, Betelgeuse, Antares, vêm do árabe, do grego e do latim, e alguns têm mil anos.

As que aparecem no céu do Brasil, estação por estação

O céu muda ao longo do ano porque a Terra dá a volta no Sol, e a noite fica apontada para uma parte diferente do espaço a cada estação. A tabela vale para o Brasil inteiro, por volta das 21h, olhando para o alto e para o lado indicado:

Estação Constelações fáceis Como achar
Verão (dez–mar) Órion, Cão Maior, Touro, Gêmeos As Três Marias, três estrelas alinhadas e igualmente espaçadas, no alto. Seguindo a linha delas para baixo se chega a Sirius, a estrela mais brilhante do céu
Outono (mar–jun) Cruzeiro do Sul, Centauro, Leão, Virgem O Cruzeiro fica alto no sul, com as duas "guardiãs" brilhantes do Centauro ao lado. Leão fica alto no norte, com a "foice" invertida
Inverno (jun–set) Escorpião, Sagitário, Lira, Cisne O Escorpião é um S enorme com uma estrela avermelhada no meio, Antares. Fica quase a pino em julho, dentro da parte mais brilhante da Via Láctea
Primavera (set–dez) Pégaso, Grou, Fênix, Eridano, Baleia A época mais "vazia" do céu, com poucas estrelas brilhantes. Compensa com Fomalhaut, solitária no alto, e com Júpiter e Saturno, quando estão por perto

Dois detalhes que só valem para nós. O primeiro: as figuras aparecem de cabeça para baixo em relação aos livros e filmes, que são feitos no hemisfério norte. Órion, o caçador, fica plantado de cabeça para baixo no nosso verão; é assim que os brasileiros o conhecem. O segundo: a Estrela Polar não existe para a gente. Ela fica abaixo do horizonte em quase todo o país. Quem quer achar o sul usa o Cruzeiro, como explicamos em Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu.

Rastros circulares de estrelas em longa exposição sobre o horizonte da Terra, com o brilho alaranjado da atmosfera e luzes de cidades passando embaixo, fotografado da Estação Espacial
Foto de longa exposição feita da Estação Espacial: as estrelas viram rastros porque a Terra (e a Estação) gira. É esse giro que faz as constelações nascerem no leste, atravessarem o céu e se porem no oeste todas as noites. Foto: NASA/JSC

Um método de três passos para reconhecer sem aplicativo

Você não precisa decorar 88 desenhos. Precisa de três âncoras, uma por época do ano, e o resto vai por vizinhança:

  1. Encontre a estrela mais brilhante que estiver no céu. À noite, sem contar planetas (que não piscam), as candidatas no Brasil são Sirius (verão), Canopus (verão, mais ao sul), Alfa do Centauro (outono e inverno) e Arcturus (outono, para o norte). Se aquele ponto brilhante não pisca, provavelmente é Vênus ou Júpiter; o guia Qual é aquela estrela brilhante no céu? Vênus, Júpiter ou Marte resolve a dúvida.
  2. Ache o desenho-âncora daquela estação. Três Marias no verão, Cruzeiro no outono, o S do Escorpião no inverno. São formas que não se confundem com nada.
  3. Ande de vizinho em vizinho. Do cinturão de Órion, a linha das três estrelas aponta para Sirius de um lado e para Aldebaran, o olho vermelho do Touro, do outro. Do Cruzeiro, as duas guardiãs levam ao Centauro. Do Escorpião, o "bule" de Sagitário está logo ao lado, no meio da Via Láctea.

Uma regra que ajuda: estrela pisca, planeta não. E use a mão como régua. Com o braço esticado, o punho fechado cobre uns 10 graus de céu; o Cruzeiro do Sul tem 6 graus de altura, e o cinturão de Órion, 3. Isso dá noção de escala melhor que qualquer mapa.

Se preferir a ajuda de um aplicativo, o celular apontado para o céu mostra o nome de tudo; os gratuitos que testamos estão em Apps grátis que identificam estrelas apontando o celular. Mas tente primeiro sem: o céu decorado a olho nu não some quando a bateria acaba.

O zodíaco são 13, e não 12

As doze constelações do horóscopo são as que ficam no caminho que o Sol percorre no céu ao longo do ano. Só que, com as fronteiras oficiais de 1928, esse caminho atravessa treze constelações: entre Escorpião e Sagitário o Sol passa por Ofiúco, o Serpentário, de fins de novembro a meados de dezembro. E as datas em que o Sol está em cada uma mudaram muito desde a Babilônia, porque o eixo da Terra bamboleia devagar. Quem quiser entender por que a astrologia usa signos e a astronomia usa constelações, e por que os dois não batem, tem a explicação inteira em Astronomia e astrologia: qual é a diferença?.

As constelações dos povos do Brasil

Antes de qualquer europeu, os povos indígenas já tinham o céu mapeado, com figuras próprias e uso prático. Os tupis-guaranis viam, na região do Cruzeiro do Sul e do Escorpião, uma Ema enorme, cuja cabeça é a mancha escura ao lado do Cruzeiro, o "Saco de Carvão". Quando a Ema aparece inteira no céu do anoitecer, em junho, é o começo da estação seca no centro do país. Em Órion e no Touro, eles viam o Homem Velho, e as Plêiades, um bolinho de estrelas no Touro, marcavam a época da chuva e do plantio. Esses conhecimentos foram registrados pelo astrônomo Germano Afonso, que os estudou por décadas, e mostram que constelação sempre foi, antes de tudo, calendário.

Elas vão mudar

Um último fato para desmontar a ideia de céu eterno. As estrelas se movem, cada uma para um lado e a uma velocidade diferente. É devagar demais para uma vida humana perceber, mas em 100 mil anos as Três Marias não estarão mais alinhadas, e o Cruzeiro do Sul terá outro formato. As constelações que os gregos viram são quase as mesmas que vemos hoje; as que a humanidade verá daqui a um milhão de anos serão outras. Enquanto isso, o céu de agora é o mesmo que Cabral viu, e vale a pena conhecer.

Perguntas frequentes

Quantas constelações existem?

Exatamente 88, definidas pela União Astronômica Internacional em 1928 como regiões com fronteiras precisas que cobrem todo o céu. Qualquer ponto do céu está dentro de uma delas. Figuras famosas que não são constelações oficiais, como as Três Marias, se chamam asterismos.

Quais constelações dá para ver no Brasil?

Quase todas as 88 ao longo do ano, porque o Brasil fica perto do equador e enxerga os dois hemisférios do céu. As mais fáceis são Órion no verão, o Cruzeiro do Sul e o Centauro no outono, o Escorpião e Sagitário no inverno. A Ursa Menor, com a Estrela Polar, é a principal que não aparece.

As Três Marias são uma constelação?

Não. As Três Marias são o cinturão da constelação de Órion: três estrelas alinhadas, Mintaka, Alnilam e Alnitak, que formam um asterismo dentro dela. Órion inteira inclui ainda Betelgeuse, avermelhada, e Rigel, azulada, nos cantos opostos do cinturão.

Como identificar uma constelação sem aplicativo?

Comece pela estrela mais brilhante do céu naquela noite, encontre o desenho-âncora da estação (Três Marias, Cruzeiro do Sul ou o S do Escorpião) e siga de vizinho em vizinho usando alinhamentos, como a linha do cinturão de Órion que aponta para Sirius. Lembre que planetas não piscam e não pertencem a desenho nenhum.

Por que as constelações aparecem de cabeça para baixo no Brasil?

Porque os desenhos dos livros e filmes foram feitos por observadores do hemisfério norte, que olham para o mesmo céu do lado oposto do planeta. Do Brasil, Órion aparece com os pés para cima e a Lua crescente fica "virada" em relação às imagens do norte. O céu não está errado; o ponto de vista é outro.

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