Uma constelação é um pedaço do céu com fronteiras definidas, e existem exatamente 88 delas, cobrindo a esfera celeste inteira como os estados cobrem o mapa do Brasil. Os desenhos que a gente aprende, o caçador, o escorpião, a cruz, são só os "pontos turísticos" de cada pedaço. Do Brasil dá para ver, ao longo do ano, quase todas as 88, e algumas das mais bonitas do céu, como o Cruzeiro do Sul e o Escorpião, ficam bem em cima da nossa cabeça. Este guia explica o que uma constelação é de verdade, quais aparecem em cada estação e como reconhecer as fáceis sem aplicativo nenhum.
Constelação é um bairro, não um desenho
Todo mundo aprende que constelação é um grupo de estrelas que forma uma figura. Isso era verdade até 1928. Naquele ano, a União Astronômica Internacional, o órgão que também rebaixou Plutão, dividiu o céu inteiro em 88 regiões com fronteiras precisas, sem deixar buraco nem sobreposição. Desde então, constelação é a região, e não o desenho. Qualquer estrela, planeta ou galáxia está dentro de alguma das 88, mesmo que não faça parte de figura nenhuma.
É como um bairro: a Liberdade, em São Paulo, tem um portal famoso, mas o bairro é tudo o que está dentro da linha no mapa, portal incluído. Por isso a Lua e os planetas "entram" e "saem" de constelações ao longo do ano; eles estão atravessando os bairros do céu.
As figuras conhecidas que não são constelações oficiais têm outro nome: asterismo. As Três Marias são um asterismo, o cinturão da constelação de Órion. O "bule" de Sagitário e a "foice" de Leão também. E o desenho que os livros mostram é convenção: as estrelas de uma constelação não têm nada a ver umas com as outras. Estão a distâncias completamente diferentes e só parecem vizinhas porque estão na mesma direção, como dois prédios que parecem colados na foto mas ficam em ruas distintas.
Por que 88, e de onde vieram os nomes
Quarenta e oito constelações vêm da Grécia antiga, catalogadas pelo astrônomo Ptolomeu no século 2, e muitas delas eram mais antigas ainda, herdadas da Babilônia. São as dos mitos: Órion, Touro, Leão, Escorpião, Andrômeda, Pégaso.
As outras quarenta foram criadas entre os séculos 16 e 18, quando navegadores europeus chegaram ao hemisfério sul e encontraram um céu que os gregos nunca viram. Por isso o céu do sul tem nomes de instrumentos e bichos exóticos: Telescópio, Microscópio, Bússola, Relógio, Tucano, Grou, Camaleão, Peixe Voador. O Cruzeiro do Sul, apesar de famoso, entrou tarde e é a menor das 88. A maior é a Hidra, uma cobra comprida que ocupa um quarto da volta do céu.
Os nomes oficiais são em latim, e cada estrela principal ganha uma letra grega em ordem aproximada de brilho: Alfa do Centauro, Beta do Cruzeiro. Já os nomes próprios, como Sirius, Betelgeuse, Antares, vêm do árabe, do grego e do latim, e alguns têm mil anos.
As que aparecem no céu do Brasil, estação por estação
O céu muda ao longo do ano porque a Terra dá a volta no Sol, e a noite fica apontada para uma parte diferente do espaço a cada estação. A tabela vale para o Brasil inteiro, por volta das 21h, olhando para o alto e para o lado indicado:
| Estação | Constelações fáceis | Como achar |
|---|---|---|
| Verão (dez–mar) | Órion, Cão Maior, Touro, Gêmeos | As Três Marias, três estrelas alinhadas e igualmente espaçadas, no alto. Seguindo a linha delas para baixo se chega a Sirius, a estrela mais brilhante do céu |
| Outono (mar–jun) | Cruzeiro do Sul, Centauro, Leão, Virgem | O Cruzeiro fica alto no sul, com as duas "guardiãs" brilhantes do Centauro ao lado. Leão fica alto no norte, com a "foice" invertida |
| Inverno (jun–set) | Escorpião, Sagitário, Lira, Cisne | O Escorpião é um S enorme com uma estrela avermelhada no meio, Antares. Fica quase a pino em julho, dentro da parte mais brilhante da Via Láctea |
| Primavera (set–dez) | Pégaso, Grou, Fênix, Eridano, Baleia | A época mais "vazia" do céu, com poucas estrelas brilhantes. Compensa com Fomalhaut, solitária no alto, e com Júpiter e Saturno, quando estão por perto |
Dois detalhes que só valem para nós. O primeiro: as figuras aparecem de cabeça para baixo em relação aos livros e filmes, que são feitos no hemisfério norte. Órion, o caçador, fica plantado de cabeça para baixo no nosso verão; é assim que os brasileiros o conhecem. O segundo: a Estrela Polar não existe para a gente. Ela fica abaixo do horizonte em quase todo o país. Quem quer achar o sul usa o Cruzeiro, como explicamos em Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu.

Um método de três passos para reconhecer sem aplicativo
Você não precisa decorar 88 desenhos. Precisa de três âncoras, uma por época do ano, e o resto vai por vizinhança:
- Encontre a estrela mais brilhante que estiver no céu. À noite, sem contar planetas (que não piscam), as candidatas no Brasil são Sirius (verão), Canopus (verão, mais ao sul), Alfa do Centauro (outono e inverno) e Arcturus (outono, para o norte). Se aquele ponto brilhante não pisca, provavelmente é Vênus ou Júpiter; o guia Qual é aquela estrela brilhante no céu? Vênus, Júpiter ou Marte resolve a dúvida.
- Ache o desenho-âncora daquela estação. Três Marias no verão, Cruzeiro no outono, o S do Escorpião no inverno. São formas que não se confundem com nada.
- Ande de vizinho em vizinho. Do cinturão de Órion, a linha das três estrelas aponta para Sirius de um lado e para Aldebaran, o olho vermelho do Touro, do outro. Do Cruzeiro, as duas guardiãs levam ao Centauro. Do Escorpião, o "bule" de Sagitário está logo ao lado, no meio da Via Láctea.
Uma regra que ajuda: estrela pisca, planeta não. E use a mão como régua. Com o braço esticado, o punho fechado cobre uns 10 graus de céu; o Cruzeiro do Sul tem 6 graus de altura, e o cinturão de Órion, 3. Isso dá noção de escala melhor que qualquer mapa.
Se preferir a ajuda de um aplicativo, o celular apontado para o céu mostra o nome de tudo; os gratuitos que testamos estão em Apps grátis que identificam estrelas apontando o celular. Mas tente primeiro sem: o céu decorado a olho nu não some quando a bateria acaba.
O zodíaco são 13, e não 12
As doze constelações do horóscopo são as que ficam no caminho que o Sol percorre no céu ao longo do ano. Só que, com as fronteiras oficiais de 1928, esse caminho atravessa treze constelações: entre Escorpião e Sagitário o Sol passa por Ofiúco, o Serpentário, de fins de novembro a meados de dezembro. E as datas em que o Sol está em cada uma mudaram muito desde a Babilônia, porque o eixo da Terra bamboleia devagar. Quem quiser entender por que a astrologia usa signos e a astronomia usa constelações, e por que os dois não batem, tem a explicação inteira em Astronomia e astrologia: qual é a diferença?.
As constelações dos povos do Brasil
Antes de qualquer europeu, os povos indígenas já tinham o céu mapeado, com figuras próprias e uso prático. Os tupis-guaranis viam, na região do Cruzeiro do Sul e do Escorpião, uma Ema enorme, cuja cabeça é a mancha escura ao lado do Cruzeiro, o "Saco de Carvão". Quando a Ema aparece inteira no céu do anoitecer, em junho, é o começo da estação seca no centro do país. Em Órion e no Touro, eles viam o Homem Velho, e as Plêiades, um bolinho de estrelas no Touro, marcavam a época da chuva e do plantio. Esses conhecimentos foram registrados pelo astrônomo Germano Afonso, que os estudou por décadas, e mostram que constelação sempre foi, antes de tudo, calendário.
Elas vão mudar
Um último fato para desmontar a ideia de céu eterno. As estrelas se movem, cada uma para um lado e a uma velocidade diferente. É devagar demais para uma vida humana perceber, mas em 100 mil anos as Três Marias não estarão mais alinhadas, e o Cruzeiro do Sul terá outro formato. As constelações que os gregos viram são quase as mesmas que vemos hoje; as que a humanidade verá daqui a um milhão de anos serão outras. Enquanto isso, o céu de agora é o mesmo que Cabral viu, e vale a pena conhecer.




