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Os três crepúsculos: quando o céu fica escuro

Entre o pôr do sol e o céu realmente escuro passa mais de uma hora. Veja os três crepúsculos e quanto esperar na sua cidade brasileira.

Publicado em 7 min de leitura
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A curvatura da Terra vista do espaço durante o pôr do sol, com uma faixa fina azul e branca sobre o planeta escuro e um brilho alaranjado abaixo dela
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. Os três degraus, e o que dá para ver em cada um
  2. Por que justamente 18 graus?
  3. Por que o Sul do Brasil espera mais que o Norte
  4. A que horas escurece de verdade, com relógio na mão
  5. O que isso muda na prática
  6. O amanhecer faz o caminho inverso

O Sol se pôs e você acha que já pode observar o céu. Ainda não: entre o pôr do sol e o céu realmente escuro passa mais de uma hora, e no Sul do Brasil a espera chega a uma hora e meia. Esse intervalo tem três etapas, chamadas crepúsculo civil, náutico e astronômico, e saber qual é qual é a diferença entre ver a Via Láctea e achar que ela não apareceu.

A divisão não é poética: ela é definida pela altura do Sol abaixo da linha do horizonte. Mesmo depois de sumir, o Sol continua iluminando o ar lá em cima, e é esse ar aceso que clareia o céu.

Os três degraus, e o que dá para ver em cada um

Etapa Sol abaixo do horizonte O que você consegue ver
Pôr do sol 0° (o disco toca o horizonte) Tudo claro; nenhuma estrela
Crepúsculo civil até 6° As primeiras estrelas bem brilhantes e os planetas. Ainda dá para ler e andar sem lanterna
Crepúsculo náutico de 6° a 12° A maioria das estrelas aparece. No mar, o horizonte ainda é distinguível
Crepúsculo astronômico de 12° a 18° Céu quase preto; some o último resíduo de luz solar
Noite fechada mais de 18° O céu está no escuro máximo que aquele lugar permite

Os nomes vêm do uso. O civil é o limite em que a vida comum ainda funciona sem luz artificial — é esse o crepúsculo que aparece em lei de trânsito e em horário de farol aceso. O náutico vem da navegação: enquanto o horizonte do mar continua visível como uma linha, o navegador consegue medir a altura das estrelas em relação a ele e descobrir onde está. Passado esse ponto, o horizonte some e o método para de funcionar. O astronômico é o que interessa a quem observa o céu: abaixo de 18°, a luz do Sol deixa de contribuir para o brilho do céu.

Depois disso o céu não fica perfeitamente preto, e isso não tem nada a ver com o Sol: sobram a poluição luminosa das cidades e o brilho natural da própria atmosfera, explicado em O brilho do ar (airglow): por que o céu nunca escurece.

Por que justamente 18 graus?

O número parece arbitrário, mas sai de uma conta de geometria simples — e ela explica o fenômeno inteiro.

Quando o Sol se põe para quem está no chão, ele ainda não se pôs para o ar que está lá em cima. Quanto mais alta a camada de ar, mais tarde ela entra na sombra da Terra. E é esse ar ainda iluminado que espalha luz para baixo e mantém o céu claro.

Dá para calcular a altura mínima do ar que continua no sol, bem acima da sua cabeça, para cada etapa:

Sol abaixo do horizonte Só continua iluminado o ar acima de
6° (fim do civil) cerca de 35 km
12° (fim do náutico) cerca de 142 km
18° (fim do astronômico) cerca de 328 km

Agora compare com a atmosfera real. O ar que ainda tem densidade suficiente para espalhar luz de forma perceptível acaba por volta de 80 a 100 km de altura. Ou seja: quando o Sol chega a 18° abaixo do horizonte, a única coisa ainda iluminada está a mais de 300 km — altura em que praticamente não há mais ar nenhum para devolver essa luz para você. Por isso 18°: é o ponto em que a atmosfera que importa já entrou inteira na sombra.

Nos 6° do crepúsculo civil, pelo contrário, a sombra ainda está em 35 km, abaixo de boa parte do ar que espalha luz — e é por isso que o céu continua claro o bastante para dispensar lanterna.

Por que o Sul do Brasil espera mais que o Norte

Aqui está a parte que quase ninguém conta, e que muda o planejamento de uma noite de observação.

O tempo que o crepúsculo dura depende de quão inclinada é a descida do Sol. Perto do equador, o Sol mergulha quase na vertical: ele cruza os 18 graus depressa. Longe do equador, ele desce de lado, arrastando pelo horizonte, e demora muito mais para chegar à mesma profundidade. A física por trás disso — a linha que separa o dia da noite e a velocidade com que ela atravessa o chão — está em Por que existe dia e noite? A explicação simples.

O mínimo teórico, no equador, é de cerca de 69 minutos entre o pôr do sol e o fim do crepúsculo astronômico. Nenhum lugar da Terra escurece mais rápido que isso. E o Brasil, que vai de 5° norte a 33° sul, mostra o efeito inteiro:

Cidade Espera em 15 de novembro Espera em 21 de dezembro
Boa Vista 1h12 1h15
Belém 1h13 1h15
Fortaleza 1h13 1h16
Recife 1h14 1h17
Salvador 1h16 1h19
Brasília 1h17 1h21
Belo Horizonte 1h20 1h24
Rio de Janeiro 1h22 1h27
São Paulo 1h23 1h28
Curitiba 1h25 1h30
Porto Alegre 1h30 1h37

Tempo entre o pôr do sol e o fim do crepúsculo astronômico. Cálculos nossos pela equação do pôr do sol, com os horários de pôr conferidos contra a ferramenta já validada do site. Precisão de cerca de 2 minutos.

Quem está em Porto Alegre na véspera do Natal espera 22 minutos a mais que alguém em Boa Vista na mesma noite. É quase meia hora de diferença dentro do mesmo país.

A que horas escurece de verdade, com relógio na mão

Para dois exemplos concretos, em 15 de novembro de 2026, no horário de Brasília:

Cidade Pôr do sol Fim do civil Fim do náutico Fim do astronômico
Recife 17h19 17h41 18h07 18h33
Brasília 18h22 18h44 19h11 19h39
São Paulo 18h29 18h53 19h22 19h51
Porto Alegre 18h58 19h24 19h56 20h28

Repare em São Paulo: o Sol se põe às 18h29, mas o céu só fica escuro de verdade às 19h51. Quem sai de casa às 19h achando que já está de noite perde a primeira hora olhando para um céu que ainda está clareando.

O que isso muda na prática

Três consequências diretas para quem vai observar.

Para ver a Via Láctea ou objetos fracos, espere o fim do crepúsculo astronômico. Antes disso, a faixa da galáxia simplesmente não tem contraste contra o fundo ainda iluminado. As outras condições necessárias estão em O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil.

Para ver planetas e estrelas brilhantes, não espere nada: eles já aparecem durante o crepúsculo civil. Vênus e Júpiter são visíveis com o céu ainda azul. Aliás, planetas baixos no horizonte só podem ser vistos no crepúsculo, porque se põem logo depois do Sol.

Para fotografar, o intervalo entre o pôr do sol e o fim do crepúsculo civil é a chamada hora azul, quando o céu tem cor e ainda existe luz suficiente para registrar a paisagem junto com os primeiros astros.

E vale somar a espera à escolha do lugar: de nada adianta aguardar a hora certa debaixo de um poste. Os locais mais escuros do país estão em Turismo astronômico: onde ver o céu mais estrelado do Brasil.

O amanhecer faz o caminho inverso

Tudo isso vale de trás para frente de manhã, e muita gente se esquece disso.

O crepúsculo astronômico da manhã começa quando o Sol ainda está 18° abaixo do horizonte, ou seja, cerca de uma hora e vinte antes do nascer do sol nas cidades do Sudeste. É nesse instante que o céu começa a clarear, mesmo que a olho desatento ainda pareça noite fechada.

Para quem observa chuvas de meteoros, que rendem mais de madrugada, esse é o prazo real: a observação acaba quando começa o crepúsculo astronômico, não quando o Sol nasce. Quem planeja olhar "até o amanhecer" perde, na prática, a última hora e meia.

A cor que aparece nesse intervalo, tanto de manhã quanto à tarde, é a mesma física que pinta o céu de dia, contada em Por que o céu é azul? E por que fica laranja no pôr do sol.

A Terra fotografada da Apollo 8, parcialmente iluminada, com a linha entre o dia e a noite cruzando as Américas
A Terra vista pela Apollo 8 em dezembro de 1968, com a linha que separa o dia da noite atravessando a América do Norte e a do Sul. Essa fronteira não é uma linha nítida: é uma faixa de dezenas de quilômetros, e quem está dentro dela está vivendo o crepúsculo. Foto: NASA/JSC

Perguntas frequentes

Quanto tempo depois do pôr do sol o céu fica escuro?

Entre 1h12 e 1h37, dependendo da cidade e da época do ano. No Norte do Brasil a espera é de pouco mais de uma hora; em Porto Alegre, perto do solstício de dezembro, passa de uma hora e meia.

Qual é a diferença entre crepúsculo civil, náutico e astronômico?

É a profundidade do Sol abaixo do horizonte. O civil vai até 6°, e nele ainda dá para enxergar sem luz artificial. O náutico vai de 6° a 12°, e é o limite em que o horizonte do mar ainda é visível. O astronômico vai de 12° a 18°, e no fim dele a luz do Sol deixa de clarear o céu.

Por que escurece mais rápido no Norte do que no Sul do Brasil?

Porque perto do equador o Sol desce quase na vertical e cruza depressa os 18 graus abaixo do horizonte. Em latitudes maiores ele desce inclinado, arrastando pelo horizonte, e demora mais para chegar à mesma profundidade.

A que horas devo sair para observar estrelas?

Some cerca de 1h15 ao horário do pôr do sol se você estiver no Norte ou no Nordeste, e cerca de 1h30 se estiver no Sul. Para ver planetas e estrelas brilhantes, porém, não precisa esperar: eles já aparecem meia hora depois do pôr do sol.

O céu fica totalmente preto depois do crepúsculo astronômico?

Não. A contribuição do Sol acaba, mas sobram a poluição luminosa das cidades, a luz da Lua quando ela está no céu e o brilho natural da atmosfera, que existe em qualquer lugar do planeta.

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