A maior estrela conhecida tem mais de mil vezes o diâmetro do Sol. A recordista hoje é a Stephenson 2-18, com cerca de 1.800 vezes o tamanho do Sol; logo atrás vêm a WOH G64, em outra galáxia, e a VY Canis Majoris, com uns 1.400 a 1.500. Colocada no lugar do Sol, a Stephenson 2-18 engoliria Mercúrio, Vênus, a Terra, Marte, passaria da órbita de Júpiter e chegaria perto da de Saturno. A UY Scuti, que por anos apareceu como a campeã, caiu para cerca de 900 depois que o satélite Gaia mediu a distância dela de novo. Ou seja, "a maior" vem sempre com uma ressalva: estrelas assim não têm borda nítida, estão longe demais para medir com precisão, e o ranking muda a cada estudo. Este artigo apresenta as gigantes, explica por que é tão difícil medi-las, mostra quais dá para ver do Brasil e responde à pergunta que sobra: se elas são tão grandes, por que o Sol é tão pequeno?
As recordistas, com a incerteza que merecem
| Estrela | Diâmetro (em Sóis) | Onde está | Observação |
|---|---|---|---|
| Stephenson 2-18 | cerca de 1.840 | Constelação do Escudo, a uns 19 mil anos-luz | A maior estimativa atual; já foi publicada como 2.150; incerteza grande |
| WOH G64 | cerca de 1.540 | Grande Nuvem de Magalhães, a uns 160 mil anos-luz | Primeira foto de perto de uma estrela de outra galáxia (ESO, 2024) |
| VY Canis Majoris | cerca de 1.420 | Cão Maior, a uns 3.900 anos-luz | Uma das mais bem medidas; expele gás em jatos |
| UY Scuti | cerca de 900 | Constelação do Escudo, a uns 5.900 anos-luz | Era citada com 1.700 antes da distância nova do Gaia |
| Betelgeuse | 640 a 760 | Órion, a uns 550 anos-luz | Visível a olho nu; vai explodir "em breve", em escala astronômica |
| Antares | cerca de 680 | Escorpião, a 550 anos-luz | Visível a olho nu do Brasil, avermelhada |
| Sol | 1 | 1,39 milhão de km de diâmetro |
Todas as grandes são supergigantes vermelhas: estrelas velhas, que já queimaram o hidrogênio do centro e incharam. O Sol vai passar por essa fase daqui a uns 5 bilhões de anos, e vai crescer até cerca de 200 vezes o tamanho atual, como explica O Sol vai explodir? Quando e o que acontece com a gente. Mas nunca vai chegar ao tamanho de uma dessas gigantes, porque começou pequeno demais.
O que "mil vezes maior" significa
Mil vezes o diâmetro é um número que engana. Vale traduzir.
Se o Sol fosse uma moeda de 1 real, com 2,7 cm, a Terra seria um grão de areia a 2,9 metros de distância, e a Stephenson 2-18 seria uma esfera de 50 metros, da altura de um prédio de 17 andares. A VY Canis Majoris teria 38 metros, a altura do Cristo Redentor contando o pedestal. Em volume, dentro da Stephenson 2-18 caberiam cerca de 6 bilhões de Sóis.
Para dar a volta nela, a luz leva sete horas e meia. Um avião de carreira, a 900 km/h, levaria uns mil anos: se tivesse decolado no dia em que Cabral chegou ao Brasil, ainda estaria só um pouco além da metade. Um raio de luz saindo do centro dela levaria mais de uma hora para chegar à superfície, enquanto no Sol leva 2,3 segundos.
Só que uma estrela dessas é quase vazia. Ela tem umas 10 a 30 vezes a massa do Sol espalhada num volume bilhões de vezes maior, e a densidade média fica mais baixa que a do ar que você respira. A parte de fora é um gás tão rarefeito que não dá para dizer onde a estrela acaba: ela vai ficando mais fina até virar uma nuvem em volta. É a primeira razão de o ranking ser incerto.
Por que ninguém tem certeza de qual é a maior
Medir o tamanho de uma estrela exige saber duas coisas: quão brilhante ela parece daqui e a que distância está. Da combinação sai o tamanho. E os dois números são difíceis para as supergigantes.
A distância é o pior. A UY Scuti e a Stephenson 2-18 ficam a milhares de anos-luz, atrás de nuvens de poeira, na direção do centro da galáxia. Um erro de 20% na distância vira um erro de 20% no tamanho, e as estimativas de distância para essas duas variam bem mais que isso. Estudos recentes com o satélite Gaia, da agência espacial europeia, que mede distâncias com precisão inédita, reduziram o tamanho de várias "campeãs" antigas. O caso mais famoso é o da UY Scuti: ela era calculada a uns 9.500 anos-luz, e o Gaia a colocou a uns 5.900. Mais perto, ela não precisa ser tão grande para ter o brilho que tem, e a conta caiu de 1.700 para cerca de 900 vezes o tamanho do Sol. A estrela não mudou; mudou a régua.
O brilho também engana. Essas estrelas mudam de tamanho e de brilho o tempo todo, inchando e murchando ao longo de meses e anos, e parte da luz é bloqueada pela própria poeira que elas expelem. A Betelgeuse, em 2019 e 2020, perdeu dois terços do brilho porque soltou uma nuvem de poeira que a cobriu parcialmente; jornais anunciaram que ela ia explodir, e não explodiu. Se o tamanho medido depende do brilho, e o brilho muda, o tamanho publicado depende de quando se olhou. O que os astrônomos sabem com segurança é que as maiores estrelas têm entre 1.500 e 2.000 vezes o diâmetro do Sol. Qual delas é a campeã é uma questão de arredondamento.

Maior não é o mesmo que mais pesada
Tamanho e massa são coisas diferentes, e as campeãs de cada categoria são estrelas diferentes. A estrela mais massiva conhecida é a R136a1, na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia vizinha visível do Brasil a olho nu como uma mancha no céu do sul. Ela tem entre 200 e 300 vezes a massa do Sol, conforme o estudo, mas só uns 40 vezes o diâmetro: é uma estrela azul, compacta e absurdamente quente, que brilha milhões de vezes mais que o Sol e vai viver só alguns milhões de anos.
Existe um limite. Acima de umas 150 a 200 massas solares, a estrela brilha tanto que a própria luz empurra as camadas de fora para longe; ela se desmancha em vento. Por isso não existem estrelas com mil vezes a massa do Sol. E existe um limite de tamanho também: os modelos dizem que uma supergigante vermelha muito maior que uns 1.500 Sóis seria tão frouxa que se dissolveria. As recordistas estão no limite do que a física permite, e a Stephenson 2-18 está acima dele, por isso muitos astrônomos acham que o número dela ainda vai cair.
Na outra ponta, a menor estrela possível tem cerca de 8% da massa do Sol, o tamanho de Júpiter: abaixo disso não há pressão para acender a fusão nuclear, e o objeto é uma anã marrom, uma estrela que não deu certo. Entre esses dois extremos, o Sol está mais perto do fundo do que do topo em tamanho, mas é maior que a maioria: cerca de 75% das estrelas da galáxia são anãs vermelhas, menores e mais fracas que ele. Nenhuma delas é visível a olho nu. Todas as estrelas que você enxerga no céu, quase sem exceção, são maiores e mais brilhantes que o Sol, porque as pequenas não aparecem de longe.
As gigantes que você vê do Brasil
Duas das maiores estrelas do céu estão entre as mais fáceis de encontrar:
- Betelgeuse, no ombro de Órion, a estrela avermelhada perto das Três Marias, alta no céu de verão. Tem uns 700 Sóis de diâmetro e é a candidata mais famosa a explodir como supernova, o que pode acontecer amanhã ou daqui a 100 mil anos. Quando explodir, vai ficar mais brilhante que qualquer estrela ou planeta, visível até de dia durante semanas, como explica Betelgeuse vai explodir? O que muda no céu quando acontecer.
- Antares, o coração vermelho do Escorpião, alta no céu de inverno, com uns 680 Sóis de diâmetro. O nome quer dizer "rival de Marte", pela cor parecida.
A cor é a pista: estrelas vermelhas são frias por fora, uns 3.500 °C contra 5.500 do Sol, e só brilham tanto porque são enormes. Como achar as constelações delas está em Constelações: as 88 oficiais e as que se veem do Brasil. E a foto de capa deste artigo mostra Eta Carinae, no céu do sul, uma das estrelas mais massivas da galáxia, cercada pelas nuvens de gás que ela mesma expeliu numa erupção gigante em 1843, quando por alguns anos foi a segunda estrela mais brilhante do céu.
Quantas estrelas existem?
A pergunta irmã. Só a Via Láctea tem entre 100 e 400 bilhões de estrelas, e o universo observável tem centenas de bilhões de galáxias. A conta usual dá algo como 200 bilhões de trilhões de estrelas, um 2 seguido de 23 zeros: mais estrelas do que grãos de areia em todas as praias da Terra. A olho nu, numa noite perfeita, longe da cidade, você enxerga umas 2.500 de cada vez. Se elas são tão numerosas e algumas tão grandes, por que o céu é escuro? Essa é uma das melhores perguntas da astronomia, e está respondida em Por que o espaço é escuro se existem bilhões de estrelas?.




