Medos e assuntos virais

Betelgeuse vai explodir? O que muda no céu quando acontecer

A estrela do ombro de Órion vai virar supernova. Entenda quando isso pode ser, o que se veria do Brasil e por que não há perigo nenhum para a Terra.

Publicado em 7 min de leitura
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A estrela Betelgeuse vista em infravermelho pelo telescópio Herschel, como um ponto claro cercado por anéis avermelhados de poeira e gás que ela mesma expeliu
Foto: ESA/Herschel/PACS/L. Decin et al.
Neste artigo
  1. Que estrela é essa e onde ela fica
  2. Por que não há perigo nenhum para a Terra
  3. O que é uma supernova, em duas frases
  4. O que se veria do Brasil
  5. Talvez ela já tenha explodido
  6. O susto de 2019: quando ela apagou
  7. A última que o Brasil viu a olho nu
  8. Então, quando?

Betelgeuse vai explodir, sim — não é boato, é o destino de qualquer estrela daquele tamanho. O que ninguém sabe dizer é quando: pode ser hoje à noite ou daqui a 100 mil anos. E a informação que importa para quem se assusta com o assunto: a explosão não oferece perigo nenhum para a Terra. Ela está longe demais.

Quando acontecer, Betelgeuse vai virar um ponto tão brilhante que dará para vê-lo de dia, a olho nu, por semanas. Depois vai apagar devagar e o ombro do Caçador, no céu, vai ficar vazio para sempre.

Que estrela é essa e onde ela fica

Betelgeuse é a estrela alaranjada do ombro de Órion, a constelação que no Brasil todo mundo acha pelas Três Marias. Ela é uma supergigante vermelha: uma estrela que já queimou o hidrogênio do centro, inchou de forma monstruosa e está nos capítulos finais da vida.

De tão inflada, se ela estivesse no lugar do Sol, engoliria a órbita da Terra e ainda sobraria estrela. As medidas do tamanho variam bastante entre os estudos — algo entre 700 e 1.000 vezes o raio do Sol —, e a massa é estimada em torno de 16 a 18 vezes a do Sol. Esses números são estimativas: medir uma estrela cuja superfície ferve e muda de forma é difícil.

Para quem observa do Brasil, Órion aparece alto no céu do norte entre dezembro e abril, e Betelgeuse é fácil: é a que tem cor de tijolo, no canto oposto ao da estrela azulada Rigel. Como achar a constelação está em Constelações: as 88 oficiais e as que se veem do Brasil.

A distância: o número que ninguém fechou

Aqui entra uma honestidade que a maioria das manchetes pula. Não se sabe com precisão a que distância Betelgeuse está. As estimativas publicadas vão de cerca de 530 anos-luz até cerca de 720 anos-luz, dependendo do método e do estudo — um vai e vem que já mudou várias vezes nos últimos anos.

Isso acontece porque medir distância de estrela longe é difícil, e Betelgeuse é um caso especialmente ruim: ela é enorme, pulsa, muda de brilho e está cercada da própria poeira, o que atrapalha as medições.

Guarde a faixa, porque ela muda tudo o que vem a seguir: entre 530 e 720 anos-luz.

Por que não há perigo nenhum para a Terra

Uma supernova só ameaça um planeta se estourar bem perto. As estimativas mais citadas apontam que seria preciso a explosão acontecer a menos de 50 anos-luz para causar dano relevante à camada de ozônio da Terra.

Betelgeuse está, no mínimo, dez vezes mais longe que isso. A conclusão é direta: quando ela explodir, o efeito aqui será visual. Um espetáculo no céu, e nada mais. Nenhuma onda de choque vai chegar, nenhuma queimadura, nenhum apagão — o que vai chegar é luz, e luz bonita.

Também não há nenhuma outra candidata a supernova perto o suficiente para preocupar. As estrelas capazes de explodir estão todas muito além daquele limite.

Se o medo for com o nosso Sol, a resposta é outra e está em O Sol vai explodir? Quando e o que acontece com a gente: ele não tem massa para virar supernova.

O que é uma supernova, em duas frases

Estrelas grandes vivem fundindo elementos no centro, e essa fusão empurra de dentro para fora, segurando o peso das camadas de cima. Quando o núcleo vira ferro, a fusão para de dar lucro — e aí não há mais nada segurando o desabamento.

O centro despenca em segundos, atinge temperaturas de mais de 100 bilhões de graus, bate no fundo e ricocheteia. Esse coice arremessa as camadas externas para o espaço: é a supernova. É o tipo que os astrônomos chamam de colapso de núcleo, e acontece com estrelas acima de umas 8 massas solares — Betelgeuse se encaixa com folga.

O que fica no lugar depende da massa: uma estrela de nêutrons ou, para as mais pesadas, um buraco negro. Os três destinos possíveis estão comparados em O que sobra quando uma estrela morre?.

Os anéis coloridos do remanescente da supernova 1987A, com um colar de pontos brilhantes em volta de um centro alaranjado, sobre o fundo preto do espaço
O que sobrou da supernova 1987A, a mais próxima observada em quase 400 anos. A imagem combina dados de três telescópios, e as cores marcam diferentes tipos de radiação. Foto: Space Telescope Science Institute Office of Public Outreach

O que se veria do Brasil

Dá para estimar, e a conta é simples. Supernovas desse tipo chegam a um brilho absoluto em torno de −17 na escala dos astrônomos, em que número menor significa mais brilhante. Aplicando esse valor à faixa de distâncias de Betelgeuse, ela apareceria no nosso céu com brilho perto de −10.

Para dar escala, usando os astros que você conhece:

Astro Brilho (magnitude)
Sol −26,7
Lua cheia −12,7
Betelgeuse como supernova (estimativa) cerca de −10
Vênus, no melhor momento −4,6
Betelgeuse hoje cerca de 0,5

Ou seja: entre cinco e nove vezes menos brilhante que a Lua cheia, mas centenas de vezes mais brilhante que Vênus. Na prática, isso quer dizer um ponto de luz visível em pleno dia, forte o bastante para fazer sombra à noite, durante semanas, e depois um lento apagar ao longo de meses.

Esse número é uma estimativa, e merece ser lido como tal: depende da distância exata, que não está fechada, e de quão potente será a explosão.

Talvez ela já tenha explodido

Este é o detalhe que costuma dar um nó na cabeça, e é verdade. Betelgeuse está a algo entre 530 e 720 anos-luz, ou seja, a luz que você vê hoje saiu de lá entre 530 e 720 anos atrás, na época das grandes navegações.

Então, tecnicamente, ela pode já ter explodido e a notícia ainda estar a caminho. Só saberemos quando a luz chegar. Não há nada a fazer com essa informação além de achá-la bonita: o céu que enxergamos é sempre um retrato do passado.

E haverá um aviso, de poucas horas. Numa supernova, uma enxurrada de neutrinos — partículas que atravessam quase tudo — escapa do núcleo e chega antes da luz. Foi exatamente o que aconteceu em 1987: os detectores registraram os neutrinos algumas horas antes de alguém ver o clarão.

O susto de 2019: quando ela apagou

No fim de 2019 e começo de 2020, Betelgeuse fez algo que a colocou em todos os jornais: perdeu cerca de 70% do brilho, chegando ao mínimo em fevereiro de 2020. Ela ficou visivelmente mais fraca a olho nu, e a internet decretou que a explosão era iminente.

Não era. A explicação aceita hoje é bem menos dramática: a estrela expeliu material da própria superfície, esse material esfriou e virou poeira, e a nuvem de poeira ficou na frente, como uma cortina. Betelgeuse não estava morrendo; estava espirrando.

O episódio deixou uma lição sobre como ler notícia de astronomia: variação de brilho numa supergigante vermelha é rotina, não sinal de explosão. Betelgeuse pulsa de brilho há séculos.

A última que o Brasil viu a olho nu

A referência mais próxima que temos é de 1987 — e ela é uma história do hemisfério sul.

Em 23 de fevereiro de 1987, explodiu uma estrela na Grande Nuvem de Magalhães, a galáxia satélite que fica a cerca de 160 mil anos-luz e que só se vê bem do hemisfério sul. A SN 1987A ficou visível a olho nu, e foi a primeira supernova visível sem telescópio desde a que Kepler estudou, em 1604 — quase 400 anos de espera.

Ela rendeu duas primeiras vezes históricas: foi a primeira em que se detectaram os neutrinos da explosão, e a primeira em que se sabia qual era a estrela antes de ela explodir.

Antes dela, o registro mais famoso é de 1054, anotado por astrônomos chineses, cujo estilhaço ainda é visível hoje como a Nebulosa do Caranguejo, apresentada em O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.

Os restos coloridos da supernova Cassiopeia A, um anel irregular de filamentos vermelhos, amarelos e azuis sobre um campo de estrelas
Cassiopeia A, o que sobrou de uma estrela que explodiu há cerca de 350 anos. A imagem junta dados de três telescópios em faixas de luz que o olho não enxerga; as cores foram atribuídas para revelar cada material. Foto: NASA/JPL-Caltech/STScI/CXC/SAO

Então, quando?

A resposta honesta é a mais frustrante: em algum momento dos próximos 100 mil anos, sendo que "hoje à noite" está dentro dessa janela.

Estrelas nessa fase queimam os últimos combustíveis em ritmo acelerado, mas de fora não dá para ver o que acontece no núcleo. Ninguém consegue olhar para Betelgeuse e dizer em que etapa ela está. Cem mil anos parece muito para uma pessoa, mas é um piscar de olhos para uma estrela — e é justamente por isso que astrônomos dizem "a qualquer momento" sem nenhuma contradição.

Se for no nosso tempo, será o maior espetáculo astronômico da história registrada, e o Brasil inteiro terá assento na plateia. Outras candidatas gigantes, e por que ninguém sabe qual é a maior de todas, estão em Qual é a maior estrela do universo? E por que o Sol é pequeno.

Perguntas frequentes

Quando Betelgeuse vai explodir?

Ninguém sabe. A estimativa usual é "dentro dos próximos 100 mil anos", o que inclui a possibilidade de já ter acontecido e a luz ainda estar a caminho. Não existe nenhuma medição capaz de dizer a data, porque o que decide isso acontece no núcleo da estrela, escondido sob camadas que não deixam ver nada.

A explosão de Betelgeuse pode destruir a Terra?

Não. Seria preciso uma supernova a menos de 50 anos-luz para causar dano relevante aqui, e Betelgeuse está pelo menos dez vezes mais longe. O que vai chegar até nós é luz. Não haverá onda de choque, radiação perigosa nem qualquer efeito no clima ou na tecnologia.

Dá para ver a supernova de Betelgeuse de dia?

Pela estimativa, sim. Ela deve chegar a um brilho em torno da magnitude −10, entre cinco e nove vezes mais fraca que a Lua cheia, porém centenas de vezes mais brilhante que Vênus. Um objeto assim é visível durante o dia e deve permanecer assim por semanas antes de apagar aos poucos.

Por que Betelgeuse ficou mais fraca em 2020?

Porque ela expeliu material da própria superfície, que esfriou, virou poeira e formou uma cortina entre nós e a estrela. Ela perdeu cerca de 70% do brilho, chegando ao mínimo em fevereiro de 2020, e depois voltou ao normal. Não foi sinal de explosão iminente.

O que vai sobrar depois que Betelgeuse explodir?

Uma nuvem de gás em expansão, que ao longo de milhares de anos vai formar um remanescente parecido com a Nebulosa do Caranguejo, e um objeto compacto no centro — provavelmente uma estrela de nêutrons, embora um buraco negro não esteja descartado, já que isso depende da massa exata dela.

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