São a mesma coisa. Furacão, tufão e ciclone são três nomes regionais para o mesmo fenômeno: um ciclone tropical. O que muda é o oceano em que a tempestade se forma — e só isso. A NASA é explícita no ponto: "furacão" e "tufão" são nomes especificamente regionais para um ciclone tropical forte. Se a mesma tempestade, com o mesmo vento, se formasse no Caribe, seria furacão; nas Filipinas, tufão; na Índia, ciclone.
Este artigo traz a tabela oficial com o nome usado em cada região, o vento exato que separa uma categoria da outra, e um exemplo que aconteceu nesta semana.
A regra: o nome depende de onde a tempestade está
Quando o vento sustentado alcança o limite de tempestade severa, o nome muda conforme o pedaço de oceano. Esta é a lista publicada pela NASA no material educativo da missão de medição de chuvas:
| Nome usado | Onde |
|---|---|
| Furacão (hurricane) | Atlântico Norte, Pacífico Nordeste a leste da linha de data e Pacífico Sul a leste de 160° L |
| Tufão (typhoon) | Pacífico Noroeste, a oeste da linha de data |
| Ciclone tropical severo (ou ciclone de categoria 3 para cima) | Pacífico Sudoeste a oeste de 160° L e Índico Sudeste a leste de 90° L |
| Tempestade ciclônica muito severa | Índico Norte |
| Ciclone tropical | Índico Sudoeste |
A linha de data citada na tabela é a linha imaginária no meio do oceano Pacífico onde o calendário vira o dia. Repare no que a tabela implica: a leste dela, no Pacífico, a tempestade é furacão; a oeste, é tufão. A mesma tempestade que atravessar essa linha passa a ter outro nome no boletim, sem mudar um único quilômetro por hora de vento.
É exatamente como a mandioca brasileira, que vira macaxeira no Nordeste e aipim no Rio. A raiz é a mesma; muda a placa na feira.
O que todos eles são, tecnicamente
A definição que a NASA usa é cheia de jargão, e vale traduzi-la pedaço por pedaço. Um ciclone tropical é um sistema de baixa pressão sobre águas tropicais ou subtropicais, sem frente associada, com convecção organizada e circulação ciclônica definida dos ventos na superfície.
Desmontando:
- Sistema de baixa pressão: uma região onde o ar pesa menos que em volta, e por isso o ar vizinho é puxado para dentro.
- Sem frente associada: não nasce do encontro entre uma massa de ar frio e uma de ar quente. Essa é a diferença essencial para as tempestades de latitude média, como o ciclone bomba que castiga o Sul do Brasil — assunto de O que é um ciclone bomba, e por que ele não é um furacão.
- Convecção organizada: tempestades de raio e trovão arrumadas em espiral, não espalhadas a esmo.
- Circulação ciclônica: o vento girando em volta de um centro.
Em uma frase de cozinha: é uma máquina movida a água quente de mar, que suga ar pela base, joga para cima em forma de temporal e gira o conjunto inteiro.
O vento que decide o nome
Aqui está a régua, e ela é a mesma em todo o planeta — só os rótulos mudam:
| Vento sustentado | Como se chama |
|---|---|
| Abaixo de 17 m/s (39 mph, cerca de 63 km/h) | Depressão tropical |
| A partir de 17 m/s (39 mph, cerca de 63 km/h) | Tempestade tropical — e ganha um nome próprio |
| A partir de 33 m/s (64 nós, 74 mph, cerca de 119 km/h) | Furacão, tufão ou o nome regional da tabela acima |
Dois detalhes que explicam muita confusão de noticiário.
O primeiro: é no estágio de tempestade tropical que a tempestade ganha nome de gente. Quando você ouve "tempestade tropical Melissa", ela ainda não chegou à força de furacão. Se continuar engordando e passar dos 119 km/h, vira "furacão Melissa" — mesmo nome, categoria nova.
O segundo: 119 km/h é menos do que parece quando se lê o número solto — é a velocidade de um carro em rodovia. O estrago não vem do número isolado, e sim do conjunto. No caso do ciclone Arnab, descrito abaixo, o que a NASA registra é árvore arrancada, plantação e casa alagadas, pesca interrompida e rede elétrica fora do ar.
O caso desta semana: o ciclone Arnab
Um exemplo vivo ajuda a fixar a tabela. Em 29 de outubro de 2026, o Observatório da Terra da NASA publicou a imagem do ciclone Arnab, a primeira tempestade nomeada da temporada de 2026 no Índico Norte.
A ficha dele:
| Dado | Valor |
|---|---|
| Onde se formou | Baía de Bengala, em 25 de outubro |
| Imagem noturna | instrumento VIIRS do satélite NOAA-20, 20h12 UTC de 26 de outubro |
| Vento no momento da imagem | cerca de 140 km/h |
| Chegada à costa | madrugada de 28 de outubro, litoral de Andhra Pradesh e Yanam, entre Bapatla e Visakhapatnam |
| Vento na chegada | 130 km/h |
| Classificação indiana | tempestade ciclônica muito severa |
Olhe de novo para a tabela de nomes: Índico Norte, "tempestade ciclônica muito severa". É exatamente o rótulo da lista, usado pelo Departamento Meteorológico da Índia. A NASA registra que essa força corresponde a algo parecido com um furacão de categoria 1 na escala Saffir-Simpson, usada nas Américas.
Ou seja: um furacão de categoria 1, chamado de outra coisa, porque aconteceu em outro oceano. Dezenas de milhares de pessoas foram retiradas de casa antes da chegada; a tempestade derrubou árvores, alagou plantações e casas e interrompeu transporte e energia.

O que o vento realmente significa
A foto de capa deste artigo é de outro extremo da escala. Ela foi feita em 11 de setembro de 2004 pelo astronauta Edward M. Fincke, da janela da Estação Espacial, a cerca de 370 quilômetros de altitude. É o furacão Ivan, que a NASA descreve como um dos mais fortes já registrados: no momento da foto, no mar do Caribe ocidental, ele tinha ventos de 160 mph — cerca de 257 km/h.
Compare: 257 km/h é o dobro do limite que define um furacão, e mais que o dobro do vento com que o Arnab chegou à Índia. É por isso que a escala Saffir-Simpson existe — dizer apenas "furacão" não distingue um vento de rodovia de um vento de trem-bala.
Do espaço, aliás, é de onde se enxerga a tempestade inteira de uma vez, com o olho no meio. O que mais os satélites conseguem ver de um fenômeno assim está em A Terra à noite: como o satélite vê até um apagão, e a ligação entre temperatura do mar e temporal aparece em Como os satélites enxergam o El Niño?.
E o Brasil, onde entra nessa tabela?
Em lugar nenhum — e essa é a informação mais útil para o leitor brasileiro.
Olhe a lista de regiões outra vez: Atlântico Norte, Pacífico Nordeste, Pacífico Sul, Pacífico Noroeste, Pacífico Sudoeste, Índico Sudeste, Índico Norte, Índico Sudoeste. O Atlântico Sul, que é o nosso oceano, não aparece.
Não é esquecimento da NASA. É que ciclones tropicais praticamente não se formam ali, e por isso a bacia nunca precisou de um nome regional próprio nem de uma lista oficial de nomes prontos. A exceção histórica, o furacão Catarina de 2004, e o motivo de o Atlântico Sul ser tão avesso a esse tipo de tempestade estão explicados em detalhe no artigo sobre ciclone bomba, linkado acima.
O que o Brasil tem, e com frequência, são ciclones extratropicais — aqueles que nascem do encontro de ar frio com ar quente, a categoria que a definição lá de cima exclui de propósito. Eles podem ter vento forte e causar estrago sério no Sul e no Sudeste, mas são outra máquina, com outro combustível.




