Os satélites enxergam o El Niño de três maneiras diferentes e complementares: medindo a altura da superfície do mar, medindo a temperatura dessa superfície e, desde 2024, medindo a cor da água. Nenhuma delas é foto comum. São instrumentos que leem o oceano de cima, todo dia, sobre milhões de quilômetros quadrados que nenhum navio conseguiria cobrir. Em 15 de outubro de 2026, a NASA publicou o que essa frota está vendo neste momento: segundo a agência americana de oceanos e atmosfera, a NOAA, há 83% de chance de estar em curso o El Niño mais forte desde 1950. Este artigo explica como cada um desses três olhares funciona — e por que a cor do mar, o mais novo deles, é o que conta a história mais surpreendente.
O que é o El Niño, em uma frase
El Niño é um padrão climático natural que aparece a cada dois a sete anos, mais ou menos, e que consiste em águas mais quentes que o normal em partes do Pacífico equatorial. A NASA o descreve como um fenômeno mais raro que um eclipse solar e mais poderoso que qualquer tempestade isolada.
Ele não fica parado no mar: inverte os ventos alísios, redistribui o calor do oceano, bagunça os padrões de chuva pelo mundo e levanta o nível do mar em partes do Pacífico. Agricultores, bombeiros e comunidades costeiras de vários continentes já estão sentindo os efeitos, cada um de um jeito.
Como esse de 2026 começou
A história dele tem data de início e foi vista do espaço. Em janeiro de 2026, apareceu nas imagens de satélite um volume de água quente chamado onda de Kelvin, perto da Micronésia, no Pacífico ocidental.
Ondas de Kelvin são pulsos lentos de água com milhares de quilômetros de comprimento. A NASA as compara a rodovias submarinas: elas transportam calor de oeste para leste através do Pacífico. E aí começa uma reação em cadeia:
- A água quente aquece o ar logo acima dela, e esse ar sobe.
- A mudança de pressão enfraquece, e às vezes inverte, os ventos alísios, que normalmente sopram das Américas para a Ásia.
- Com os ventos fracos, o nível do mar no Pacífico leste sobe ainda mais e a água esquenta ainda mais.
Isso é o começo de um El Niño. Em início de abril de 2026, as ondas de Kelvin já tinham chegado ao Pacífico leste e a temperatura da superfície começava a subir.
"As ondas de Kelvin são como o batimento cardíaco do El Niño", disse Josh Willis, cientista responsável pelas missões de nível do mar no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. "E nossos satélites de nível do mar nos deixam espiar dentro do oceano e assistir a cada batida."
Jeito 1: medir a altura do mar
Este é o mais antigo e o mais preciso. A água quente se expande — ocupa mais volume que a mesma água fria. Então, onde o oceano esquenta, ele literalmente incha.
Os satélites da série Sentinel-6 medem a altura da água de todo o oceano a cada 10 dias, com precisão de frações de polegada — e a polegada tem 2,54 centímetros. Os altímetros de radar a bordo varrem milhões de quilômetros quadrados de mar num único dia.
Os números deste El Niño, medidos assim:
| O que o satélite mediu | Valor |
|---|---|
| Elevação do nível do mar em algumas áreas | de 30 a 40 cm acima do normal |
| Rebaixamento perto da Indonésia e norte da Austrália | de 15 a 20 cm abaixo do normal |
| Temperatura da superfície no Pacífico leste | cerca de 1,7 °C acima da média histórica |
| Frequência de medição da altura do mar | o oceano inteiro a cada 10 dias |
| Série contínua de altimetria | desde 1993, sem interrupção |
Repare no detalhe das duas pontas: enquanto o mar sobe 30 a 40 centímetros em algumas áreas, ele desce 15 a 20 centímetros do outro lado do Pacífico. É o mesmo oceano se reorganizando, como água num prato fundo que você inclina de leve.
Essa série de medições é contínua desde 1993, o que é raríssimo em dados ambientais. É ela que permite comparar o El Niño de agora com os anteriores — o mapa que abre este artigo é de outubro de 1997, no auge de um dos El Niños mais fortes já medidos, e serve justamente de régua para o de hoje. Não confunda esse inchaço com o sobe e desce diário da água, que tem outra causa e está explicado em O que é maré? Por que o mar sobe e desce.

Jeito 2: medir a temperatura da superfície
A água mais quente que o normal é o sinal mais conhecido do El Niño, e também o mais direto de medir.
Satélites equipados com radiômetros de micro-ondas e de infravermelho conseguem enxergar através e ao redor das nuvens para medir a energia térmica na superfície do mar. Isso resolve um problema prático enorme: boa parte do Pacífico tropical vive encoberta, e um instrumento que só enxergasse luz visível ficaria cego justamente onde o fenômeno acontece.
Em 2026, esses satélites mapearam a faixa de água mais quente se espalhando ao longo da primavera do Hemisfério Norte. A faixa se estende por milhões de quilômetros quadrados, do coração do Pacífico até a costa da América do Sul. A temperatura da superfície no Pacífico leste está cerca de 1,7 °C acima da média de longo prazo e, segundo Willis, pode subir mais uma fração de grau nos próximos meses.
Pode parecer pouco. Mas estamos falando de aquecer uma área de oceano maior que vários países somados em quase dois graus — e é o ar logo acima dessa água que carrega calor e umidade para a atmosfera, semeando tempestades e rearranjando padrões de chuva pelo planeta.
Jeito 3: medir a cor da água
Este é o mais novo e o mais bonito. O El Niño muda a cor do oceano, e existe um satélite da NASA acompanhando essas mudanças sutis: o PACE, lançado em 2024. Este é o primeiro El Niño observado por ele.
"Algumas pessoas pensam na água como sendo só azul, mas é impressionante a quantidade de cores que o oceano pode ter", disse Matthew Kehrli, cientista da equipe do PACE no Centro Goddard de Voos Espaciais da NASA.
O instrumento de cor do oceano a bordo observa em centenas de comprimentos de onda diferentes — luz visível, infravermelho próximo e ultravioleta. Com esses dados, os pesquisadores calculam a cor média do oceano, resumida num único número.
E o que ele viu em 2026: as águas do Pacífico equatorial ficaram mensuravelmente mais azuis nos últimos meses.

Mais azul parece bonito e é má notícia. A explicação está no fitoplâncton, as plantas microscópicas que formam a base da cadeia alimentar do mar. Existem milhares de espécies, em tons de verde, marrom e turquesa, e são elas que tiram o azul puro da água.
O fitoplâncton prospera em águas frias e ricas em nutrientes. Durante um El Niño, os ventos alísios enfraquecidos reduzem a ressurgência — o movimento que traz água profunda e rica em nutrientes para a superfície. Com menos comida, a população de fitoplâncton cai, o verde some e o azul aparece. E isso se propaga: com a base da cadeia alimentar encolhendo, outros animais marinhos precisam se mudar para achar o que comer.
E para o Brasil, o que isso significa?
Aqui é preciso ser honesto sobre o limite desta reportagem. As fontes da NASA usadas aqui descrevem o fenômeno no Pacífico e como ele é medido, e dizem que ele bagunça padrões de chuva pelo mundo todo. Elas não publicam previsão de chuva, seca ou temperatura para o Brasil, e nós não vamos preencher essa lacuna com estimativa própria: para saber o que esperar na sua região, a fonte certa são os órgãos brasileiros de meteorologia.
O que dá para dizer com segurança, e já é bastante: a faixa de água quente chega até a costa da América do Sul, o fenômeno está sendo acompanhado em tempo quase real por uma frota de satélites, e os dados são públicos. O Brasil também tem os seus olhos no espaço apontados para cá, como conta Amazônia-1: o que o satélite brasileiro faz por você. E, como todo satélite, os que medem o oceano têm prazo de validade — o motivo está em Quanto tempo um satélite fica no espaço antes de cair?.
"O El Niño toca quase todos nós de alguma forma, toda vez que acontece", resumiu Willis. "Muita gente já viu o que ele pode fazer; nós olhamos para o oceano para entender por quê."




