Maré é a subida e a descida do nível do mar que acontece, na maior parte do litoral brasileiro, duas vezes por dia. E a causa não é a que quase todo mundo aprendeu: a Lua não "puxa a água para cima". O que ela faz é puxar um lado da Terra com mais força do que o outro — e é essa diferença de puxão, e não o puxão em si, que empilha água nas duas pontas do planeta. Quem entende essa frase entende maré para sempre, inclusive por que existem duas marés altas por dia e por que a Lua cheia enche mais a praia.
A Lua não puxa o mar: ela puxa mais um lado que o outro
A gravidade fica mais fraca com a distância. A Lua está a 384.400 km do centro da Terra, mas o nosso planeta tem 6.371 km de raio — então o lado da Terra virado para a Lua está mais perto dela, e o lado oposto está mais longe.
Fazendo a conta com esses números, o lado voltado para a Lua sente um puxão 3,4% mais forte que o centro do planeta, e o lado oposto sente 3,2% mais fraco. Do lado de cá para o lado de lá, a diferença é de 6,6%. Parece pouco, e é: mas ela age sobre toda a água do planeta, o tempo inteiro, há bilhões de anos.
Uma imagem ajuda. Pense em três pessoas de mãos dadas numa fila, e alguém puxando a primeira. A da frente é puxada mais forte, a do meio menos, a de trás menos ainda. A fila não sai inteira do lugar: ela estica. A Terra faz o mesmo com a água: o lado da frente é puxado para longe do centro, e o centro é puxado para longe do lado de trás. Resultado: dois calombos de água, um de cada lado.
Esse "puxão que estica" tem nome: força de maré. É a diferença entre o puxão em um ponto e o puxão no centro do corpo. Se você quiser entender a gravidade em si antes de seguir, o básico está em O que é gravidade? E por que os astronautas flutuam.
Por que existem duas marés altas por dia, e não uma
Se a água se empilha dos dois lados do planeta, então a Terra, girando, leva cada cidade do litoral a passar por dois calombos a cada volta. Daí as duas marés altas e as duas marés baixas por dia.
Essa é a parte que confunde: é fácil aceitar a maré alta do lado da Lua, mas a do lado oposto parece mágica. Não é. Do lado oposto, a Lua puxa a água menos do que puxa o centro da Terra — então, na prática, o centro do planeta é puxado para longe daquela água, e ela fica para trás. Visto de quem está na praia, o mar subiu.

Vale a honestidade: nem todo lugar do mundo tem duas marés por dia. O formato das bacias oceânicas e a profundidade mudam a resposta da água, e há costas com uma só maré alta diária e outras com um padrão misto. No Brasil, o padrão de duas é o normal.
Por que a maré atrasa quase uma hora todo dia
Quem pesca ou surfa sabe: a maré de hoje não acontece no mesmo horário de ontem. Ela atrasa, em média, 50 minutos por dia.
O motivo é que a Lua não fica parada esperando. Enquanto a Terra dá uma volta em 24 horas, a Lua avança um pedaço da própria órbita. Para um ponto do planeta voltar a ficar exatamente embaixo da Lua, a Terra precisa girar um tiquinho a mais, e esse tiquinho custa cerca de 50 minutos. É o chamado dia lunar, de 24 horas e 50 minutos. Divida por dois e você tem o intervalo entre uma maré alta e a seguinte: 12 horas e 25 minutos.
É o mesmo motivo pelo qual a Lua nasce mais tarde a cada noite, explicado em Por que a Lua aparece de dia? A explicação simples.
Maré de sizígia e maré de quadratura: o Sol entra na conta
O Sol também faz maré. Ele tem 27 milhões de vezes a massa da Lua, mas está 390 vezes mais longe — e, como a força de maré cai muito rápido com a distância, o que sobra é menos da metade do efeito lunar. A conta, refeita aqui com as massas e distâncias das fichas da NASA, dá 46%: a maré solar tem pouco menos da metade da força da maré lunar.
| Astro | Massa | Distância da Terra | Força de maré (Lua = 100) |
|---|---|---|---|
| Lua | 7,3 × 10²² kg | 384.400 km | 100 |
| Sol | 2,0 × 10³⁰ kg | 149,6 milhões de km | 46 |
Como os dois somam ou brigam conforme a posição, o resultado muda com a fase da Lua:
| Fase da Lua | Sol e Lua estão | Tipo de maré | O que acontece na praia |
|---|---|---|---|
| Nova e cheia | Alinhados | Sizígia | A maré alta é mais alta e a baixa é mais baixa |
| Quarto crescente e minguante | Em ângulo reto | Quadratura | A diferença entre alta e baixa é a menor do mês |
"Sizígia" é só o nome técnico para Sol, Terra e Lua praticamente na mesma linha; "quadratura" é quando a Lua está a 90 graus do Sol, vista daqui. Traduzindo: é na Lua nova e na Lua cheia que o mar recua mais e avança mais. Não é lenda de pescador, é geometria. As datas exatas de cada fase até o fim de 2027 estão em Calendário lunar 2026 e 2027: todas as fases com hora de Brasília, e o porquê de a Lua mudar de forma está em Por que a Lua tem fases? A explicação simples e as datas.
Por que São Luís tem 7 metros de maré e outras praias quase nada
Aqui entra o detalhe que a física sozinha não explica: a força de maré é praticamente a mesma no mundo inteiro, mas a altura da maré varia de forma brutal de um lugar para outro. Quem decide isso é o formato da costa.
A água que sobe precisa caber em algum lugar. Quando ela entra por uma baía que vai afunilando, o mesmo volume tem de ocupar um espaço cada vez mais estreito e raso — e sobe muito mais. É o efeito de funil.
O campeão brasileiro é São Luís, no Maranhão, no Golfão Maranhense, onde as baías de São Marcos e São José estreitam a passagem da água: nas marés de sizígia, a variação chega a cerca de 7 metros, a maior do litoral do país. Na baixa-mar o mar some do horizonte e aparecem bancos de areia que se estendem por centenas de metros; horas depois, a água volta. No outro extremo, boa parte do litoral do Sudeste e do Sul vive com variações de um a dois metros.
O caso mais extremo do planeta é a Baía de Fundy, no Canadá, com cerca de 16 metros — a altura de um prédio de cinco andares. E no Mar Mediterrâneo acontece o oposto: é um mar quase fechado, ligado ao Atlântico só pelo estreito de Gibraltar, e na maior parte da costa a maré não passa de algumas dezenas de centímetros.

Quando o funil é um rio, o resultado pode virar uma onda que sobe o curso d'água contra a correnteza: é a pororoca, que acontece em rios do Norte e do Nordeste brasileiro justamente nas marés de sizígia.
A maré que ninguém vê: a rocha, o ar e o dia que está aumentando
A água é só a parte visível. A mesma diferença de puxão deforma a rocha da Terra, que sobe e desce alguns centímetros duas vezes por dia sem que ninguém perceba, e a atmosfera também tem maré.
E a Terra devolve o favor com juros. Como a nossa gravidade é muito maior, a maré que fazemos na Lua é bem mais forte: a superfície lunar se mexe de 10 a 15 centímetros por causa de nós, segundo a NASA. Foi esse aperto, ao longo de bilhões de anos, que travou a rotação da Lua e nos deixou vendo sempre a mesma face, história contada em O que existe do lado oculto da Lua?.
Tem mais: os calombos de água arrastam contra o fundo do oceano e freiam a rotação da Terra. O dia está ficando mais longo cerca de 2 milésimos de segundo por século — havia dias de umas 21 horas quando os primeiros animais complexos apareceram, 600 milhões de anos atrás. Em troca, a Lua se afasta 3,8 centímetros por ano, mais ou menos a velocidade com que a sua unha cresce. Os números de cada planeta estão em Quanto tempo dura um dia em cada planeta do Sistema Solar.
A mesma conta explica vulcão em Io e oceano em Europa
Uma vez entendida, a força de maré aparece em todo canto do Sistema Solar, e quase sempre é ela a responsável pelas coisas mais estranhas.
Em Io, lua de Júpiter, o aperto é tão violento que derrete o interior inteiro e alimenta centenas de vulcões — a história está em Io: a lua mais vulcânica do Sistema Solar. Em Europa, a mesma massagem mantém água líquida embaixo de quilômetros de gelo, como se conta em Europa: a lua de Júpiter com um oceano escondido. E em Fobos, a lua maior de Marte, a força de maré vai acabar despedaçando o corpo inteiro, conforme Fobos e Deimos: as duas luas de Marte.
Em todos esses casos é o mesmo mecanismo do mar na praia de Fortaleza. Só muda a escala.




