Io é uma lua de Júpiter quase do tamanho da nossa e tem cerca de 400 vulcões em atividade — mais do que qualquer outro lugar conhecido do Sistema Solar. Alguns lançam jatos de material a dezenas de quilômetros de altura. E o mais estranho: ela não devia estar quente. Um corpo desse tamanho já deveria ter esfriado há bilhões de anos, como a nossa Lua esfriou. O que mantém Io derretida por dentro não é calor de nascença — é aperto, aplicado por Júpiter e por duas luas vizinhas, sem parar, desde sempre.
A ficha de Io, sem enrolação
Os números abaixo vêm da ficha de satélites de Júpiter do centro de dados da NASA. A comparação com a nossa Lua é o jeito mais rápido de sentir a escala.
| Io | Nossa Lua | |
|---|---|---|
| Diâmetro | 3.643 km | 3.475 km |
| Densidade | 3.530 kg/m³ | 3.344 kg/m³ |
| Distância do planeta | 421.800 km | 384.400 km |
| Uma volta completa | 1 dia, 18 h e 25 min | 27,3 dias |
| Vulcões ativos | cerca de 400 | nenhum |
Repare na terceira linha: Io orbita Júpiter a uma distância parecida com a que nos separa da Lua. Só que, em vez de girar em torno de uma bola de rocha, ela gira em torno do maior planeta do Sistema Solar, com 318 vezes a massa da Terra. É essa combinação que faz toda a diferença, e os números de Júpiter estão em Júpiter: o maior planeta do Sistema Solar em números.
E ela corre. Dividindo o comprimento da órbita pelo tempo de uma volta, Io se move a 17,3 km por segundo, ou 62 mil km/h — quinze vezes a velocidade de um avião de carreira.
Por que uma lua desse tamanho continua derretida
A resposta é força de maré, a mesma coisa que faz o mar subir e descer na praia. Ela não é um puxão: é a diferença de puxão entre o lado de cá e o lado de lá de um corpo, e é ela que estica. A explicação completa está em O que é maré? Por que o mar sobe e desce.
Só que, em Io, esse esticão é monstruoso e, pior, muda de intensidade o tempo todo. A órbita de Io não é um círculo perfeito: ela é levemente ovalada, então Io ora chega um pouco mais perto de Júpiter, ora se afasta um pouco. Perto, o aperto aumenta; longe, diminui. A lua inteira é amassada e solta, amassada e solta, duas vezes por volta — e uma volta dura menos de dois dias.
A analogia que funciona é o clipe de papel. Dobre um clipe para lá e para cá umas vinte vezes e encoste no ponto dobrado: está quente. Você não esquentou nada, só entortou. Io é um clipe do tamanho da Lua sendo entortado há 4,5 bilhões de anos.
Falta explicar por que a órbita continua ovalada. Se Io estivesse sozinha, o próprio atrito já teria arredondado a órbita e o aquecimento teria acabado. Mas ela não está sozinha: a cada volta que Ganimedes dá em torno de Júpiter, Europa dá duas e Io dá quatro, exatamente. Esse ritmo travado faz as três luas se encontrarem sempre na mesma configuração e se cutucarem no mesmo lugar, mantendo a órbita de Io esticada à força. As vizinhas têm artigo próprio: Europa: a lua de Júpiter com um oceano escondido e Ganimedes: a maior lua do Sistema Solar.
Os vulcões, e uma superfície sem nenhuma cratera
O resultado é uma paisagem que não existe em nenhum outro lugar. Io tem lagos de lava a céu aberto e fontes que jogam material a dezenas de quilômetros de altura — fora de qualquer comparação com um vulcão terrestre, porque a gravidade lá é fraca e não há ar para frear nada.
As cores vêm do enxofre e de compostos de enxofre depositados pelas erupções, o que dá a Io o aspecto que rendeu o apelido de pizza. A atmosfera, raríssima, é feita principalmente de dióxido de enxofre, o mesmo gás sufocante que sai dos vulcões daqui.

Tem um detalhe que só se percebe olhando com calma: Io quase não tem cratera de impacto. Todo corpo sem atmosfera do Sistema Solar é marcado de crateras, a começar pela nossa Lua. Em Io, os vulcões repintam a superfície inteira com material novo mais rápido do que os asteroides conseguem furá-la. A superfície que vemos é geologicamente recém-saída do forno.
O que a Juno descobriu em 2024: não existe um oceano de magma
Por 45 anos a explicação mais aceita foi que Io teria, logo abaixo da crosta, um oceano global de magma — uma camada derretida envolvendo o corpo inteiro, alimentando todos os vulcões.
A sonda Juno, da NASA, testou isso. Em 30 de dezembro de 2023 e 3 de fevereiro de 2024 ela passou a cerca de 1.500 km da superfície, e a equipe mediu com precisão como a gravidade de Io se deforma quando ela é apertada. Uma lua com oceano de magma se deforma muito mais que uma lua sólida por dentro.
O resultado, publicado na revista Nature em 12 de dezembro de 2024 por uma equipe liderada por Ryan Park, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA: a deformação medida é a de um corpo sem oceano global de magma raso. Cada vulcão, ao que tudo indica, é alimentado pela própria câmara de magma, local.
E em 2026, o primeiro termômetro enfiado no subsolo de Io
A novidade mais recente é de julho de 2026, e usa os mesmos dois sobrevoos. O radiômetro de micro-ondas da Juno, um instrumento que enxerga alguns metros abaixo do solo, entregou a primeira medida de temperatura do subsolo de Io. O estudo, liderado por Shannon Brown, também do Laboratório de Propulsão a Jato, saiu no Journal of Geophysical Research: Planets.
O que ele mostra: a temperatura sobe mais de 22 °C nos primeiros metros de profundidade. É uma subida muito mais rápida do que a luz do Sol conseguiria explicar — ali embaixo há calor próprio saindo. A equipe aponta duas leituras possíveis, e as duas continuam em teste: ou o calor atravessa a crosta de forma contínua, liberando até 30 vezes mais energia por metro quadrado que a média da Terra, ou o sinal vem de rios de lava esfriando sob uma casca endurecida que cobre cerca de 10% da lua a cada momento.
Quanto você pesaria em Io (e por que ninguém vai pousar lá tão cedo)
Com a massa e o raio da ficha da NASA, a gravidade de Io sai em 1,80 m/s², cerca de um quinto da nossa. Uma pessoa de 70 kg marcaria 13 kg numa balança lá — quase o mesmo que na nossa Lua. Para conferir se a conta está certa, calculamos pelos mesmos números a velocidade de escape: deu 2,558 km/s, idêntica ao valor publicado, o que valida o par massa–raio.
O problema não é a gravidade: é a radiação. Io fica mergulhada no cinturão de partículas carregadas de Júpiter, o campo magnético mais forte de qualquer planeta do Sistema Solar. Qualquer equipamento pousado ali seria fritado em pouco tempo, e uma pessoa, muito antes. É por isso que as sondas só passam de longe e depressa, e por isso não existe missão dedicada a Io com data marcada.
Quem descobriu Io, e a analista que viu um vulcão numa foto de navegação
Io foi vista pela primeira vez por Galileu Galilei em janeiro de 1610, junto com Europa, Ganimedes e Calisto. Foram os quatro pontinhos ao lado de Júpiter que derrubaram a ideia de que tudo girava em torno da Terra.

Por 369 anos ninguém desconfiou dos vulcões. Eles apareceram em março de 1979, quatro dias depois de a Voyager 1 passar por Júpiter, e não foram achados por um geólogo. A engenheira Linda Morabito, responsável pelo processamento das imagens usadas para navegar a sonda, estava realçando uma foto de Io tirada em 8 de março para localizar estrelas de referência quando notou algo estranho saindo da borda do disco. Era uma pluma vulcânica: a primeira prova de vulcanismo ativo fora da Terra.
O detalhe bonito é que a existência desses vulcões tinha sido prevista poucos dias antes, num artigo científico que calculava o aquecimento de maré em Io. A previsão saiu antes da foto chegar.




