Ganimedes é a maior lua do Sistema Solar, com 5.262 km de diâmetro — quase 400 km a mais que o planeta Mercúrio. Ela gira em torno de Júpiter, é o único satélite conhecido que tem campo magnético próprio e esconde, sob uma casca de gelo, um oceano de água salgada com mais água do que toda a que existe na superfície da Terra. Em dezembro de 2034 ela deve receber uma visita inédita: a sonda europeia Juice pretende entrar em órbita dela, coisa que nenhuma nave humana jamais fez com uma lua que não seja a nossa.
Grande a ponto de ser maior que um planeta
Os números vêm das fichas de satélites da NASA, e a comparação é a parte divertida.
| Corpo | Diâmetro | Comparação |
|---|---|---|
| Ganimedes | 5.262 km | A maior lua do Sistema Solar |
| Titã (Saturno) | 5.150 km | A segunda maior |
| Mercúrio (planeta) | 4.879 km | Menor que as duas acima |
| Calisto (Júpiter) | 4.821 km | A terceira maior |
| Io (Júpiter) | 3.643 km | A quarta |
| Nossa Lua | 3.475 km | A quinta |
| Europa (Júpiter) | 3.122 km | A sexta |
Para o leitor brasileiro, 5.262 km é mais do que o país inteiro de ponta a ponta: do Oiapoque ao Chuí são 4.394 km em linha reta, segundo o IBGE. Sobrariam quase 900 km.
Agora a parte que quase ninguém conta. Ganimedes é maior que Mercúrio, mas é muito mais leve: 1,48 × 10²³ kg contra 3,30 × 10²³ kg do planeta. Mercúrio pesa 2,2 vezes mais sendo menor. O motivo está na densidade: Mercúrio tem 5.429 kg por metro cúbico, quase tudo rocha e ferro, enquanto Ganimedes tem 1.940 — pouco mais que o dobro da água. Em outras palavras, metade de Ganimedes é gelo. É como comparar uma bola de boliche com uma bola de vôlei um pouco maior: a maior não é a mais pesada.

Onde ela fica e quanto tempo leva para dar uma volta
Ganimedes orbita Júpiter a 1.070.400 km de distância — quase três vezes mais longe do seu planeta do que a nossa Lua está da Terra (384.400 km). Mesmo assim, ela completa uma volta em 7 dias e 4 horas, contra os 27 dias da nossa. Júpiter é tão pesado que puxa muito mais forte.
A velocidade orbital sai de uma conta simples: a circunferência da órbita dividida pelo tempo de uma volta dá 10,9 km por segundo. É quase 39 mil km/h, ou a distância de São Paulo ao Rio de Janeiro a cada 35 segundos.
Como a nossa Lua, Ganimedes tem rotação sincronizada: ela gira em torno do próprio eixo no mesmo tempo em que dá a volta em Júpiter, então mostra sempre a mesma face para o planeta. Quem estivesse do lado voltado para Júpiter veria o planeta parado no céu, sempre na mesma posição, a vida inteira. Explicamos por que isso acontece em O que existe do lado oculto da Lua?.
Lá é frio de um jeito difícil de imaginar. A 5,2 vezes a distância Terra–Sol, chega a Ganimedes um vinte e sete avos da luz que recebemos aqui. Fazendo a conta de equilíbrio entre a luz que ela absorve e o calor que ela irradia, a temperatura média fica em torno de −167 °C.
O oceano escondido, e como o Hubble o encontrou
A prova de que existe água líquida em Ganimedes é uma das mais engenhosas da astronomia moderna, e não envolveu perfurar nada.
Ganimedes tem auroras — faixas de gás brilhante em torno dos polos, iguais às que descrevemos em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil. Essas faixas balançam para lá e para cá conforme o campo magnético gigantesco de Júpiter empurra o campo magnético da lua.
Uma equipe liderada por Joachim Saur, da Universidade de Colônia, usou o telescópio Hubble para medir quanto as auroras balançam. O resultado, divulgado pela NASA em março de 2015: elas oscilam 2 graus. Se Ganimedes fosse só rocha e gelo, deveriam oscilar 6 graus. A diferença só faz sentido se houver, no meio do caminho, uma camada de água salgada — água salgada conduz eletricidade e cria um campo magnético de reação que freia o balanço.
A partir daí vieram as estimativas: um oceano de cerca de 100 km de espessura, enterrado sob uma crosta de aproximadamente 150 km de gelo. Cem quilômetros é dez vezes a profundidade média dos oceanos da Terra. Some tudo e Ganimedes tem mais água que toda a água da superfície do nosso planeta, num corpo menor que ele.
Vale a honestidade: esses números são estimativas de modelo, não medições diretas. Ninguém colocou um sonar em Ganimedes. O que está bem estabelecido é que há líquido lá dentro; a espessura exata ainda é assunto em aberto.
O único satélite com campo magnético próprio
Planetas como a Terra têm campo magnético porque carregam, no centro, um núcleo de metal líquido em movimento. Luas, em geral, não têm — são pequenas demais e esfriaram por dentro.
Ganimedes é a exceção conhecida. Lá no fundo dela existe um núcleo de ferro que ainda gera campo magnético, descoberto pela sonda Galileo, da NASA, nos anos 1990. É por isso que ela tem aurora própria em vez de só sofrer a de Júpiter.
Isso faz de Ganimedes um lugar estranho e único: uma lua com núcleo metálico ativo, oceano subterrâneo, crosta de gelo e até uma atmosfera de oxigênio tão rarefeita que, do ponto de vista humano, é vácuo. Nada disso serve para respirar — a quantidade de gás é milhões de vezes menor que a do ar daqui.

Quanto você pesaria em Ganimedes
A gravidade de Ganimedes sai da massa e do raio da ficha da NASA e dá 1,43 m/s² — cerca de um sétimo da nossa. Para conferir se a conta estava certa, calculamos pelos mesmos números a velocidade de escape, que deu 2,74 km/s, idêntica ao valor publicado.
Na prática: uma pessoa de 70 kg na Terra "pesaria" 10 kg em Ganimedes. É menos até do que na nossa Lua, onde ela marcaria 12 kg na balança — Ganimedes é maior, mas, sendo metade gelo, puxa menos. Se isso soa confuso, a diferença entre massa e peso está explicada em O que é gravidade? E por que os astronautas flutuam.
Quem descobriu, e por que o nome é esse
Em janeiro de 1610, Galileu Galilei apontou o telescópio recém-construído para Júpiter e viu pontinhos que mudavam de lugar de uma noite para a outra. Eram Io, Europa, Ganimedes e Calisto — as quatro que hoje chamamos de luas galileanas, e a primeira prova de que nem tudo no céu gira em torno da Terra. A história completa dessa descoberta está em Júpiter: o maior planeta do Sistema Solar em números.
O nome veio depois, do astrônomo alemão Simon Marius, que observou as mesmas luas na mesma época e sugeriu batizá-las com personagens ligados a Júpiter na mitologia. Ganimedes era um jovem levado ao Olimpo para servir aos deuses.
Com um binóculo apoiado em algo firme, você consegue repetir a observação de Galileu do quintal de casa: Júpiter aparece como um disco minúsculo com até quatro pontinhos ao lado. Não dá para saber qual é Ganimedes a olho desarmado — todos parecem iguais —, mas dá para ver os quatro mudando de posição noite após noite.
A sonda que vai morar lá
A Juice, da Agência Espacial Europeia, é a missão que vai transformar Ganimedes de ponto de luz em mundo mapeado. Ela passou raspando pela Terra em setembro de 2026 para ganhar impulso — contamos esse sobrevoo em Sonda Juice passa perto da Terra em 28 de setembro.
A chegada a Júpiter está prevista para julho de 2031. Depois de anos dando voltas pelo sistema e sobrevoando as luas geladas, a Juice deve entrar em órbita de Ganimedes em dezembro de 2034, o que faria dela a primeira nave da história a orbitar uma lua que não é a da Terra. Os planos preveem cerca de nove meses de trabalho em órbita antes do fim da missão.
Todas essas datas são previsão, não promessa. Cronogramas espaciais atrasam, e oito anos é muito tempo.
Enquanto isso, quem tem dado as melhores imagens é a Juno, da NASA, que passou a 1.038 km da superfície de Ganimedes em 7 de junho de 2021 — a aproximação mais próxima em duas décadas. É dessa passagem que vem a foto de capa deste artigo.




