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Sonda Juice passa perto da Terra em 28 de setembro

A sonda europeia Juice raspa a Terra a 8.650 km em 28 de setembro de 2026 para ganhar impulso rumo a Júpiter. Por que ela faz isso e se dá para ver.

Publicado em 8 min de leitura
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O planeta Júpiter com suas faixas de nuvens claras e alaranjadas, e a lua Ganimedes, pequena e cinzenta, ao lado dele no espaço preto
Foto: NASA/JPL/University of Arizona
Neste artigo
  1. O que é a Juice e para onde ela vai
  2. O que acontece em 28 de setembro
  3. Por que uma sonda precisa passar pela Terra
  4. A prova de que funcionou está no formato da órbita
  5. Dá para ver a Juice do Brasil?
  6. O que ela já fez no caminho

Em 28 de setembro de 2026, por volta das 8h46 da manhã no horário de Brasília, a sonda europeia Juice vai passar a cerca de 8.650 quilômetros da superfície da Terra, a 47 mil km/h. Ela não está voltando para casa nem com problema: está pegando carona na gravidade do nosso planeta para ganhar velocidade rumo a Júpiter, onde deve chegar em julho de 2031. É a terceira de quatro manobras assim na viagem dela.

Do Brasil não dá para ver nada: no instante da passagem mais próxima o Sol já está alto aqui, e mesmo à noite a sonda seria um pontinho fraco demais para o olho humano. Mas vale entender o que está acontecendo, porque é uma das manobras mais engenhosas que a humanidade aprendeu a fazer — e é ela que torna possível mandar uma sonda de quase duas toneladas até Júpiter sem gastar uma montanha de combustível.

O que é a Juice e para onde ela vai

Juice é a sigla, em inglês, de Jupiter Icy Moons Explorer: explorador das luas geladas de Júpiter. É uma missão da Agência Espacial Europeia (ESA), lançada em 14 de abril de 2023 num foguete Ariane 5, a partir do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa — ou seja, do nosso lado do Atlântico, quase na fronteira com o Amapá.

O alvo dela não é Júpiter em si, e sim três das luas do planeta: Ganimedes, Calisto e Europa. As três têm, quase certamente, oceanos de água líquida escondidos debaixo de uma casca de gelo. Ganimedes, além disso, é a maior lua do Sistema Solar, maior que o planeta Mercúrio, e a única que tem campo magnético próprio. No fim da missão a Juice vai entrar em órbita de Ganimedes — será a primeira vez que uma nave humana orbita uma lua que não seja a nossa.

A ESA publica a ficha da sonda: dez instrumentos científicos, painéis solares somando 85 metros quadrados (os maiores já montados numa missão planetária, porque a luz do Sol que chega a Júpiter é vinte e sete vezes mais fraca do que a que chega aqui) e 35 sobrevoos planejados das luas de Júpiter antes de se fixar em Ganimedes.

Ganimedes, Calisto, Io e Europa, as quatro grandes luas de Júpiter, lado a lado em tamanhos proporcionais
Montagem da NASA com as quatro grandes luas de Júpiter em escala. Três delas — Ganimedes, Calisto e Europa — são os alvos da Juice. Foto: NASA/JPL/DLR

O que acontece em 28 de setembro

Os números abaixo foram calculados aqui, a partir do arquivo de trajetória oficial da ESA distribuído pelo sistema Horizons do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA — o mesmo sistema de onde saem as posições dos planetas usadas neste site.

O que Valor
Momento de maior aproximação 28/09/2026, por volta das 8h46 (Brasília)
Altura sobre a superfície cerca de 8.650 km
Distância do centro da Terra cerca de 15.020 km
Velocidade em relação à Terra 13,1 km/s = cerca de 47.000 km/h
Ponto do planeta sobrevoado oceano Índico, perto de 22° sul e 86° leste

Uma ressalva honesta: essa trajetória é uma previsão. O arquivo usado no cálculo é baseado em dados reais de rastreamento até 26 de agosto de 2026 e em projeção depois disso. Pequenas correções de rota, comuns nas semanas que antecedem uma manobra dessas, podem mudar o horário em alguns minutos. Por isso também circulam por aí as datas de 27 e 29 de setembro: são formas diferentes de arredondar a janela do evento.

Para dar escala aos 8.650 quilômetros: a Estação Espacial voa a 400 km de altura, então a Juice passa vinte e uma vezes mais alto que ela. É um pouco mais que a distância em linha reta de São Paulo a Lisboa. E ainda assim, em escala planetária, é raspar: a Terra tem 12.756 km de diâmetro, de modo que a sonda passa a menos de um diâmetro de distância da superfície.

E a velocidade? A 47 mil km/h, a Juice daria uma volta completa no equador da Terra em 51 minutos.

Por que uma sonda precisa passar pela Terra

Aqui está o que quase ninguém explica direito. Júpiter está longe do Sol, e chegar lá significa subir no poço de gravidade solar. Isso custa velocidade — muita. Um foguete que colocasse a Juice direto numa rota para Júpiter teria de ser bem maior e mais caro do que o Ariane 5 que a lançou.

A saída é o estilingue gravitacional (em inglês, gravity assist): passar de raspão por um planeta e roubar um pouquinho da velocidade dele em volta do Sol.

A analogia que funciona é a do pé e da bola. Quando um jogador corre para a frente e bate na bola, a bola sai mais rápido do que o pé estava indo, porque ela pega a velocidade do chute mais a velocidade do corpo do jogador. Numa manobra dessas, a Terra é o pé — só que um pé de 6 sextilhões de toneladas — e a sonda é a bola. Vista de cima da Terra, a Juice chega e sai com a mesma velocidade; vista de fora, do Sol, ela sai bem mais rápida, porque levou junto um pedaço do movimento da Terra na órbita.

A Terra também perde velocidade nessa troca, exatamente a mesma quantidade de energia. Só que ela é tão mais pesada que o efeito é literalmente imensurável: seria como um caminhão desacelerar por causa de um mosquito. Nada muda para nós.

Esse é o mesmo truque que a BepiColombo usou para chegar a Mercúrio, e por isso a viagem levou 8 anos — no caso dela, para frear em vez de acelerar. E a razão pela qual tudo isso é tão caro está explicada em o que é velocidade de escape, o limite para sair da Terra.

A prova de que funcionou está no formato da órbita

Dá para medir o efeito do estilingue sem acreditar em ninguém: basta comparar a órbita da sonda em volta do Sol antes e depois. Os números abaixo também saem do sistema Horizons.

Órbita da Juice em volta do Sol 20/09/2026 (antes) 06/10/2026 (depois)
Ponto mais distante do Sol 236 milhões de km 361 milhões de km
Ponto mais próximo do Sol 106 milhões de km 127 milhões de km
Tempo de uma volta 446 dias 761 dias

Em oito dias de manobra, o ponto mais distante que a sonda alcança do Sol sobe de 236 para 361 milhões de quilômetros. Antes do sobrevoo, a órbita da Juice mal passava da órbita de Marte; depois, ela entra no Cinturão de Asteroides. Nenhum motor foi ligado para isso: a energia veio de graça da gravidade da Terra.

Falta ainda um último empurrão, previsto para janeiro de 2029, também aqui na Terra. Só depois dele a Juice fica com a órbita que chega até Júpiter.

A Terra e a Lua juntas, as duas em forma de crescente, vistas de longe contra o preto do espaço
A Voyager 1 tirou esta foto em 18 de setembro de 1977, a 11,66 milhões de km da Terra: a primeira imagem do planeta e da Lua no mesmo quadro. É o tipo de vista que uma sonda tem ao olhar para trás depois de um sobrevoo. Foto: NASA/JPL

Dá para ver a Juice do Brasil?

Não. E a razão é simples de checar: a maior aproximação acontece às 8h46 da manhã no horário de Brasília, com o Sol bem alto em todo o país. Nem o planeta Vênus, que é o astro mais brilhante depois do Sol e da Lua, se enxerga facilmente nessa hora.

Mesmo onde é noite no momento da passagem — o Pacífico, basicamente —, a Juice não seria vista a olho nu. Ela é uma caixa de menos de duas toneladas com painéis solares, passando a milhares de quilômetros e a 13 km/s. Astrônomos amadores com telescópio e boa efeméride conseguem registrá-la como um risco de luz numa foto longa; para o resto de nós, é um evento para acompanhar pelos canais da ESA.

Se você quer um alvo de verdade para essa mesma semana, o céu entrega outro: Saturno na oposição de 2026, com os anéis visíveis do Brasil, no dia 4 de outubro.

O que ela já fez no caminho

A Juice não está apenas viajando. Cada sobrevoo é também um ensaio geral dos instrumentos, e em 2026 ela deu sorte: conseguiu observar o 3I/ATLAS, o terceiro objeto vindo de fora do Sistema Solar já detectado pela humanidade, e a ESA divulgou os primeiros resultados entre fevereiro e abril de 2026. É ciência que não estava no plano original e que só foi possível porque a sonda estava no lugar certo.

Quando O que aconteceu
14 de abril de 2023 Lançamento num Ariane 5, em Kourou
Agosto de 2024 Sobrevoo duplo Lua–Terra, o primeiro da história
Agosto de 2025 Sobrevoo de Vênus
28 de setembro de 2026 Sobrevoo da Terra (este)
Janeiro de 2029 Último sobrevoo da Terra, previsto
Julho de 2031 Chegada a Júpiter, prevista

Todas as datas de 2029 e 2031 são previstas: cronograma de missão espacial muda, e a própria Juice já teve a rota reajustada uma vez.

Quando ela chegar, vai levar de 35 a 52 minutos para cada mensagem ir ou voltar, dependendo de onde a Terra e Júpiter estiverem na órbita. Como se conversa com uma nave a essa distância está em como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui, e o que se sabe do planeta de destino está em Júpiter: o maior planeta do Sistema Solar em números.

Perguntas frequentes

A sonda Juice pode bater na Terra?

Não. A trajetória é calculada com anos de antecedência e corrigida por pequenos acionamentos de motor ao longo do caminho. A passagem a 8.650 km de altura é o resultado planejado, e a margem de erro dessas manobras é de poucos quilômetros. Além disso, a sonda tem apenas 1,8 tonelada de estrutura seca; mesmo num cenário impossível de reentrada, quase tudo se desmancharia na atmosfera.

Por que a Juice não foi direto para Júpiter?

Porque nenhum foguete disponível conseguiria dar a ela a velocidade necessária de uma vez só. Usando a gravidade da Lua, da Terra e de Vênus, a missão troca tempo por combustível: leva oito anos em vez de dois, mas cabe num foguete que existe e num orçamento que foi aprovado.

O que a Juice vai procurar nas luas de Júpiter?

Água líquida e as condições que a acompanham. Ganimedes, Calisto e Europa devem ter oceanos salgados sob a casca de gelo, com mais água do que todos os oceanos da Terra somados. A Juice vai medir a espessura do gelo com radar, mapear o campo magnético e analisar a composição da superfície. Ela não procura vida diretamente, e sim se o lugar poderia abrigá-la.

Qual a diferença entre a Juice e a Europa Clipper?

São duas missões diferentes que chegam quase juntas. A Europa Clipper, da NASA, foi lançada em 2024, deve chegar em 2030 e se concentra em Europa. A Juice, da ESA, chega em 2031 e se concentra em Ganimedes, passando também por Calisto e Europa. Elas se complementam, e as equipes trocam dados.

Dá para acompanhar o sobrevoo ao vivo?

A ESA costuma publicar imagens e atualizações nos canais oficiais da missão nas horas seguintes à passagem, e não uma transmissão minuto a minuto. As primeiras fotos da Terra feitas pelas câmeras de navegação normalmente aparecem no dia seguinte.

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