Em 28 de setembro de 2026, por volta das 8h46 da manhã no horário de Brasília, a sonda europeia Juice vai passar a cerca de 8.650 quilômetros da superfície da Terra, a 47 mil km/h. Ela não está voltando para casa nem com problema: está pegando carona na gravidade do nosso planeta para ganhar velocidade rumo a Júpiter, onde deve chegar em julho de 2031. É a terceira de quatro manobras assim na viagem dela.
Do Brasil não dá para ver nada: no instante da passagem mais próxima o Sol já está alto aqui, e mesmo à noite a sonda seria um pontinho fraco demais para o olho humano. Mas vale entender o que está acontecendo, porque é uma das manobras mais engenhosas que a humanidade aprendeu a fazer — e é ela que torna possível mandar uma sonda de quase duas toneladas até Júpiter sem gastar uma montanha de combustível.
O que é a Juice e para onde ela vai
Juice é a sigla, em inglês, de Jupiter Icy Moons Explorer: explorador das luas geladas de Júpiter. É uma missão da Agência Espacial Europeia (ESA), lançada em 14 de abril de 2023 num foguete Ariane 5, a partir do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa — ou seja, do nosso lado do Atlântico, quase na fronteira com o Amapá.
O alvo dela não é Júpiter em si, e sim três das luas do planeta: Ganimedes, Calisto e Europa. As três têm, quase certamente, oceanos de água líquida escondidos debaixo de uma casca de gelo. Ganimedes, além disso, é a maior lua do Sistema Solar, maior que o planeta Mercúrio, e a única que tem campo magnético próprio. No fim da missão a Juice vai entrar em órbita de Ganimedes — será a primeira vez que uma nave humana orbita uma lua que não seja a nossa.
A ESA publica a ficha da sonda: dez instrumentos científicos, painéis solares somando 85 metros quadrados (os maiores já montados numa missão planetária, porque a luz do Sol que chega a Júpiter é vinte e sete vezes mais fraca do que a que chega aqui) e 35 sobrevoos planejados das luas de Júpiter antes de se fixar em Ganimedes.

O que acontece em 28 de setembro
Os números abaixo foram calculados aqui, a partir do arquivo de trajetória oficial da ESA distribuído pelo sistema Horizons do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA — o mesmo sistema de onde saem as posições dos planetas usadas neste site.
| O que | Valor |
|---|---|
| Momento de maior aproximação | 28/09/2026, por volta das 8h46 (Brasília) |
| Altura sobre a superfície | cerca de 8.650 km |
| Distância do centro da Terra | cerca de 15.020 km |
| Velocidade em relação à Terra | 13,1 km/s = cerca de 47.000 km/h |
| Ponto do planeta sobrevoado | oceano Índico, perto de 22° sul e 86° leste |
Uma ressalva honesta: essa trajetória é uma previsão. O arquivo usado no cálculo é baseado em dados reais de rastreamento até 26 de agosto de 2026 e em projeção depois disso. Pequenas correções de rota, comuns nas semanas que antecedem uma manobra dessas, podem mudar o horário em alguns minutos. Por isso também circulam por aí as datas de 27 e 29 de setembro: são formas diferentes de arredondar a janela do evento.
Para dar escala aos 8.650 quilômetros: a Estação Espacial voa a 400 km de altura, então a Juice passa vinte e uma vezes mais alto que ela. É um pouco mais que a distância em linha reta de São Paulo a Lisboa. E ainda assim, em escala planetária, é raspar: a Terra tem 12.756 km de diâmetro, de modo que a sonda passa a menos de um diâmetro de distância da superfície.
E a velocidade? A 47 mil km/h, a Juice daria uma volta completa no equador da Terra em 51 minutos.
Por que uma sonda precisa passar pela Terra
Aqui está o que quase ninguém explica direito. Júpiter está longe do Sol, e chegar lá significa subir no poço de gravidade solar. Isso custa velocidade — muita. Um foguete que colocasse a Juice direto numa rota para Júpiter teria de ser bem maior e mais caro do que o Ariane 5 que a lançou.
A saída é o estilingue gravitacional (em inglês, gravity assist): passar de raspão por um planeta e roubar um pouquinho da velocidade dele em volta do Sol.
A analogia que funciona é a do pé e da bola. Quando um jogador corre para a frente e bate na bola, a bola sai mais rápido do que o pé estava indo, porque ela pega a velocidade do chute mais a velocidade do corpo do jogador. Numa manobra dessas, a Terra é o pé — só que um pé de 6 sextilhões de toneladas — e a sonda é a bola. Vista de cima da Terra, a Juice chega e sai com a mesma velocidade; vista de fora, do Sol, ela sai bem mais rápida, porque levou junto um pedaço do movimento da Terra na órbita.
A Terra também perde velocidade nessa troca, exatamente a mesma quantidade de energia. Só que ela é tão mais pesada que o efeito é literalmente imensurável: seria como um caminhão desacelerar por causa de um mosquito. Nada muda para nós.
Esse é o mesmo truque que a BepiColombo usou para chegar a Mercúrio, e por isso a viagem levou 8 anos — no caso dela, para frear em vez de acelerar. E a razão pela qual tudo isso é tão caro está explicada em o que é velocidade de escape, o limite para sair da Terra.
A prova de que funcionou está no formato da órbita
Dá para medir o efeito do estilingue sem acreditar em ninguém: basta comparar a órbita da sonda em volta do Sol antes e depois. Os números abaixo também saem do sistema Horizons.
| Órbita da Juice em volta do Sol | 20/09/2026 (antes) | 06/10/2026 (depois) |
|---|---|---|
| Ponto mais distante do Sol | 236 milhões de km | 361 milhões de km |
| Ponto mais próximo do Sol | 106 milhões de km | 127 milhões de km |
| Tempo de uma volta | 446 dias | 761 dias |
Em oito dias de manobra, o ponto mais distante que a sonda alcança do Sol sobe de 236 para 361 milhões de quilômetros. Antes do sobrevoo, a órbita da Juice mal passava da órbita de Marte; depois, ela entra no Cinturão de Asteroides. Nenhum motor foi ligado para isso: a energia veio de graça da gravidade da Terra.
Falta ainda um último empurrão, previsto para janeiro de 2029, também aqui na Terra. Só depois dele a Juice fica com a órbita que chega até Júpiter.

Dá para ver a Juice do Brasil?
Não. E a razão é simples de checar: a maior aproximação acontece às 8h46 da manhã no horário de Brasília, com o Sol bem alto em todo o país. Nem o planeta Vênus, que é o astro mais brilhante depois do Sol e da Lua, se enxerga facilmente nessa hora.
Mesmo onde é noite no momento da passagem — o Pacífico, basicamente —, a Juice não seria vista a olho nu. Ela é uma caixa de menos de duas toneladas com painéis solares, passando a milhares de quilômetros e a 13 km/s. Astrônomos amadores com telescópio e boa efeméride conseguem registrá-la como um risco de luz numa foto longa; para o resto de nós, é um evento para acompanhar pelos canais da ESA.
Se você quer um alvo de verdade para essa mesma semana, o céu entrega outro: Saturno na oposição de 2026, com os anéis visíveis do Brasil, no dia 4 de outubro.
O que ela já fez no caminho
A Juice não está apenas viajando. Cada sobrevoo é também um ensaio geral dos instrumentos, e em 2026 ela deu sorte: conseguiu observar o 3I/ATLAS, o terceiro objeto vindo de fora do Sistema Solar já detectado pela humanidade, e a ESA divulgou os primeiros resultados entre fevereiro e abril de 2026. É ciência que não estava no plano original e que só foi possível porque a sonda estava no lugar certo.
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| 14 de abril de 2023 | Lançamento num Ariane 5, em Kourou |
| Agosto de 2024 | Sobrevoo duplo Lua–Terra, o primeiro da história |
| Agosto de 2025 | Sobrevoo de Vênus |
| 28 de setembro de 2026 | Sobrevoo da Terra (este) |
| Janeiro de 2029 | Último sobrevoo da Terra, previsto |
| Julho de 2031 | Chegada a Júpiter, prevista |
Todas as datas de 2029 e 2031 são previstas: cronograma de missão espacial muda, e a própria Juice já teve a rota reajustada uma vez.
Quando ela chegar, vai levar de 35 a 52 minutos para cada mensagem ir ou voltar, dependendo de onde a Terra e Júpiter estiverem na órbita. Como se conversa com uma nave a essa distância está em como a NASA conversa com sondas a bilhões de km daqui, e o que se sabe do planeta de destino está em Júpiter: o maior planeta do Sistema Solar em números.




