Um dia em Júpiter dura 9 horas e 56 minutos; em Vênus, 117 dias terrestres; em Marte, 24 horas e 39 minutos — quase igual ao nosso. A resposta curta está na tabela logo abaixo. Mas tem uma armadilha nessa pergunta, e é ela que faz sites diferentes darem números diferentes para o mesmo planeta: "um dia" significa duas coisas na astronomia, e a diferença chega a ser de meses.
| Planeta | Uma volta em torno do próprio eixo | Do nascer ao nascer do sol |
|---|---|---|
| Mercúrio | 58 dias e 15 horas | 176 dias terrestres |
| Vênus | 243 dias (girando ao contrário) | 117 dias terrestres |
| Terra | 23 h 56 min 4 s | 24 horas |
| Marte | 24 h 37 min | 24 h 39 min 35 s |
| Júpiter | 9 h 56 min | 9 h 56 min |
| Saturno | 10 h 34 min | 10 h 34 min |
| Urano | 17 h 14 min (girando deitado) | 17 h 14 min |
| Netuno | 16 h 07 min | 16 h 07 min |
Valores de rotação medidos por sondas e radiotelescópios. O de Saturno é o mais recente: 10 h 33 min 38 s, obtido em 2019 a partir das ondulações nos anéis medidas pela sonda Cassini.
As duas definições de "dia" (e por que a Terra gira em 23h56)
Existem dois jeitos de cronometrar um dia, e eles não dão o mesmo número.
O dia sideral é o tempo que o planeta leva para dar uma volta de 360° em torno do próprio eixo, medido em relação às estrelas distantes. É a rotação "crua".
O dia solar é o tempo entre um meio-dia e o próximo. É esse que importa para quem mora lá, porque é ele que dita o nascer e o pôr do sol.
E eles são diferentes porque o planeta não fica parado enquanto gira: ele também anda em volta do Sol.
Imagine que você está numa rotatória de carro, de olho num prédio lá longe e no monumento do centro ao mesmo tempo. Ao completar uma volta sobre si mesmo, o prédio distante volta a aparecer no mesmo lugar. Mas o monumento do centro, não: como você andou um pedaço da rotatória, precisa girar mais um pouquinho para ficar de frente para ele.
O prédio distante são as estrelas. O monumento do centro é o Sol.
Na Terra, esse "pouquinho a mais" vale 3 minutos e 56 segundos. A Terra gira 360° em 23h56min04s, mas nesse tempo já andou cerca de 1 grau na órbita, e precisa de quase 4 minutos extras para o Sol voltar ao ponto mais alto. Por isso o nosso dia tem 24 horas redondas.
Essa diferença é a razão de as estrelas nascerem 4 minutos mais cedo a cada noite — o que explica por que o céu de janeiro não é o mesmo de julho, e tem a ver com Por que não sentimos a Terra girar?.
Para os gigantes, que giram rápido e demoram décadas para dar a volta no Sol, a diferença é irrelevante: em Júpiter dá menos de um segundo. Para Mercúrio e Vênus, é gigantesca — e é aí que a coisa fica esquisita.
Vênus: o dia é mais longo que o ano
Vênus é o campeão da estranheza, e por dois motivos ao mesmo tempo.
Primeiro: ele gira devagar demais. Uma volta sobre o próprio eixo leva 243 dias terrestres, a rotação mais lenta de todos os planetas. Uma volta em torno do Sol leva 225 dias. Ou seja: em Vênus, o dia sideral é mais longo que o ano.
Segundo: ele gira ao contrário de todo mundo. Em quase todo o Sistema Solar, os planetas giram no mesmo sentido em que orbitam. Vênus gira no sentido inverso — e a consequência é que, lá, o Sol nasce no oeste e se põe no leste.
Essa rotação invertida faz as duas contas se compensarem: o dia solar de Vênus acaba saindo em 117 dias terrestres, bem mais curto que os 243 da rotação. Um venusiano teria cerca de 58 dias terrestres de luz e 58 de escuridão, de cada vez.

Só que nada disso muda o clima. As nuvens de Vênus são tão espessas e a atmosfera tão pesada que o calor é distribuído por igual: faz cerca de 465 °C de dia e 465 °C de noite, o ano inteiro — o motivo está em Por que Vênus é mais quente que Mercúrio?.
Ninguém sabe ao certo por que Vênus gira ao contrário. As hipóteses vão de uma colisão gigantesca a um efeito de maré da atmosfera densa acumulado por bilhões de anos, e nenhuma está fechada.
Mercúrio: dois anos para um nascer do sol
Mercúrio tem a relação mais bizarra entre dia e ano, e ela não é coincidência.
O planeta gira exatamente 3 vezes a cada 2 voltas em torno do Sol. Não é acaso: a gravidade do Sol travou a rotação nessa proporção, como a gravidade da Terra travou a Lua.
O resultado é extraordinário: um dia solar em Mercúrio dura 176 dias terrestres, e o ano dura 88. Ou seja, um dia dura exatamente dois anos.
Na prática, são 88 dias terrestres de luz direta seguidos de 88 de escuridão. O lado iluminado passa de 400 °C; o escuro despenca para 180 graus negativos. É a maior variação de temperatura de qualquer planeta — e mesmo assim existe gelo de água no fundo de crateras polares onde o sol nunca bate.
Marte: o planeta com o dia mais parecido com o nosso
Marte é o único mundo do Sistema Solar onde a rotina de um ser humano quase funcionaria sem adaptação.
O dia marciano — que os cientistas chamam de sol, para não confundir — dura 24 horas, 39 minutos e 35 segundos: 39 minutos a mais que o nosso. É o que faz de Marte o destino mais amigável para o relógio biológico humano.

Mas esses 39 minutos cobram um preço real, e as equipes da NASA que operam os robôs em Marte sabem disso. Quem trabalha no horário marciano precisa atrasar a rotina em 39 minutos todo dia. É um fuso horário inteiro de atraso a cada dia e meio, sem parar, e em pouco mais de um mês a pessoa deu a volta completa no relógio: começou almoçando ao meio-dia e passou a almoçar de madrugada. Os primeiros meses de missão do rover Curiosity foram assim, e os relatos de exaustão da equipe fizeram a NASA repensar a prática.
Existem relógios e aplicativos com hora marciana, de "segundo" ligeiramente mais longo, para o dia caber em 24 horas de mostrador. Quanto tempo levaria para chegar lá está em Quanto tempo leva para chegar a Marte, e o que os robôs encontraram, em Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram.
Os gigantes: dias curtos e um problema para medir
Os quatro planetas grandes são os mais rápidos do Sistema Solar. Júpiter, que é 11 vezes mais largo que a Terra, gira em menos de 10 horas — um ponto no equador dele corre a mais de 45 mil km/h.
Essa rotação absurda deixa marcas visíveis. Júpiter e Saturno são visivelmente achatados, porque a força da rotação empurra a matéria para fora: em Júpiter, o diâmetro no equador é cerca de 7% maior que de polo a polo, e em Saturno a diferença passa de 10%. Em Saturno dá para notar isso num telescópio caseiro. É a mesma rotação que organiza as faixas de nuvens em listras paralelas, estiradas pelos ventos, como conta Júpiter: o maior planeta do Sistema Solar em números.
Agora o problema: como medir a rotação de um planeta que não tem chão?
Não dá para marcar um ponto na superfície, porque não existe superfície. As nuvens não servem: correm em velocidades diferentes conforme a latitude, e uma nuvem do equador de Júpiter dá a volta 5 minutos antes de uma do polo.
A solução foi cronometrar o pulso de rádio do campo magnético, que nasce lá no fundo. Funcionou para Júpiter. Para Saturno, não: o campo dele é quase perfeitamente alinhado com o eixo e não dá pista nenhuma, e o valor ficou incerto por décadas.
A resposta veio de um lugar inesperado: os anéis funcionam como um sismógrafo. As vibrações do interior do planeta fazem ondulações nos anéis, e a Cassini mediu essas ondulações. Em 2019, a conta fechou em 10 horas, 33 minutos e 38 segundos — hoje o valor de referência. A história dos anéis está em Saturno: por que tem anéis, do que são feitos e como ver.
Urano é o caso à parte: gira deitado, com o eixo tombado 98 graus, praticamente rolando ao longo da órbita. A rotação leva 17 horas e 14 minutos, mas nos polos o resultado é um "dia" de 42 anos de luz seguidos de 42 anos de noite, porque o ano de Urano tem 84 anos terrestres.
E na Lua, quanto dura um dia?
Como a Lua sempre mostra a mesma face para a Terra, a rotação dela está travada com a órbita: ela gira uma vez em 27,3 dias, o tempo exato de uma volta em torno de nós.
Mas o dia solar lunar — do nascer do sol ao próximo — dura 29,5 dias, pelo mesmo motivo da rotatória lá do começo: a Terra andou um pedaço na órbita nesse meio tempo. São 29,5 dias que você já conhece de outro nome: é exatamente o ciclo das fases da Lua, explicado em Por que a Lua tem fases? A explicação simples e as datas.
Na prática, são cerca de 14 dias de luz seguidos de 14 de escuridão em qualquer ponto da Lua — um problema sério de engenharia. Um pouso movido a energia solar precisa sobreviver a duas semanas de noite a 170 graus negativos, sem sol para recarregar, e foi por isso que várias sondas recentes não acordaram depois da primeira noite lunar.




