Medos e assuntos virais

O buraco na camada de ozônio ainda existe?

Existe, volta toda primavera do hemisfério sul e em 2026 foi o maior desde 2015. Veja o que a NASA mede todo dia e por que, no longo prazo, ele diminui.

Publicado em 8 min de leitura
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Mapa do buraco na camada de ozônio sobre a Antártida, com a área mais pobre em ozônio em azul e roxo no centro e o anel verde em volta
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. O que é a camada de ozônio, em números
  2. A lâmina de 3 milímetros: como se mede ozônio
  3. Por que 220 é o número que define o "buraco"
  4. O que a NASA mediu em 2026
  5. Por que o buraco se forma justamente na Antártida
  6. A parte boa: o tratado funcionou
  7. Como acompanhar o buraco você mesmo

Sim, o buraco na camada de ozônio ainda existe — e ele volta todo ano, sempre na primavera do hemisfério sul, entre agosto e outubro. Mas a história completa tem duas metades que raramente aparecem juntas. A primeira: em 2026 o buraco foi o maior desde 2015, chegando a 27,1 milhões de quilômetros quadrados em 18 de setembro — mais de três vezes a área do Brasil, que tem 8,5 milhões de km². A segunda: o tratado que proibiu os gases responsáveis funcionou, e a tendência de longo prazo é de recuperação. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e este artigo explica por quê.

Todos os números daqui vêm do NASA Ozone Watch, o serviço da agência que publica os dados de ozônio diariamente, e se referem aos dados disponíveis até 14 de outubro de 2026.

O que é a camada de ozônio, em números

Ozônio é um gás formado por três átomos de oxigênio grudados (O₃), em vez dos dois do oxigênio que respiramos. Perto do chão ele é poluente e faz mal ao pulmão. Lá em cima, é o contrário: ele é o filtro solar do planeta.

Noventa por cento de todo o ozônio da atmosfera fica na estratosfera, a camada que vai mais ou menos de 10 a 50 quilômetros de altitude — bem acima de onde os aviões comerciais voam e muito abaixo de onde começa o espaço, assunto de Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km.

A quantidade impressiona pelo contrário do que se espera. Todo o ozônio da atmosfera pesa cerca de 3 bilhões de toneladas — que parece muito, mas é apenas 0,00006% da atmosfera. A concentração máxima acontece por volta dos 32 km de altitude, e mesmo ali ela não passa de 15 partes por milhão. Em outras palavras: a "camada" que protege toda a vida na Terra é um gás raríssimo, espalhado numa casca fininha.

E ela faz um trabalho pesado. O ozônio barra toda a radiação ultravioleta do tipo C, a mais energética, e a maior parte da do tipo B. Da ultravioleta A, ele segura só cerca de metade. Excesso de UV-B e UV-A causa queimadura de sol e, a longo prazo, está ligado a câncer de pele e a danos nos olhos.

A lâmina de 3 milímetros: como se mede ozônio

Para medir algo tão rarefeito, os cientistas usam uma ideia engenhosa chamada unidade Dobson (DU).

Imagine recolher todo o ozônio de uma coluna de ar que vai do chão até o espaço e comprimi-lo até a temperatura de 0 °C e a pressão ao nível do mar. Essa quantidade formaria uma lâmina de gás com cerca de 0,3 centímetro de espessura — 3 milímetros. É só isso, comprimido, que separa a vida na Terra da radiação ultravioleta mais dura que o Sol manda. Para não trabalhar com decimais, definiu-se que 1 unidade Dobson equivale a um milésimo de centímetro dessa lâmina. Logo, um céu normal tem por volta de 300 DU.

Quando o noticiário diz que o ozônio caiu para 120 unidades Dobson, está dizendo que aquela lâmina imaginária encolheu para pouco mais de um milímetro.

Por que 220 é o número que define o "buraco"

O nome "buraco" é metáfora, e a própria NASA faz questão de dizer isso: nenhum pedaço da estratosfera fica sem ozônio nenhum. O que existe é uma região onde a quantidade despenca.

O limite escolhido é 220 unidades Dobson, e ele não foi escolhido no chute. Dois motivos:

  • No registro histórico, valores abaixo de 220 DU nunca foram observados antes de 1979.
  • Uma campanha científica com aviões sobre a Antártida mostrou que, abaixo desse valor, a perda é causada por reações com cloro e bromo — ou seja, é destruição química, não variação natural.

O "tamanho do buraco" que sai nas manchetes é, portanto, uma conta simples: a área do planeta cercada pela linha dos 220 DU naquele dia.

Ilustração conceitual do globo terrestre com uma faixa amarela de substâncias que destroem o ozônio circulando sobre o hemisfério sul, acima da Austrália
Ilustração conceitual da NASA: os gases que destroem o ozônio sobem perto do equador e escorrem em direção aos polos, onde ficam presos pelos ventos do vórtice polar — o anel de ar veloz que circula o polo sul. Não é uma fotografia; é um esquema para mostrar o caminho das substâncias. Foto: NASA/GSFC

O que a NASA mediu em 2026

A temporada de 2026 foi forte. O maior valor diário registrado até 14 de outubro foi de 27,06 milhões de km², em 18 de setembro. A média da área no período de referência que a NASA usa para comparar anos (de 7 de setembro a 13 de outubro) ficou em 24,9 milhões de km².

Nas duas medidas, é o pior resultado desde 2015. Veja a série recente:

Ano Maior área do dia (milhões de km²) Área média de 7/9 a 13/10 Menor valor de ozônio (DU)
2019 16,4 9,3 142
2020 24,8 23,5 94
2021 24,8 23,3 92
2022 26,5 23,2 97
2023 26,0 23,1 99
2024 22,4 19,6 107
2025 22,9 18,7 127
2026 27,1 (em 18/9) 24,9 114 (em 4/10)

Dois recados que a tabela dá de graça:

O buraco oscila muito de um ano para o outro. Em 2019 ele quase não apareceu — 9,3 milhões de km² de média, menos da metade do que vinha sendo medido — e ninguém comemorou a cura do ozônio. A razão está escrita na própria página do Ozone Watch: quem controla a profundidade e o tamanho do buraco antártico é a temperatura da estratosfera e a quantidade de luz solar que chega ao polo sul. Esses dois mudam bastante de ano para ano; a quantidade de cloro lá em cima muda devagar.

Os anos ruins não anulam a tendência. Para efeito de comparação, em 1979, quando a série começou, o maior valor do ano foi de 1,1 milhão de km²; no pico histórico, em 2000, chegou a 29,9 milhões. O que mudou de lá para cá está na seção seguinte.

Por que o buraco se forma justamente na Antártida

A pergunta é boa: os gases que destroem o ozônio foram liberados sobretudo no hemisfério norte, onde está a maior parte das fábricas. Por que o buraco abre do outro lado do mundo?

A resposta tem três partes:

  1. As substâncias viajam. Elas sobem perto do equador e escorrem pela estratosfera em direção aos polos, numa circulação que leva anos.
  2. O vórtice polar aprisiona. No inverno antártico, forma-se um anel de ventos velozes circulando o polo sul. Ele isola o ar lá dentro, que esfria muito mais do que em qualquer outro lugar do planeta.
  3. O Sol aperta o gatilho. As reações que destroem o ozônio precisam de luz. Quando o Sol volta ao polo, na primavera, elas disparam — e é por isso que o buraco aparece entre agosto e outubro, e não no auge do inverno, quando lá é noite o tempo todo. É também por isso que a NASA diz que temperatura da estratosfera e luz solar são o que controla o tamanho de cada temporada.

É o encontro de ar frio e isolado, química estocada e volta da luz. No Ártico, onde o vórtice é mais bagunçado e o ar mais quente, o fenômeno é muito mais fraco. A troca de estações entre os hemisférios, que faz a primavera do sul ser o outono do norte, está explicada em Estações do ano: por que existem e as datas de 2026 e 2027.

A parte boa: o tratado funcionou

Em 1987, o Protocolo de Montreal passou a regular a emissão dos gases que destroem o ozônio — os clorofluorcarbonetos, usados em geladeira, ar-condicionado e aerossol. Desde então, as emissões foram controladas e a quantidade dessas substâncias na atmosfera vem caindo.

É aqui que as duas metades da história se encaixam. O cloro e o bromo que ainda estão lá em cima foram, em boa parte, liberados décadas atrás: eles demoram muito para subir, e demoram muito para ir embora. Então o que se espera não é um desaparecimento súbito do buraco, e sim uma sequência de temporadas que, na média de muitos anos, vão ficando menores — com anos ruins no meio, como 2026, e anos espetacularmente bons, como 2019.

Dito de outro jeito: o gráfico virou. O que ainda está no ar é herança, e herança leva tempo para acabar.

Como acompanhar o buraco você mesmo

Os dados não são segredo nem privilégio de pesquisador. O NASA Ozone Watch (ozonewatch.gsfc.nasa.gov) publica, de graça:

  • o mapa diário do ozônio sobre o hemisfério sul, com a mancha azul e roxa no centro;
  • a tabela histórica, ano a ano, desde 1979;
  • os arquivos de texto com a área e o valor mínimo de cada dia, que foi exatamente de onde saíram os números deste artigo.

Para ver a Antártida e o resto do planeta em outras camadas de dado, o caminho é o NASA Worldview, cujo passo a passo está em Como ver os focos de calor do Brasil de graça.

Um aviso honesto para o leitor brasileiro: o buraco é um fenômeno centrado na Antártida, e as páginas da NASA consultadas aqui não publicam índice de radiação ultravioleta para cidades brasileiras. Quem quiser saber o índice UV do próprio bairro precisa procurar os serviços de meteorologia e de saúde, que é quem mede isso no chão.

Perguntas frequentes

O buraco na camada de ozônio está aumentando ou diminuindo?

Depende da escala de tempo. De um ano para o outro, ele oscila muito, e 2026 foi o maior desde 2015. Na escala de décadas, a quantidade de cloro e bromo na estratosfera está caindo desde o Protocolo de Montreal, de 1987, e a tendência é de recuperação lenta. Um ano ruim não desmente a tendência, assim como um dia frio não desmente o verão.

O buraco na camada de ozônio chega ao Brasil?

O buraco, como a NASA o define, é a região sobre a Antártida onde o ozônio total fica igual ou abaixo de 220 unidades Dobson. O centro do fenômeno é polar. A quantidade de ozônio varia no hemisfério sul inteiro ao longo do ano, e os mapas diários do Ozone Watch mostram essa variação, mas falar em radiação recebida numa cidade específica exige medida local, que não vem dessas páginas.

Por que ele aparece justamente na primavera?

Porque é preciso frio e luz ao mesmo tempo. O inverno antártico cria o vórtice polar e o frio extremo, que preparam a química; a luz do Sol, que volta na primavera, dispara as reações. No auge do inverno falta luz; no verão, falta frio.

O que é uma unidade Dobson?

É a medida de quanto ozônio existe numa coluna de ar. Se todo esse ozônio fosse comprimido a 0 °C e à pressão do nível do mar, formaria uma lâmina fina: 1 unidade Dobson corresponde a um milésimo de centímetro dessa lâmina. Um céu normal tem cerca de 300 unidades, o equivalente a uns 3 milímetros de gás puro.

Quem destruiu a camada de ozônio?

Substâncias que contêm cloro e bromo, boa parte delas fabricadas por nós — os clorofluorcarbonetos de geladeiras, aparelhos de ar-condicionado e aerossóis do século passado. O ozônio também é destruído por moléculas com nitrogênio e hidrogênio, algumas de origem natural. O que mudou o quadro foi justamente parar de emitir as artificiais.

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