Sim, o buraco na camada de ozônio ainda existe — e ele volta todo ano, sempre na primavera do hemisfério sul, entre agosto e outubro. Mas a história completa tem duas metades que raramente aparecem juntas. A primeira: em 2026 o buraco foi o maior desde 2015, chegando a 27,1 milhões de quilômetros quadrados em 18 de setembro — mais de três vezes a área do Brasil, que tem 8,5 milhões de km². A segunda: o tratado que proibiu os gases responsáveis funcionou, e a tendência de longo prazo é de recuperação. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e este artigo explica por quê.
Todos os números daqui vêm do NASA Ozone Watch, o serviço da agência que publica os dados de ozônio diariamente, e se referem aos dados disponíveis até 14 de outubro de 2026.
O que é a camada de ozônio, em números
Ozônio é um gás formado por três átomos de oxigênio grudados (O₃), em vez dos dois do oxigênio que respiramos. Perto do chão ele é poluente e faz mal ao pulmão. Lá em cima, é o contrário: ele é o filtro solar do planeta.
Noventa por cento de todo o ozônio da atmosfera fica na estratosfera, a camada que vai mais ou menos de 10 a 50 quilômetros de altitude — bem acima de onde os aviões comerciais voam e muito abaixo de onde começa o espaço, assunto de Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km.
A quantidade impressiona pelo contrário do que se espera. Todo o ozônio da atmosfera pesa cerca de 3 bilhões de toneladas — que parece muito, mas é apenas 0,00006% da atmosfera. A concentração máxima acontece por volta dos 32 km de altitude, e mesmo ali ela não passa de 15 partes por milhão. Em outras palavras: a "camada" que protege toda a vida na Terra é um gás raríssimo, espalhado numa casca fininha.
E ela faz um trabalho pesado. O ozônio barra toda a radiação ultravioleta do tipo C, a mais energética, e a maior parte da do tipo B. Da ultravioleta A, ele segura só cerca de metade. Excesso de UV-B e UV-A causa queimadura de sol e, a longo prazo, está ligado a câncer de pele e a danos nos olhos.
A lâmina de 3 milímetros: como se mede ozônio
Para medir algo tão rarefeito, os cientistas usam uma ideia engenhosa chamada unidade Dobson (DU).
Imagine recolher todo o ozônio de uma coluna de ar que vai do chão até o espaço e comprimi-lo até a temperatura de 0 °C e a pressão ao nível do mar. Essa quantidade formaria uma lâmina de gás com cerca de 0,3 centímetro de espessura — 3 milímetros. É só isso, comprimido, que separa a vida na Terra da radiação ultravioleta mais dura que o Sol manda. Para não trabalhar com decimais, definiu-se que 1 unidade Dobson equivale a um milésimo de centímetro dessa lâmina. Logo, um céu normal tem por volta de 300 DU.
Quando o noticiário diz que o ozônio caiu para 120 unidades Dobson, está dizendo que aquela lâmina imaginária encolheu para pouco mais de um milímetro.
Por que 220 é o número que define o "buraco"
O nome "buraco" é metáfora, e a própria NASA faz questão de dizer isso: nenhum pedaço da estratosfera fica sem ozônio nenhum. O que existe é uma região onde a quantidade despenca.
O limite escolhido é 220 unidades Dobson, e ele não foi escolhido no chute. Dois motivos:
- No registro histórico, valores abaixo de 220 DU nunca foram observados antes de 1979.
- Uma campanha científica com aviões sobre a Antártida mostrou que, abaixo desse valor, a perda é causada por reações com cloro e bromo — ou seja, é destruição química, não variação natural.
O "tamanho do buraco" que sai nas manchetes é, portanto, uma conta simples: a área do planeta cercada pela linha dos 220 DU naquele dia.

O que a NASA mediu em 2026
A temporada de 2026 foi forte. O maior valor diário registrado até 14 de outubro foi de 27,06 milhões de km², em 18 de setembro. A média da área no período de referência que a NASA usa para comparar anos (de 7 de setembro a 13 de outubro) ficou em 24,9 milhões de km².
Nas duas medidas, é o pior resultado desde 2015. Veja a série recente:
| Ano | Maior área do dia (milhões de km²) | Área média de 7/9 a 13/10 | Menor valor de ozônio (DU) |
|---|---|---|---|
| 2019 | 16,4 | 9,3 | 142 |
| 2020 | 24,8 | 23,5 | 94 |
| 2021 | 24,8 | 23,3 | 92 |
| 2022 | 26,5 | 23,2 | 97 |
| 2023 | 26,0 | 23,1 | 99 |
| 2024 | 22,4 | 19,6 | 107 |
| 2025 | 22,9 | 18,7 | 127 |
| 2026 | 27,1 (em 18/9) | 24,9 | 114 (em 4/10) |
Dois recados que a tabela dá de graça:
O buraco oscila muito de um ano para o outro. Em 2019 ele quase não apareceu — 9,3 milhões de km² de média, menos da metade do que vinha sendo medido — e ninguém comemorou a cura do ozônio. A razão está escrita na própria página do Ozone Watch: quem controla a profundidade e o tamanho do buraco antártico é a temperatura da estratosfera e a quantidade de luz solar que chega ao polo sul. Esses dois mudam bastante de ano para ano; a quantidade de cloro lá em cima muda devagar.
Os anos ruins não anulam a tendência. Para efeito de comparação, em 1979, quando a série começou, o maior valor do ano foi de 1,1 milhão de km²; no pico histórico, em 2000, chegou a 29,9 milhões. O que mudou de lá para cá está na seção seguinte.
Por que o buraco se forma justamente na Antártida
A pergunta é boa: os gases que destroem o ozônio foram liberados sobretudo no hemisfério norte, onde está a maior parte das fábricas. Por que o buraco abre do outro lado do mundo?
A resposta tem três partes:
- As substâncias viajam. Elas sobem perto do equador e escorrem pela estratosfera em direção aos polos, numa circulação que leva anos.
- O vórtice polar aprisiona. No inverno antártico, forma-se um anel de ventos velozes circulando o polo sul. Ele isola o ar lá dentro, que esfria muito mais do que em qualquer outro lugar do planeta.
- O Sol aperta o gatilho. As reações que destroem o ozônio precisam de luz. Quando o Sol volta ao polo, na primavera, elas disparam — e é por isso que o buraco aparece entre agosto e outubro, e não no auge do inverno, quando lá é noite o tempo todo. É também por isso que a NASA diz que temperatura da estratosfera e luz solar são o que controla o tamanho de cada temporada.
É o encontro de ar frio e isolado, química estocada e volta da luz. No Ártico, onde o vórtice é mais bagunçado e o ar mais quente, o fenômeno é muito mais fraco. A troca de estações entre os hemisférios, que faz a primavera do sul ser o outono do norte, está explicada em Estações do ano: por que existem e as datas de 2026 e 2027.
A parte boa: o tratado funcionou
Em 1987, o Protocolo de Montreal passou a regular a emissão dos gases que destroem o ozônio — os clorofluorcarbonetos, usados em geladeira, ar-condicionado e aerossol. Desde então, as emissões foram controladas e a quantidade dessas substâncias na atmosfera vem caindo.
É aqui que as duas metades da história se encaixam. O cloro e o bromo que ainda estão lá em cima foram, em boa parte, liberados décadas atrás: eles demoram muito para subir, e demoram muito para ir embora. Então o que se espera não é um desaparecimento súbito do buraco, e sim uma sequência de temporadas que, na média de muitos anos, vão ficando menores — com anos ruins no meio, como 2026, e anos espetacularmente bons, como 2019.
Dito de outro jeito: o gráfico virou. O que ainda está no ar é herança, e herança leva tempo para acabar.
Como acompanhar o buraco você mesmo
Os dados não são segredo nem privilégio de pesquisador. O NASA Ozone Watch (ozonewatch.gsfc.nasa.gov) publica, de graça:
- o mapa diário do ozônio sobre o hemisfério sul, com a mancha azul e roxa no centro;
- a tabela histórica, ano a ano, desde 1979;
- os arquivos de texto com a área e o valor mínimo de cada dia, que foi exatamente de onde saíram os números deste artigo.
Para ver a Antártida e o resto do planeta em outras camadas de dado, o caminho é o NASA Worldview, cujo passo a passo está em Como ver os focos de calor do Brasil de graça.
Um aviso honesto para o leitor brasileiro: o buraco é um fenômeno centrado na Antártida, e as páginas da NASA consultadas aqui não publicam índice de radiação ultravioleta para cidades brasileiras. Quem quiser saber o índice UV do próprio bairro precisa procurar os serviços de meteorologia e de saúde, que é quem mede isso no chão.




