Você não precisa esperar o noticiário para saber se está pegando fogo perto de casa. A NASA publica as detecções de fogo ativo do planeta inteiro de graça, sem cadastro e quase ao vivo, em dois sites abertos: o FIRMS (firms.modaps.eosdis.nasa.gov) e o NASA Worldview (worldview.earthdata.nasa.gov). No resto do mundo, os dados ficam disponíveis em até três horas depois de o satélite passar. Este guia mostra o caminho das pedras: onde clicar, qual camada ligar, como pedir aviso por e-mail e — o mais importante — como não ler errado o que aparece na tela.
O que é um "foco de calor" (e o que ele não é)
Antes de abrir qualquer mapa, vale entender o que o pontinho vermelho significa, porque é aí que quase todo mundo se confunde.
O satélite não vê chama e não conta incêndios. Ele mede radiação infravermelha — o mesmo tipo de sinal que o termômetro de testa da farmácia lê — e marca os lugares muito mais quentes que a vizinhança. Cada marca é uma anomalia térmica, apelidada de foco de calor.
Isso tem três consequências práticas:
- Um foco não é um incêndio. Um fogo grande pode produzir vários focos; um fogo pequeno pode produzir nenhum.
- Um foco é um pedaço de terreno, não um ponto. O que o mapa marca é o centro do pixel onde o sensor achou calor, e o pixel tem de 375 metros a 1 quilômetro de lado, dependendo do sensor.
- Nem todo calor é queimada. Siderúrgicas, queima de gás em refinarias e lavouras recém-queimadas também aparecem.
A foto que abre este artigo mostra o que isso parece de cima: a fumaça de incêndios no Canadá escorrendo sobre o meio-oeste dos Estados Unidos, registrada pelo sensor MODIS do satélite Terra em 9 de junho de 2015. O acervo público da NASA não tem imagem equivalente de fumaça sobre a Amazônia.
Quem já leu Como os satélites veem as queimadas na Amazônia sabe o resto da história: a conta oficial é um piso, não um retrato completo, porque fumaça densa, nuvem e copa de árvore escondem parte do fogo.
FIRMS: o mapa de fogo da NASA, passo a passo
FIRMS é a sigla de Fire Information for Resource Management System, o sistema de informação de fogo para gestão de recursos. Ele nasceu em 2007, na Universidade de Maryland, com dinheiro do Programa de Ciências Aplicadas da NASA e da FAO, a agência de alimentação e agricultura da ONU, e passou a ser operado pela NASA em 2012.
O caminho mais curto é este:
- Abra
firms.modaps.eosdis.nasa.gov/map/. O mapa do mundo carrega já com as detecções recentes. - Dê zoom na sua região. No celular, dois dedos; no computador, a rolagem do mouse.
- No painel lateral, escolha o período: as últimas 24 horas, 48 horas, 7 dias ou uma data específica do arquivo.
- Escolha a fonte de dados — é a lista com MODIS e VIIRS, explicada na seção abaixo.
- Clique em qualquer ponto para ver hora da passagem do satélite, sensor e a confiança da detecção.
Não precisa de login, não precisa instalar nada e funciona no navegador do celular.

Worldview: a Terra de ontem e de hoje, camada por camada
O FIRMS responde "onde tem calor". O Worldview responde "como aquilo está aparecendo". São ferramentas irmãs e vale usar as duas.
O Worldview é um visualizador interativo com mais de 1.200 produtos de imagem de satélite, muitos deles disponíveis poucas horas depois de terem sido captados — na prática, o planeta quase como ele está agora. O que fazer lá:
- Trocar a data. A barra de tempo embaixo volta para qualquer dia do arquivo. Dá para comparar o antes e o depois de uma queimada.
- Animar. Escolha um intervalo de dias e o mapa vira um filminho da fumaça se espalhando.
- Ligar a camada de fogo. As detecções do FIRMS entram como camada sobre a imagem real.
- Usar a aba de eventos. Ela lista incêndios, tempestades tropicais e erupções vulcânicas em curso, cada um com um atalho que já leva o mapa para o lugar certo.
- Ver imagem de satélite geoestacionário, disponível em passos de dez minutos para os últimos 90 dias.
Para quem só quer uma figura para mandar no grupo da família, existe o Worldview Snapshots, uma versão enxuta que gera a imagem de um pedaço do mapa e deixa baixar. Ele foi feito pensando em quem tem internet ruim.
MODIS ou VIIRS? Qual número olhar
Os dois nomes que aparecem na lista de fontes são sensores diferentes, a bordo de satélites diferentes. A escolha muda o que você enxerga.
| Sensor | Vai a bordo de | Tamanho do pixel | Quando usar |
|---|---|---|---|
| MODIS | Terra e Aqua (NASA) | 1 km | Série longa, para comparar com anos anteriores |
| VIIRS | Suomi NPP, NOAA-20 e NOAA-21 | 375 m | Fogo pequeno e detecção de madrugada |
O VIIRS é o mais novo e tem quase três vezes mais detalhe na largura do pixel, o que faz diferença grande: é ele que pega o fogo pequeno, de baixa intensidade, que o MODIS deixa passar. A própria NASA registra que o VIIRS tem desempenho melhor à noite.
Na dúvida, ligue os dois. Se um foco aparece nos dois sensores, a chance de ser fogo de verdade é maior.
Peça um aviso por e-mail e esqueça o mapa
Esta é a parte que quase ninguém conhece, e é a mais útil para quem mora perto de mata, tem sítio ou trabalha com terra.
Em firms.modaps.eosdis.nasa.gov/alerts/ dá para cadastrar uma área de interesse — um retângulo no mapa ou um país inteiro — e receber alerta por e-mail quando houver detecção de fogo dentro dela. Você escolhe a frequência e os sensores. Depois disso, não precisa mais abrir mapa nenhum: o aviso chega sozinho.
Baixar os dados e fazer sua própria conta
Se a ideia é pesquisa escolar, reportagem ou um trabalho de faculdade, o caminho é firms.modaps.eosdis.nasa.gov/download/. Lá o sistema monta um arquivo com as detecções da região e do período que você pedir, em formatos de planilha e de mapa.
Cada linha traz coordenadas, data, hora, sensor e a confiança da detecção. É o mesmo dado bruto que os pesquisadores usam — a NASA mantém política de dados aberta, e só pede que quem republicar diga de onde veio.
Vale lembrar que o Brasil também tem olhos próprios em órbita, contados em Amazônia-1: o que o satélite brasileiro faz por você, e que o motivo de a temporada de fogo deste ano estar tão forte está do outro lado do planeta, no Pacífico, como explica Como os satélites enxergam o El Niño?.
Uma mudança marcada para novembro de 2026
Quem usa esses dados com frequência precisa anotar: a entrega de observações novas do satélite Suomi NPP vai cessar em 2 de novembro de 2026, segundo o aviso que a própria NASA mantém no alto das páginas de dados. A agência recomenda que os usuários migrem agora para os produtos equivalentes do NOAA-20 e do NOAA-21.
Para quem só olha o mapa, nada muda: os focos continuam aparecendo, vindos dos outros satélites. Para quem baixa arquivo e faz série histórica, é hora de trocar a fonte.
Cinco erros comuns na hora de ler o mapa
- Contar focos como se fossem incêndios. Um incêndio grande gera vários focos no mesmo dia.
- Comparar sensores diferentes. Um número de VIIRS não se compara com um número de MODIS: o pixel é outro.
- Achar que o mapa está vazio porque não há fogo. Pode haver nuvem, fumaça densa ou simplesmente nenhuma passagem de satélite ainda naquele horário.
- Ignorar o horário da passagem. Cada satélite passa em horários determinados. O fogo que começou depois da passagem só aparece na próxima.
- Esquecer a confiança. Cada detecção vem com um grau de confiança; focos de confiança baixa pedem cautela antes de virar manchete.




