Guias práticos

Como ver os focos de calor do Brasil de graça

A NASA publica as detecções de fogo do planeta inteiro de graça e quase ao vivo. Veja o passo a passo para achar os focos de calor da sua região.

Publicado em 7 min de leitura
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Mancha cinzenta de fumaça de queimada vista do espaço cobrindo lagos e campos verdes, do tipo que alimenta os mapas de focos de calor da NASA
Foto: NASA/Jeff Schmaltz, MODIS Rapid Response Team
Neste artigo
  1. O que é um "foco de calor" (e o que ele não é)
  2. FIRMS: o mapa de fogo da NASA, passo a passo
  3. Worldview: a Terra de ontem e de hoje, camada por camada
  4. MODIS ou VIIRS? Qual número olhar
  5. Peça um aviso por e-mail e esqueça o mapa
  6. Baixar os dados e fazer sua própria conta
  7. Uma mudança marcada para novembro de 2026
  8. Cinco erros comuns na hora de ler o mapa

Você não precisa esperar o noticiário para saber se está pegando fogo perto de casa. A NASA publica as detecções de fogo ativo do planeta inteiro de graça, sem cadastro e quase ao vivo, em dois sites abertos: o FIRMS (firms.modaps.eosdis.nasa.gov) e o NASA Worldview (worldview.earthdata.nasa.gov). No resto do mundo, os dados ficam disponíveis em até três horas depois de o satélite passar. Este guia mostra o caminho das pedras: onde clicar, qual camada ligar, como pedir aviso por e-mail e — o mais importante — como não ler errado o que aparece na tela.

O que é um "foco de calor" (e o que ele não é)

Antes de abrir qualquer mapa, vale entender o que o pontinho vermelho significa, porque é aí que quase todo mundo se confunde.

O satélite não vê chama e não conta incêndios. Ele mede radiação infravermelha — o mesmo tipo de sinal que o termômetro de testa da farmácia lê — e marca os lugares muito mais quentes que a vizinhança. Cada marca é uma anomalia térmica, apelidada de foco de calor.

Isso tem três consequências práticas:

  • Um foco não é um incêndio. Um fogo grande pode produzir vários focos; um fogo pequeno pode produzir nenhum.
  • Um foco é um pedaço de terreno, não um ponto. O que o mapa marca é o centro do pixel onde o sensor achou calor, e o pixel tem de 375 metros a 1 quilômetro de lado, dependendo do sensor.
  • Nem todo calor é queimada. Siderúrgicas, queima de gás em refinarias e lavouras recém-queimadas também aparecem.

A foto que abre este artigo mostra o que isso parece de cima: a fumaça de incêndios no Canadá escorrendo sobre o meio-oeste dos Estados Unidos, registrada pelo sensor MODIS do satélite Terra em 9 de junho de 2015. O acervo público da NASA não tem imagem equivalente de fumaça sobre a Amazônia.

Quem já leu Como os satélites veem as queimadas na Amazônia sabe o resto da história: a conta oficial é um piso, não um retrato completo, porque fumaça densa, nuvem e copa de árvore escondem parte do fogo.

FIRMS: o mapa de fogo da NASA, passo a passo

FIRMS é a sigla de Fire Information for Resource Management System, o sistema de informação de fogo para gestão de recursos. Ele nasceu em 2007, na Universidade de Maryland, com dinheiro do Programa de Ciências Aplicadas da NASA e da FAO, a agência de alimentação e agricultura da ONU, e passou a ser operado pela NASA em 2012.

O caminho mais curto é este:

  1. Abra firms.modaps.eosdis.nasa.gov/map/. O mapa do mundo carrega já com as detecções recentes.
  2. Dê zoom na sua região. No celular, dois dedos; no computador, a rolagem do mouse.
  3. No painel lateral, escolha o período: as últimas 24 horas, 48 horas, 7 dias ou uma data específica do arquivo.
  4. Escolha a fonte de dados — é a lista com MODIS e VIIRS, explicada na seção abaixo.
  5. Clique em qualquer ponto para ver hora da passagem do satélite, sensor e a confiança da detecção.

Não precisa de login, não precisa instalar nada e funciona no navegador do celular.

Técnicos de macacão branco trabalhando em volta de um satélite cilíndrico coberto de manta térmica dourada, dentro de uma sala limpa
O satélite JPSS-2 sendo preparado em outubro de 2022, antes do lançamento. Já em órbita ele virou NOAA-21 e passou a carregar um dos sensores VIIRS que alimentam o mapa de fogo da NASA. Satélites assim dão 14 voltas na Terra por dia e cobrem o planeta inteiro duas vezes em 24 horas. Foto: NASA/USSF 30th Space Wing/Aaron Taubman

Worldview: a Terra de ontem e de hoje, camada por camada

O FIRMS responde "onde tem calor". O Worldview responde "como aquilo está aparecendo". São ferramentas irmãs e vale usar as duas.

O Worldview é um visualizador interativo com mais de 1.200 produtos de imagem de satélite, muitos deles disponíveis poucas horas depois de terem sido captados — na prática, o planeta quase como ele está agora. O que fazer lá:

  • Trocar a data. A barra de tempo embaixo volta para qualquer dia do arquivo. Dá para comparar o antes e o depois de uma queimada.
  • Animar. Escolha um intervalo de dias e o mapa vira um filminho da fumaça se espalhando.
  • Ligar a camada de fogo. As detecções do FIRMS entram como camada sobre a imagem real.
  • Usar a aba de eventos. Ela lista incêndios, tempestades tropicais e erupções vulcânicas em curso, cada um com um atalho que já leva o mapa para o lugar certo.
  • Ver imagem de satélite geoestacionário, disponível em passos de dez minutos para os últimos 90 dias.

Para quem só quer uma figura para mandar no grupo da família, existe o Worldview Snapshots, uma versão enxuta que gera a imagem de um pedaço do mapa e deixa baixar. Ele foi feito pensando em quem tem internet ruim.

MODIS ou VIIRS? Qual número olhar

Os dois nomes que aparecem na lista de fontes são sensores diferentes, a bordo de satélites diferentes. A escolha muda o que você enxerga.

Sensor Vai a bordo de Tamanho do pixel Quando usar
MODIS Terra e Aqua (NASA) 1 km Série longa, para comparar com anos anteriores
VIIRS Suomi NPP, NOAA-20 e NOAA-21 375 m Fogo pequeno e detecção de madrugada

O VIIRS é o mais novo e tem quase três vezes mais detalhe na largura do pixel, o que faz diferença grande: é ele que pega o fogo pequeno, de baixa intensidade, que o MODIS deixa passar. A própria NASA registra que o VIIRS tem desempenho melhor à noite.

Na dúvida, ligue os dois. Se um foco aparece nos dois sensores, a chance de ser fogo de verdade é maior.

Peça um aviso por e-mail e esqueça o mapa

Esta é a parte que quase ninguém conhece, e é a mais útil para quem mora perto de mata, tem sítio ou trabalha com terra.

Em firms.modaps.eosdis.nasa.gov/alerts/ dá para cadastrar uma área de interesse — um retângulo no mapa ou um país inteiro — e receber alerta por e-mail quando houver detecção de fogo dentro dela. Você escolhe a frequência e os sensores. Depois disso, não precisa mais abrir mapa nenhum: o aviso chega sozinho.

Baixar os dados e fazer sua própria conta

Se a ideia é pesquisa escolar, reportagem ou um trabalho de faculdade, o caminho é firms.modaps.eosdis.nasa.gov/download/. Lá o sistema monta um arquivo com as detecções da região e do período que você pedir, em formatos de planilha e de mapa.

Cada linha traz coordenadas, data, hora, sensor e a confiança da detecção. É o mesmo dado bruto que os pesquisadores usam — a NASA mantém política de dados aberta, e só pede que quem republicar diga de onde veio.

Vale lembrar que o Brasil também tem olhos próprios em órbita, contados em Amazônia-1: o que o satélite brasileiro faz por você, e que o motivo de a temporada de fogo deste ano estar tão forte está do outro lado do planeta, no Pacífico, como explica Como os satélites enxergam o El Niño?.

Uma mudança marcada para novembro de 2026

Quem usa esses dados com frequência precisa anotar: a entrega de observações novas do satélite Suomi NPP vai cessar em 2 de novembro de 2026, segundo o aviso que a própria NASA mantém no alto das páginas de dados. A agência recomenda que os usuários migrem agora para os produtos equivalentes do NOAA-20 e do NOAA-21.

Para quem só olha o mapa, nada muda: os focos continuam aparecendo, vindos dos outros satélites. Para quem baixa arquivo e faz série histórica, é hora de trocar a fonte.

Cinco erros comuns na hora de ler o mapa

  1. Contar focos como se fossem incêndios. Um incêndio grande gera vários focos no mesmo dia.
  2. Comparar sensores diferentes. Um número de VIIRS não se compara com um número de MODIS: o pixel é outro.
  3. Achar que o mapa está vazio porque não há fogo. Pode haver nuvem, fumaça densa ou simplesmente nenhuma passagem de satélite ainda naquele horário.
  4. Ignorar o horário da passagem. Cada satélite passa em horários determinados. O fogo que começou depois da passagem só aparece na próxima.
  5. Esquecer a confiança. Cada detecção vem com um grau de confiança; focos de confiança baixa pedem cautela antes de virar manchete.

Perguntas frequentes

O mapa de queimadas da NASA é mesmo gratuito?

É. O FIRMS e o Worldview são abertos, não cobram nada e não exigem cadastro para ver o mapa. Só o serviço de alerta por e-mail pede um endereço para enviar o aviso. A NASA mantém política de compartilhamento aberto dos dados e pede apenas que quem repassar as informações cite a fonte.

De quanto em quanto tempo o mapa é atualizado?

Globalmente, as detecções de fogo ficam disponíveis em até três horas depois da observação do satélite. Nos Estados Unidos e no Canadá, parte das detecções sai em tempo real. O que limita a atualização não é o site: é a hora em que o satélite passa por cima da sua região.

Qual é a diferença entre foco de calor e incêndio?

Foco de calor é o registro de um ponto da superfície muito mais quente que a vizinhança, feito por um sensor infravermelho. Incêndio é o fogo em si. Um incêndio pode gerar vários focos, e um fogo pequeno ou escondido sob a copa das árvores pode não gerar nenhum.

Dá para ver as queimadas do meu município?

Dá, desde que o município apareça no zoom — e aparece, porque o mapa é global e chega a escala de poucos quilômetros. O que não dá é esperar precisão de rua: o pixel do VIIRS tem 375 metros de lado e o do MODIS, 1 quilômetro. O ponto no mapa é o centro desse quadrado, não o endereço do fogo.

Posso usar essas imagens num trabalho da escola?

Pode. Os dados e as imagens são de uso livre. A NASA pede que o crédito mencione o FIRMS e o sistema LANCE, que é a estrutura da agência responsável por entregar dados de observação da Terra quase em tempo real.

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