Satélites não encontram queimada procurando fumaça: eles procuram calor. Os sensores que vigiam a Amazônia leem a radiação infravermelha que sai do chão e identificam os pontos muito mais quentes que a vizinhança — é por isso que o número que aparece no noticiário se chama foco de calor, e não "incêndio". O método funciona de madrugada, funciona de dia e cobre o país inteiro todo dia. Mas ele tem um limite importante, que a própria NASA admite: quando a fumaça fica muito densa, o satélite deixa de ver o fogo que a produziu. Em 15 de outubro de 2026, a agência publicou o balanço do que seus sensores estão captando sobre a Amazônia — e também o que eles estão deixando passar.
O que os satélites estão vendo agora
A partir de setembro de 2026, os satélites detectaram um aumento forte da atividade de fogo e da emissão de fumaça no centro e no leste da Amazônia. A região com atividade elevada se estende das florestas em volta de Manaus e Santarém até a foz do rio Amazonas.
Em 12 de outubro de 2026, o sensor MODIS, a bordo do satélite Aqua da NASA, registrou fumaça saindo de incêndios nas duas margens do rio Amazonas. Naquele dia, a fumaça pesada se fechou sobre Manaus. As autoridades municipais relataram qualidade do ar extremamente ruim, com material particulado fino acima de 135 microgramas por metro cúbico — a segunda pior faixa de um índice regional de qualidade do ar.
O efeito numa cidade de mais de 2 milhões de pessoas foi imediato: escolas fecharam, e eventos e ligas esportivas infantis foram cancelados, com as autoridades alertando para ar perigoso.
Como um satélite enxerga fogo
Todo corpo quente emite radiação infravermelha — é o mesmo princípio do termômetro de testa da farmácia e das câmeras térmicas. Uma chama no meio da floresta é, para esse tipo de sensor, um ponto absurdamente brilhante no meio de um fundo escuro, mesmo que seja noite e mesmo que o olho humano não visse nada.
Dois sensores fazem esse trabalho na Amazônia:
- MODIS, o espectrorradiômetro de imagem de resolução moderada, que voa nos satélites Terra e Aqua;
- VIIRS, o conjunto de imageamento no visível e no infravermelho, mais novo e com mais detalhe.
Os resultados vão para plataformas públicas, e vale anotar os nomes porque elas são abertas: o FIRMS (sistema de informação de fogo para gestão de recursos, da NASA), o GFED (banco global de emissões de fogo) e o NASA Worldview, que mostra o planeta quase em tempo real.

Por que a conta sai menor que a realidade
Este é o ponto mais interessante da publicação da NASA, e é um exercício de honestidade científica.
Satélites perdem incêndios. As razões são três: fumaça densa, nuvens e a própria copa das árvores, que bloqueiam o sinal infravermelho antes que ele chegue ao sensor. O problema é pior justamente com os fogos de baixa intensidade, que se espalham rente ao chão, por baixo da floresta — exatamente os que mais degradam a mata.
Dá para pensar assim: é como tentar enxergar da rua uma vela acesa dentro de uma casa com as cortinas fechadas. A vela está lá; o problema é a cortina.
Shane Coffield, pesquisador da Universidade de Maryland lotado no Centro Goddard da NASA, está vasculhando as observações do VIIRS atrás de incêndios que ficaram abaixo do limite para entrar nos produtos oficiais distribuídos pelo FIRMS. O resultado dele é direto:
"Para a área em torno de Santarém, identificamos cerca de 40% mais incêndios do que você vê nas contagens de fogo ativo do FIRMS."
Só na região de Santarém, a análise das observações de satélite indica de 50 a 70 incêndios sem controle. Coffield pretende repassar a localização desses "incêndios candidatos" a cientistas do MapBiomas, a rede de universidades, ONGs e empresas de tecnologia que mapeia fogo e uso da terra na Amazônia.
"Em alguns dos dias mais enfumaçados, temos pouquíssimas detecções do MODIS e do VIIRS, e sabemos que isso não está certo", disse ele.
A fila de dominós do El Niño
Por que justamente agora? A resposta liga esta reportagem ao oceano, do outro lado do mundo.
Segundo Douglas Morton, cientista de sistemas terrestres do Centro Goddard da NASA, o fogo nos trópicos acompanha os padrões de chuva bagunçados pelo El Niño numa sequência que ele chama de "cascata". Ela começa no equador, com seca e queima de turfa na Indonésia, e continua nesta parte da Amazônia. Morton e colegas descreveram o padrão num estudo de 2017, depois da temporada destrutiva que acompanhou o El Niño de 2015 e 2016, e viram o mesmo se repetir em 2023.
Em 2026 a cascata seguiu o roteiro. Seca, fogo e fumaça castigam partes da Indonésia desde agosto, com centenas de casas destruídas em outubro. "Agora, na Amazônia, estamos vendo o segundo dominó da cascata cair", disse Morton, referindo-se ao aumento de incêndios no Pará e no Amazonas.
| Quando | Onde o fogo é esperado |
|---|---|
| Desde agosto de 2026 | Indonésia (seca, turfa, fumaça) |
| Setembro a dezembro de 2026 | Centro e leste da Amazônia: Pará e Amazonas |
| Novembro e dezembro de 2026 | Roraima, norte do Pará, Amapá, Venezuela, Guiana e Suriname |
| Dezembro de 2026 ou janeiro de 2027 | Chegada da estação chuvosa em Santarém e Manaus |
| Agosto e setembro de 2027 | Pico de seca e risco no sul da Amazônia, no Brasil e no Paraguai |
O mecanismo que liga o Pacífico à chuva da Amazônia, e como ele é medido do espaço, está em Como os satélites enxergam o El Niño?.
A seca deste ano foi severa: segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, citado pela NASA, a chuva em Manaus ficou 95% abaixo do normal em agosto e 60% abaixo em setembro. Noventa e cinco por cento a menos quer dizer que, de cada 100 milímetros que costumam cair, caíram cinco.
Quem põe fogo na floresta
Aqui o dado é inequívoco e importante para desfazer mal-entendidos. Na Amazônia brasileira, relâmpagos acendem menos de 1% dos incêndios. A floresta é úmida demais para pegar fogo sozinha com facilidade. Ou seja: a imensa maioria dos incêndios que estão queimando agora foi iniciada por pessoas.
Isso não quer dizer necessariamente incendiário. Segundo Morton, os grandes incêndios da região começaram como queimadas de manejo — limpar arbustos de pastagens, queimar restos de cultura em lavouras — e depois escaparam, passando a correr livremente pelo sub-bosque ressecado da floresta.
É a combinação que faz o estrago: uma prática antiga de manejo encontra uma floresta seca por um El Niño forte, e o que seria uma queima controlada vira incêndio florestal. E incêndio em floresta tropical causa dano ecológico especialmente grave, porque a maioria das espécies de lá não é adaptada ao fogo — diferente do cerrado, que convive com queimadas há milênios.
Pior: muitas das florestas que estão queimando agora já tinham queimado nos El Niños de 2015 e de 2023. O fogo anterior chamuscou parte das árvores e degradou a mata, deixando o que sobrou mais suscetível a queimar de novo, e com mais intensidade.
"É tão marcante — e frustrante — que isso esteja acontecendo tudo de novo", disse Morton.
O que vem pela frente
Morton espera que os incêndios em torno de Santarém e Manaus continuem queimando até a estação chuvosa chegar, em dezembro de 2026 ou janeiro de 2027. Para as regiões ao norte e ao sul, ainda há tempo de se preparar.
O recado dele é curto: "dada a intensidade deste El Niño, este é realmente o ano para as pessoas evitarem queimar a qualquer custo."
O Brasil não depende só de satélites estrangeiros para isso. O país opera os seus próprios olhos em órbita, como conta Amazônia-1: o que o satélite brasileiro faz por você, e tem um programa espacial com história e orçamento próprios, resumido em O Brasil tem programa espacial? O que a AEB faz. Curiosamente, o mesmo fogo que aqui é difícil de enxergar de cima se comporta de um jeito completamente diferente fora da Terra, como explica Como o fogo queima no espaço? A chama vira uma bola.




