Perguntas que todo mundo faz

Por que as estrelas têm cores diferentes?

Azul é quente, vermelho é frio — o contrário da torneira. A cor de uma estrela é o termômetro dela, e dá para conferir isso a olho nu do Brasil.

Publicado em 7 min de leitura
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Aglomerado de estrelas fotografado pelo Hubble, com uma estrela alaranjada brilhante no alto e um punhado de estrelas azul-esbranquiçadas no centro
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. A analogia que resolve: o ferro na brasa
  2. A conta que transforma cor em temperatura
  3. As sete letras que os astrônomos usam
  4. O teste que você pode fazer hoje à noite
  5. Cuidado para não confundir com o tremeluzir
  6. As cores que você não vê são a maioria
  7. Cor, massa e tempo de vida andam juntos

A cor de uma estrela é, basicamente, o termômetro dela. Estrela azul é quente, estrela vermelha é fria — exatamente o contrário da torneira do banheiro, e essa inversão é o motivo de tanta gente errar. Quem é azulada passa dos 30.000 °C na superfície, segundo o glossário da NASA; quem é avermelhada fica na casa dos 2.200 a 3.600 °C. O Sol, amarelado, está no meio do caminho, com 5.772 K, ou cerca de 5.500 °C.

Não é efeito de filtro, nem de distância, nem de poeira no caminho. É a mesma física do ferro no fogo: aqueça o bastante e ele muda de cor.

A analogia que resolve: o ferro na brasa

Quem já viu uma barra de ferro sendo aquecida numa forja, ou a resistência de um chuveiro elétrico velho pegando cor, já observou o fenômeno inteiro. A barra fria é escura. Vai esquentando e começa a brilhar num vermelho fosco. Mais quente, fica laranja. Mais ainda, amarelo. E se você conseguisse aquecer muito além disso, ela passaria para o branco-azulado.

A barra não trocou de material em nenhum momento. Só mudou de temperatura. Toda coisa quente emite luz, e a cor dessa luz entrega a temperatura.

Outro lugar onde isso aparece todo dia no Brasil: a boca do fogão. A parte azulada da chama do gás é a mais quente; a pontinha amarela, onde falta oxigênio e sobra fuligem, é mais fria. Quem cozinha já sabe disso sem nunca ter ouvido falar em astronomia.

A conta que transforma cor em temperatura

Existe uma regra simples ligando as duas coisas: quanto mais quente o objeto, mais curto o comprimento de onda da luz que ele emite com mais força. Comprimento de onda curto é o lado azul do arco-íris; comprimento longo é o lado vermelho.

Dá para conferir que a regra funciona usando o único astro cuja temperatura conhecemos com precisão. A ficha solar da NASA registra a superfície do Sol a 5.772 K. Aplicando a regra, a emissão dele deveria ser mais forte perto de 502 nanômetros — que é luz verde, bem no meio da faixa que o olho humano enxerga. E é exatamente ali que o espectro solar tem seu pico, como os livros publicam há mais de um século. A conta fecha.

Repetindo o cálculo para outras temperaturas:

Temperatura da superfície Onde a luz é mais forte Cor que a gente vê
3.000 K (uns 2.700 °C) 966 nm, infravermelho Vermelha
3.500 K 828 nm, infravermelho Laranja-avermelhada
5.772 K (o Sol) 502 nm, verde Branco-amarelada
11.000 K 263 nm, ultravioleta Azul-esbranquiçada
30.000 K 96 nm, ultravioleta Azul

Uma coisa estranha salta aos olhos nessa tabela: nenhuma estrela parece verde, apesar de o Sol emitir mais luz verde do que qualquer outra cor. O motivo é que uma estrela não emite só uma cor — ela despeja um pouco de tudo. Com o pico no verde e as laterais cobrindo azul e vermelho em quantidades parecidas, a mistura que chega ao olho é branca. Verde puro só sairia de um objeto que emitisse verde e mais nada, e estrela nenhuma faz isso.

As sete letras que os astrônomos usam

Desde o século XIX os astrônomos separam as estrelas em classes por letra. A sequência sobreviveu bagunçada por razões históricas — as classes foram criadas para outra coisa e depois reordenadas por temperatura — e hoje é esta, da mais quente para a mais fria: O, B, A, F, G, K, M.

Classe Cor (NASA) Exemplo que o Brasil vê
O Azul Alnitak, uma das três estrelas das Três Marias
B Azul-esbranquiçada Rigel, no pé de Órion; Mimosa, no Cruzeiro
A Branca Sirius, a estrela mais brilhante da noite
F Branco-amarelada Canopus, a segunda mais brilhante
G Amarela O Sol; Alfa Centauri A
K Alaranjada Arcturus; Aldebaran, o olho do Touro
M Vermelha Betelgeuse e Antares; Gacrux, na ponta norte do Cruzeiro

A classificação de cada uma dessas estrelas não é chute: ela está medida no catálogo de estrelas brilhantes de Yale, de domínio público, que registra Sirius como A1, Rigel como B8, Betelgeuse como M1-2 e Alnitak como O9,7. O mesmo catálogo traz um número que mede a cor diretamente, o índice de cor: ele vale −0,03 para Rigel (azulada) e +1,85 para Betelgeuse (bem vermelha). Quanto maior o número, mais vermelha a estrela.

Campo de estrelas do Hubble com um aglomerado no centro, misturando pontos azul-esbranquiçados e estrelas claramente alaranjadas
O aglomerado NGC 299, na constelação do Tucano — céu do hemisfério sul, visível do Brasil. As estrelas alaranjadas e as azul-esbranquiçadas nasceram da mesma nuvem e têm a mesma idade: o que muda entre elas é a massa, e com ela a temperatura. Foto: NASA/GSFC

O teste que você pode fazer hoje à noite

Órion é o melhor laboratório do céu, e do Brasil ele aparece alto e deitado nas noites de verão. Olhe para as duas estrelas mais brilhantes da constelação:

  • Betelgeuse, no ombro, é visivelmente alaranjada.
  • Rigel, no pé, na diagonal oposta, é visivelmente azul-esbranquiçada.

Elas estão lado a lado no céu, o que facilita a comparação — e é essa comparação que denuncia a cor. Olhando uma estrela isolada, o olho se adapta e tende a achar tudo branco. Se o céu da sua cidade for muito claro, um binóculo comum resolve: ele junta mais luz e os tons ficam óbvios. Como achar o conjunto está em As Três Marias e Órion: como achar no céu do Brasil.

Outro par fácil: no Cruzeiro do Sul, três das quatro pontas são azuladas e uma delas, Gacrux, é claramente alaranjada. Quem souber achar o Cruzeiro — o passo a passo está em Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu — consegue ver a diferença sem equipamento nenhum.

Cuidado para não confundir com o tremeluzir

Existe um segundo fenômeno que faz uma estrela parecer trocar de cor, e ele não tem nada a ver com temperatura: é a atmosfera da Terra separando as cores como um prisma, especialmente quando a estrela está baixa no horizonte. Sirius, perto do horizonte, pisca em vermelho e azul freneticamente e já virou denúncia de OVNI muitas vezes.

A diferença é fácil de guardar: a cor verdadeira é constante e só aparece quando você compara uma estrela com outra. O piscar colorido é rápido, nervoso e muda a cada instante — e some quando a estrela sobe no céu. O detalhe está em Por que as estrelas piscam?.

As cores que você não vê são a maioria

Aqui está a parte que surpreende. Olhando o céu, a impressão é de que o universo é feito de estrelas brancas e azuladas. É o contrário.

Segundo a NASA, as anãs vermelhas — as menores e mais frias, de classe M — respondem por cerca de três em cada quatro estrelas da Via Láctea. As páginas da agência divergem um pouco no número exato (uma diz 73%, outra 75%), mas a ordem de grandeza é a mesma. As alaranjadas de classe K são 13%, e as amarelas como o Sol, apenas 6%.

Ou seja: o Sol já é incomum, e as estrelas azuis que dominam a nossa impressão do céu são raríssimas. Elas aparecem porque são monstruosamente brilhantes e visíveis de muito longe — Rigel emite 120 mil vezes mais luz que o Sol. As anãs vermelhas, ao contrário, são tão apagadas que nenhuma delas é visível a olho nu, nem a vizinha mais próxima de todas, Proxima Centauri, a pouco mais de 4 anos-luz.

Cor, massa e tempo de vida andam juntos

A temperatura de uma estrela é decidida, quase inteiramente, pela massa com que ela nasceu. Mais massa significa mais peso comprimindo o centro, centro mais quente, reações nucleares mais aceleradas e superfície mais quente — portanto, mais azul.

E aqui vem a troca cruel: quem queima mais rápido dura menos. As estrelas azuis de classe O e B, que podem ter de 2 a mais de 90 vezes a massa do Sol, gastam o combustível em poucos milhões de anos e terminam em supernova. As anãs vermelhas, com 8% a 60% da massa solar, vão economizando e devem durar mais que a idade atual do universo. O Sol, no meio-termo, tem uns 10 bilhões de anos de vida útil, e já gastou metade. O que acontece no fim de cada caminho está em O que sobra quando uma estrela morre?.

Uma ressalva honesta: isso vale para estrelas na fase adulta. Betelgeuse e Antares são vermelhas sem serem pequenas — são gigantes velhas que incharam e, por isso, esfriaram na superfície. Vermelho continua significando "superfície fria", mas não significa "estrela pequena".

Perguntas frequentes

De que cor é o Sol, afinal?

Branco. Visto do espaço, sem atmosfera no caminho, o Sol é branco. Ele parece amarelado daqui porque o ar espalha preferencialmente a luz azul para os lados — o mesmo efeito que deixa o céu azul e o pôr do sol laranja, explicado em Por que o céu é azul?.

Qual é a estrela mais quente que dá para ver a olho nu do Brasil?

Alnitak, a estrela mais a leste das Três Marias, é de classe O — a mais quente de todas as classes, acima de 30.000 °C na superfície. É também das mais raras: estrelas O são uma fração minúscula do total.

Existe estrela verde ou roxa?

Não, e o motivo é bom: uma estrela emite um pouco de todas as cores ao mesmo tempo. Mesmo quando o pico da emissão cai no verde — o caso do nosso Sol —, a mistura que chega ao olho é branca. Verde isolado exigiria uma estrela que emitisse só aquela faixa, e isso não existe.

Por que nas fotos do Hubble as cores são tão fortes?

Em parte porque a câmera acumula luz por muito tempo, enquanto o olho não acumula. Em parte porque muitas imagens combinam filtros, inclusive de luz que o olho não vê, e a cor final é uma escolha de representação. As fotos deste artigo são de luz visível e mostram cores próximas das reais, mas essa ressalva vale sempre que alguém disser "a cor verdadeira".

A cor de uma estrela muda com o tempo?

Muda, em escalas de milhões a bilhões de anos. Quando o Sol esgotar o hidrogênio do centro, ele vai inchar e esfriar na superfície, virando uma gigante avermelhada. O calendário disso está em O Sol vai explodir? Quando e o que acontece com a gente.

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