As Três Marias são três estrelas alinhadas e quase igualmente espaçadas que formam o cinturão da constelação de Órion, o Caçador. Elas são a figura mais fácil de achar no céu brasileiro, e voltam ao céu da noite agora: em 1º de novembro de 2026 já aparecem às 22h em todo o país, entre 10 e 27 graus de altura conforme a cidade, e em 15 de dezembro, no mesmo horário, passam de 50 graus na maior parte do Brasil. Em janeiro, ficam praticamente em cima da sua cabeça.
Elas nascem quase no ponto leste exato e se põem quase no ponto oeste exato — o que faz delas, além de bonitas, a bússola mais confiável do céu de verão. E, logo abaixo do alinhamento, mora a nebulosa mais famosa que existe, visível a olho nu de um lugar escuro.
O que são as Três Marias, afinal
As Três Marias não são uma constelação. Elas são um asterismo: um desenho popular, formado por estrelas que pertencem a uma constelação maior. Nesse caso, a constelação é Órion, que os astrônomos oficializaram com esse nome e que ocupa um pedaço grande do céu.
Constelação, hoje, é uma região do céu com fronteiras definidas, como um bairro no mapa de uma cidade — a explicação completa está em Constelações: as 88 oficiais e as que se veem do Brasil. Asterismo é uma figura que as pessoas enxergam dentro desse bairro.
E as três estrelas não têm nada a ver umas com as outras: estão a distâncias muito diferentes e só parecem vizinhas porque ficam quase na mesma direção, como dois postes que parecem colados na foto e estão em ruas diferentes.
As três estrelas, uma a uma
Os nomes próprios delas vêm do árabe e têm quase mil anos. Os números de brilho abaixo saem do Catálogo de Estrelas Brilhantes de Yale, de domínio público; quanto menor o número da magnitude, mais brilhante é a estrela — é uma escala invertida, criada na Grécia antiga e mantida por tradição.
| Nome | Letra | Brilho (magnitude) | Onde fica na linha |
|---|---|---|---|
| Mintaka | delta de Órion | 2,23 | Ponta de cima (a oeste) |
| Alnilam | épsilon de Órion | 1,70 | No meio, e a mais brilhante das três |
| Alnitak | zeta de Órion | 2,05 | Ponta de baixo (a leste) |
O que torna o desenho tão marcante não é o brilho, é a regularidade. Pelas posições do catálogo, de Mintaka a Alnilam vão 1,386 grau e de Alnilam a Alnitak, 1,356 grau (contas nossas): os dois vãos são iguais dentro de 2%. O olho humano é ótimo em perceber padrões regulares, e por isso ninguém confunde as Três Marias com nada.
O cinturão inteiro, de ponta a ponta, mede 2,74 graus. Para ter noção: a Lua cheia tem meio grau de largura. As Três Marias cabem cinco Luas e meia enfileiradas, o que é mais ou menos a largura de dois dedos juntos com o braço esticado.
O truque que faz delas uma bússola
Aqui vem a parte prática que quase ninguém conta. Alnilam, a estrela do meio, fica a 1,2 grau ao sul do equador celeste — ou seja, praticamente em cima da linha imaginária que divide o céu em dois hemisférios.
Isso tem duas consequências diretas:
Primeira: as Três Marias nascem quase no leste exato e se põem quase no oeste exato, de qualquer lugar do mundo e em qualquer época. Vistas de São Paulo, elas surgem no horizonte com azimute de cerca de 91 graus, um grau ao sul do leste. Quem viu as Três Marias nascendo achou o leste com erro de um grau. É o complemento do método de Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu: um acha o sul, o outro acha o leste.
Segunda: Órion é visível do planeta inteiro. Como o cinturão está praticamente sobre o equador celeste, ele sobe de qualquer latitude, do Alasca à Patagônia. É uma das pouquíssimas figuras que servem de referência comum para toda a humanidade, e aparece, com nomes diferentes, em culturas de todos os continentes.
E tem um detalhe que é só nosso: em Belém, as Três Marias passam praticamente no zênite, o ponto exatamente acima da cabeça — a conta dá 89,7 graus de altura na culminação, porque a latitude de Belém é quase igual à declinação de Alnilam. Em Manaus dá 88 graus, em Recife 83, em São Paulo 68 e em Porto Alegre 61.
Siga a linha e você acha a estrela mais brilhante do céu
O cinturão é o melhor ponto de partida do céu de verão, porque ele funciona como uma seta.
Prolongando a linha das três estrelas para o lado de Alnitak, cerca de oito vezes o comprimento do próprio cinturão, você chega a Sirius, a estrela mais brilhante de todo o céu noturno (magnitude −1,46, pelo mesmo catálogo). A distância é de 21,7 graus e a linha não é perfeita: erra por uns 7 graus. Mas Sirius é de longe o objeto mais brilhante daquela região — você segue a linha, encontra uma estrela escandalosamente brilhante, é ela.

Quando olhar, mês a mês
A tabela abaixo dá a altura das Três Marias às 22h, no horário local de cada cidade, nas datas da temporada 2026–2027. São contas nossas, feitas com a posição do catálogo e a latitude de cada cidade. Altura é medida em graus a partir do horizonte: 0 grau é o horizonte, 90 é bem em cima da cabeça, e o punho fechado com o braço esticado cobre uns 10 graus.
| Data | Belém | Recife | Brasília | Rio | São Paulo | Porto Alegre |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 15/10/2026 | abaixo | 11° | abaixo | 3° | abaixo | abaixo |
| 01/11/2026 | 14° | 27° | 14° | 18° | 15° | 10° |
| 15/11/2026 | 28° | 41° | 27° | 31° | 27° | 22° |
| 01/12/2026 | 43° | 56° | 42° | 44° | 41° | 35° |
| 15/12/2026 | 57° | 70° | 55° | 56° | 53° | 46° |
| 15/01/2027 | 88° | 77° | 75° | 68° | 68° | 61° |
| 15/02/2027 | 62° | 48° | 58° | 51° | 53° | 52° |
A leitura prática: de novembro a fevereiro, qualquer noite limpa serve, e quanto mais tarde você olhar, mais alto o desenho estará. Em outubro ainda dá, mas só na madrugada; a partir de março elas ficam baixas no oeste, e em maio já se põem pouco depois do Sol.
Em São Paulo, no dia 15 de dezembro, a noite fica assim: às 20h o cinturão está a 27 graus no leste; às 22h, a 53 graus; à meia-noite, no ponto mais alto, a 68 graus; e às 2h já desce para o oeste. Elas aparecem cerca de quatro minutos mais cedo a cada noite, duas horas a menos por mês — por isso o céu de dezembro às 22h é igual ao de novembro à meia-noite.
O resto do Caçador: Betelgeuse, Rigel e a espada
Achado o cinturão, o resto da figura aparece sozinho. Órion é desenhada como um caçador com os braços para cima, e tem duas estrelas muito brilhantes em cantos opostos do cinturão, separadas por 18,6 graus:
- Betelgeuse (alfa de Órion), nitidamente avermelhada, no ombro. É uma supergigante no fim da vida, e um dia vai explodir — o que acontece quando isso ocorrer está em Betelgeuse vai explodir? O que muda no céu quando acontecer.
- Rigel (beta de Órion), azulada, no pé.
E aqui está uma curiosidade que surpreende até quem olha o céu há anos: Rigel é mais brilhante que Betelgeuse, apesar de ser a "beta". No catálogo de Yale, Rigel tem magnitude 0,12 e Betelgeuse, 0,50. A letra alfa foi dada por um astrônomo alemão no século 17, e Betelgeuse é uma estrela variável: o brilho dela sobe e desce ao longo dos anos, e provavelmente estava num momento bom quando a classificação foi feita.
Entre o cinturão e os pés, pendurado para baixo, há um borrãozinho vertical de três pontos fracos. É a espada do caçador — e é ali que está a coisa mais interessante de olhar.
A nebulosa pendurada na espada
O ponto do meio da espada não é uma estrela. É a Nebulosa de Órion, catalogada como Messier 42, e ela é, segundo a NASA, a maior região de formação de estrelas mais próxima da Terra: fica a cerca de 1.500 anos-luz e tem uns 40 anos-luz de largura.
Ali dentro, estrelas estão nascendo agora. O coração da nebulosa é um grupinho de quatro estrelas jovens e muito massudas, chamado Trapézio por causa do formato, cuja luz ultravioleta escava cavidades no gás e atrapalha o crescimento de centenas de estrelas menores à volta. A NASA conta centenas de estrelas recém-nascidas na região.
A olho nu, num céu escuro longe da cidade, ela aparece como uma mancha esbranquiçada e sem forma definida — nada parecido com as fotos coloridas, que vêm de longas exposições e de cores atribuídas a luz que o olho não enxerga. Com um binóculo comum o contorno irregular já aparece, e esse é um dos poucos casos em que o salto do olho nu para o binóculo vale cada centavo. O que é esse tipo de nuvem está em O que é uma nebulosa? Tipos, como se formam e como ver.

No Brasil, o desenho é outro: o Homem Velho
Antes de qualquer europeu chegar aqui, os povos indígenas já tinham aquele pedaço de céu mapeado — com outra figura e outro uso.
Na tradição tupi-guarani, as estrelas de Órion e do Touro não formam um caçador: formam o Homem Velho, e as Três Marias são a perna dele. Esses registros foram reunidos pelo astrônomo brasileiro Germano Afonso, e mostram o que a astronomia antiga sempre foi: constelação era, antes de tudo, calendário. O aparecimento de certas figuras no anoitecer marcava a época de plantar, de colher ou de esperar a chuva.
Vale notar que o aglomerado das Plêiades, vizinho de céu do Caçador, tinha exatamente essa função de marcador de chuva e plantio — e ele fica a 35 graus do cinturão (conta nossa), na direção oposta à de Sirius: é só prolongar a linha das Três Marias para o lado de Mintaka, passar por Aldebarã, a estrela alaranjada do Touro, e seguir mais um pouco. É o assunto de O que é o Sete-Estrelo, as Plêiades, e como ver, e as duas figuras aparecem juntas no céu a noite inteira, de novembro a fevereiro.




