As Ursídeas são a última chuva de meteoros do ano, com pico previsto para 22 de dezembro de 2026, por volta das 19h de Brasília. E aqui vai a resposta direta, antes de qualquer outra coisa: do Brasil, essa chuva praticamente não dá para ver. O ponto do céu de onde os meteoros parecem sair fica tão ao norte que, de Brasília para baixo, ele nunca nasce — fica o tempo todo abaixo do horizonte.
Isso não é azar deste ano. É geometria, e vale para sempre. A boa notícia é que dezembro de 2026 tem outras coisas no céu, inclusive duas chuvas de meteoros que são praticamente exclusividade de quem mora no hemisfério sul. Vamos às duas partes.
O que são as Ursídeas
Toda chuva de meteoros recebe o nome da constelação de onde os meteoros parecem brotar — o chamado radiante. As Ursídeas levam esse nome porque o radiante delas fica na constelação da Ursa Menor, a mesma que contém a Estrela Polar.
E aí está o problema. A Ursa Menor é a constelação que marca o polo norte do céu. Quem olha o céu do hemisfério norte a vê todas as noites do ano; quem olha daqui, praticamente nunca.
Os números oficiais da Organização Internacional de Meteoros (IMO) para 2026:
| Dado | Valor |
|---|---|
| Período de atividade | 17 a 26 de dezembro |
| Pico | 22 de dezembro, 22h UT (19h de Brasília) |
| Radiante (declinação) | +76 graus |
| Taxa máxima teórica (ZHR) | 10 meteoros por hora |
| Velocidade de entrada | 33 km/s |
| Cometa de origem | 8P/Tuttle |
Repare que mesmo nas melhores condições possíveis são 10 meteoros por hora — pouco, ao lado dos 150 das Geminídeas. E "taxa máxima teórica" significa o que um observador veria com o radiante bem acima da cabeça, num céu perfeitamente escuro. Na vida real, ninguém nunca está nessa situação ideal.
Por que o Brasil não vê: a conta
Existe uma fórmula simples para saber a que altura máxima um ponto do céu chega, vista de um lugar qualquer: subtrai-se de 90 graus a diferença entre a latitude do observador e a declinação do ponto. Com o radiante das Ursídeas a +76 graus, o resultado para as cidades brasileiras é este:
| Cidade | Altura máxima do radiante |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 16,8° |
| Macapá (AP) | 14,0° |
| Belém (PA) | 12,5° |
| Manaus (AM) | 10,9° |
| Fortaleza (CE) | 10,3° |
| Recife (PE) | 6,0° |
| Salvador (BA) | 1,0° |
| Brasília (DF) | nunca nasce |
| Rio de Janeiro (RJ) | nunca nasce |
| São Paulo (SP) | nunca nasce |
| Curitiba (PR) | nunca nasce |
| Porto Alegre (RS) | nunca nasce |
A linha de corte fica em torno de 14 graus de latitude sul — ou seja, mais ou menos na altura de Salvador. Ao sul disso, o radiante fica permanentemente abaixo do horizonte.
E mesmo ao norte da linha não adianta muito. O número de meteoros que se enxerga cai junto com a altura do radiante, mais ou menos na proporção do seno desse ângulo. Em Manaus, com o radiante a 11 graus, aqueles 10 meteoros por hora viram cerca de dois por hora — e isso num céu perfeito, sem nuvem, sem poste de luz e sem Lua.
E tem Lua, claro
A Lua cheia de dezembro de 2026 acontece em 23 de dezembro, às 22h28 de Brasília. Ou seja: o pico das Ursídeas cai um dia antes da Lua cheia, com o disco quase totalmente iluminado — a própria IMO registra uma Lua a 96% na noite do máximo e avisa que as chances de observação confiável são pequenas.
Uma Lua assim funciona como um holofote apontado para o céu: apaga tudo que é fraco. O calendário completo das fases está em Calendário lunar 2026 e 2027: todas as fases com hora de Brasília, e o motivo de a Lua cheia de dezembro parecer maior que o normal está em Superluas de 2026: datas e por que a Lua fica gigante.

O cometa que faz a poeira
Toda chuva de meteoros é a Terra atravessando a sujeira deixada por um cometa. No caso das Ursídeas, o cometa é o 8P/Tuttle, que dá uma volta completa em torno do Sol a cada 13,6 anos e passou pelo ponto mais próximo do Sol pela última vez em 27 de agosto de 2021.
Esse cometa tem uma mania que atrapalha qualquer previsão: segundo a IMO, muitos dos picos mais fortes das Ursídeas aconteceram justamente quando o 8P/Tuttle estava longe do Sol, e não perto. É o contrário do que a intuição manda, e torna o comportamento da chuva difícil de prever. Duas vezes, em 1945 e em 1986, as Ursídeas deram surtos fortes — e, nos anos normais, a taxa pode oscilar bastante para cima do valor de tabela.
Se a diferença entre cometa, meteoro, meteorito e asteroide ainda embaralha, ela está desfeita em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.
As duas chuvas de dezembro que são quase só nossas
Agora a parte boa. Enquanto o hemisfério norte fica com as Ursídeas, o céu do sul tem duas chuvas em dezembro que quase ninguém comenta no Brasil — e uma delas tem a mesma taxa das Ursídeas, com o radiante bem alto.
Puppídeas-Velídeas (a IMO chama de Puppid-Velids). Ativas de 1º a 15 de dezembro, com referência de máximo em 7 de dezembro e taxa em torno de 10 por hora. O radiante fica a 45 graus ao sul do equador celeste, nas constelações da Popa e da Vela — pedaços do antigo navio Argo, vizinhas do Cruzeiro do Sul. A própria IMO escreve que essa chuva "é visível principalmente a partir de locais ao sul do equador" e que o radiante fica visível a noite inteira em latitudes tropicais e do sul, mais alto perto do amanhecer.
Nas nossas cidades, o radiante dela chega a 68 graus de altura em São Paulo e 75 graus em Porto Alegre — quase no alto do céu. E tem outra vantagem: a Lua nova cai em 8 de dezembro, o que deixa as noites em torno do máximo completamente escuras.
Fenicídeas (Phoenicids). Bem menores, ativas de 1º a 5 de dezembro, com máximo em 2 de dezembro e radiante também no sul do céu. A taxa é variável e a IMO não prevê nada de especial para 2026, mas são meteoros notavelmente lentos, a 15 km/s.
Para achar o rumo certo no céu, o caminho é o de sempre no Brasil: localizar primeiro o Cruzeiro do Sul, como ensina Como achar o Cruzeiro do Sul (e o sul) no céu.
O calendário de dezembro de 2026, em ordem
| Data | O que acontece | Dá para ver do Brasil? |
|---|---|---|
| 2 de dezembro | Máximo das Fenicídeas | Sim, radiante alto |
| 7 de dezembro | Máximo das Puppídeas-Velídeas | Sim, e com céu escuro |
| 8 de dezembro | Lua nova (21h51 de Brasília) | — |
| 14 de dezembro | Máximo das Geminídeas | Sim, a melhor do ano |
| 21 de dezembro | Solstício: começa o verão | — |
| 22 de dezembro | Máximo das Ursídeas (19h de Brasília) | Praticamente não |
| 23 de dezembro | Lua cheia (22h28 de Brasília) | — |
A grande chuva do mês continua sendo a de 14 de dezembro, com taxa de 150 por hora e radiante que o Brasil inteiro enxerga: tudo sobre ela em Geminídeas 2026: a chuva de meteoros mais forte do ano. Logo depois dela vem a virada do ano, com Quadrântidas 2027: a chuva de meteoros de 3 e 4 de janeiro.
Se você estiver no Norte e quiser tentar mesmo assim
Vale como desafio, não como programa de observação. As regras são as de sempre: sair da cidade, procurar um lugar sem luz direta nos olhos, deixar os olhos se acostumarem ao escuro por uns 20 minutos e não usar telescópio nem binóculo — meteoro se vê a olho nu, com o maior campo de visão possível.
Olhe para o norte, baixo, perto do horizonte, nas horas que antecedem o amanhecer de 22 e 23 de dezembro. E leve expectativa pequena: com a Lua quase cheia no céu, até quem mora em Boa Vista dificilmente verá mais que um ou dois riscos por hora. Onde encontrar céu escuro de verdade no Brasil está em Turismo astronômico: onde ver o céu mais estrelado do Brasil.
Datas, horários, declinações e taxas das chuvas vêm do Calendário de Chuvas de Meteoros da IMO para 2026 e da edição de 2025, consultados em 2 de novembro de 2026. As fases da Lua em horário de Brasília foram calculadas pela ferramenta do próprio site. A tabela de altura do radiante por cidade é cálculo nosso, pela fórmula padrão de altura máxima.




