De tempos em tempos, um planeta para de caminhar para o leste entre as estrelas, fica parado alguns dias e começa a andar para trás, no sentido contrário, por semanas ou meses. Depois para de novo e retoma o caminho original. Isso se chama movimento retrógrado, e a explicação é simples: o planeta não anda para trás coisa nenhuma. Quem se mexeu foi a Terra, que ultrapassou o planeta por dentro.
É um fenômeno real, previsível com precisão de horas, e dezembro de 2026 traz três deles em quatro dias. As datas estão mais abaixo.
O planeta não volta: quem passa é a gente
Todos os planetas giram em torno do Sol no mesmo sentido, sem nunca dar ré. O que muda é a velocidade: quanto mais perto do Sol, mais rápido se anda. A Terra leva um ano para dar uma volta; Júpiter leva quase doze; Saturno, quase trinta. Essa regra é a terceira lei de Kepler, explicada em As três leis de Kepler explicadas sem matemática.
Então, de tempos em tempos, a Terra — que está na pista de dentro e corre mais — alcança e ultrapassa um planeta de fora.
É exatamente o que acontece quando você ultrapassa um caminhão na rodovia. Enquanto está atrás, o caminhão parece ir para a frente em relação às árvores do acostamento. No momento em que você emparelha e passa, o caminhão parece andar para trás contra a paisagem do fundo — mesmo estando a 80 km/h para a frente, como sempre esteve. Passada a ultrapassagem, ele volta a parecer que anda para a frente.
No céu, o caminhão é o planeta e a paisagem de fundo são as estrelas. Nada de estranho acontece com o planeta: é a nossa posição de observação que mudou.
A prova: o retrógrado acontece em volta da oposição
Se a explicação está certa, existe uma consequência que pode ser testada. O momento em que a Terra ultrapassa um planeta exterior é justamente o momento em que esse planeta fica oposto ao Sol no céu, visível a noite inteira. Isso tem nome: oposição.
Logo, o período retrógrado tem de ficar centrado na data da oposição. Fizemos a conta com as posições calculadas no sistema Horizons, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA:
| Planeta | Começa a andar para trás | Volta ao normal | Meio do período | Data da oposição |
|---|---|---|---|---|
| Urano | 11 de setembro de 2026 | 9 de fevereiro de 2027 | 25 de novembro | 26 de novembro de 2026 |
| Júpiter | 12 de dezembro de 2026 | 13 de abril de 2027 | 11 de fevereiro | 11 de fevereiro de 2027 |
| Marte | 11 de janeiro de 2027 | 2 de abril de 2027 | 20 de fevereiro | 20 de fevereiro de 2027 |
O meio do período retrógrado cai no dia da oposição nos casos de Júpiter e Marte, e erra por um dia no caso de Urano. Não é coincidência: é o mecanismo aparecendo no número. A oposição de Urano deste mês está detalhada em Urano na oposição de 2026: como ver o planeta deitado.

O que acontece no céu em dezembro de 2026
Esta é a parte prática, e a semana é cheia. Três planetas mudam de sentido em quatro dias. Os instantes abaixo são cálculos nossos, feitos no Horizons do JPL, no horário de Brasília:
| Quando (horário de Brasília) | Planeta | O que acontece |
|---|---|---|
| 10 de dezembro de 2026, por volta das 20h | Saturno | Para de andar para trás e volta ao sentido normal |
| 12 de dezembro de 2026, por volta das 19h | Netuno | Para de andar para trás e volta ao sentido normal |
| 12 de dezembro de 2026, por volta das 22h | Júpiter | Faz o contrário: começa a andar para trás |
Conferimos esses instantes contra valores publicados em tabelas de efemérides e eles batem na casa do minuto de arco, que é a precisão em que vale a pena comparar.
Uma ressalva honesta sobre o que você vai ver: nada acontece visualmente naquela noite. O "momento" em que um planeta fica estacionário é o instante em que a velocidade dele no céu passa por zero, e isso não produz nenhum espetáculo. O que dá para observar é o efeito acumulado ao longo de semanas.

Como ver o movimento retrógrado você mesmo
Dá para fazer isso sem equipamento nenhum, e o resultado é dos mais satisfatórios da astronomia amadora. Só exige paciência.
- Escolha o planeta e a hora. Júpiter é o melhor alvo deste verão: brilhante, fácil de achar e começando o retrógrado em dezembro. Observe sempre no mesmo horário, para que o giro da Terra não atrapalhe a comparação.
- Ache duas estrelas de referência perto dele, uma de cada lado. O planeta vai se mover em relação a elas; as estrelas, não.
- Faça um desenho simples por semana, marcando a posição do planeta entre as estrelas. Foto de celular com apoio firme também serve.
- Compare depois de um mês. O deslocamento fica evidente.
O truque de distinguir planeta de estrela é antigo: planetas brilham com luz firme e estrelas cintilam. Para medir a distância entre eles no céu, vale a régua da mão de Como medir distâncias no céu com a mão. E, se quiser anotar a posição com precisão de verdade, o sistema de endereços do céu está em Coordenadas do céu: ascensão reta e declinação.
O laço que o planeta desenha
Se você marcar as posições por meses a fio e ligar os pontos, não sai uma linha de vai e volta em cima de si mesma. Sai um laço, ou um S alongado.
O motivo é que a órbita do planeta e a da Terra não estão exatamente no mesmo plano: são levemente inclinadas uma em relação à outra. Por isso a volta não repassa pelo caminho de ida, e o desenho fecha em alça. O formato muda a cada retrogradação, dependendo de onde o planeta está em relação ao plano da nossa órbita.
Foi justamente esse desenho esquisito que atormentou a astronomia por quase dois mil anos. Com a Terra parada no centro, explicar o laço exigia uma engenhoca de círculos dentro de círculos. Quando Copérnico pôs o Sol no meio e a Terra em movimento, o laço deixou de precisar de explicação: virou consequência automática da ultrapassagem. O conceito de órbita que sustenta tudo isso está em O que é uma órbita? E por que existem várias.
E o famoso Mercúrio retrógrado?
O movimento retrógrado de Mercúrio é tão real quanto o de Júpiter, e acontece com mais frequência: três ou quatro vezes por ano, porque Mercúrio corre muito mais rápido que a Terra e a gente é ultrapassado por ele, e não o contrário.
Com Mercúrio e Vênus, que estão na pista de dentro, o retrógrado acontece quando eles passam entre a Terra e o Sol, e não na oposição — que, para eles, nunca ocorre.
Até aqui, astronomia. O que não existe é qualquer efeito desse movimento sobre a vida de quem está aqui embaixo. Mercúrio é um planeta de 4.880 km de diâmetro a dezenas de milhões de quilômetros de distância, e o fato de a Terra o ter ultrapassado não muda nada em aparelhos eletrônicos, contratos ou viagens. A mudança de sentido é de perspectiva, não de movimento: nem o planeta mudou de rota, nem passou a exercer alguma força nova. É o mesmo caminhão de sempre, na mesma velocidade, visto de um carro que acabou de ultrapassá-lo.




