São os eventos luminosos transitórios, clarões que algumas tempestades disparam para cima, em direção ao espaço, em vez de para o chão. O tipo mais comum se chama sprite, dura uma fração de segundo, tem cor avermelhada e acontece a cerca de 80 km de altitude — muito acima das nuvens, numa camada do ar onde não existe tempestade nenhuma. Quase ninguém vê um ao vivo, mas não é porque sejam raros: é porque são rápidos demais, fracos demais e acontecem no lugar errado para quem está embaixo da chuva. As melhores fotos vêm de astronautas na Estação Espacial e de fotógrafos pacientes a centenas de quilômetros da tempestade.
O que são, e onde acontecem
Um relâmpago comum é uma descarga entre a nuvem e o chão, ou entre duas partes da nuvem. Ele acontece dentro da troposfera, a camada mais baixa do ar, que vai até uns 12 km nos trópicos.
O sprite é outra coisa. Ele aparece acima da tempestade, momentos depois de um relâmpago forte lá embaixo, e brota numa altitude em torno de 80 km, segundo a NASA. Isso é bem acima do topo de qualquer nuvem, acima da altitude em que os meteoros queimam e já quase na fronteira do espaço, que fica a 100 km e que explicamos em Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km.
A forma é o que mais chama atenção. Os sprites costumam parecer água-viva, com uma cabeça arredondada e filamentos pendurados, ou colunas verticais lado a lado. E eles são grandes: um único sprite pode se espalhar por dezenas de quilômetros. Se você pudesse colocar um deles em pé sobre São Paulo, ele cobriria a cidade inteira e sobraria.
A cor é avermelhada porque, naquela altitude, o ar é quase todo nitrogênio e muito rarefeito. É o mesmo tipo de razão que faz a aurora ter cores próprias, assunto de Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.
A descoberta aconteceu por acidente, em 1989
Pilotos relatavam clarões estranhos acima das tempestades havia décadas, e quase ninguém levava a sério. A prova veio por acaso.
Em 1989, pesquisadores da Universidade de Minnesota estavam testando uma câmera de televisão sensível à luz fraca, preparando-a para uma missão de foguete que viria depois. A câmera ficou apontada para o céu e registrou, sem que ninguém pedisse, dois borrões luminosos acima de uma tempestade distante. A NASA descreve esse registro como a primeira evidência confiável da existência dos sprites. A câmera nem era de alta resolução, nem era rápida.
Repare na data. O ser humano já tinha pisado na Lua vinte anos antes, já tinha sondas a caminho de Netuno — e ainda não sabia que havia descargas elétricas gigantes acontecendo todo dia a 80 km de altura, sobre a própria cabeça.
A família inteira tem mais de um membro
Sprite é o nome do membro mais observado, mas a família é maior. A NASA cita quatro nomes principais:
| Nome | Onde acontece | Como se parece |
|---|---|---|
| Sprite | Em torno de 80 km | Avermelhado, forma de água-viva ou colunas |
| Jato gigante | Do topo da nuvem (~20 km) até ~100 km | Sobe mudando de branco para roxo e depois vermelho |
| Elfo (ELVE) | Alto, acima da tempestade | Clarão em forma de anel que se espalha |
| Halo | Logo acima da tempestade | Disco luminoso achatado |
O jato gigante é o mais dramático dos quatro, porque ele é o único que realmente faz a ligação de ponta a ponta: começa no topo da nuvem de tempestade, por volta de 20 km, e sobe até cerca de 100 km, carregando uma quantidade significativa de carga elétrica. A NASA diz que eles costumam ser flagrados por acaso — por passageiros de avião olhando pela janela ou por câmeras no chão que estavam ali para fotografar outra coisa.
Dois registros recentes saíram da própria Estação Espacial. Em 3 de junho de 2024, o astronauta Matthew Dominick fotografou sprites sobre uma linha de tempestades na costa da África do Sul. Em 3 de julho de 2025, a astronauta Nichole Ayers flagrou o que parecia um sprite e acabou se confirmando como um jato gigante, bem mais raro.

Por que é tão difícil ver um
Três coisas atrapalham ao mesmo tempo, e é por isso que esse espetáculo passou despercebido por tanto tempo.
A primeira é a duração. O clarão vai e volta numa fração de segundo. Quando o cérebro registra que viu alguma coisa, já acabou.
A segunda é o brilho. O sprite é fraco comparado com o relâmpago que o disparou. Se você estiver olhando para a tempestade de perto, o próprio relâmpago ofusca tudo e você perde o que acontece lá em cima.
A terceira é a posição. O sprite fica acima da tempestade, e quem está debaixo dela tem a vista bloqueada pelas próprias nuvens. Para enxergar, é preciso estar longe — longe o bastante para que a tempestade fique no horizonte e o espaço acima dela apareça limpo no seu campo de visão.
O que ainda não se sabe
Aqui vale a honestidade. Depois de mais de trinta anos de registros, o mecanismo que dispara um sprite continua sem resposta fechada. A NASA diz, com todas as letras, que o que provoca a formação deles ainda é uma pergunta em aberto.
Sabe-se que eles aparecem momentos depois de relâmpagos potentes e que nem toda tempestade produz. Por que algumas produzem e outras não, e o que exatamente acontece naquela camada de ar rarefeito, é assunto de pesquisa em andamento. É um fenômeno que acontece sobre a nossa cabeça, todo dia, e que ainda não está explicado.
Como tentar fotografar um do Brasil
A boa notícia é que não é preciso equipamento científico. A própria NASA publica a receita, e ela cabe num parágrafo.
- Distância: fique entre cerca de 100 e 400 km da tempestade. Perto demais, as nuvens tapam; longe demais, o alvo some na curvatura da Terra.
- Visada: você precisa de céu limpo acima da tempestade distante, sem nuvem alta no caminho.
- Equipamento: uma câmera com controles manuais e lente de 20 a 85 mm, sobre um tripé. Nada de foto na mão.
- Mira: aponte acima da tempestade, não para ela. O erro mais comum é enquadrar os relâmpagos.
- Relógio: acerte o relógio da câmera antes, porque o horário exato do registro é parte do dado científico.
- Segurança: tempestade é perigosa. A recomendação oficial é manter sempre uma rota de saída rápida.
O Brasil tem tempestades grandes e frequentes, principalmente no verão do Centro-Oeste e do Sudeste, o que dá bastante oportunidade — desde que você esteja a algumas centenas de quilômetros delas, num lugar alto e escuro. É o mesmo princípio de paciência e tripé que vale para fotografar o céu com equipamento simples, descrito em Como fotografar a Lua com o celular (passo a passo).
Uma ressalva honesta: celular comum não dá conta. O clarão é rápido e fraco demais para o sensor de um telefone, mesmo em modo noturno.
A NASA quer a sua foto
Desde 2022 existe um projeto da NASA criado exatamente para juntar essas imagens: o Spritacular, dirigido pela física Burcu Kosar, do Centro de Voo Espacial Goddard, com Jia Yue como coinvestigador, em parceria com a Universidade Católica da América.
A ideia é montar o primeiro banco de dados colaborativo de eventos luminosos transitórios. Quem fotografa cria uma conta no site do projeto e envia a imagem com horário e local. As fotos são avaliadas por cientistas, e quem colabora com um estudo pode ser citado ou até entrar como coautor. A única exigência rígida é que a foto seja sua.
É mais um dos jeitos de fazer ciência de verdade sem ter laboratório, como os que reunimos em Dá para ajudar a NASA de casa? 49 projetos abertos. E é um caso em que o amador tem vantagem real sobre o profissional: ninguém consegue manter telescópios apontados para todas as tempestades do planeta, mas muita gente com tripé, sim.




