O céu ao vivo

O que são os raios que sobem para o espaço?

Acima das tempestades existem clarões vermelhos que vão até 100 km de altura. Entenda o que são os sprites e como tentar fotografar um do Brasil.

Publicado em 7 min de leitura
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Clarão vermelho de um sprite acima de uma tempestade iluminada por relâmpagos, visto da órbita, com a faixa verde da atmosfera e luzes de cidades ao fundo
Foto: Matthew Dominick
Neste artigo
  1. O que são, e onde acontecem
  2. A descoberta aconteceu por acidente, em 1989
  3. A família inteira tem mais de um membro
  4. Por que é tão difícil ver um
  5. O que ainda não se sabe
  6. Como tentar fotografar um do Brasil
  7. A NASA quer a sua foto

São os eventos luminosos transitórios, clarões que algumas tempestades disparam para cima, em direção ao espaço, em vez de para o chão. O tipo mais comum se chama sprite, dura uma fração de segundo, tem cor avermelhada e acontece a cerca de 80 km de altitude — muito acima das nuvens, numa camada do ar onde não existe tempestade nenhuma. Quase ninguém vê um ao vivo, mas não é porque sejam raros: é porque são rápidos demais, fracos demais e acontecem no lugar errado para quem está embaixo da chuva. As melhores fotos vêm de astronautas na Estação Espacial e de fotógrafos pacientes a centenas de quilômetros da tempestade.

O que são, e onde acontecem

Um relâmpago comum é uma descarga entre a nuvem e o chão, ou entre duas partes da nuvem. Ele acontece dentro da troposfera, a camada mais baixa do ar, que vai até uns 12 km nos trópicos.

O sprite é outra coisa. Ele aparece acima da tempestade, momentos depois de um relâmpago forte lá embaixo, e brota numa altitude em torno de 80 km, segundo a NASA. Isso é bem acima do topo de qualquer nuvem, acima da altitude em que os meteoros queimam e já quase na fronteira do espaço, que fica a 100 km e que explicamos em Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km.

A forma é o que mais chama atenção. Os sprites costumam parecer água-viva, com uma cabeça arredondada e filamentos pendurados, ou colunas verticais lado a lado. E eles são grandes: um único sprite pode se espalhar por dezenas de quilômetros. Se você pudesse colocar um deles em pé sobre São Paulo, ele cobriria a cidade inteira e sobraria.

A cor é avermelhada porque, naquela altitude, o ar é quase todo nitrogênio e muito rarefeito. É o mesmo tipo de razão que faz a aurora ter cores próprias, assunto de Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.

A descoberta aconteceu por acidente, em 1989

Pilotos relatavam clarões estranhos acima das tempestades havia décadas, e quase ninguém levava a sério. A prova veio por acaso.

Em 1989, pesquisadores da Universidade de Minnesota estavam testando uma câmera de televisão sensível à luz fraca, preparando-a para uma missão de foguete que viria depois. A câmera ficou apontada para o céu e registrou, sem que ninguém pedisse, dois borrões luminosos acima de uma tempestade distante. A NASA descreve esse registro como a primeira evidência confiável da existência dos sprites. A câmera nem era de alta resolução, nem era rápida.

Repare na data. O ser humano já tinha pisado na Lua vinte anos antes, já tinha sondas a caminho de Netuno — e ainda não sabia que havia descargas elétricas gigantes acontecendo todo dia a 80 km de altura, sobre a própria cabeça.

A família inteira tem mais de um membro

Sprite é o nome do membro mais observado, mas a família é maior. A NASA cita quatro nomes principais:

Nome Onde acontece Como se parece
Sprite Em torno de 80 km Avermelhado, forma de água-viva ou colunas
Jato gigante Do topo da nuvem (~20 km) até ~100 km Sobe mudando de branco para roxo e depois vermelho
Elfo (ELVE) Alto, acima da tempestade Clarão em forma de anel que se espalha
Halo Logo acima da tempestade Disco luminoso achatado

O jato gigante é o mais dramático dos quatro, porque ele é o único que realmente faz a ligação de ponta a ponta: começa no topo da nuvem de tempestade, por volta de 20 km, e sobe até cerca de 100 km, carregando uma quantidade significativa de carga elétrica. A NASA diz que eles costumam ser flagrados por acaso — por passageiros de avião olhando pela janela ou por câmeras no chão que estavam ali para fotografar outra coisa.

Dois registros recentes saíram da própria Estação Espacial. Em 3 de junho de 2024, o astronauta Matthew Dominick fotografou sprites sobre uma linha de tempestades na costa da África do Sul. Em 3 de julho de 2025, a astronauta Nichole Ayers flagrou o que parecia um sprite e acabou se confirmando como um jato gigante, bem mais raro.

Borda da Terra vista da órbita com uma faixa verde brilhante de brilho do ar, luzes de cidades acima dela e um painel solar da Estação Espacial atravessando o quadro escuro
A faixa verde é o brilho do ar, uma luminosidade fraca que a atmosfera emite a cerca de 90 km de altura. É nessa vizinhança que os sprites acontecem — acima de tudo que chamamos de tempo. Foto: NASA/JSC

Por que é tão difícil ver um

Três coisas atrapalham ao mesmo tempo, e é por isso que esse espetáculo passou despercebido por tanto tempo.

A primeira é a duração. O clarão vai e volta numa fração de segundo. Quando o cérebro registra que viu alguma coisa, já acabou.

A segunda é o brilho. O sprite é fraco comparado com o relâmpago que o disparou. Se você estiver olhando para a tempestade de perto, o próprio relâmpago ofusca tudo e você perde o que acontece lá em cima.

A terceira é a posição. O sprite fica acima da tempestade, e quem está debaixo dela tem a vista bloqueada pelas próprias nuvens. Para enxergar, é preciso estar longe — longe o bastante para que a tempestade fique no horizonte e o espaço acima dela apareça limpo no seu campo de visão.

O que ainda não se sabe

Aqui vale a honestidade. Depois de mais de trinta anos de registros, o mecanismo que dispara um sprite continua sem resposta fechada. A NASA diz, com todas as letras, que o que provoca a formação deles ainda é uma pergunta em aberto.

Sabe-se que eles aparecem momentos depois de relâmpagos potentes e que nem toda tempestade produz. Por que algumas produzem e outras não, e o que exatamente acontece naquela camada de ar rarefeito, é assunto de pesquisa em andamento. É um fenômeno que acontece sobre a nossa cabeça, todo dia, e que ainda não está explicado.

Como tentar fotografar um do Brasil

A boa notícia é que não é preciso equipamento científico. A própria NASA publica a receita, e ela cabe num parágrafo.

  • Distância: fique entre cerca de 100 e 400 km da tempestade. Perto demais, as nuvens tapam; longe demais, o alvo some na curvatura da Terra.
  • Visada: você precisa de céu limpo acima da tempestade distante, sem nuvem alta no caminho.
  • Equipamento: uma câmera com controles manuais e lente de 20 a 85 mm, sobre um tripé. Nada de foto na mão.
  • Mira: aponte acima da tempestade, não para ela. O erro mais comum é enquadrar os relâmpagos.
  • Relógio: acerte o relógio da câmera antes, porque o horário exato do registro é parte do dado científico.
  • Segurança: tempestade é perigosa. A recomendação oficial é manter sempre uma rota de saída rápida.

O Brasil tem tempestades grandes e frequentes, principalmente no verão do Centro-Oeste e do Sudeste, o que dá bastante oportunidade — desde que você esteja a algumas centenas de quilômetros delas, num lugar alto e escuro. É o mesmo princípio de paciência e tripé que vale para fotografar o céu com equipamento simples, descrito em Como fotografar a Lua com o celular (passo a passo).

Uma ressalva honesta: celular comum não dá conta. O clarão é rápido e fraco demais para o sensor de um telefone, mesmo em modo noturno.

A NASA quer a sua foto

Desde 2022 existe um projeto da NASA criado exatamente para juntar essas imagens: o Spritacular, dirigido pela física Burcu Kosar, do Centro de Voo Espacial Goddard, com Jia Yue como coinvestigador, em parceria com a Universidade Católica da América.

A ideia é montar o primeiro banco de dados colaborativo de eventos luminosos transitórios. Quem fotografa cria uma conta no site do projeto e envia a imagem com horário e local. As fotos são avaliadas por cientistas, e quem colabora com um estudo pode ser citado ou até entrar como coautor. A única exigência rígida é que a foto seja sua.

É mais um dos jeitos de fazer ciência de verdade sem ter laboratório, como os que reunimos em Dá para ajudar a NASA de casa? 49 projetos abertos. E é um caso em que o amador tem vantagem real sobre o profissional: ninguém consegue manter telescópios apontados para todas as tempestades do planeta, mas muita gente com tripé, sim.

Perguntas frequentes

O que é um sprite na atmosfera?

É um clarão avermelhado que aparece acima de uma tempestade, a cerca de 80 km de altitude, momentos depois de um relâmpago forte. Dura uma fração de segundo e pode se espalhar por dezenas de quilômetros. Faz parte de um grupo de fenômenos chamados eventos luminosos transitórios, que acontecem muito acima das nuvens.

Dá para ver um sprite a olho nu?

Dá, mas é raro conseguir. O clarão é rápido e fraco, e quem está perto da tempestade tem a visão bloqueada pelas nuvens e ofuscada pelos relâmpagos. É preciso estar a algumas centenas de quilômetros de distância, com o céu limpo acima da tempestade, e olhar para o ponto certo na hora certa.

Sprite é a mesma coisa que raio?

Não. O raio comum é uma descarga dentro da troposfera, entre nuvem e chão ou dentro da nuvem. O sprite acontece muito mais alto, numa camada de ar rarefeito, tem cor avermelhada e outra forma. Ele é disparado por um relâmpago forte, mas é um fenômeno distinto.

Quando os sprites foram descobertos?

Em 1989, por acidente. Pesquisadores da Universidade de Minnesota testavam uma câmera de televisão sensível à luz fraca e registraram dois borrões luminosos acima de uma tempestade. Esse foi o primeiro registro confiável, embora pilotos já relatassem clarões estranhos havia décadas.

Qual equipamento preciso para fotografar um sprite?

Uma câmera com controles manuais, lente de 20 a 85 mm e tripé, posicionada entre cerca de 100 e 400 km da tempestade, apontada para o espaço acima dela e com o relógio acertado. Celular comum não funciona: o fenômeno é rápido e fraco demais para o sensor de um telefone.

Horários de eventos astronômicos variam conforme sua cidade e o fuso horário. Confirme sempre num aplicativo de céu ou no site do Observatório Nacional antes de sair para observar.

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