As Táuridas são duas chuvas de meteoros que atravessam novembro inteiro e têm fama de produzir bolas de fogo — meteoros tão brilhantes que dá para notá-los mesmo de uma cidade iluminada. Em 2026 elas caem num ano bom: a Lua nova é em 9 de novembro, bem entre os dois picos, então as duas melhores semanas ficam com o céu escuro. O preço a pagar é a quantidade: as Táuridas são lentas e escassas, de 5 a 10 meteoros por hora no melhor dos casos, e exigem paciência em vez de pressa.
Elas não são a chuva para quem quer contar riscos no céu. São a chuva para quem quer ver um risco inesquecível.
Duas chuvas, não uma
O primeiro detalhe que confunde quem procura "Táuridas" no Google é que existem duas, e elas têm nomes quase iguais:
| Chuva | Período ativo | Pico em 2026 | Meteoros por hora (ZHR) | Velocidade |
|---|---|---|---|---|
| Táuridas do Sul (STA) | 20 de setembro a 20 de novembro | 5 de novembro | 5 a 10 | 27 km/s |
| Táuridas do Norte (NTA) | 20 de outubro a 10 de dezembro | 12 de novembro | 5 | 29 km/s |
Os dados de atividade, radiante e velocidade são da International Meteor Organization (IMO), a entidade internacional que mantém a lista de referência das chuvas de meteoros. As datas de pico de 2026 foram calculadas aqui, a partir da posição do Sol que a IMO publica para cada máximo, e o método foi conferido contra o calendário que a própria IMO publicou para 2027: ele reproduziu as datas dos dois picos das Táuridas e acertou o máximo das Leônidas com quatro minutos de diferença.
"Do Sul" e "do Norte" não têm nada a ver com hemisfério terrestre. É a posição do radiante — o ponto do céu de onde os meteoros parecem sair — em relação à eclíptica, que é a linha por onde o Sol passeia no céu ao longo do ano. Os dois radiantes ficam na constelação de Touro, um pouco acima e um pouco abaixo dessa linha, e é daí que vem o nome das chuvas.
ZHR é a sigla de taxa horária zenital: o número de meteoros que uma pessoa veria em uma hora se o radiante estivesse bem em cima da cabeça e o céu estivesse perfeito. Na vida real, com o radiante a meio caminho entre o horizonte e o alto do céu e alguma luz de cidade, conte com um terço a metade disso. As Táuridas, portanto, entregam na prática de dois a cinco meteoros por hora. É pouco: as Geminídeas 2026: a chuva de meteoros mais forte do ano chegam a 120 de ZHR.
O pico não é uma noite, é uma temporada
Esta é a diferença que mais importa para quem vai olhar, e ela joga a favor do observador brasileiro.
A maioria das chuvas tem um pico estreito: a Terra cruza uma faixa fina de poeira, e quem erra a noite perde o espetáculo. As Táuridas são o contrário. A própria IMO registra que as taxas máximas das Táuridas do Norte formam um platô de cerca de dez dias no começo e no meio de novembro, e que o máximo "pode não ser tão agudo quanto a data única sugere". As do Sul ainda têm um máximo secundário por volta de 13 de outubro, bem antes do principal.
Na prática: qualquer noite limpa entre o fim de outubro e meados de novembro vale a tentativa, com as melhores chances em torno dos dois picos da tabela. Não existe a aflição de "é hoje ou nunca" que marca as Leônidas 2026: quando e como ver a chuva de meteoros.
A Lua colabora em 2026
Lua cheia estraga chuva de meteoros. Ela clareia o céu inteiro e apaga tudo que não for muito brilhante — e, numa chuva fraca como esta, apagaria quase tudo.
Em 2026 a sorte está do nosso lado. A Lua nova cai em 9 de novembro, às 4h02 de Brasília, exatamente entre os dois picos:
- Em 5 de novembro (pico das do Sul), a Lua é um fiapo minguante que só aparece de madrugada, perto do amanhecer. A noite inteira é escura.
- Em 12 de novembro (pico das do Norte), a Lua é um fiapo crescente que se põe pouco depois do anoitecer. O resto da noite é escuro.
Para comparação, em 2027 os dois picos caem entre o quarto crescente e a Lua cheia, com a Lua atrapalhando boa parte da noite. Se você quer ver Táuridas, 2026 é o ano. As fases completas estão em Calendário lunar 2026 e 2027: todas as fases com hora de Brasília.
A que horas olhar, cidade por cidade
Aqui vem a melhor notícia para o Brasil. O radiante das Táuridas nasce logo depois do pôr do sol e fica no céu a noite inteira — não é preciso virar a madrugada, como nas Orionídeas.
Os horários abaixo foram calculados para a posição do radiante publicada pela IMO, na hora local de cada cidade. O cálculo foi conferido contra o tempo sideral de Greenwich tabelado, que bateu na quarta casa decimal.
| Cidade | Radiante nasce | Mais alto às | Altura máxima |
|---|---|---|---|
| Manaus | 18h35 | 00h30 | 72° |
| Recife | 18h00 | 23h50 | 67° |
| Brasília | 19h00 | 00h40 | 59° |
| Rio de Janeiro | 18h50 | 00h20 | 52° |
| São Paulo | 19h05 | 00h35 | 51° |
| Porto Alegre | 19h30 | 00h55 | 45° |
Horários para a noite de 5 de novembro de 2026, no fuso de cada cidade (Manaus é uma hora atrás de Brasília), arredondados para os cinco minutos mais próximos. Na noite de 12 de novembro tudo acontece com poucos minutos de diferença, e a altura máxima cai exatamente 7 graus em todas as cidades, porque o radiante das Táuridas do Norte fica 7 graus mais ao norte no céu.
Traduzindo a tabela: entre a meia-noite e as 2 da manhã é a melhor janela em qualquer lugar do Brasil, mas vale olhar desde as 21h, porque meteoro de radiante baixo entra na atmosfera de raspão e deixa risco longo e lento — justamente o tipo que impressiona.
De onde vêm: o cometa Encke e uma trilha de pedriscos
Toda chuva de meteoros é a Terra passando pela sujeira que um cometa deixou na estrada. No caso das Táuridas, o cometa é o 2P/Encke, e ele tem uma ficha curiosa:
| Ficha do cometa Encke | |
|---|---|
| Volta ao redor do Sol | 3,30 anos — a mais curta de todos os cometas conhecidos |
| Tamanho do núcleo | cerca de 4,8 km |
| Descoberto por | Pierre Méchain, em 17 de janeiro de 1786 |
| Nome em homenagem a | Johann Franz Encke, que calculou a órbita e provou que as aparições eram do mesmo cometa |

Três anos e quatro meses por volta é um ritmo frenético para um cometa. O Halley, que alimenta as Orionídeas 2026: como ver a chuva do cometa Halley, leva 76 anos. Encke passa e repassa pela vizinhança da Terra a ponto de ter espalhado uma trilha larguíssima de entulho ao longo da órbita.
E o entulho dele é diferente. O telescópio Spitzer, da NASA, fotografou essa trilha em infravermelho e descreveu o que há nela: partículas do tamanho de pedriscos, de um milímetro para cima, deixadas para trás à medida que a poeira mais fina do cometa se esgota. Não é fumaça: é cascalho.
Por que elas fazem bolas de fogo
Junte as duas características e você entende a fama das Táuridas.
Primeiro, o tamanho: um grão de um milímetro já é grande para padrões de meteoro. A maior parte dos riscos que se vê numa noite comum vem de partículas menores que um grão de açúcar.
Segundo, a velocidade, que é baixa. As Táuridas entram na atmosfera a 27 e 29 km/s. Para dar escala: 29 km/s é cobrir a distância em linha reta entre São Paulo e o Rio de Janeiro — 361 km — em doze segundos. Parece absurdamente rápido, e é, mas na régua das chuvas de meteoros isso é devagar: as Leônidas entram a 71 km/s, mais que o dobro.
(Vale o registro de uma divergência: a página da NASA sobre o cometa Encke descreve esses meteoros como "rápidos, a cerca de 104.607 km/h". O número é o mesmo da IMO — 104.607 km/h são 29 km/s. O adjetivo é que muda conforme a comparação.)
Pedra maior entrando devagar significa mais tempo brilhando. Em vez do risco instantâneo típico de uma chuva veloz, a Táurida cruza o céu num rastro lento, amarelado, que dura o suficiente para você cutucar quem está do lado e dizer "olha". Quando a pedra é grande o bastante, vira bola de fogo: um clarão que chega a projetar sombra. A diferença entre meteoro, meteorito e bólido está explicada em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.
Como achar Touro no céu do Brasil
Você não precisa achar o radiante para ver meteoros — eles aparecem em qualquer parte do céu. Mas saber para onde fica ajuda a reconhecer uma Táurida de verdade: o risco dela, prolongado para trás, aponta para Touro.
A referência mais fácil é o Sete-Estrelo, o aglomerado das Plêiades: um borrãozinho de estrelas miúdas que, no Brasil de novembro, nasce no leste no começo da noite. O radiante das Táuridas fica bem ao lado dele, um pouco mais baixo no céu. Como achar esse grupinho está em O que é o Sete-Estrelo, as Plêiades, e como ver.
E a regra de ouro de qualquer chuva vale aqui também: não olhe para o radiante. Olhe para uma área ampla do céu, de preferência a uns 40 graus de distância dele, onde os riscos aparecem mais compridos. Deite numa espreguiçadeira, dê 20 minutos para o olho se acostumar ao escuro e não mexa no celular — a tela zera a adaptação em segundos. O passo a passo completo está em Chuva de meteoros hoje: horários e como ver do Brasil.




