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Orionídeas 2026: como ver a chuva do cometa Halley

A chuva de meteoros do Halley tem pico em 21 e 22 de outubro. Calculamos a hora em que a Lua sai do caminho em 14 cidades do Brasil.

Publicado em 9 min de leitura
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Céu estrelado com nuvens escuras sobre o mar, o tipo de noite em que dá para ver a chuva de meteoros Orionídeas
Foto: NASA/Glenn Benson
Neste artigo
  1. O que são as Orionídeas
  2. Quando olhar: as madrugadas de 21 e 22 de outubro
  3. O problema desta vez é a Lua (e a janela exata por cidade)
  4. Para onde olhar (e por que isso importa menos do que parece)
  5. Quantos meteoros você vai ver de verdade
  6. O Halley deixou esse rastro, mas não passa mais por ali
  7. Como se preparar, em cinco linhas

As Orionídeas de 2026 têm pico nas madrugadas de 21 e 22 de outubro, e a boa notícia é que desta vez o Brasil está bem servido: o radiante — o ponto do céu de onde os meteoros parecem sair — chega a mais de 40° de altura em todo o país antes de amanhecer. A má notícia é a Lua, que estará com 84% iluminada. Por isso a hora certa de olhar não é "depois da meia-noite", e sim do momento em que a Lua se põe até o céu clarear: entre 2h13 e 3h06 de céu escuro, dependendo da cidade. A tabela mais abaixo traz esse horário calculado para 14 cidades brasileiras.

O que são as Orionídeas

Todo ano, entre outubro e novembro, a Terra atravessa uma faixa de poeira deixada pelo cometa Halley. Cada grãozinho dessa poeira — a maioria menor que um grão de arroz — entra na nossa atmosfera a uma velocidade absurda, comprime tanto o ar à frente dele que o gás esquenta a milhares de graus, e vira um risco de luz que dura menos de um segundo. É isso que a gente chama de meteoro, ou "estrela cadente". Nada disso chega ao chão: tudo queima entre 80 e 120 km de altura.

A velocidade de entrada das Orionídeas é de 66 km por segundo, segundo a NASA. Traduzindo: são 237 mil km/h, ou o trajeto São Paulo–Rio de Janeiro em seis segundos e meio. É uma das chuvas mais rápidas do ano, e essa velocidade é o que faz as Orionídeas deixarem rastros luminosos que ficam visíveis por alguns segundos depois de o meteoro passar.

Se os nomes confundem — meteoro, meteorito, asteroide, cometa —, vale a pena ler antes Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

Quando olhar: as madrugadas de 21 e 22 de outubro

A NASA publica o pico em 21 e 22 de outubro e a chuva ativa de 2 de outubro a 7 de novembro. A agência não publica um instante exato, e aqui isso não faz falta: como a chuva só rende de madrugada, o Brasil tem duas chances quase equivalentes — a madrugada de terça para quarta (21) e a de quarta para quinta (22).

Entre as duas, a de 21 de outubro é um pouco melhor, porque a Lua se põe cerca de meia hora mais cedo e está com 76% iluminada em vez de 84%. A diferença é pequena. O que decide mesmo é o céu limpo: se a previsão der nublado numa das noites, use a outra sem medo de perder o evento.

Céu noturno sobre uma praia, com o clarão das luzes de uma cidade no horizonte
O clarão no horizonte é poluição luminosa: cada luz dessas apaga as estrelas fracas e, junto com elas, a maioria dos meteoros. Foto: NASA/Glenn Benson

O problema desta vez é a Lua (e a janela exata por cidade)

A Lua cheia de outubro é em 26, às 1h11 de Brasília. Nas madrugadas do pico ela ainda não está cheia, mas está quase: 84% iluminada na madrugada de 22. Uma Lua assim no céu clareia o fundo e apaga os meteoros fracos — que são a maioria.

A saída é simples e ninguém costuma dizer: espere a Lua se pôr. Depois disso e antes de o céu começar a clarear, você tem entre duas e três horas de céu realmente escuro, e é justamente nesse período que o radiante está mais alto. A tabela abaixo é o cálculo para a madrugada de 22 de outubro, feito aqui a partir das efemérides do JPL Horizons e da nossa ferramenta de nascer do sol.

Cidade Radiante nasce Altura às 2h Altura às 4h Altura ao amanhecer Lua se põe Nascer do Sol Céu escuro
Boa Vista 22h18 53° 76° 66° 2h40 5h46 3h06
Belém 22h34 48° 71° 64° 2h52 5h54 3h02
Manaus 22h22 51° 71° 63° 2h40 5h39 2h59
Fortaleza 21h57 56° 71° 63° 2h12 5h12 3h00
Recife 21h47 56° 66° 60° 1h59 4h54 2h55
Salvador 22h07 50° 61° 56° 2h17 5h05 2h48
Brasília 22h48 41° 58° 54° 2h57 5h40 2h43
Cuiabá 22h21 46° 59° 54° 2h31 5h13 2h42
Belo Horizonte 22h37 41° 54° 51° 2h43 5h20 2h37
Rio de Janeiro 22h38 40° 51° 49° 2h42 5h14 2h32
São Paulo 22h53 37° 50° 48° 2h56 5h28 2h32
Curitiba 23h06 34° 48° 46° 3h08 5h36 2h28
Porto Alegre 23h20 30° 43° 43° 3h19 5h39 2h20
Chuí 23h35 26° 39° 39° 3h31 5h44 2h13

Horários locais de cada cidade (Manaus, Boa Vista e Cuiabá em UTC−4; as demais em UTC−3). A coluna "céu escuro" é o intervalo entre o pôr da Lua e o nascer do Sol — o tempo em que realmente vale a pena estar lá fora.

Repare numa coisa boa: mesmo no Chuí, o ponto mais ao sul do Brasil, o radiante chega a 39°. Isso é o contrário do que acontece em janeiro, quando as Quadrântidas 2027: a chuva de meteoros de 3 e 4 de janeiro ficam praticamente invisíveis no extremo sul porque o radiante delas nasce depois do Sol.

Para onde olhar (e por que isso importa menos do que parece)

O radiante das Orionídeas fica na constelação de Órion, cerca de 10° a nordeste da estrela avermelhada Betelgeuse — o ombro de Órion, aquela estrela que qualquer pessoa acha em duas tentativas depois de encontrar as Três Marias. As coordenadas publicadas são ascensão reta 6h21m e declinação +15,6°. (Ascensão reta e declinação são as duas coordenadas que localizam um ponto na esfera celeste, o equivalente a longitude e latitude no céu.)

Aqui vai o conselho que contraria metade dos guias: não olhe direto para o radiante. Meteoros que saem exatamente de lá vêm quase de frente para você, então deixam riscos curtinhos. Os rastros mais longos e bonitos aparecem a uns 40° ou 50° de distância dele. O melhor é deitar, mirar o céu aberto e deixar a visão periférica trabalhar. No Brasil, Órion nasce no leste-nordeste e sobe rumo ao norte, então virar o rosto para nordeste com o corpo esticado costuma funcionar.

Quantos meteoros você vai ver de verdade

Aqui entra a parte honesta. A NASA publica 10 a 20 meteoros por hora em céu escuro, e o número de referência que as organizações de observação usam para as Orionídeas é uma taxa teórica de 20 por hora. Só que essa taxa teórica supõe o radiante no zênite (bem em cima da sua cabeça), céu perfeitamente escuro e nenhuma Lua. No mundo real:

  • com o radiante a 50°, a conta cai para cerca de 15 por hora;
  • numa cidade grande, com poluição luminosa, você perde os meteoros fracos e sobra algo como 3 a 5 por hora;
  • em 2026, com a Lua clareando o céu até quase 3h, o único intervalo que vale a pena é o da última coluna da tabela.

Ou seja: um meteoro a cada quatro ou cinco minutos num sítio longe da cidade, e bem menos de dentro de um quintal urbano. Quem espera ver um chuveiro de riscos vai se frustrar; quem vai preparado para uma hora deitado olhando o céu costuma sair satisfeito. Para escolher um lugar escuro perto de você, vale o guia Turismo astronômico: onde ver o céu mais estrelado do Brasil.

O Halley deixou esse rastro, mas não passa mais por ali

Esta é a parte que nenhum calendário conta. As Orionídeas vêm do cometa Halley, o mesmo que produz as Eta Aquáridas em maio e que só volta ao céu em 2061. Hoje ele está a 35,0 unidades astronômicas do Sol (uma unidade astronômica é a distância Terra–Sol, cerca de 150 milhões de km), quase no ponto mais distante da órbita e bem além de Netuno.

O curioso é que, se você pegar a órbita atual do Halley e perguntar onde ela cruza o plano da órbita da Terra, os números não batem com a chuva. Fizemos essa conta com os elementos orbitais do JPL Horizons:

O que se mede Valor O que isso quer dizer
Distância do Sol no nó ascendente 1,79 UA Cruza o plano da Terra bem mais longe que a Terra
Distância do Sol no nó descendente 0,83 UA Cruza bem mais perto do Sol que a Terra
Distância da Terra ao Sol em 21/10/2026 0,996 UA Nenhum dos dois cruzamentos cai aqui
Data em que a Terra passa pela direção do nó ascendente 21 de novembro Um mês depois do pico das Orionídeas
Data em que a Terra passa pela direção do nó descendente 20 de maio Duas semanas depois das Eta Aquáridas
Menor distância entre as duas órbitas 0,0745 UA 11,1 milhões de km — 29 vezes a distância até a Lua

Erra na distância e erra na data. Isso não é defeito da conta: é a assinatura de uma nuvem de poeira velha. A poeira que a Terra atravessa em outubro não saiu do Halley na passagem de 1986; saiu em voltas de muitos séculos atrás, quando a órbita do cometa estava num lugar um pouco diferente, e desde então Júpiter e os outros planetas foram empurrando esses grãos devagar. Encontramos o mesmo descompasso ao calcular as Geminídeas 2026: a chuva de meteoros mais forte do ano e as Quadrântidas — é a regra, não a exceção.

O cometa NEOWISE, um risco luminoso com cauda, contra um céu noturno preto
Este é o cometa NEOWISE em julho de 2020, não o Halley. Serve para mostrar como um cometa brilhante aparece a olho nu — algo que o Halley só vai repetir em 2061. Foto: NASA/Bill Ingalls

Como se preparar, em cinco linhas

  1. Escolha o lugar antes: qualquer ponto fora do clarão da cidade vale mais que qualquer equipamento.
  2. Nada de telescópio nem binóculo. Eles estreitam o campo de visão e atrapalham. Olho nu, sempre.
  3. Deite-se. Cadeira de praia reclinada, esteira, uma toalha no capô do carro. Pescoço em pé não aguenta uma hora.
  4. Dê 20 minutos para o olho se adaptar ao escuro, e não olhe para a tela do celular nesse tempo — se precisar, deixe o brilho no mínimo ou use o modo vermelho.
  5. Leve agasalho. Em outubro, madrugada em Curitiba, Porto Alegre ou no interior de Minas é fria mesmo.

O calendário completo das outras chuvas do ano está em Chuva de meteoros hoje: horários e como ver do Brasil, e a história do cometa que produz esta aqui está em Cometa Halley: quando volta (2061) e por que é o mais famoso.

Perguntas frequentes

Que horas é a chuva de meteoros Orionídeas em 2026?

O pico é nas madrugadas de 21 e 22 de outubro de 2026. O melhor horário no Brasil é depois que a Lua se põe, entre 2h e 3h30 dependendo da cidade, até o céu começar a clarear — cerca de duas a três horas de céu realmente escuro. Os horários exatos por cidade estão na tabela acima.

Dá para ver as Orionídeas de dentro da cidade?

Dá, mas você vai ver poucos. Em céu urbano a conta cai para algo como 3 a 5 meteoros por hora, contra os 15 por hora possíveis num lugar escuro. Se não der para sair da cidade, procure um ponto sem luz apontada para o seu rosto, olhe para a parte mais escura do céu e tenha paciência.

Preciso de telescópio ou binóculo para ver as Orionídeas?

Não, e eles atrapalham. Um meteoro cruza uma faixa grande do céu em menos de um segundo; qualquer instrumento que aproxime a imagem estreita demais o campo de visão. A olho nu você enxerga o céu inteiro de uma vez, que é exatamente o que essa observação exige.

As Orionídeas são perigosas?

Não. Os grãos que produzem os meteoros têm o tamanho de um grão de areia ou de arroz e queimam por completo entre 80 e 120 km de altura, muito acima de onde voam os aviões. Nenhum pedaço das Orionídeas já chegou ao chão.

Por que o cometa Halley causa duas chuvas de meteoros por ano?

Porque a Terra cruza o rastro de poeira dele em dois pontos diferentes da própria órbita: uma vez no começo de maio, produzindo as Eta Aquáridas, e outra em outubro, produzindo as Orionídeas. É o mesmo material, atravessado em dois momentos do ano — como cruzar duas vezes a mesma estrada de terra em pontos diferentes do trajeto.

Horários de eventos astronômicos variam conforme sua cidade e o fuso horário. Confirme sempre num aplicativo de céu ou no site do Observatório Nacional antes de sair para observar.

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