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Quadrântidas 2027: a chuva de meteoros de 3 e 4 de janeiro

O pico é na madrugada de 4 de janeiro de 2027. Calculamos a altura do radiante em 14 cidades: no Sul do Brasil ela é invisível. Veja a sua.

Publicado em 9 min de leitura
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Céu estrelado sobre a vegetação rasteira de uma praia, numa longa exposição noturna
Foto: NASA/Glenn Benson
Neste artigo
  1. Quando é o pico, segundo a NASA
  2. Por que o Brasil vê tão pouco
  3. O asteroide que não passa nem perto da gente
  4. Quantos meteoros esperar de verdade
  5. A Lua colabora em 2027
  6. Como aumentar suas chances

As Quadrântidas de 2027 têm pico na noite de 3 para 4 de janeiro, e a resposta honesta para quem mora no Brasil é: depende muito de onde você está. Calculamos aqui a altura do ponto de onde os meteoros parecem sair em 14 cidades brasileiras, e o resultado é duro — em Boa Vista o radiante (o ponto do céu de onde os riscos parecem partir) chega a 35 graus de altura antes de o Sol nascer, enquanto em Porto Alegre e no Chuí ele só aparece depois do nascer do Sol, ou seja, não dá para ver nada.

Essa é uma das três chuvas mais fortes do ano no mundo. No hemisfério sul, ela é a mais injusta de todas.

Quando é o pico, segundo a NASA

A página das Quadrântidas da NASA diz que a chuva fica ativa de 28 de dezembro de 2026 a 12 de janeiro de 2027, com a noite de pico em 3 e 4 de janeiro. Duas características tornam esse pico diferente de todos os outros:

  1. Ele dura poucas horas, e não dois dias como na maioria das chuvas. A NASA explica por quê: a faixa de poeira é fina e a Terra a atravessa quase perpendicularmente, como quem corta uma folha de papel de lado em vez de raspar nela.
  2. Por isso, quem perde a janela certa não vê quase nada, mesmo com céu limpo.

Há um detalhe bonito de coincidência: o periélio da Terra de 2027 — o momento do ano em que o planeta passa mais perto do Sol — cai em 2 de janeiro às 23h de Brasília, a 147,10 milhões de km, segundo o cálculo que fizemos no Horizons. Ou seja, a chuva acontece praticamente no dia em que estamos mais perto do Sol. É acaso, mas é um acaso útil para lembrar a data.

Por que o Brasil vê tão pouco

O radiante das Quadrântidas fica numa constelação que não existe mais: a Quadrans Muralis, criada pelo astrônomo francês Jérôme Lalande em 1795 e deixada de fora quando a União Astronômica Internacional fechou a lista oficial das 88 constelações, em 1922. Hoje aquele pedaço de céu pertence ao Boieiro e ao Dragão, perto da ponta do cabo da panela da Ursa Maior — bem no norte do céu. As coordenadas publicadas do radiante são ascensão reta de 15h18m e declinação de +49,5 graus.

Declinação é a "latitude" de um ponto no céu. Um objeto com declinação de +49,5° passa no céu de uma cidade na altura máxima dada por 90 menos a diferença entre a latitude da cidade e essa declinação. Em Porto Alegre, que fica a 30° sul, a conta dá 90 − 79,5 = 10,5 graus — a altura de um poste visto do fim do quarteirão. E como o radiante só culmina depois que o Sol já nasceu, nem esses 10 graus são alcançados durante a noite.

A tabela abaixo é cálculo nosso, feito para a madrugada de 4 de janeiro de 2027 e conferido contra o sistema Horizons do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA usando Júpiter como controle: a diferença entre a nossa fórmula e a efeméride oficial ficou em 0,001 grau.

Cidade Radiante nasce Altura no nascer do Sol Altura máxima teórica Nascer do Sol Janela útil
Boa Vista 2h13 35° 43° 6h08 3h56
Belém 2h45 30° 39° 6h13 3h29
Manaus 2h39 29° 37° 5h56 3h18
Fortaleza 2h15 28° 37° 5h29 3h14
Recife 2h22 23° 32° 5h07 2h45
Salvador 3h00 18° 28° 5h13 2h13
Brasília 3h53 15° 25° 5h45 1h53
Cuiabá 3h23 15° 25° 5h18 1h54
Belo Horizonte 4h00 10° 21° 5h22 1h22
Rio de Janeiro 4h14 7° 18° 5h12 58 min
São Paulo 4h33 6° 17° 5h25 53 min
Curitiba 4h55 4° 15° 5h32 37 min
Porto Alegre 5h39 abaixo do horizonte 10° 5h29 nenhuma
Chuí 6h23 abaixo do horizonte 7° 5h29 nenhuma

Horários locais de cada cidade. A coluna da altura máxima teórica é a que o radiante atingiria se pudesse culminar de noite — mas em todo o Brasil ele culmina entre 8h e 9h da manhã, com o Sol alto. Por isso o número que vale é o da terceira coluna.

A leitura prática: do Nordeste para cima, vale a pena acordar. No Sudeste, é uma aposta de menos de uma hora. Do Paraná para o sul, não vale a pena. A própria NASA escreve que a chuva é melhor vista no hemisfério norte e que ela só aparece em latitudes ao norte de 51 graus sul — o Brasil inteiro cabe nesse limite, mas caber não é ver.

Céu estrelado sobre a praia, com o brilho alaranjado das luzes de uma cidade no horizonte
A cúpula de luz no horizonte é poluição luminosa. Com o radiante das Quadrântidas tão baixo, é justamente nessa faixa do céu que ele aparece — e é onde o brilho da cidade mais atrapalha. Foto: NASA/Glenn Benson

O asteroide que não passa nem perto da gente

Quase toda chuva de meteoros vem de um cometa. As Quadrântidas, não: vêm do asteroide 2003 EH1, identificado como fonte pelo astrônomo Peter Jenniskens. A NASA diz que ele pode ser um "cometa morto" ou um "cometa de rocha", tem cerca de 3 km de diâmetro e leva 5,52 anos para dar uma volta no Sol. Foi descoberto em 6 de março de 2003 pelo programa LONEOS, do Observatório Lowell. É a mesma história das Geminídeas 2026: a chuva de meteoros mais forte do ano, que também vêm de um asteroide.

Só que há um problema delicioso aqui. Pedimos ao sistema Horizons os elementos da órbita de 2003 EH1 e o resultado foi este:

Dado da órbita de 2003 EH1 Valor
Distância mínima do Sol (periélio) 1,19 UA
Distância máxima do Sol (afélio) 5,06 UA
Inclinação em relação à órbita da Terra 70,9°
Distância do nó ascendente 4,96 UA
Distância do nó descendente 1,196 UA
Distância mínima entre as duas órbitas 0,212 UA = 31,8 milhões de km

UA quer dizer unidade astronômica: a distância média entre a Terra e o Sol, cerca de 149,6 milhões de km.

O ponto em que a órbita do asteroide cruza o plano da nossa fica a 1,196 UA do Sol. A Terra, em 3 de janeiro, está a 0,983 UA. Isso quer dizer que a órbita atual de 2003 EH1 passa 31,8 milhões de km por fora da nossa — mais de 80 vezes a distância da Terra à Lua. O asteroide não chega nem perto de nós, e mesmo assim a poeira dele risca o nosso céu todo mês de janeiro.

A explicação é que a poeira é antiga. Ela foi solta quando a órbita do corpo era outra, e o empurrão da gravidade de Júpiter deslocou o asteroide desde então. O rastro ficou; o dono, não.

Ainda assim, a direção bate. A longitude do nó descendente calculada da ficha do asteroide coloca a Terra naquele ponto da órbita em 3 de janeiro de 2027 às 12h12 de Brasília — mesmo dia que a NASA publica como pico. Direção certa, distância errada: é exatamente a assinatura de uma nuvem de poeira velha.

Quantos meteoros esperar de verdade

Aqui a própria NASA publica dois números que parecem brigar. No quadro de dados rápidos, ela diz para esperar menos de 10 meteoros por hora em céu escuro. No corpo do texto, diz que no pico 60 a 200 meteoros por hora podem ser vistos em condições perfeitas.

Os dois estão certos, e a diferença é o coração do assunto. O número grande é a taxa teórica, medida como se o radiante estivesse bem em cima da sua cabeça, num céu perfeito, no instante exato do máximo. O número pequeno é o que uma pessoa real vê. Como o pico dura poucas horas e o radiante é baixo, quase ninguém pega as três coisas ao mesmo tempo.

Para o Brasil, some mais um desconto: com o radiante a 15 graus, você perde a maior parte dos meteoros, porque eles riscam abaixo do horizonte. A conta honesta para Recife ou Fortaleza é alguns meteoros por hora, com sorte. Para São Paulo, um ou dois na hora que sobra. As Quadrântidas compensam em parte com bólidos, que são meteoros muito brilhantes, mais luminosos que qualquer estrela: eles vêm de grãos maiores e aparecem mesmo com o radiante baixo.

Os meteoros entram na atmosfera a 40,4 km/s, segundo a NASA. É mais devagar que os das Leônidas 2026: quando e como ver a chuva de meteoros, que chegam a mais de 70 km/s, e mais rápido que os das Geminídeas.

Silhuetas de vegetação contra um céu noturno estrelado, com brilho difuso perto do horizonte
Quanto mais baixo o radiante, mais o horizonte decide. Uma casa, um morro ou um poste de luz na direção norte já apagam boa parte do espetáculo. Foto: NASA/Glenn Benson

A Lua colabora em 2027

Boa notícia: a Lua nova é em 7 de janeiro de 2027, às 17h24 de Brasília. Na madrugada do pico, ela é um fio de cerca de 11% iluminado que nasce por volta das 2h33 em São Paulo — quase no mesmo horário em que o radiante começa a subir no Nordeste. Uma Lua desse tamanho quase não atrapalha. As fases do período estão em Calendário lunar 2026 e 2027: todas as fases com hora de Brasília.

Como aumentar suas chances

  • Olhe para o norte, não para cima. Em quase todo o Brasil o radiante fica baixo no horizonte norte. Um terreno plano e aberto naquela direção vale mais que um céu escuro nas costas.
  • Escolha a última hora antes do amanhecer. Pela tabela, a altura do radiante cresce até o Sol nascer. Os 40 minutos antes do clarão são os melhores.
  • Fuja da cidade. Com o radiante a 10 ou 20 graus, a cúpula de luz urbana cobre justamente a faixa de céu que interessa. Quem mora em capital tem quase zero chance; quem consegue 50 km de estrada muda de patamar, como explicamos em Quantas estrelas dá para ver a olho nu? A conta real.
  • Nada de telescópio nem binóculo. Meteoro aparece e some em um segundo; qualquer instrumento fecha demais o campo de visão.
  • Dê 20 minutos aos seus olhos no escuro antes de contar qualquer coisa, e deixe o celular guardado.

Se a sua cidade está na parte de baixo da tabela, a recomendação sincera é guardar a energia: em maio vêm as Eta Aquáridas, que são a melhor chuva do ano para o hemisfério sul, e o calendário completo está em Chuva de meteoros hoje: horários e como ver do Brasil.

Perguntas frequentes

Que horas é o pico das Quadrântidas em 2027?

A NASA publica a noite de 3 para 4 de janeiro de 2027 como o pico, sem cravar a hora, porque o máximo dura poucas horas e a previsão exata varia. Nosso cálculo pela órbita do asteroide 2003 EH1 coloca a passagem da Terra pela direção do nó em 3 de janeiro às 12h12 de Brasília. Na prática, para quem observa do Brasil, o que importa é a última hora antes do nascer do Sol nos dois dias, 3 e 4 de janeiro.

Dá para ver as Quadrântidas no Brasil?

Dá, mas mal, e só em parte do país. Do Nordeste para o norte o radiante chega de 23 a 35 graus de altura antes do amanhecer, o que rende alguns meteoros por hora. No Sudeste sobra menos de uma hora de céu, com o radiante abaixo de 10 graus. Em Porto Alegre e no Chuí o radiante só nasce depois do Sol: a chuva é literalmente invisível de lá em 2027.

Por que as Quadrântidas vêm de um asteroide e não de um cometa?

O corpo de origem é o 2003 EH1, que a NASA descreve como um possível cometa morto: um núcleo de cometa que já perdeu todo o gelo da superfície e hoje se comporta como um asteroide. Ele deixou a faixa de poeira quando ainda era ativo. A diferença entre esses corpos está explicada em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

Preciso de algum equipamento para ver a chuva?

Não. Meteoro se vê a olho nu, e qualquer luneta, binóculo ou telescópio atrapalha, porque fecha o campo de visão. O que ajuda de verdade é escuridão, horizonte norte desobstruído e uma espreguiçadeira para não ficar com dor no pescoço.

O asteroide 2003 EH1 é perigoso para a Terra?

Não. A menor distância possível entre a órbita dele e a nossa é de 0,212 unidade astronômica, ou 31,8 milhões de km — cerca de 83 vezes a distância da Terra à Lua. O catálogo de pequenos corpos do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA nem o classifica como asteroide potencialmente perigoso.

Horários de eventos astronômicos variam conforme sua cidade e o fuso horário. Confirme sempre num aplicativo de céu ou no site do Observatório Nacional antes de sair para observar.

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