O céu ao vivo

O que é o Sete-Estrelo, as Plêiades, e como ver

O bolinho de estrelas que aparece no céu do Brasil a partir de outubro, quantas dá para contar a olho nu e a noite em que a Lua passa ao lado dele.

Publicado em 9 min de leitura
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O aglomerado das Plêiades, um grupo compacto de estrelas brilhantes sobre o fundo preto do espaço, fotografado pela sonda Cassini
Foto: NASA/JPL/Space Science Institute
Neste artigo
  1. Não é uma constelação, é uma família
  2. Quantas estrelas você consegue contar
  3. A noite de 27 de outubro, quando a Lua passa ao lado
  4. O conselho que contraria o calendário
  5. Quando olhar, mês a mês
  6. Por que elas parecem envoltas em fumaça
  7. No Brasil, o Sete-Estrelo é um calendário
  8. Duas distâncias da NASA para o mesmo aglomerado

Aquele bolinho de estrelas que aparece no leste a partir de outubro, e que muita gente no Brasil chama de Sete-Estrelo, é o aglomerado das Plêiades: um grupo de mais de mil estrelas que nasceram juntas, da mesma nuvem de gás, e continuam viajando juntas pelo espaço. Elas ficam a 445 anos-luz da Terra, segundo a NASA, e são jovens para o padrão do universo — cerca de 100 milhões de anos, ou seja, já existiam dinossauros na Terra quando essas estrelas acenderam. Este ano tem uma data marcada: na noite de 27 para 28 de outubro de 2026, a Lua passa a pouco mais de um grau delas.

Não é uma constelação, é uma família

Constelação é um desenho que a gente inventou ligando estrelas que só parecem vizinhas — a maioria delas está a distâncias completamente diferentes de nós. As Plêiades são outra coisa. São um aglomerado aberto: um grupo de estrelas que se formou de verdade no mesmo lugar, ao mesmo tempo, e que ainda está grudado pela própria gravidade.

Pense numa ninhada. As estrelas das Plêiades são irmãs de sangue, nascidas da mesma nuvem, e por isso têm todas a mesma idade e mais ou menos a mesma composição. É o mesmo tipo de nuvem que gerou o nosso Sol, tema de Como se formou o Sistema Solar — com a diferença de que as irmãs do Sol se perderam de vista há muito tempo, e as das Plêiades ainda estão todas ali, juntas, à vista de qualquer pessoa.

O aglomerado fica dentro dos limites da constelação do Touro, e no catálogo tem o nome de M45. As estrelas mais brilhantes dele são azuladas e quentes, do tipo que vive pouco e queima rápido. Se quiser entender por que uma estrela grande vive menos que uma pequena, isso está em O que sobra quando uma estrela morre.

Quantas estrelas você consegue contar

O apelido fala em sete, mas a conta real depende do seu céu. A olho nu, da maioria das cidades brasileiras, saem seis pontinhos; num céu escuro de sítio, sete ou oito; e quem tem vista muito boa em lugar sem luz nenhuma chega a contar mais de dez.

Com um binóculo comum, o número explode: o bolinho vira dezenas de estrelas espalhadas, e essa é uma das poucas coisas do céu em que o binóculo mostra mais que o telescópio. Um telescópio amplia demais e corta o grupo pela metade; o binóculo pega todas de uma vez. A NASA publica magnitude 1,6 para o conjunto, o que coloca as Plêiades entre os objetos mais fáceis do céu — magnitude é a escala de brilho da astronomia, e quanto menor o número, mais brilhante o objeto.

As nove estrelas com nome próprio são Alcíone, Electra, Maia, Mérope, Taígeta, Celeno e Astérope, mais Atlas e Plêione, que na mitologia grega são os pais das outras sete. Alcíone é a mais brilhante de todas, e foi a partir da posição dela que calculamos as distâncias e os horários deste artigo.

A noite de 27 de outubro, quando a Lua passa ao lado

Aqui está o evento com data. Na noite de 27 para 28 de outubro de 2026, a Lua nasce praticamente colada nas Plêiades. No instante em que as duas aparecem no horizonte, a separação entre a Lua e Alcíone é de pouco mais de um grau — cerca de duas Luas cheias enfileiradas. As duas sobem juntas pelo resto da noite, se afastando devagar.

Os horários e alturas abaixo foram calculados aqui, com as efemérides do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA. Cada um está no horário local da cidade — Manaus e Cuiabá estão uma hora atrás de Brasília:

Cidade O par nasce Altura às 23h Altura mais alta
Fortaleza 19h09 50° 62°, à 1h
Recife 18h59 49° 58°, à 0h40
Belém 19h40 44° 64°, à 1h40
Manaus 19h29 46° 63°, à 1h19
Salvador 19h30 43° 53°, à 1h
Cuiabá 19h39 40° 50°, à 1h10
Brasília 20h10 35° 50°, à 1h30
Belo Horizonte 20h00 35° 46°, à 1h19
Rio de Janeiro 20h00 33° 43°, à 1h09
São Paulo 20h19 30° 42°, à 1h30
Curitiba 20h29 27° 40°, à 1h40
Porto Alegre 20h49 23° 36°, à 1h50

Repare no padrão: quanto mais ao norte, mais alto o par sobe. Isso não é coincidência nem sorte. As Plêiades ficam no hemisfério norte do céu, então quem está mais perto da linha do equador as vê mais perto de cima da cabeça. É o inverso do que acontece com o Cruzeiro do Sul, que é nosso e fica melhor no sul do país.

O conselho que contraria o calendário

Agora a parte honesta, que nenhum aplicativo vai te dizer: 27 de outubro é a pior noite do mês para realmente ver as Plêiades.

A Lua cheia é em 26 de outubro, à 1h11 de Brasília. Ou seja, na noite do encontro ela está a menos de dois dias da cheia, com quase todo o disco iluminado e brilhando forte. Uma Lua nessa fase, a um grau de distância, apaga um aglomerado de estrelas como um farol de carro apaga um vaga-lume. Você vai ver a Lua, vai ver talvez duas ou três estrelinhas ao lado, e só.

A Lua em fase minguante gibosa, com o terminador cortando o disco e as crateras em relevo ao longo dele
A Lua na fase minguante gibosa, que é como ela vai estar na noite de 27 de outubro de 2026: quase cheia. Esta imagem é uma visualização da NASA montada com os dados de altimetria e as fotos da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter. Foto: NASA/GSFC

Então use a noite de 27 de outubro para aprender o endereço, e não para admirar. A Lua serve de placa: você olha para ela, decora a mancha de estrelinhas do lado, e pronto — nunca mais perde as Plêiades no céu. Para ver de verdade, marque a semana da Lua nova de 9 de novembro de 2026. Nessa noite as Plêiades nascem entre 18h02 (Recife) e 19h52 (Porto Alegre), já estão entre 29° e 58° de altura às 23h, e o céu está preto. É o mesmo raciocínio que usamos para as oposições de planeta: a melhor noite quase nunca é a do calendário.

Quando olhar, mês a mês

As Plêiades não são um evento, são uma temporada. Em outubro elas só aparecem no leste depois das 21h, e a cada mês nascem cerca de duas horas mais cedo, até chegarem ao ponto em que já estão altas logo depois do jantar. Em abril elas passam a se pôr cedo, baixas no oeste, e somem em seguida no clarão do poente. Os horários abaixo são para São Paulo, calculados aqui; em outras cidades a diferença é de alguns minutos para mais ou para menos.

Data Nascem Ficam mais altas
15 de outubro 20h59 2h18
15 de novembro 18h56 0h17
15 de dezembro 16h59 22h15
15 de janeiro 14h57 20h13
15 de fevereiro 12h55 18h11
15 de março 11h04 16h20

A altura máxima é sempre a mesma, 42 graus em São Paulo, porque isso depende só da latitude da cidade, não da época. O que muda é a hora em que o aglomerado chega lá em cima. Em dezembro e janeiro ele está alto logo depois do jantar, que é a melhor combinação do ano para quem não quer virar a noite. A NASA também aponta dezembro como o melhor mês para observar o aglomerado.

Um bônus de 2026: Urano está bem nessa região do céu, entre as Plêiades e a estrela alaranjada Aldebarã, e chega à oposição em 26 de novembro. Quem for atrás das Plêiades com binóculo já está olhando para o bairro certo, como explicamos em Urano na oposição de 26 de novembro de 2026.

Por que elas parecem envoltas em fumaça

Em fotos de longa exposição, as Plêiades aparecem enroladas numa névoa azulada. Essa névoa não é luz própria: é poeira iluminada.

Funciona como neblina sob um poste. As estrelas do aglomerado jogam luz nos grãos de poeira que estão em volta, a poeira espalha essa luz de volta na nossa direção, e o resultado é um brilho difuso sem forma definida. A NASA chama isso de nebulosa de reflexão, e descreve o caso mais estudado, o da estrela Mérope, como resultado da interação entre os grãos de poeira e a pressão da luz da própria estrela. Imagens infravermelhas do telescópio Spitzer mostram essa poeira como uma rede de filamentos atravessando o aglomerado. A olho nu nada disso aparece: a névoa exige câmera e tempo de exposição.

No Brasil, o Sete-Estrelo é um calendário

O nome "Sete-Estrelo" é popular em boa parte do Brasil, e o aglomerado tem função prática no céu brasileiro há muito mais tempo do que os catálogos europeus existem. Os povos indígenas do Brasil enxergavam nas Plêiades um marcador de estação: a época da chuva e do plantio. Esse conhecimento foi registrado pelo astrônomo Germano Afonso, que estudou as constelações indígenas por décadas, e contamos mais sobre ele em Constelações: como reconhecer as principais no céu do Brasil.

Faz todo o sentido do mundo. O aglomerado reaparece no céu da noite exatamente na virada de outubro, que é quando a estação chuvosa começa em boa parte do país. Um calendário que se lê olhando para cima, sem papel e sem relógio — e que funciona porque o céu se repete com a precisão de um mecanismo.

Vale dizer que isso não é exclusividade daqui. As Plêiades têm nome e história em praticamente todas as culturas que já olharam para o céu, e a NASA registra que elas são observadas desde a antiguidade, sem descobridor conhecido. Quem olhou para elas primeiro com um instrumento foi Galileu, no século 17, o mesmo que apontou a luneta para Júpiter e mudou a astronomia.

Duas distâncias da NASA para o mesmo aglomerado

Um detalhe que vale contar, porque ensina a ler número de astronomia. A página do catálogo Messier da NASA publica 445 anos-luz para as Plêiades e acrescenta, com todas as letras, que esse valor não é aceito por todo mundo. Já a página da missão Spitzer, da mesma NASA, diz "mais de 400 anos-luz".

Os dois estão certos dentro do que cada um mede. Medir a distância de um aglomerado inteiro não é como medir a distância de um poste: as estrelas não estão todas no mesmo plano, os métodos são indiretos, e satélites diferentes deram resultados um pouco diferentes ao longo dos anos. Quando um site der a você um número de distância cósmica sem dizer de onde ele veio, desconfie. O método por trás desses números está em O que é um ano-luz e como essa distância é medida.

Neste artigo usamos 445 anos-luz, que é o valor da página de catálogo da NASA, e dissemos de onde ele veio. É assim que deve ser.

Perguntas frequentes

O que é o Sete-Estrelo?

É o nome popular brasileiro das Plêiades, um aglomerado de mais de mil estrelas a 445 anos-luz da Terra, na constelação do Touro. A olho nu ele parece um bolinho de seis ou sete pontinhos juntos, e com binóculo vira dezenas de estrelas.

Quantas estrelas tem o Sete-Estrelo?

A NASA fala em mais de mil estrelas no aglomerado. A olho nu, da maioria das cidades brasileiras, dá para contar seis; num céu escuro, sete ou oito; e quem tem vista muito boa chega a mais de dez. Só nove delas têm nome próprio.

Quando dá para ver as Plêiades no Brasil?

De outubro a março. Em outubro elas nascem por volta das 21h e ficam altas de madrugada; em dezembro e janeiro já estão bem altas logo depois do jantar, que é a melhor combinação do ano. A NASA aponta dezembro como o melhor mês.

As Plêiades são uma constelação?

Não. Constelação é um desenho formado por estrelas que só parecem vizinhas. As Plêiades são um aglomerado aberto de verdade: estrelas que nasceram juntas, da mesma nuvem, e continuam presas pela própria gravidade. Elas ficam dentro dos limites da constelação do Touro.

Precisa de telescópio para ver o Sete-Estrelo?

Não. Ele é visível a olho nu de qualquer lugar do Brasil. E, se for usar algum instrumento, prefira um binóculo: o telescópio amplia demais e corta o aglomerado ao meio, enquanto o binóculo mostra o grupo inteiro de uma vez.

Horários de eventos astronômicos variam conforme sua cidade e o fuso horário. Confirme sempre num aplicativo de céu ou no site do Observatório Nacional antes de sair para observar.

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