Aquele bolinho de estrelas que aparece no leste a partir de outubro, e que muita gente no Brasil chama de Sete-Estrelo, é o aglomerado das Plêiades: um grupo de mais de mil estrelas que nasceram juntas, da mesma nuvem de gás, e continuam viajando juntas pelo espaço. Elas ficam a 445 anos-luz da Terra, segundo a NASA, e são jovens para o padrão do universo — cerca de 100 milhões de anos, ou seja, já existiam dinossauros na Terra quando essas estrelas acenderam. Este ano tem uma data marcada: na noite de 27 para 28 de outubro de 2026, a Lua passa a pouco mais de um grau delas.
Não é uma constelação, é uma família
Constelação é um desenho que a gente inventou ligando estrelas que só parecem vizinhas — a maioria delas está a distâncias completamente diferentes de nós. As Plêiades são outra coisa. São um aglomerado aberto: um grupo de estrelas que se formou de verdade no mesmo lugar, ao mesmo tempo, e que ainda está grudado pela própria gravidade.
Pense numa ninhada. As estrelas das Plêiades são irmãs de sangue, nascidas da mesma nuvem, e por isso têm todas a mesma idade e mais ou menos a mesma composição. É o mesmo tipo de nuvem que gerou o nosso Sol, tema de Como se formou o Sistema Solar — com a diferença de que as irmãs do Sol se perderam de vista há muito tempo, e as das Plêiades ainda estão todas ali, juntas, à vista de qualquer pessoa.
O aglomerado fica dentro dos limites da constelação do Touro, e no catálogo tem o nome de M45. As estrelas mais brilhantes dele são azuladas e quentes, do tipo que vive pouco e queima rápido. Se quiser entender por que uma estrela grande vive menos que uma pequena, isso está em O que sobra quando uma estrela morre.
Quantas estrelas você consegue contar
O apelido fala em sete, mas a conta real depende do seu céu. A olho nu, da maioria das cidades brasileiras, saem seis pontinhos; num céu escuro de sítio, sete ou oito; e quem tem vista muito boa em lugar sem luz nenhuma chega a contar mais de dez.
Com um binóculo comum, o número explode: o bolinho vira dezenas de estrelas espalhadas, e essa é uma das poucas coisas do céu em que o binóculo mostra mais que o telescópio. Um telescópio amplia demais e corta o grupo pela metade; o binóculo pega todas de uma vez. A NASA publica magnitude 1,6 para o conjunto, o que coloca as Plêiades entre os objetos mais fáceis do céu — magnitude é a escala de brilho da astronomia, e quanto menor o número, mais brilhante o objeto.
As nove estrelas com nome próprio são Alcíone, Electra, Maia, Mérope, Taígeta, Celeno e Astérope, mais Atlas e Plêione, que na mitologia grega são os pais das outras sete. Alcíone é a mais brilhante de todas, e foi a partir da posição dela que calculamos as distâncias e os horários deste artigo.
A noite de 27 de outubro, quando a Lua passa ao lado
Aqui está o evento com data. Na noite de 27 para 28 de outubro de 2026, a Lua nasce praticamente colada nas Plêiades. No instante em que as duas aparecem no horizonte, a separação entre a Lua e Alcíone é de pouco mais de um grau — cerca de duas Luas cheias enfileiradas. As duas sobem juntas pelo resto da noite, se afastando devagar.
Os horários e alturas abaixo foram calculados aqui, com as efemérides do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA. Cada um está no horário local da cidade — Manaus e Cuiabá estão uma hora atrás de Brasília:
| Cidade | O par nasce | Altura às 23h | Altura mais alta |
|---|---|---|---|
| Fortaleza | 19h09 | 50° | 62°, à 1h |
| Recife | 18h59 | 49° | 58°, à 0h40 |
| Belém | 19h40 | 44° | 64°, à 1h40 |
| Manaus | 19h29 | 46° | 63°, à 1h19 |
| Salvador | 19h30 | 43° | 53°, à 1h |
| Cuiabá | 19h39 | 40° | 50°, à 1h10 |
| Brasília | 20h10 | 35° | 50°, à 1h30 |
| Belo Horizonte | 20h00 | 35° | 46°, à 1h19 |
| Rio de Janeiro | 20h00 | 33° | 43°, à 1h09 |
| São Paulo | 20h19 | 30° | 42°, à 1h30 |
| Curitiba | 20h29 | 27° | 40°, à 1h40 |
| Porto Alegre | 20h49 | 23° | 36°, à 1h50 |
Repare no padrão: quanto mais ao norte, mais alto o par sobe. Isso não é coincidência nem sorte. As Plêiades ficam no hemisfério norte do céu, então quem está mais perto da linha do equador as vê mais perto de cima da cabeça. É o inverso do que acontece com o Cruzeiro do Sul, que é nosso e fica melhor no sul do país.
O conselho que contraria o calendário
Agora a parte honesta, que nenhum aplicativo vai te dizer: 27 de outubro é a pior noite do mês para realmente ver as Plêiades.
A Lua cheia é em 26 de outubro, à 1h11 de Brasília. Ou seja, na noite do encontro ela está a menos de dois dias da cheia, com quase todo o disco iluminado e brilhando forte. Uma Lua nessa fase, a um grau de distância, apaga um aglomerado de estrelas como um farol de carro apaga um vaga-lume. Você vai ver a Lua, vai ver talvez duas ou três estrelinhas ao lado, e só.

Então use a noite de 27 de outubro para aprender o endereço, e não para admirar. A Lua serve de placa: você olha para ela, decora a mancha de estrelinhas do lado, e pronto — nunca mais perde as Plêiades no céu. Para ver de verdade, marque a semana da Lua nova de 9 de novembro de 2026. Nessa noite as Plêiades nascem entre 18h02 (Recife) e 19h52 (Porto Alegre), já estão entre 29° e 58° de altura às 23h, e o céu está preto. É o mesmo raciocínio que usamos para as oposições de planeta: a melhor noite quase nunca é a do calendário.
Quando olhar, mês a mês
As Plêiades não são um evento, são uma temporada. Em outubro elas só aparecem no leste depois das 21h, e a cada mês nascem cerca de duas horas mais cedo, até chegarem ao ponto em que já estão altas logo depois do jantar. Em abril elas passam a se pôr cedo, baixas no oeste, e somem em seguida no clarão do poente. Os horários abaixo são para São Paulo, calculados aqui; em outras cidades a diferença é de alguns minutos para mais ou para menos.
| Data | Nascem | Ficam mais altas |
|---|---|---|
| 15 de outubro | 20h59 | 2h18 |
| 15 de novembro | 18h56 | 0h17 |
| 15 de dezembro | 16h59 | 22h15 |
| 15 de janeiro | 14h57 | 20h13 |
| 15 de fevereiro | 12h55 | 18h11 |
| 15 de março | 11h04 | 16h20 |
A altura máxima é sempre a mesma, 42 graus em São Paulo, porque isso depende só da latitude da cidade, não da época. O que muda é a hora em que o aglomerado chega lá em cima. Em dezembro e janeiro ele está alto logo depois do jantar, que é a melhor combinação do ano para quem não quer virar a noite. A NASA também aponta dezembro como o melhor mês para observar o aglomerado.
Um bônus de 2026: Urano está bem nessa região do céu, entre as Plêiades e a estrela alaranjada Aldebarã, e chega à oposição em 26 de novembro. Quem for atrás das Plêiades com binóculo já está olhando para o bairro certo, como explicamos em Urano na oposição de 26 de novembro de 2026.
Por que elas parecem envoltas em fumaça
Em fotos de longa exposição, as Plêiades aparecem enroladas numa névoa azulada. Essa névoa não é luz própria: é poeira iluminada.
Funciona como neblina sob um poste. As estrelas do aglomerado jogam luz nos grãos de poeira que estão em volta, a poeira espalha essa luz de volta na nossa direção, e o resultado é um brilho difuso sem forma definida. A NASA chama isso de nebulosa de reflexão, e descreve o caso mais estudado, o da estrela Mérope, como resultado da interação entre os grãos de poeira e a pressão da luz da própria estrela. Imagens infravermelhas do telescópio Spitzer mostram essa poeira como uma rede de filamentos atravessando o aglomerado. A olho nu nada disso aparece: a névoa exige câmera e tempo de exposição.
No Brasil, o Sete-Estrelo é um calendário
O nome "Sete-Estrelo" é popular em boa parte do Brasil, e o aglomerado tem função prática no céu brasileiro há muito mais tempo do que os catálogos europeus existem. Os povos indígenas do Brasil enxergavam nas Plêiades um marcador de estação: a época da chuva e do plantio. Esse conhecimento foi registrado pelo astrônomo Germano Afonso, que estudou as constelações indígenas por décadas, e contamos mais sobre ele em Constelações: como reconhecer as principais no céu do Brasil.
Faz todo o sentido do mundo. O aglomerado reaparece no céu da noite exatamente na virada de outubro, que é quando a estação chuvosa começa em boa parte do país. Um calendário que se lê olhando para cima, sem papel e sem relógio — e que funciona porque o céu se repete com a precisão de um mecanismo.
Vale dizer que isso não é exclusividade daqui. As Plêiades têm nome e história em praticamente todas as culturas que já olharam para o céu, e a NASA registra que elas são observadas desde a antiguidade, sem descobridor conhecido. Quem olhou para elas primeiro com um instrumento foi Galileu, no século 17, o mesmo que apontou a luneta para Júpiter e mudou a astronomia.
Duas distâncias da NASA para o mesmo aglomerado
Um detalhe que vale contar, porque ensina a ler número de astronomia. A página do catálogo Messier da NASA publica 445 anos-luz para as Plêiades e acrescenta, com todas as letras, que esse valor não é aceito por todo mundo. Já a página da missão Spitzer, da mesma NASA, diz "mais de 400 anos-luz".
Os dois estão certos dentro do que cada um mede. Medir a distância de um aglomerado inteiro não é como medir a distância de um poste: as estrelas não estão todas no mesmo plano, os métodos são indiretos, e satélites diferentes deram resultados um pouco diferentes ao longo dos anos. Quando um site der a você um número de distância cósmica sem dizer de onde ele veio, desconfie. O método por trás desses números está em O que é um ano-luz e como essa distância é medida.
Neste artigo usamos 445 anos-luz, que é o valor da página de catálogo da NASA, e dissemos de onde ele veio. É assim que deve ser.




