Perguntas que todo mundo faz

O que é o vento solar? O sopro que vem do Sol

É um fluxo constante de partículas elétricas que o Sol sopra em todas as direções, a até 800 km por segundo. Ele faz a aurora e envolve a Terra inteira.

Publicado em 7 min de leitura
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Aurora austral verde brilhando sobre a curva escura da Terra, fotografada da Estação Espacial
Foto: NASA/JSC
Neste artigo
  1. De onde ele sai
  2. As frestas: buracos coronais, estrias e regiões ativas
  3. Vento rápido e vento devagar: os dois tipos
  4. O que acontece quando ele bate na Terra
  5. A missão que foi medir o estalo, e o que ela achou
  6. O que o vento solar faz com o resto do Sistema Solar
  7. Quem descobriu, e como se sabe disso tudo

O vento solar é um fluxo constante de partículas elétricas que o Sol sopra em todas as direções, sem parar, a velocidades que vão de 300 a 800 quilômetros por segundo. Não é vento de ar: é gás tão quente que se desmanchou em pedaços carregados — prótons e elétrons —, escapando da camada mais externa do Sol. Esse sopro atravessa o Sistema Solar inteiro, envolve a Terra, acende as auroras e, segundo a NASA, só termina num lugar chamado heliopausa, muito além de Netuno. Na prática, isso significa uma coisa que quase ninguém percebe: a Terra está dentro da atmosfera do Sol.

De onde ele sai

O vento solar não nasce na superfície visível do Sol. Ele vem da coroa, a camada mais externa da atmosfera solar — aquele halo branco que aparece nas fotos de eclipse total.

A coroa tem um mistério que a própria NASA chama de um dos maiores do Sol: ela é muito mais quente que a superfície. A superfície (o que os cientistas chamam de fotosfera) fica em torno de 5.500 °C. A coroa, que está mais longe do núcleo e deveria ser mais fria, chega a 2 milhões de °C. Até hoje não há explicação fechada para isso.

É nessa temperatura absurda que a coisa acontece: o gás fica tão agitado que a gravidade do Sol não consegue mais segurá-lo. Ele escapa. E, ao escapar, arrasta junto o campo magnético do Sol.

Pense numa panela de água fervendo com a tampa mal encaixada. O vapor não respeita a tampa; ele acha a fresta e sai. O vento solar é o vapor, a gravidade do Sol é a tampa, e as frestas têm nome.

As frestas: buracos coronais, estrias e regiões ativas

A NASA aponta três lugares de onde o vento solar sai com mais força:

  • Buracos coronais — manchas mais escuras e menos densas da coroa, onde as linhas do campo magnético do Sol, em vez de voltarem para ele, apontam para o espaço aberto. É a porta escancarada.
  • Regiões ativas — áreas de campo magnético forte, perto das manchas solares.
  • Estrias coronais (coronal streamers) — estruturas compridas que se esticam da atmosfera do Sol, mais comuns perto do equador solar.

E aí está o detalhe que explica tudo o que vem depois: a porta por onde a partícula sai decide a velocidade dela.

Disco do Sol em tom dourado com duas manchas escuras bem marcadas no centro, fotografado em luz ultravioleta extrema
Dois buracos coronais no centro do disco solar, vistos pelo Observatório de Dinâmica Solar em novembro de 2016. A imagem é feita em ultravioleta extremo, uma luz que o olho humano não enxerga; as manchas escuras são por onde o vento solar escapa. Foto: NASA/GSFC/Solar Dynamics Observatory

Vento rápido e vento devagar: os dois tipos

A NASA separa o vento solar em duas famílias, e a diferença entre elas é grande o bastante para mudar o que acontece aqui.

Tipo Velocidade De onde sai Comparação
Vento lento 300 a 500 km/s Estrias coronais, perto do equador do Sol 1,1 a 1,8 milhão de km/h
Vento rápido 500 a 800 km/s Buracos coronais, mais comuns perto dos polos 1,8 a 2,9 milhões de km/h

Para ter noção do que esses números significam: a 400 km por segundo, que é a velocidade típica medida pelo laboratório de física solar da NASA, uma partícula sai do Sol e chega à Terra em cerca de quatro dias. Um avião de carreira, voando a 900 km/h sem parar, levaria 19 anos para cobrir a mesma distância.

Como os planetas orbitam perto do plano do equador do Sol, o vento que mais nos visita é o lento. Mas o rápido chega também, quando um buraco coronal gira para a nossa frente — e é aí que o céu costuma dar espetáculo.

O que acontece quando ele bate na Terra

A Terra tem um escudo: o campo magnético do planeta, que forma uma bolha chamada magnetosfera. A maior parte do vento solar simplesmente escorrega em volta dessa bolha, como água desviando de uma pedra no meio do rio.

Mas nem tudo escorrega. Na fronteira da bolha com o espaço — um lugar chamado magnetopausa — acontece o fenômeno que acende as auroras: a reconexão magnética.

Funciona assim. O vento solar traz junto o campo magnético do Sol. Quando esse campo encontra o campo da Terra, a energia se acumula na fronteira até as linhas magnéticas se romperem e se religarem de outro jeito — um estalo que atira partículas em alta velocidade direto para dentro da nossa atmosfera. Elas descem em funil pelos polos magnéticos, batem nos átomos do ar lá em cima e fazem o ar brilhar. Isso é a aurora, explicada em detalhe em Aurora boreal: o que é, por que acontece e se aparece no Brasil.

Quando a rajada de vento solar é especialmente rápida e densa, ela comprime a magnetosfera, como um biruta de aeroporto achatada pelo vento forte. Essa mudança brusca no campo magnético induz correntes no chão, que podem queimar transformadores e derrubar redes elétricas — o assunto de Tempestade solar pode derrubar a internet e a energia?.

A missão que foi medir o estalo, e o que ela achou

Em 29 de outubro de 2026, a NASA publicou os primeiros resultados da missão TRACERS, feita exatamente para estudar essa reconexão magnética. São dois satélites gêmeos, voando um atrás do outro em órbita sol-síncrona, atravessando várias vezes por dia a região sobre o polo sul magnético onde as partículas do Sol entram concentradas — um funil que os cientistas chamam de cúspide polar.

O primeiro artigo científico da missão, publicado no Journal of Geophysical Research, traz uma conclusão que ainda precisa de confirmação, mas que já muda o rumo da pesquisa: a reconexão magnética parece ser um processo principalmente espacial, ou seja, o lugar onde ela acontece se move, em vez de a intensidade dela mudar ao longo do tempo. É a diferença entre uma torneira que pinga mais forte e uma torneira que anda pela pia.

A missão passou perrengue: um dos dois satélites teve problema logo depois do lançamento, e a equipe levou meses para restabelecer contato. Hoje os dois observam a cúspide sul rotineiramente, e em setembro de 2026 a NASA aprovou uma extensão da missão principal até a primavera de 2027 no hemisfério norte — ou seja, o nosso outono.

Foguete Falcon 9 subindo contra o céu azul, com a chama e a fumaça branca atrás
O lançamento da missão TRACERS, em 23 de julho de 2025, da base de Vandenberg, na Califórnia. Os dois satélites gêmeos foram feitos para medir a reconexão magnética no ponto em que ela acontece. Foto: SpaceX

O que o vento solar faz com o resto do Sistema Solar

A Terra se defende porque tem campo magnético. Quem não tem, sofre.

Marte é o caso mais dramático. Sem um escudo magnético global, o planeta vem perdendo atmosfera para o vento solar há bilhões de anos. A NASA estima a perda atual em cerca de 113 gramas de ar por segundo — pouco por segundo, devastador em escala geológica, como conta Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.

A Lua não tem nem atmosfera nem escudo, então o vento solar bate direto na rocha. Quando bate, ele quebra ligações atômicas e cria água na superfície iluminada — descoberta confirmada pelo observatório voador SOFIA, da NASA, em 2020. O mesmo bombardeio carrega o chão lunar de eletricidade estática.

Júpiter tem auroras nos polos, pelo mesmo mecanismo das nossas, só que muito maiores.

E o fim da linha é a heliopausa: a borda da bolha que o vento solar forma em volta do Sol. Ali, a pressão do vento solar empata com a pressão do vento das outras estrelas. Só duas naves chegaram lá — as Voyager, lançadas em 1977, que levaram cerca de 15 anos de viagem até essa fronteira. A mais distante delas está em Onde está a Voyager 1 hoje? A nave mais distante de nós.

Quem descobriu, e como se sabe disso tudo

A ideia de que o Sol sopra um vento contínuo é de Eugene Parker, que montou a primeira teoria em 1958. A confirmação veio no ano seguinte, segundo a NASA, com a primeira nave a sair da órbita da Terra medindo as partículas de perto.

Hoje a sonda que leva o nome dele, a Parker Solar Probe, mergulha na própria coroa para medir o vento solar antes que ele se misture — a história está em Parker Solar Probe: a sonda que tocou o Sol. Uma das descobertas dela: o campo magnético que o vento solar arrasta se enrola em forma de espiral, porque o Sol gira enquanto sopra. A espiral leva o nome de Parker.

Perguntas frequentes

O que é o vento solar, em uma frase?

É um fluxo constante de partículas elétricas — prótons e elétrons — que escapa da coroa do Sol e viaja em todas as direções a entre 300 e 800 quilômetros por segundo, preenchendo todo o Sistema Solar.

O vento solar é perigoso para quem está na Terra?

Para o seu corpo, não: a atmosfera e o campo magnético da Terra seguram o que importa. O risco é para a tecnologia. Rajadas fortes podem comprimir o campo magnético do planeta e induzir correntes capazes de queimar transformadores de rede elétrica, além de atrapalhar satélites e GPS. Para astronautas fora da proteção do campo magnético, a exposição é uma preocupação real, e a NASA desenvolve coletes de proteção contra radiação.

Qual é a velocidade do vento solar?

Depende de onde ele sai. O vento lento, que vem das estrias coronais perto do equador do Sol, anda entre 300 e 500 km/s. O vento rápido, que sai dos buracos coronais, vai de 500 a 800 km/s. O valor típico medido perto da Terra é de cerca de 400 km/s, o que dá mais ou menos 1,4 milhão de km/h.

O vento solar chega ao Brasil?

Chega à Terra inteira, mas o efeito visível depende da latitude. As auroras se concentram em anéis em volta dos polos magnéticos, então o Brasil quase nunca vê. Só que o país tem uma particularidade: sobre a América do Sul e o Atlântico sul existe um ponto de campo magnético invulgarmente fraco, a Anomalia Magnética do Atlântico Sul, que deixa as partículas descerem mais perto da superfície. A NASA diz que isso não tem efeito visível na vida diária de quem está no chão, mas desliga computadores de bordo e atrapalha a coleta de dados dos satélites que passam por ali. A história está em O que é a Anomalia Magnética do Atlântico Sul?.

Onde o vento solar termina?

Na heliopausa, a borda da bolha magnética que ele forma em volta do Sol, onde a pressão dele empata com a das outras estrelas. É a fronteira do espaço interestelar. Apenas as duas sondas Voyager, lançadas em 1977, a atravessaram.

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