O recorde acabou de mudar de dono: em 11 de outubro de 2026, o rover da NASA chegou a 45,22 km rodados em Marte e passou o Opportunity, que parou de rodar em 2018 com 45,16 km e segurava a marca desde então. São 60 metros de diferença, menos que a distância entre dois postes de rua — mas eles separam o primeiro e o segundo lugar na lista de veículos que mais andaram em outro mundo. O detalhe que impressiona não é a distância: é o tempo. O Opportunity levou quase 15 anos para percorrer esses quilômetros. O Perseverance levou cinco anos e meio.
Para ter ideia do tamanho real dessa conquista: 45 km é pouco mais que uma maratona, que tem 42,195 km. Uma pessoa andando num ritmo tranquilo de 5 km por hora faria isso em cerca de nove horas, parando para almoçar. O rover mais rápido que a humanidade já pôs em outro planeta levou cinco anos e meio.
O que aconteceu em 11 de outubro
Naquele dia, o Perseverance dirigiu 91,31 metros — menos que o comprimento de um campo de futebol. Foi o suficiente para o odômetro passar de 45,16 km e quebrar o recorde. A NASA anunciou no dia seguinte, 12 de outubro de 2026, no blog oficial da missão.
A marca caiu no sol 2.006 da missão. "Sol" é como se chama um dia marciano, que dura 24 horas e 37 minutos — quase igual ao nosso, mas não exatamente, como explicamos em Quanto tempo dura um dia em cada planeta do Sistema Solar.
O rover estava indo para uma região apelidada de "Idubi", atravessando uma área chamada "Lac de Charmes", na borda oeste da cratera Jezero. Segundo a NASA, são algumas das rochas mais antigas já exploradas no Sistema Solar: o equivalente delas na Terra foi apagado há muito tempo pela erosão e pelo movimento das placas tectônicas — coisa que Marte não tem.
A lista completa, rover por rover
| Veículo | Quando | Distância | Tempo em serviço |
|---|---|---|---|
| Perseverance (NASA) | desde 2021 | 45,22 km | 5 anos e meio, ainda rodando |
| Opportunity (NASA) | 2004–2018 | 45,16 km | 5.111 sols |
| Lunokhod 2 (União Soviética, na Lua) | 1973 | 39 km | alguns meses |
| Curiosity (NASA) | desde 2012 | 38,07 km | ainda rodando |
| Apollo 17 (astronautas, na Lua) | 1972 | 35,7 km | 3 dias |
| Spirit (NASA) | 2004–2010 | 7,7 km | até o inverno marciano |
| Sojourner (NASA) | 1997 | cerca de 100 m | 83 sols |
Os números do Perseverance e do Curiosity são de 11 de outubro de 2026 e continuam crescendo.
Repare numa coisa: a comparação não para em Marte. Antes de alcançar o Opportunity, o Perseverance já tinha passado as duas maiores distâncias percorridas na Lua — os 35,7 km que os astronautas Gene Cernan e Harrison Schmitt fizeram de jipe elétrico na Apollo 17, em 1972, e os 39 km do Lunokhod 2, rover que a União Soviética pousou lá em 1973. Hoje, nenhum veículo construído por seres humanos rodou mais longe fora da Terra, em lugar nenhum.

O segredo não é velocidade: é dirigir sozinho
O Perseverance não é mais rápido que o Opportunity por ter motores melhores. Ele é mais rápido porque dirige sozinho.
O sistema se chama AutoNav — abreviação de "navegação autônoma". Funciona assim: enquanto rola, o rover fotografa o terreno à frente, monta na hora um mapa em três dimensões dos obstáculos e escolhe sozinho o caminho entre os pontos que os motoristas na Terra marcaram no mapa. A equipe da NASA chama isso de "pensar enquanto dirige".
A diferença que isso faz é enorme. Mais de 90% de toda a distância do Perseverance foi rodada no AutoNav. No Spirit e no Opportunity, que tinham a primeira versão do sistema, foram cerca de 5%. O resto era feito do jeito antigo: a equipe na Terra olhava as fotos, desenhava um trajeto curto e seguro, mandava o comando e esperava. No dia seguinte, tudo de novo.
A capacidade de enxergar também mudou de patamar. O Sojourner, o primeiro rover da NASA em Marte, avaliava o caminho à frente usando 20 pontos de medição. O Perseverance processa 600 mil a cada olhada — 30 mil vezes mais.
Por que não dá para simplesmente mandar ele correr
Mesmo dirigindo sozinho, o rover é lento para os nossos padrões. No melhor dia, ele faz 412 metros num único sol. Na média de toda a missão, os 45,22 km divididos pelos 2.006 sols dão cerca de 22 metros por dia marciano — menos que uma piscina olímpica, que tem 50 metros.
O motivo não é falta de potência. É que ninguém pode pilotar em tempo real: o sinal entre a Terra e Marte leva minutos para ir e minutos para voltar, dependendo de onde os dois planetas estão na órbita. Não existe controle remoto. Se o rover cair num buraco, a notícia chega quando já caiu.
E há um limite curioso, que a própria NASA aponta: o Sol atrapalha. Quando o Perseverance dirige na direção do Sol, o brilho nas câmeras de navegação confunde o sistema, e por isso a equipe costuma estacionar no meio da tarde nesses dias. Mark Maimone, vice-chefe da equipe de operações robóticas, disse que ensinar o rover a enxergar através desse reflexo é a próxima fronteira — e que, se der certo, "todo rover que vier depois ganha um dia de trabalho mais longo".
Um plano para 20 km que virou 45
Aqui está o detalhe mais saboroso da história. Quando a missão foi aprovada, o projeto original previa que o Perseverance rodasse no máximo 20 km (12,4 milhas) durante toda a vida útil. Ele já fez mais que o dobro.
"A missão original não pedia mais que 12,4 milhas de direção. Passamos bem longe disso, e com todos os sistemas de mobilidade funcionando", disse Steven Lee, gerente de projeto dos rovers Curiosity e Perseverance no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA. Segundo ele, a expectativa é que o rover continue somando quilômetros "por muitos anos".
A NASA aprovou em outubro de 2026 a primeira extensão da missão, que deve levar a exploração da borda da cratera até por volta do fim de 2028.

O recorde é consequência, não objetivo
Vale dizer com todas as letras: ninguém manda um rover para Marte para bater recorde de quilometragem. Andar mais longe é um meio, não um fim. Quanto mais o rover anda, mais tipos diferentes de rocha ele alcança, e mais pedaços da história do planeta dá para ler.
Foi essa autonomia que levou o Perseverance de um antigo fundo de lago, subindo por um sistema de rios fossilizados, até a borda da cratera. No caminho, numa rocha apelidada de Cheyava Falls, ele encontrou o que pode ser uma possível biossinatura — um sinal químico que às vezes é deixado por vida. "Possível" é a palavra certa: isso ainda não está confirmado, e é exatamente o tipo de resposta que só vem com a pedra analisada em laboratório na Terra, como contamos em Por que é tão difícil trazer uma pedra de Marte?.
Até agora o rover coletou 29 amostras de rocha e de solo, guardadas em tubos selados. Na borda da cratera, ele vem explorando rochas criadas pelo impacto que abriu a Jezero, com cerca de 4 bilhões de anos — um capítulo da história planetária quase todo apagado aqui na Terra.
Depois do Lac de Charmes, o plano é seguir pela borda e descer para o sul, rumo a um bloco apelidado de Rainbow Falls: 100 metros de largura de crosta antiga, erguida pelo próprio impacto que criou a cratera.
Se você quer entender o que esses jipes já descobriram sobre a possibilidade de vida por lá, vale ler Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram. E se quer saber como um veículo de uma tonelada chega inteiro ao chão marciano, a história está em Como uma sonda pousa em Marte? Os 7 minutos de terror.




