Marte e vida fora da Terra

Qual rover já andou mais em Marte? O novo recorde

Em 11 de outubro de 2026 o Perseverance passou o Opportunity e virou o veículo que mais andou em outro mundo. Veja os números de cada rover.

Publicado em 7 min de leitura
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Tracas de roda do rover Perseverance em curva sobre o solo alaranjado de Marte, com parte do corpo do veiculo em primeiro plano
Foto: NASA/JPL-Caltech
Neste artigo
  1. O que aconteceu em 11 de outubro
  2. A lista completa, rover por rover
  3. O segredo não é velocidade: é dirigir sozinho
  4. Por que não dá para simplesmente mandar ele correr
  5. Um plano para 20 km que virou 45
  6. O recorde é consequência, não objetivo

O recorde acabou de mudar de dono: em 11 de outubro de 2026, o rover da NASA chegou a 45,22 km rodados em Marte e passou o Opportunity, que parou de rodar em 2018 com 45,16 km e segurava a marca desde então. São 60 metros de diferença, menos que a distância entre dois postes de rua — mas eles separam o primeiro e o segundo lugar na lista de veículos que mais andaram em outro mundo. O detalhe que impressiona não é a distância: é o tempo. O Opportunity levou quase 15 anos para percorrer esses quilômetros. O Perseverance levou cinco anos e meio.

Para ter ideia do tamanho real dessa conquista: 45 km é pouco mais que uma maratona, que tem 42,195 km. Uma pessoa andando num ritmo tranquilo de 5 km por hora faria isso em cerca de nove horas, parando para almoçar. O rover mais rápido que a humanidade já pôs em outro planeta levou cinco anos e meio.

O que aconteceu em 11 de outubro

Naquele dia, o Perseverance dirigiu 91,31 metros — menos que o comprimento de um campo de futebol. Foi o suficiente para o odômetro passar de 45,16 km e quebrar o recorde. A NASA anunciou no dia seguinte, 12 de outubro de 2026, no blog oficial da missão.

A marca caiu no sol 2.006 da missão. "Sol" é como se chama um dia marciano, que dura 24 horas e 37 minutos — quase igual ao nosso, mas não exatamente, como explicamos em Quanto tempo dura um dia em cada planeta do Sistema Solar.

O rover estava indo para uma região apelidada de "Idubi", atravessando uma área chamada "Lac de Charmes", na borda oeste da cratera Jezero. Segundo a NASA, são algumas das rochas mais antigas já exploradas no Sistema Solar: o equivalente delas na Terra foi apagado há muito tempo pela erosão e pelo movimento das placas tectônicas — coisa que Marte não tem.

A lista completa, rover por rover

Veículo Quando Distância Tempo em serviço
Perseverance (NASA) desde 2021 45,22 km 5 anos e meio, ainda rodando
Opportunity (NASA) 2004–2018 45,16 km 5.111 sols
Lunokhod 2 (União Soviética, na Lua) 1973 39 km alguns meses
Curiosity (NASA) desde 2012 38,07 km ainda rodando
Apollo 17 (astronautas, na Lua) 1972 35,7 km 3 dias
Spirit (NASA) 2004–2010 7,7 km até o inverno marciano
Sojourner (NASA) 1997 cerca de 100 m 83 sols

Os números do Perseverance e do Curiosity são de 11 de outubro de 2026 e continuam crescendo.

Repare numa coisa: a comparação não para em Marte. Antes de alcançar o Opportunity, o Perseverance já tinha passado as duas maiores distâncias percorridas na Lua — os 35,7 km que os astronautas Gene Cernan e Harrison Schmitt fizeram de jipe elétrico na Apollo 17, em 1972, e os 39 km do Lunokhod 2, rover que a União Soviética pousou lá em 1973. Hoje, nenhum veículo construído por seres humanos rodou mais longe fora da Terra, em lugar nenhum.

O rover Perseverance fotografado por ele mesmo ao lado de uma rocha clara e achatada, com marcas de roda no solo ao redor
Autorretrato do Perseverance junto à rocha apelidada de Cheyava Falls, onde ele encontrou o que pode ser um sinal de vida antiga. Repare nas marcas de roda: é assim que os 45 km foram somados, alguns metros por vez. Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS

O segredo não é velocidade: é dirigir sozinho

O Perseverance não é mais rápido que o Opportunity por ter motores melhores. Ele é mais rápido porque dirige sozinho.

O sistema se chama AutoNav — abreviação de "navegação autônoma". Funciona assim: enquanto rola, o rover fotografa o terreno à frente, monta na hora um mapa em três dimensões dos obstáculos e escolhe sozinho o caminho entre os pontos que os motoristas na Terra marcaram no mapa. A equipe da NASA chama isso de "pensar enquanto dirige".

A diferença que isso faz é enorme. Mais de 90% de toda a distância do Perseverance foi rodada no AutoNav. No Spirit e no Opportunity, que tinham a primeira versão do sistema, foram cerca de 5%. O resto era feito do jeito antigo: a equipe na Terra olhava as fotos, desenhava um trajeto curto e seguro, mandava o comando e esperava. No dia seguinte, tudo de novo.

A capacidade de enxergar também mudou de patamar. O Sojourner, o primeiro rover da NASA em Marte, avaliava o caminho à frente usando 20 pontos de medição. O Perseverance processa 600 mil a cada olhada — 30 mil vezes mais.

Por que não dá para simplesmente mandar ele correr

Mesmo dirigindo sozinho, o rover é lento para os nossos padrões. No melhor dia, ele faz 412 metros num único sol. Na média de toda a missão, os 45,22 km divididos pelos 2.006 sols dão cerca de 22 metros por dia marciano — menos que uma piscina olímpica, que tem 50 metros.

O motivo não é falta de potência. É que ninguém pode pilotar em tempo real: o sinal entre a Terra e Marte leva minutos para ir e minutos para voltar, dependendo de onde os dois planetas estão na órbita. Não existe controle remoto. Se o rover cair num buraco, a notícia chega quando já caiu.

E há um limite curioso, que a própria NASA aponta: o Sol atrapalha. Quando o Perseverance dirige na direção do Sol, o brilho nas câmeras de navegação confunde o sistema, e por isso a equipe costuma estacionar no meio da tarde nesses dias. Mark Maimone, vice-chefe da equipe de operações robóticas, disse que ensinar o rover a enxergar através desse reflexo é a próxima fronteira — e que, se der certo, "todo rover que vier depois ganha um dia de trabalho mais longo".

Um plano para 20 km que virou 45

Aqui está o detalhe mais saboroso da história. Quando a missão foi aprovada, o projeto original previa que o Perseverance rodasse no máximo 20 km (12,4 milhas) durante toda a vida útil. Ele já fez mais que o dobro.

"A missão original não pedia mais que 12,4 milhas de direção. Passamos bem longe disso, e com todos os sistemas de mobilidade funcionando", disse Steven Lee, gerente de projeto dos rovers Curiosity e Perseverance no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA. Segundo ele, a expectativa é que o rover continue somando quilômetros "por muitos anos".

A NASA aprovou em outubro de 2026 a primeira extensão da missão, que deve levar a exploração da borda da cratera até por volta do fim de 2028.

Braço robótico do rover Opportunity apoiado sobre uma rocha escura numa encosta marciana, em foto preto e branco
O Opportunity, dono do recorde até outubro de 2026. Projetado para durar 90 sols, ele trabalhou 5.111 e foi o primeiro veículo a completar uma maratona fora da Terra, em 2015. Foto: NASA/JPL-Caltech

O recorde é consequência, não objetivo

Vale dizer com todas as letras: ninguém manda um rover para Marte para bater recorde de quilometragem. Andar mais longe é um meio, não um fim. Quanto mais o rover anda, mais tipos diferentes de rocha ele alcança, e mais pedaços da história do planeta dá para ler.

Foi essa autonomia que levou o Perseverance de um antigo fundo de lago, subindo por um sistema de rios fossilizados, até a borda da cratera. No caminho, numa rocha apelidada de Cheyava Falls, ele encontrou o que pode ser uma possível biossinatura — um sinal químico que às vezes é deixado por vida. "Possível" é a palavra certa: isso ainda não está confirmado, e é exatamente o tipo de resposta que só vem com a pedra analisada em laboratório na Terra, como contamos em Por que é tão difícil trazer uma pedra de Marte?.

Até agora o rover coletou 29 amostras de rocha e de solo, guardadas em tubos selados. Na borda da cratera, ele vem explorando rochas criadas pelo impacto que abriu a Jezero, com cerca de 4 bilhões de anos — um capítulo da história planetária quase todo apagado aqui na Terra.

Depois do Lac de Charmes, o plano é seguir pela borda e descer para o sul, rumo a um bloco apelidado de Rainbow Falls: 100 metros de largura de crosta antiga, erguida pelo próprio impacto que criou a cratera.

Se você quer entender o que esses jipes já descobriram sobre a possibilidade de vida por lá, vale ler Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram. E se quer saber como um veículo de uma tonelada chega inteiro ao chão marciano, a história está em Como uma sonda pousa em Marte? Os 7 minutos de terror.

Perguntas frequentes

Quantos quilômetros o Perseverance já andou em Marte?

Em 11 de outubro de 2026, o odômetro do rover marcava 45,22 km, no sol 2.006 da missão. Foi nesse dia que ele passou o recorde anterior, de 45,16 km, do rover Opportunity. O número continua crescendo: o Perseverance segue em operação, com a missão estendida até por volta do fim de 2028.

Qual rover andou mais em Marte?

O Perseverance, desde 11 de outubro de 2026. Antes dele, o recorde era do Opportunity, que rodou 45,16 km entre 2004 e 2018. Em terceiro entre os marcianos vem o Curiosity, com 38,07 km e ainda trabalhando na cratera Gale.

O Perseverance é controlado em tempo real da Terra?

Não, e isso é impossível: o sinal de rádio leva minutos para ir e voltar entre os dois planetas. A equipe na Terra marca pontos de destino no mapa, e o rover escolhe sozinho o caminho entre eles com o sistema AutoNav, desviando de obstáculos que fotografa enquanto anda. Mais de 90% da distância dele foi percorrida assim.

Qual é a velocidade do Perseverance?

No melhor dia, ele percorreu 412 metros num único dia marciano. Na média de toda a missão, são cerca de 22 metros por sol. Ele não foi feito para correr: foi feito para parar, fotografar, furar rocha e guardar amostra pelo caminho.

E na Lua, qual veículo andou mais?

Na Lua, a maior distância continua sendo a do Lunokhod 2, rover soviético que percorreu 39 km em 1973, seguido pelos 35,7 km que os astronautas da Apollo 17 fizeram de jipe elétrico em 1972. Esses dois recordes lunares seguem de pé — o que o Perseverance fez foi rodar mais que eles, só que em Marte.

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