Marte e vida fora da Terra

Como uma sonda pousa em Marte? Os 7 minutos de terror

Entrar a 19.500 km/h e parar a 2,6 km/h em sete minutos, sozinho. Veja passo a passo como a NASA pousa um jipe-robô do tamanho de um carro.

Publicado em 7 min de leitura
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O paraquedas do Perseverance, laranja e branco, totalmente inflado dentro de um túnel de vento, com uma pessoa minúscula ao lado dando escala
Foto: NASA/JPL-Caltech/Ames
Neste artigo
  1. O paradoxo: Marte é o pior dos dois mundos
  2. Sete minutos, e a Terra fica sabendo depois
  3. Minuto a minuto, do topo da atmosfera ao chão
  4. O escudo térmico: 1.300 °C previstos, 1.000 °C medidos
  5. O maior paraquedas já mandado a Marte
  6. O guindaste voador: a ideia que parecia loucura
  7. As gerações anteriores: airbags e pernas

Pousar em Marte é entrar na atmosfera a 19.500 km/h e parar por completo sete minutos depois, tocando o chão a 2,6 km/h — metade da velocidade de uma pessoa caminhando. Tudo isso sem ninguém pilotando e sem ninguém assistindo: o sinal de rádio leva mais de dez minutos para chegar à Terra, então, quando o controle da missão recebe o aviso de que a nave entrou na atmosfera, ela já está no chão há vários minutos, viva ou destruída. É por isso que os engenheiros chamam esse trecho de os sete minutos de terror.

O paradoxo: Marte é o pior dos dois mundos

Para entender por que é tão difícil, compare com os dois casos que já conhecemos.

Pousar na Lua é trabalhoso, mas direto: não há atmosfera nenhuma, então o único jeito é frear com motor, do começo ao fim. Gasta muito combustível e ponto final.

Voltar para a Terra é quase de graça: a atmosfera é tão densa que ela sozinha freia a cápsula, e um paraquedas resolve os últimos quilômetros. O passo a passo está em Como os astronautas voltam para a Terra, passo a passo.

Marte é o pior dos dois. A atmosfera dele tem menos de 1% da densidade da nossa — fina demais para frear uma nave pesada com paraquedas, mas densa o bastante para incendiá-la na entrada. Ou seja: você paga o preço do calor sem receber o benefício da freada. A história de como esse ar ficou tão rarefeito está em Por que Marte perdeu a atmosfera (e a Terra não)?.

Resultado: é preciso usar as três coisas ao mesmo tempo — escudo térmico, paraquedas e motor de foguete. Nenhuma sozinha dá conta.

Sete minutos, e a Terra fica sabendo depois

O atraso do rádio é o detalhe que muda tudo. Na noite do pouso do Perseverance, em fevereiro de 2021, o sinal levava cerca de 11 minutos para atravessar a distância entre os dois planetas.

Faça a conta: a descida inteira dura sete minutos. Quando o aviso "entrei na atmosfera" chega à sala de controle, a nave já está no solo há quatro minutos. Não existe a possibilidade de corrigir nada, dar um comando ou abortar. Tudo o que a equipe pode fazer é olhar para a tela e receber, em sequência, notícias de coisas que já aconteceram.

A nave, portanto, pousa sozinha. A sequência inteira está programada, e o computador de bordo decide sozinho quando abrir o paraquedas, quando soltar o escudo e onde encostar.

Minuto a minuto, do topo da atmosfera ao chão

Os números abaixo são os do pouso do Perseverance, publicados pela NASA.

Momento Altura Velocidade O que acontece
Entrada na atmosfera ~131 km 19.500 km/h Começa a contagem dos sete minutos
~80 s depois — — Pico de aquecimento do escudo térmico
~240 s depois ~11 km 1.512 km/h Abre o paraquedas de 21,5 m
Logo em seguida — — O escudo térmico se solta e cai
Descida motorizada ~2 km centenas de km/h A casca de trás sai com o paraquedas; os motores assumem
Guindaste voador 20 m quase zero O jipe-robô desce pendurado em cabos de 7,5 m
Toque no solo 0 2,6 km/h Os cabos são cortados e o estágio de descida voa para longe

Repare na primeira e na última linha: 19.500 km/h para 2,6 km/h em sete minutos. Para comparar, 19.500 km/h é o trajeto São Paulo–Rio de Janeiro em oitenta segundos.

O escudo térmico: 1.300 °C previstos, 1.000 °C medidos

O escudo é um prato côncavo de 4,5 metros de diâmetro — quase a largura de um ônibus — coberto por um material chamado PICA — um carbono poroso impregnado de resina, inventado no centro de pesquisas Ames da NASA. Ele não resiste ao calor: ele se sacrifica, queimando e evaporando de fora para dentro, e cada pedacinho que vira gás leva embora uma porção do calor. É o mesmo princípio de um suor que evapora, levando calor da pele junto.

A NASA publica dois números para a temperatura, e eles não se contradizem:

  • Cerca de 1.300 °C é o que a superfície externa do escudo atinge no pico de aquecimento, cerca de 80 segundos depois da entrada.
  • Cerca de 1.000 °C foi a maior temperatura medida por sensores dentro do isolamento do escudo durante o pouso de fevereiro de 2021.

Um é a previsão do lado de fora, o outro é a medição alguns centímetros para dentro. A diferença entre os dois é, literalmente, o trabalho do escudo.

Um detalhe que surpreende: esse calor não vem do atrito com o ar, como quase todo mundo imagina. Vem da compressão — a nave empurra o ar à frente dela tão rápido que o gás não tem para onde escapar, e gás comprimido esquenta. A explicação completa está no artigo sobre a volta dos astronautas, linkado acima.

Uma pessoa de macacão branco ao lado da casca cônica branca da nave Mars 2020, com o escudo térmico dourado à esquerda, numa sala de montagem
As duas peças da carcaça do Perseverance antes do lançamento: o escudo térmico dourado à esquerda e a casca de trás branca à direita. Cada uma tem 4,5 metros de diâmetro, e a pessoa ao lado dá a escala. Foto: NASA/JPL-Caltech/Lockheed Martin Space

O maior paraquedas já mandado a Marte

O paraquedas do Perseverance tem 21,5 metros de diâmetro — a altura de um prédio de sete andares — e é o maior já enviado a Marte. Antes de abrir, ele é um cilindro de nylon, Technora e Kevlar de menos de 70 cm de altura, comprimido com força de prensa.

Ele abre a 1.512 km/h, numa altura de cerca de 11 km. Abrir um pano desse tamanho nessa velocidade é um dos momentos mais violentos da descida: o pano precisa inflar em frações de segundo sem se rasgar e sem torcer.

E mesmo assim ele não é suficiente. No ar rarefeito de Marte, o paraquedas consegue frear a nave até algumas centenas de km/h e não mais. Se o Perseverance dependesse só dele, bateria no chão a uma velocidade destrutiva. Por isso, nos últimos quilômetros, o paraquedas e a casca de trás são descartados e motores de foguete assumem, virando a nave para baixo e reduzindo a velocidade quase a zero. O princípio desses motores é o mesmo de qualquer foguete, explicado em Como funciona um foguete? A explicação simples.

O guindaste voador: a ideia que parecia loucura

Chegando aos últimos 20 metros, aparece a invenção mais estranha e mais bem-sucedida da engenharia marciana recente.

O problema é o seguinte: se o estágio motorizado pousar no chão com o jipe-robô em cima, os motores levantam uma nuvem de poeira e pedras que danifica os instrumentos, e o conjunto precisa depois descer o veículo de cima de uma plataforma alta. Foi por isso que a NASA inventou o guindaste voador.

O estágio de descida para de descer e fica pairando a cerca de 20 metros de altura, como um helicóptero. De dentro dele, o jipe-robô é baixado em cabos de 7,5 metros até encostar as rodas no chão, a 2,6 km/h. Assim que os sensores confirmam o contato, lâminas pirotécnicas cortam os cabos e o estágio de descida, já livre do peso, acelera e voa para longe, caindo a centenas de metros dali.

A manobra inteira dura cerca de doze segundos. É uma coreografia que parece invenção de roteirista, e funcionou duas vezes em duas tentativas: Curiosity em 2012 e Perseverance em 2021. Tanto que ela é uma das duas opções que a NASA estuda para o próximo pouso em Marte — o da missão que vai buscar as amostras, assunto de Por que é tão difícil trazer uma pedra de Marte?.

O paraquedas e a casca de trás do Perseverance caídos no chão alaranjado de Marte, vistos de cima por uma sonda em órbita
O paraquedas do Perseverance depois de cumprir o trabalho, fotografado do espaço pela sonda que orbita Marte. As peças descartadas continuam onde caíram. Foto: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

As gerações anteriores: airbags e pernas

Nem sempre foi assim. Os jipes-robôs menores dos anos 1990 e 2000 usavam uma solução que parece brincadeira e deu certo: airbags.

A nave era envolvida por balões gigantes e simplesmente solta a 20 metros do chão. Segundo a NASA, o conjunto chegou a quicar até 15 metros de altura e a bater no solo mais de 16 vezes antes de parar, cerca de dois minutos e meio depois. Depois disso os balões esvaziavam e a nave se abria como uma flor.

Funcionou bem para veículos leves. Não funciona para um jipe-robô de quase uma tonelada — e daí veio a necessidade do guindaste voador.

Geração Método Quem usou
Anos 1970 Pernas e retrofoguetes Viking 1 e 2
Anos 1990 e 2000 Airbags que quicam Pathfinder, Spirit, Opportunity
Desde 2012 Guindaste voador Curiosity, Perseverance

Cada geração nasceu do peso do que precisava descer. Quanto mais pesado o robô, mais engenhosa tem de ser a chegada — e o que esses robôs foram fazer lá está em Tem vida em Marte? O que os rovers já encontraram. Quanto tempo leva a viagem antes de tudo isso começar está em Quanto tempo leva para chegar a Marte.

Perguntas frequentes

O que são os sete minutos de terror?

É o apelido que os engenheiros deram à fase de entrada, descida e pouso em Marte. Ela dura cerca de sete minutos, do topo da atmosfera até o solo, e acontece inteiramente sem controle da Terra, porque o sinal de rádio demora mais do que isso para fazer o trajeto. A equipe só descobre se deu certo depois que já deu.

Por que uma sonda não pode simplesmente usar paraquedas em Marte?

Porque a atmosfera marciana tem menos de 1% da densidade da nossa. Um paraquedas ali freia bem menos do que freia na Terra: mesmo o maior já enviado, de 21,5 m, só consegue reduzir a velocidade a algumas centenas de km/h. Os últimos quilômetros precisam de motor de foguete.

A que velocidade o Perseverance tocou o solo de Marte?

A 2,6 km/h, ou 1,61 milha por hora — cerca da metade da velocidade de uma pessoa caminhando. Ele desceu pendurado em cabos de 7,5 m a partir de um estágio motorizado que pairava a 20 metros de altura.

O que é o guindaste voador usado em Marte?

É o estágio de descida que fica pairando a cerca de 20 metros do chão e baixa o jipe-robô em cabos até as rodas tocarem o solo. Depois, lâminas cortam os cabos e ele voa para longe para cair em outro lugar. Serve para evitar que os motores levantem poeira e pedras em cima dos instrumentos.

Por que tantas missões a Marte falharam no pouso?

Porque a descida junta três dificuldades ao mesmo tempo: calor de entrada, ar rarefeito demais para frear e ausência total de controle humano em tempo real. Tudo depende de uma sequência automática que precisa funcionar de primeira, sem teste possível nas condições reais.

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