A NASA publica a lista de exigências para quem quer ser voluntário numa simulação de Marte, e ela é mais dura do que quase todo mundo imagina: mestrado numa área técnica, idade entre 30 e 55 anos, dois anos de experiência, aprovação no exame físico de astronauta de longa duração e, entre os critérios que eliminam na hora, qualquer alergia ou restrição alimentar. Tem pagamento, mas a NASA não diz quanto. E há um requisito que, para o leitor brasileiro, decide tudo logo na primeira linha. Este texto percorre a lista inteira e explica o porquê de cada item.
Do que se está falando aqui
A simulação se chama CHAPEA e é uma série de missões em que quatro pessoas vivem cerca de um ano num prédio fechado de 158 metros quadrados, dentro do Centro Espacial Johnson, em Houston, imitando a rotina de quem estivesse na superfície de Marte.
A segunda tripulação entrou em 19 de outubro de 2025 e sai em 31 de outubro de 2026. O que eles fizeram lá dentro, e por que a NASA gasta dinheiro nisso, está contado em Quatro pessoas passaram um ano fingindo estar em Marte.
Quem entra não é astronauta: são voluntários de pesquisa. O que eles entregam é dado sobre o corpo e a cabeça de alguém submetido a um ano de confinamento.
Mas — e é aqui que a história fica interessante — a NASA diz, na própria página de inscrição, que a seleção segue os mesmos critérios de inclusão e exclusão usados para candidatos a astronauta. Não é um "procura-se voluntário". É uma peneira de astronauta aplicada a quem não vai sair do chão.
Os requisitos, um por um
| Exigência | O que a NASA pede |
|---|---|
| Cidadania | cidadão ou residente permanente dos Estados Unidos |
| Idade | entre 30 e 55 anos |
| Formação | mestrado em área de ciência, tecnologia, engenharia ou matemática |
| Alternativas à formação | 2 anos de doutorado cursados, diploma de medicina ou escola de piloto de teste |
| Experiência | 2 anos na área, ou 1.000 horas como comandante de jato |
| Saúde | aprovação no exame físico de astronauta de longa duração |
A NASA acrescenta que quem tem apenas graduação, somada a outras qualificações, pode ser considerado. É uma porta estreita, não uma porta fechada.
Repare na faixa etária. O piso de 30 anos não é arbitrário: ele existe porque os outros requisitos — mestrado mais dois anos de experiência — dificilmente cabem numa vida antes disso. E o teto de 55 vem do exame médico.
O exame que elimina quase todo mundo
O item mais duro da lista não é o diploma: é a saúde. E a parte que mais surpreende tem a ver com comida.
A NASA exclui candidatos com qualquer alergia alimentar, qualquer restrição alimentar ou qualquer distúrbio gastrointestinal. Não há graduação: não é "alergia grave", é alergia.
O motivo é metodológico. Num ano de confinamento, a comida é uma das poucas variáveis que a NASA consegue controlar com precisão, e parte do que se mede ali é justamente como o corpo reage a um cardápio fechado. Uma pessoa que não pode comer um dos itens do cardápio estraga a comparação entre os quatro tripulantes. Pela mesma razão, suplementos alimentares não são permitidos durante a missão.
Há também uma lista de medicamentos que desclassificam, e ela é longa: remédio para pressão alta, anticoagulante, anticonvulsivante, antialérgico de uso diário, insulina diária, indutor de sono, medicação para TDAH, antidepressivo e remédio para ansiedade.
E um critério que parece miudeza e não é: quem passa mal com óculos de realidade virtual está fora. Parte dos testes usa esse equipamento, e um voluntário que enjoa não consegue completá-los.

Treze meses de processo para 16 dias de prova
A NASA também publica a duração do funil, e os dois números dizem muito sobre o que ela está comprando.
O processo pode levar até 13 meses do início ao fim. Mas o tempo em que o candidato é efetivamente requisitado soma, no máximo, 16 dias.
Ou seja: é mais longo que a maioria dos concursos públicos federais no Brasil e tem menos dias de prova que um vestibular. O que consome o calendário não é o esforço do candidato — é a fila e a análise.
Os finalistas passam por avaliação médica, testes psicológicos e triagem psiquiátrica. A NASA avisa, com todas as letras, que nem todos avançam em todas as fases e que participar do processo não garante seleção.
E há um detalhe de procedimento que vale conhecer: as inscrições são avaliadas na ordem em que chegam, até as vagas acabarem. Não é um concurso com data de encerramento e classificação geral. É uma fila.
Quanto se ganha
A NASA diz apenas que há remuneração para os candidatos selecionados. Ela não publica o valor.
Vale deixar isso claro, porque esse é o ponto em que a internet costuma inventar número. Circulam cifras atribuídas a estudos antigos de outras linhas de pesquisa, com outros desenhos e outras durações — nada disso vale para esta missão, e nada disso veio da NASA.
Se o valor não está publicado, o honesto é dizer que ele não está publicado.

O requisito que decide tudo para um brasileiro
Está na primeira linha da lista e não tem contorno: é preciso ser cidadão ou residente permanente dos Estados Unidos.
Um brasileiro que more no Brasil, portanto, não pode se inscrever nesta seleção. Não é uma questão de mérito, diploma ou preparo físico: é um critério de elegibilidade, e nenhum outro item da lista compensa.
Vale dizer também que as inscrições para a segunda missão já estão encerradas. Mesmo quem preenche todos os requisitos não tem, hoje, uma vaga aberta para a qual se candidatar.
O que um brasileiro pode fazer
A notícia ruim acima não fecha o assunto, porque o caminho para o espaço não passa só por Houston.
Para quem quer chegar ao voo propriamente dito, os caminhos reais — cidadania europeia e a agência europeia, cidadania americana, acordos entre governos, voo privado — estão destrinchados em Como se tornar astronauta sendo brasileiro, e a parte sobre salário e seleção está em Quanto ganha um astronauta da NASA (e como é a seleção).
Para quem quer trabalhar com espaço sem sair do país, a lista de profissões que já existem no Brasil está em 7 carreiras espaciais para seguir sem sair do Brasil.
E há um ponto que a lista da CHAPEA ensina mesmo a quem nunca vai se inscrever nela: o que a NASA procura num voluntário de confinamento é formação técnica, estabilidade e um corpo sem variáveis. Os dois primeiros itens dependem de escolhas que qualquer um pode começar a fazer hoje.




