O pedido de orçamento da NASA para o ano fiscal de 2027 é de US$ 18,8 bilhões, e a maior fatia dele, US$ 8,5 bilhões, vai para um único objetivo: levar gente de volta à Lua e preparar o caminho para Marte. A segunda maior fatia é a ciência, com US$ 3,9 bilhões, e ela está pedindo quase metade do que recebeu neste ano.
Esses números vêm do documento oficial do pedido de orçamento da agência, e há uma ressalva que precisa vir junto com eles, logo no começo: isto é um pedido, não uma verba aprovada. Nos Estados Unidos quem decide quanto a NASA recebe é o Congresso, e o valor final costuma ser diferente do pedido.
O número do topo, e a queda que ele esconde
Primeiro, a trajetória recente, em bilhões de dólares, como o próprio documento publica:
| Ano fiscal | Valor |
|---|---|
| 2025 (aprovado) | US$ 24,8 bilhões |
| 2026 (aprovado) | US$ 24,4 bilhões |
| 2027 (pedido) | US$ 18,8 bilhões |
| 2028 a 2031 (projetado) | US$ 18,8 bilhões em cada ano |
A conta é dura de olhar: de US$ 24,4 bilhões aprovados para 2026 a US$ 18,8 bilhões pedidos para 2027 há uma queda de cerca de 23%. E o documento projeta esse mesmo valor, sem reajuste, até 2031.
Uma observação que é obrigatória para não enganar o leitor: esses US$ 18,8 bilhões não são tudo o que a NASA vai gastar em 2027. Uma lei americana de 2025 destinou à agência um bolo separado de US$ 9,995 bilhões, disponível até setembro de 2032, do qual a NASA planeja usar US$ 2,110 bilhões em 2027. Esse dinheiro entra por fora da tabela acima. Ignorar isso faria a queda parecer maior do que é.
A divisão por diretoria
A NASA organiza o orçamento por grandes áreas. Esta é a tabela que responde de verdade à pergunta do título, com os valores em milhões de dólares:
| Área | Aprovado 2026 | Pedido 2027 | Fatia do total de 2027 |
|---|---|---|---|
| Exploração (Lua e Marte) | 7.783,0 | 8.513,9 | 45% |
| Ciência | 7.250,0 | 3.893,9 | 21% |
| Operações Espaciais | 4.175,0 | 3.047,2 | 16% |
| Segurança e serviços de missão | 3.000,0 | 1.998,6 | 11% |
| Tecnologia Espacial | 920,5 | 624,3 | 3% |
| Aeronáutica | 935,0 | 609,5 | 3% |
| Obras e meio ambiente | 185,3 | 100,6 | 1% |
| Educação (STEM) | 143,0 | — | 0% |
| Auditoria interna | 46,5 | 41,1 | 0,2% |
| Total | 24.438,3 | 18.829,1 | 100% |
Duas linhas dessa tabela contam a história inteira.
Exploração sobe, e é a única grande área que sobe: de 7,78 para 8,51 bilhões, um aumento de cerca de 9%. Ela passa a valer quase metade de toda a agência.
Ciência cai pela metade: de 7,25 para 3,89 bilhões, uma redução de cerca de 46%. Até 2026 a ciência e a exploração andavam quase empatadas; no pedido de 2027 a exploração vale mais que o dobro da ciência.
E há uma linha que simplesmente desaparece: o programa de educação e engajamento em ciências, que tinha US$ 143 milhões em 2026, não aparece com verba própria no pedido de 2027.
O que está dentro da fatia da ciência
Os US$ 3,9 bilhões da ciência se repartem assim, em milhões de dólares:
| Subárea | Pedido 2027 |
|---|---|
| Ciência Planetária | 1.875,7 |
| Ciências da Terra | 1.021,2 |
| Astrofísica | 552,4 |
| Heliofísica (estudo do Sol) | 419,6 |
| Ciências Biológicas e Físicas | 25,0 |
A ciência planetária — sondas, rovers de Marte, missões a asteroides e luas — fica com quase metade do bolo científico. A astrofísica, que paga telescópios como o Hubble e o James Webb, fica com US$ 552,4 milhões. E as ciências biológicas e físicas, que estudam o comportamento de organismos e materiais em gravidade zero, ficam com US$ 25 milhões: é a menor linha de toda a tabela.

O que a agência diz que vai fazer com os US$ 8,5 bilhões da exploração
O documento é específico. Os US$ 8,5 bilhões sustentam o programa Artemis e o que a agência chama de capacidades voltadas a Marte, com a meta declarada de levar astronautas americanos de volta à Lua e estabelecer ali uma base permanente.
Em cima disso, o dinheiro da lei de 2025 acrescenta US$ 1,8 bilhão para permitir até dois voos adicionais além da Artemis III usando o foguete SLS, e para o programa Gateway — a estação lunar, que a agência diz que vai redirecionar para apoiar o desenvolvimento da base lunar. O calendário e os percalços desse programa estão em Artemis III: quando vamos pisar na Lua de novo.
Os US$ 3,0 bilhões de Operações Espaciais vão para o que o documento chama de economia orbital comercial — manter a presença humana em órbita baixa, incluindo a Estação Espacial e a transição para estações operadas por empresas. A lei de 2025 acrescenta aí US$ 250 milhões para manter a operação segura da Estação e aproveitar ao máximo as pesquisas a bordo enquanto ela existir. O fim programado dela é o assunto de A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030.
Por que esse documento é importante mesmo sendo só um pedido
Porque ele é a lista de prioridades da agência escrita em números, e é dela que saem as decisões que aparecem como notícia meses depois.
Quando uma sonda antiga é desligada, quando uma missão é adiada ou quando um telescópio deixa de ser mencionado, a origem está quase sempre aqui. O custo anual de manter cada missão velha funcionando — e quem decide quando desligar — é o tema de Quanto custa manter uma sonda ligada no espaço?. E o processo pelo qual uma missão nova nasce ou morre está em Como a NASA escolhe qual missão vai existir.
Vale também traduzir esses bilhões para a unidade que o leitor conhece melhor: o preço de um lançamento. Quanto custa pôr um foguete no ar, e por que esse valor varia tanto de um modelo para outro, é o tema de Quanto custa lançar um foguete — e é lendo as duas coisas juntas que fica claro por que uma linha de alguns bilhões de dólares não compra tantos voos quanto parece.
O que fica de fora da conta
Duas honestidades finais, para o leitor não sair daqui com certeza demais.
A primeira já foi dita e merece repetição, porque é o erro mais comum ao ler notícia sobre orçamento da NASA: pedido não é verba. O Congresso americano pode aprovar mais, menos ou redistribuir entre as áreas. Houve anos em que a ciência recebeu bem mais do que o pedido inicial.
A segunda: o ano fiscal americano não é o ano civil. Ele começa em 1º de outubro. O "ano fiscal de 2027" vai de outubro de 2026 a setembro de 2027 — ou seja, já começou.
E uma ressalva que esta página não vai fingir que resolve: não convertemos esses valores para reais. A cotação muda todo dia, e publicar um número em reais sem dizer de que dia ele é seria pior que não publicar.




