Dinheiro e carreira

Para onde vai o dinheiro da NASA, linha por linha

O pedido de orçamento de 2027 é de US$ 18,8 bilhões. Quase metade vai para a Lua e Marte, e a parte científica cai pela metade. Os números oficiais.

Publicado em 6 min de leitura
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A cápsula Orion branca com o logotipo da NASA no topo do foguete do programa Artemis, vista de baixo contra o céu azul, ao lado da torre de lançamento
Foto: NASA/Brandon Hancock
Neste artigo
  1. O número do topo, e a queda que ele esconde
  2. A divisão por diretoria
  3. O que está dentro da fatia da ciência
  4. O que a agência diz que vai fazer com os US$ 8,5 bilhões da exploração
  5. Por que esse documento é importante mesmo sendo só um pedido
  6. O que fica de fora da conta

O pedido de orçamento da NASA para o ano fiscal de 2027 é de US$ 18,8 bilhões, e a maior fatia dele, US$ 8,5 bilhões, vai para um único objetivo: levar gente de volta à Lua e preparar o caminho para Marte. A segunda maior fatia é a ciência, com US$ 3,9 bilhões, e ela está pedindo quase metade do que recebeu neste ano.

Esses números vêm do documento oficial do pedido de orçamento da agência, e há uma ressalva que precisa vir junto com eles, logo no começo: isto é um pedido, não uma verba aprovada. Nos Estados Unidos quem decide quanto a NASA recebe é o Congresso, e o valor final costuma ser diferente do pedido.

O número do topo, e a queda que ele esconde

Primeiro, a trajetória recente, em bilhões de dólares, como o próprio documento publica:

Ano fiscal Valor
2025 (aprovado) US$ 24,8 bilhões
2026 (aprovado) US$ 24,4 bilhões
2027 (pedido) US$ 18,8 bilhões
2028 a 2031 (projetado) US$ 18,8 bilhões em cada ano

A conta é dura de olhar: de US$ 24,4 bilhões aprovados para 2026 a US$ 18,8 bilhões pedidos para 2027 há uma queda de cerca de 23%. E o documento projeta esse mesmo valor, sem reajuste, até 2031.

Uma observação que é obrigatória para não enganar o leitor: esses US$ 18,8 bilhões não são tudo o que a NASA vai gastar em 2027. Uma lei americana de 2025 destinou à agência um bolo separado de US$ 9,995 bilhões, disponível até setembro de 2032, do qual a NASA planeja usar US$ 2,110 bilhões em 2027. Esse dinheiro entra por fora da tabela acima. Ignorar isso faria a queda parecer maior do que é.

A divisão por diretoria

A NASA organiza o orçamento por grandes áreas. Esta é a tabela que responde de verdade à pergunta do título, com os valores em milhões de dólares:

Área Aprovado 2026 Pedido 2027 Fatia do total de 2027
Exploração (Lua e Marte) 7.783,0 8.513,9 45%
Ciência 7.250,0 3.893,9 21%
Operações Espaciais 4.175,0 3.047,2 16%
Segurança e serviços de missão 3.000,0 1.998,6 11%
Tecnologia Espacial 920,5 624,3 3%
Aeronáutica 935,0 609,5 3%
Obras e meio ambiente 185,3 100,6 1%
Educação (STEM) 143,0 — 0%
Auditoria interna 46,5 41,1 0,2%
Total 24.438,3 18.829,1 100%

Duas linhas dessa tabela contam a história inteira.

Exploração sobe, e é a única grande área que sobe: de 7,78 para 8,51 bilhões, um aumento de cerca de 9%. Ela passa a valer quase metade de toda a agência.

Ciência cai pela metade: de 7,25 para 3,89 bilhões, uma redução de cerca de 46%. Até 2026 a ciência e a exploração andavam quase empatadas; no pedido de 2027 a exploração vale mais que o dobro da ciência.

E há uma linha que simplesmente desaparece: o programa de educação e engajamento em ciências, que tinha US$ 143 milhões em 2026, não aparece com verba própria no pedido de 2027.

O que está dentro da fatia da ciência

Os US$ 3,9 bilhões da ciência se repartem assim, em milhões de dólares:

Subárea Pedido 2027
Ciência Planetária 1.875,7
Ciências da Terra 1.021,2
Astrofísica 552,4
Heliofísica (estudo do Sol) 419,6
Ciências Biológicas e Físicas 25,0

A ciência planetária — sondas, rovers de Marte, missões a asteroides e luas — fica com quase metade do bolo científico. A astrofísica, que paga telescópios como o Hubble e o James Webb, fica com US$ 552,4 milhões. E as ciências biológicas e físicas, que estudam o comportamento de organismos e materiais em gravidade zero, ficam com US$ 25 milhões: é a menor linha de toda a tabela.

Doze segmentos hexagonais do espelho principal do telescópio James Webb, escuros e lado a lado, sendo montados numa sala limpa
Segmentos do espelho principal do James Webb sendo instalados no Centro Goddard da NASA, em janeiro de 2016. Telescópios como ele são pagos pela linha de astrofísica, que no pedido de 2027 fica com US$ 552,4 milhões — 3% do orçamento total da agência. Foto: NASA/Chris Gunn

O que a agência diz que vai fazer com os US$ 8,5 bilhões da exploração

O documento é específico. Os US$ 8,5 bilhões sustentam o programa Artemis e o que a agência chama de capacidades voltadas a Marte, com a meta declarada de levar astronautas americanos de volta à Lua e estabelecer ali uma base permanente.

Em cima disso, o dinheiro da lei de 2025 acrescenta US$ 1,8 bilhão para permitir até dois voos adicionais além da Artemis III usando o foguete SLS, e para o programa Gateway — a estação lunar, que a agência diz que vai redirecionar para apoiar o desenvolvimento da base lunar. O calendário e os percalços desse programa estão em Artemis III: quando vamos pisar na Lua de novo.

Os US$ 3,0 bilhões de Operações Espaciais vão para o que o documento chama de economia orbital comercial — manter a presença humana em órbita baixa, incluindo a Estação Espacial e a transição para estações operadas por empresas. A lei de 2025 acrescenta aí US$ 250 milhões para manter a operação segura da Estação e aproveitar ao máximo as pesquisas a bordo enquanto ela existir. O fim programado dela é o assunto de A Estação Espacial vai cair? O fim da ISS em 2030.

Por que esse documento é importante mesmo sendo só um pedido

Porque ele é a lista de prioridades da agência escrita em números, e é dela que saem as decisões que aparecem como notícia meses depois.

Quando uma sonda antiga é desligada, quando uma missão é adiada ou quando um telescópio deixa de ser mencionado, a origem está quase sempre aqui. O custo anual de manter cada missão velha funcionando — e quem decide quando desligar — é o tema de Quanto custa manter uma sonda ligada no espaço?. E o processo pelo qual uma missão nova nasce ou morre está em Como a NASA escolhe qual missão vai existir.

Vale também traduzir esses bilhões para a unidade que o leitor conhece melhor: o preço de um lançamento. Quanto custa pôr um foguete no ar, e por que esse valor varia tanto de um modelo para outro, é o tema de Quanto custa lançar um foguete — e é lendo as duas coisas juntas que fica claro por que uma linha de alguns bilhões de dólares não compra tantos voos quanto parece.

O que fica de fora da conta

Duas honestidades finais, para o leitor não sair daqui com certeza demais.

A primeira já foi dita e merece repetição, porque é o erro mais comum ao ler notícia sobre orçamento da NASA: pedido não é verba. O Congresso americano pode aprovar mais, menos ou redistribuir entre as áreas. Houve anos em que a ciência recebeu bem mais do que o pedido inicial.

A segunda: o ano fiscal americano não é o ano civil. Ele começa em 1º de outubro. O "ano fiscal de 2027" vai de outubro de 2026 a setembro de 2027 — ou seja, já começou.

E uma ressalva que esta página não vai fingir que resolve: não convertemos esses valores para reais. A cotação muda todo dia, e publicar um número em reais sem dizer de que dia ele é seria pior que não publicar.

Perguntas frequentes

Qual é o orçamento da NASA em 2027?

O pedido do governo americano é de US$ 18,8 bilhões para o ano fiscal de 2027, contra US$ 24,4 bilhões aprovados para 2026. Além disso, a agência planeja usar em 2027 mais US$ 2,110 bilhões vindos de uma destinação separada criada por lei em 2025. O valor final depende do Congresso.

Para onde vai a maior parte do dinheiro da NASA?

Para a exploração humana: US$ 8,5 bilhões no pedido de 2027, cerca de 45% do total, destinados ao programa Artemis e a capacidades voltadas a Marte. Em segundo lugar vem a ciência, com US$ 3,9 bilhões, e em terceiro as operações espaciais, com US$ 3,0 bilhões.

Quanto a NASA gasta em ciência?

O pedido de 2027 reserva US$ 3.893,9 milhões para a diretoria de ciência, divididos entre ciência planetária (1.875,7), ciências da Terra (1.021,2), astrofísica (552,4), heliofísica (419,6) e ciências biológicas e físicas (25,0). É cerca de 46% menos do que os US$ 7.250,0 milhões aprovados para 2026.

O orçamento pedido já é o valor que a NASA vai receber?

Não. É uma proposta do Poder Executivo americano. Quem aprova a verba final é o Congresso, e o valor costuma sair diferente do pedido, para mais ou para menos, e redistribuído entre as áreas.

O ano fiscal de 2027 é o ano de 2027?

Não exatamente. O ano fiscal do governo americano começa em 1º de outubro. O ano fiscal de 2027 vai de outubro de 2026 a setembro de 2027, então ele já está em andamento enquanto esta página é publicada.

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