Missões do momento

Telescópio Roman: o que é e o que ele vai fazer

A NASA lançou em 30 de agosto de 2026 o telescópio Roman. Ele tem o mesmo espelho do Hubble e enxerga cem vezes mais céu de uma vez. Entenda para quê.

Publicado em 9 min de leitura
Compartilhar:
Um foguete Falcon Heavy subindo entre nuvens douradas ao amanhecer, com três rastros de fogo saindo dos motores, levando o telescópio Roman
Foto: NASA/John Kraus
Neste artigo
  1. Quem foi Nancy Grace Roman
  2. O lançamento, minuto a minuto
  3. Onde ele está indo, e por que tão longe
  4. O espelho do Hubble e cem vezes mais céu
  5. O que ele vai procurar: a energia escura
  6. O que ele vai procurar: planetas invisíveis
  7. Roman, Hubble e Webb: quem faz o quê
  8. O que esperar, e quando

O telescópio Roman é o novo observatório espacial da NASA, lançado em 30 de agosto de 2026, e a ideia dele cabe numa frase: ele tem um espelho do mesmo tamanho do Hubble, mas fotografa cem vezes mais céu de uma vez só. Não é um Hubble melhor nem um Webb menor — é uma máquina feita para um trabalho diferente, que é varrer áreas enormes do céu em busca de duas coisas que ninguém consegue achar uma por uma: a energia escura que está esticando o universo e os planetas de outras estrelas que são invisíveis pelos métodos de hoje.

Neste momento ele está a caminho do ponto onde vai trabalhar, a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, e ainda não mandou nenhuma foto bonita. Vamos explicar por quê, e o que esperar dele.

Quem foi Nancy Grace Roman

O nome não é enfeite. Nancy Grace Roman (1925–2018) foi a primeira astrônoma-chefe da NASA, contratada em 1959, seis meses depois de a agência existir. O trabalho dela não era olhar pelo telescópio: era convencer gente a construir telescópios.

Foi ela que, em meados dos anos 1960, montou o comitê que imaginou um grande telescópio em órbita e passou anos convencendo a NASA e o Congresso americano de que aquilo valia o dinheiro. O telescópio que nasceu daí é o Hubble, e o cientista-chefe dele chamou Roman de "a mãe do telescópio espacial Hubble". Ela mesma resumiu a escolha que fez: aceitar o cargo significava nunca mais fazer pesquisa própria, mas a chance de montar do zero um programa que influenciaria a astronomia por décadas era grande demais para recusar.

Se você quiser saber o que a criatura dela fez em 35 anos, está em Telescópio Hubble: o que é e o que ele já descobriu.

O lançamento, minuto a minuto

O Roman decolou num foguete Falcon Heavy, da SpaceX, da plataforma 39A do Centro Espacial Kennedy, na Flórida — a mesma de onde saíram as missões Apollo. Segundo a NASA, o observatório se separou do segundo estágio do foguete às 7h58 da manhã no horário da Flórida, ou seja, 8h58 de Brasília, cerca de meia hora depois da decolagem. A partir daí ele estava sozinho.

Quando (2026) O que aconteceu
30 de agosto Lançamento e separação do foguete
31 de agosto Queima de correção de rota, de cerca de 3 minutos
1º de setembro Antena e para-sol abertos
1º de setembro Coronógrafo ligado
14 de setembro NASA anuncia economia de combustível que deve mais que dobrar a vida útil possível da missão
15 de setembro Câmera principal, de 300 megapixels, ligada

Essa tabela é o que existe de concreto até agora. Nada nela é uma foto do universo: são etapas de comissionamento, o período em que se liga cada peça, mede-se a temperatura de cada uma e confere-se se tudo sobreviveu ao chacoalhão do lançamento. A NASA avisa que o coronógrafo ainda vai passar por meses de calibração antes de começar a ciência de verdade.

Um telescópio espacial envolto em manta prateada dentro de uma sala limpa, com oito pessoas de macacão azul enfileiradas na frente dele, do tamanho de um terço da altura do aparelho
A equipe do Roman diante do observatório montado, em julho de 2026, pouco antes do embarque para a Flórida. As pessoas dão a escala: o conjunto tem mais de 4 metros de altura. Foto: NASA/Jolearra Tshiteya

Onde ele está indo, e por que tão longe

O destino é o ponto L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra, no lado oposto ao Sol. É quatro vezes a distância da Terra à Lua. Ali, a Terra fica sempre entre o telescópio e o Sol, e um para-sol em forma de viseira faz o resto: os instrumentos ficam no escuro e no frio, que é o que um telescópio de infravermelho precisa.

É o mesmo endereço do James Webb — e é por isso que nenhum dos dois pode ser consertado. O Hubble está a 540 km de altura e recebeu cinco visitas de astronautas; a 1,5 milhão de km, não há como mandar ninguém. Tudo tem de funcionar de primeira.

O espelho do Hubble e cem vezes mais céu

Aqui está o truque que define a missão. O espelho principal do Roman tem 2,4 metros de diâmetro — exatamente o mesmo do Hubble. Mesma capacidade de enxergar detalhe fino, portanto. O que muda é o tamanho do quadro.

A câmera principal, chamada Wide Field Instrument, é um sensor de infravermelho de 300 megapixels, e o campo de visão dela é pelo menos cem vezes maior que o do instrumento equivalente do Hubble. Uma única foto do Roman carrega o mesmo detalhe de cem fotos do Hubble emendadas.

A analogia que funciona: imagine fotografar o Maracanã lotado com um celular. Com o Hubble, você tem uma lente teleobjetiva excelente e fotografa um rosto de cada vez, com nitidez perfeita — só que levaria anos para cobrir o estádio. Com o Roman, é a mesma nitidez em cada rosto, mas o quadro pega um setor inteiro de uma vez.

O efeito prático é de outra ordem de grandeza: segundo a NASA, o Roman varre o céu até mil vezes mais rápido que o Hubble com sensibilidade parecida, e nos primeiros cinco anos deve fotografar mais de 50 vezes mais céu do que o Hubble cobriu em trinta anos. O espelho, aliás, pesa só 186 quilos para 2,4 metros — menos que duas pessoas adultas.

O que ele vai procurar: a energia escura

A primeira missão do Roman é medir a energia escura, e vale explicar o termo. O universo está se expandindo, isso se sabe desde os anos 1920. O que se descobriu nos anos 1990 é que a expansão está acelerando, como se alguma coisa estivesse empurrando. Ninguém sabe o que é essa coisa; "energia escura" é o nome provisório dado ao empurrão, não uma explicação dele. Ela responde por cerca de dois terços de tudo o que existe.

Para medir um efeito desses você não precisa de uma galáxia bem fotografada. Precisa de milhões delas, espalhadas por bilhões de anos-luz, para ver como o ritmo da expansão mudou ao longo do tempo. É exatamente o tipo de trabalho que só um telescópio de campo largo faz: a NASA calcula que o Roman deve medir a luz de um bilhão de galáxias ao longo da vida útil. É a diferença entre fotografar uma pessoa e fazer um censo.

O parente disso na parte da matéria está contado em Matéria escura: o que é a parte invisível do universo, e o começo de toda a expansão, em O que é o Big Bang? A explicação simples, sem fórmula.

Um observatório espacial cinza e prateado suspenso por cabos dentro de uma enorme câmara de testes de paredes azuis, com três técnicos minúsculos no chão
O Roman sendo movido dentro de uma câmara de testes no Centro Goddard da NASA, em junho de 2025. As três pessoas no canto inferior esquerdo dão a escala da sala. Foto: NASA/Goddard/Michael Guinto

O que ele vai procurar: planetas invisíveis

A segunda missão é achar planetas em volta de outras estrelas — e por um caminho que os telescópios atuais quase não usam.

Hoje, a maioria dos planetas fora do Sistema Solar é descoberta pelo método do trânsito: a gente mede a luz da estrela e espera o planeta passar na frente dela, causando uma piscadinha. Funciona bem, mas só pega planetas cuja órbita está alinhada com a nossa linha de visão, e favorece planetas colados na estrela, que passam na frente dela muitas vezes por ano. Tudo isso está explicado em Como descobrem planetas fora do Sistema Solar?.

O Roman aposta em outro método, a microlente gravitacional. A massa entorta a luz que passa perto dela. Quando uma estrela com planetas passa exatamente na frente de outra estrela, mais distante, a estrela da frente funciona como uma lente e amplifica por alguns dias o brilho da estrela de trás — e, se ela tiver um planeta, o planeta acrescenta um segundo pico de brilho, menor e mais curto.

A vantagem é enorme: a microlente não exige que o planeta passe na frente da própria estrela, então ela pega planetas longe das suas estrelas, planetas pequenos e até planetas que foram expulsos e vagam sozinhos pela galáxia. A desvantagem é que cada alinhamento desses acontece uma vez só e dura poucos dias — não dá para voltar e conferir. Por isso o método exige ficar vigiando milhões de estrelas ao mesmo tempo, sem parar, e é aí que o campo largo do Roman deixa de ser um luxo e vira a única saída. O objetivo declarado é fazer um censo estatístico dos sistemas planetários da nossa galáxia — não achar um planeta famoso, mas descobrir quantos existem e de que tipos.

Junto vai o coronógrafo, um instrumento que tapa a luz da estrela para fotografar diretamente o planeta ao lado dela. No Roman ele é declaradamente uma demonstração de tecnologia: o alvo não é bater recorde, é provar que a técnica funciona bem o bastante para o telescópio seguinte.

Roman, Hubble e Webb: quem faz o quê

Hubble James Webb Roman
Espelho 2,4 m 6,5 m 2,4 m
Onde fica 540 km de altura ponto L2 ponto L2
Enxerga melhor luz visível e ultravioleta infravermelho distante infravermelho próximo
Ponto forte detalhe fino, 35 anos de arquivo os objetos mais fracos e antigos campo largo: cem vezes mais céu por foto
Serve para quase tudo, um alvo por vez as primeiras galáxias, atmosferas de planetas censos: energia escura e milhões de estrelas

A tabela deixa claro que não há concorrência entre eles. O Webb é o telescópio para apontar num ponto do céu e ficar horas ali, colhendo os fótons mais fracos que existem — é assim que ele achou as galáxias que existiram cedo demais, contadas em As descobertas mais impressionantes do telescópio James Webb. O Roman é o oposto: ele nunca vai bater o Webb num alvo só, e vai entregar em um ano o mapa que o Webb levaria séculos para montar.

O que esperar, e quando

A missão tem cinco anos de duração nominal e uma meta de dez. A notícia de 14 de setembro melhorou essa conta: o lançamento foi tão preciso que sobrou combustível, e a NASA calcula que a economia deve mais que dobrar a vida útil possível do observatório.

Sobre datas de primeiras imagens, a honestidade manda dizer: a NASA não publicou nenhuma. O que está anunciado é que o comissionamento leva meses e que o coronógrafo ainda passa por uma série de calibrações. Telescópios grandes costumam divulgar as primeiras imagens de divulgação alguns meses depois de chegar ao posto, mas isso é padrão histórico, não promessa. Quando as fotos vierem, elas serão públicas, como as do Hubble e as do Webb.

Perguntas frequentes

O telescópio Roman já foi lançado?

Sim. Foi lançado em 30 de agosto de 2026, num foguete Falcon Heavy, do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Até o fim de setembro de 2026 ele estava na fase de comissionamento, com a antena, o para-sol, o coronógrafo e a câmera principal de 300 megapixels já ligados.

O Roman vai substituir o Hubble?

Não. Os dois fazem trabalhos diferentes. O Hubble tem o mesmo tamanho de espelho, mas enxerga bem a luz visível e o ultravioleta e fotografa um alvo por vez; o Roman é de infravermelho e foi feito para varrer áreas enormes do céu. O Hubble também continua operando.

Qual a diferença entre o Roman e o James Webb?

O espelho do Webb é quase três vezes maior (6,5 m contra 2,4 m), o que o torna imbatível para enxergar objetos muito fracos e distantes. O Roman tem campo de visão pelo menos cem vezes maior, o que o torna imbatível para cobrir muito céu depressa. Um é um microscópio; o outro é um mapa.

O que é energia escura, de forma simples?

É o nome dado ao efeito que faz a expansão do universo acelerar em vez de frear. Ninguém sabe o que a causa. O Roman vai medir a luz de cerca de um bilhão de galáxias para descobrir como esse efeito mudou ao longo do tempo cósmico.

Quando o Roman vai divulgar as primeiras fotos?

A NASA não anunciou uma data. O comissionamento está previsto para levar meses, e o coronógrafo ainda tem uma série de calibrações pela frente antes do início das observações científicas completas.

Gostou? Compartilhe: WhatsAppFacebookTelegramX

Leia também

Mais em Missões
  • Missões

    O braço robótico da Estação Espacial: o Canadarm2

    O braço robótico da Estação Espacial Internacional se chama Canadarm2, tem 17,6 metros de comprimento, pesa 1.497 quilos aqui na Terra e tem sete articulações — duas a mais que…

    ·6 min de leitura
  • Missões

    O que é um penetrador, a sonda que bate de propósito

    Entre os tipos de nave-robô que a NASA cataloga, existe um que surpreende quem ouve pela primeira vez: o penetrador, uma sonda construída para bater de propósito e ser…

    ·7 min de leitura
  • Missões

    O que é a ESA, a agência espacial da Europa?

    A ESA é a Agência Espacial Europeia — a agência que faz pela Europa mais ou menos o que a NASA faz pelos Estados Unidos. A diferença decisiva é que ela não pertence a um país…

    ·8 min de leitura
  • Missões

    O Hubble vai cair? A NASA pediu ajuda a empresas

    Sim, o Hubble vai cair — mas não agora, e a NASA está correndo atrás de quem possa impedir. Em 29 de outubro de 2026, a agência publicou um pedido formal de informações…

    ·6 min de leitura