Perguntas que todo mundo faz

Matéria escura: o que é a parte invisível do universo

Matéria escura tem gravidade mas não emite nem reflete luz, e é cinco vezes mais abundante que tudo o que vemos. Como sabemos que existe sem ver.

Publicado em 7 min de leitura
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Aglomerado de galáxias fotografado pelo Hubble, com centenas de galáxias amareladas sobre uma névoa azul-arroxeada que marca onde está a massa invisível
Foto: NASA/GSFC
Neste artigo
  1. Como se pesa o que não se vê
  2. A descoberta de Vera Rubin
  3. A prova mais bonita: a luz entortada
  4. Quanto existe: a conta do universo inteiro
  5. Do que ela pode ser feita
  6. E se a gravidade é que estiver errada?
  7. Por que isso importa

Matéria escura é um tipo de matéria que tem gravidade, mas não emite, não reflete e não absorve luz. Ela não é vista por nenhum telescópio, e ninguém sabe do que é feita. Mesmo assim, os astrônomos têm certeza de que existe, porque a gravidade dela aparece em tudo o que medem: galáxias giram rápido demais, aglomerados de galáxias entortam a luz mais do que deveriam e o universo inteiro tem a forma que tem por causa dela. As contas dizem que há cinco vezes mais matéria escura do que matéria comum. Tudo o que você já viu, estrelas, planetas, pessoas, é a parte pequena. Este artigo explica como se descobre algo invisível, o que ela pode ser e o que ela não é.

Como se pesa o que não se vê

Imagine uma praça à noite, totalmente escura, e uma criança girando num carrossel. Você não enxerga o carrossel, mas vê a criança, iluminada por uma lanterna, dando voltas. Pela velocidade dela e pelo tamanho da volta, você calcula quanto o carrossel pesa, mesmo sem nunca vê-lo. É assim que a matéria escura é medida: pelo efeito da gravidade dela sobre o que brilha.

O primeiro a notar o problema foi o astrônomo suíço Fritz Zwicky, em 1933. Ele mediu a velocidade das galáxias dentro de um aglomerado, um grupo de centenas de galáxias presas pela gravidade, e viu que elas se moviam tão rápido que o aglomerado deveria ter se desfeito há muito tempo. A gravidade das galáxias visíveis não era suficiente para segurá-las. Alguma coisa invisível estava segurando, e era muita: Zwicky chamou de "matéria escura". Ninguém deu bola por 40 anos.

A descoberta de Vera Rubin

Na década de 1970, a astrônoma americana Vera Rubin mediu a velocidade com que as estrelas giram em torno do centro de galáxias como Andrômeda. A expectativa era simples: como no Sistema Solar, onde Mercúrio gira muito mais rápido que Netuno, as estrelas da borda deveriam ser mais lentas que as do centro, porque a maior parte da massa visível está no centro.

Não eram. As estrelas da borda giravam tão rápido quanto as do meio. Para isso acontecer, é preciso que exista massa espalhada por toda a galáxia e além dela, numa bolha enorme e invisível, o "halo". Rubin repetiu a medição em dezenas de galáxias, e todas mostravam a mesma coisa. Ou a gravidade não funciona como Newton e Einstein descreveram, ou existe muito mais matéria do que a que brilha. A maior parte dos físicos aposta na segunda opção, e o observatório que começou a funcionar no Chile em 2025 para mapear o céu inteiro leva o nome dela.

Na nossa galáxia é igual: a Via Láctea tem umas dez vezes mais massa do que o que se vê nela, e a maior parte está num halo que se estende muito além do disco de estrelas. Quando você olha a Via Láctea no céu, como mostra O que é a Via Láctea e como ver a nossa galáxia do Brasil, está vendo só a parte brilhante de algo bem maior.

A prova mais bonita: a luz entortada

A relatividade de Einstein prevê que massa entorta o caminho da luz. Um aglomerado de galáxias funciona como uma lente: a luz das galáxias que estão atrás dele é curvada e chega até nós esticada em arcos. Medindo o quanto a luz entortou, dá para calcular a massa do aglomerado sem precisar ver nada. A foto de capa deste artigo mostra isso: o aglomerado Abell 1689, com a massa calculada pelas lentes pintada em azul. A massa está onde as galáxias estão, mas há muito mais dela do que as galáxias explicam.

Em 2006 veio o caso mais famoso, o Aglomerado da Bala: dois aglomerados que se atravessaram numa colisão. O gás quente, que é a maior parte da matéria comum, ficou preso no meio, freado pelo choque. Mas a massa medida pelas lentes gravitacionais estava em outro lugar, mais à frente, junto com as galáxias, que atravessaram sem se frear. A matéria escura de cada aglomerado passou direto pela do outro, sem colidir, porque não interage com quase nada. Ficou separada do gás visível. É difícil explicar isso com qualquer teoria que não inclua matéria invisível.

Duas imagens lado a lado, uma do Hubble e outra do Webb, mostrando manchas azuis e roxas difusas que representam a distribuição de massa invisível em um aglomerado
Mapa da matéria escura num aglomerado de galáxias, feito pela luz entortada: à esquerda com o Hubble, à direita com o James Webb, que enxerga mais detalhe. As manchas não são objetos; são onde a massa invisível está. Foto: NASA/STScI/A. Pagan

Quanto existe: a conta do universo inteiro

A radiação cósmica de fundo, a luz mais antiga do universo, tem pequenas manchas de temperatura que funcionam como uma impressão digital do que o universo era aos 380 mil anos de idade. O padrão dessas manchas depende de quanto havia de cada ingrediente. Medido pelo satélite Planck, o resultado é este:

Ingrediente Fração do universo O que é
Energia escura 68% O que acelera a expansão do universo; ainda menos entendida
Matéria escura 27% Matéria com gravidade que não interage com a luz
Matéria comum 5% Tudo o que é feito de átomos: estrelas, planetas, gás, você

Ou seja: 95% do universo é de coisas que não sabemos o que são. Vale separar as duas. Matéria escura puxa, como a gravidade normal, e ajuda a juntar galáxias. Energia escura empurra, esticando o espaço. Têm nomes parecidos porque as duas são "escuras", isto é, desconhecidas, mas fazem o oposto. A origem dessa conta está em O que é o Big Bang? A explicação simples, sem fórmula.

Do que ela pode ser feita

Aqui a resposta honesta é: não se sabe. O que se sabe é o que ela não é.

Não são planetas, estrelas apagadas ou buracos negros comuns: objetos assim já foram procurados pelo efeito de lente que fariam ao passar na frente de estrelas, e não há em quantidade suficiente. Não é gás ou poeira: gás quente brilha em raios X, e poeira absorve luz; os dois são vistos e contados. Não é feita de átomos normais em nenhuma forma, porque a quantidade de átomos no universo é fixada pela química dos primeiros minutos após o Big Bang, e dá só os 5%.

Sobram partículas novas, de um tipo que a física ainda não conhece. A candidata mais estudada por décadas foi uma partícula pesada que só interage pela gravidade e por uma força fraca, apelidada de WIMP. Laboratórios enterrados em minas, para bloquear a radiação de fora, esperam há anos que uma dessas partículas bata num átomo de um tanque de xenônio líquido. Até 2026, silêncio. Outra candidata é o áxion, uma partícula leve demais para ser detectada assim, procurada com campos magnéticos e antenas. Também nada, por enquanto.

Se a matéria escura for feita de partículas, elas estão passando por você agora. Pelas estimativas, bilhões delas atravessam o seu corpo a cada segundo, sem tocar em nada, como se você fosse feito de vidro. É por isso que são tão difíceis de pegar.

E se a gravidade é que estiver errada?

Uma minoria de físicos defende que não existe matéria escura: a gravidade é que funcionaria diferente em distâncias enormes e acelerações muito pequenas. A versão mais conhecida dessa ideia se chama MOND e explica bem a rotação das galáxias, sem precisar de nada invisível.

O problema é que ela explica mal o resto: o Aglomerado da Bala, as lentes gravitacionais e as manchas da radiação de fundo. Cada uma dessas medidas aponta para uma quantidade parecida de massa faltando, e uma teoria da gravidade alternativa teria de acertar todas ao mesmo tempo. Nenhuma conseguiu até agora. A ciência não fechou a porta, mas a aposta majoritária continua na matéria invisível.

Por que isso importa

Sem matéria escura, não existiríamos. Nos primeiros bilhões de anos do universo, foi a gravidade dela que juntou o gás em aglomerados grandes o suficiente para formar as galáxias. A matéria comum, sozinha, estava quente e espalhada demais; ela caiu nos "poços" que a matéria escura já tinha cavado. A Via Láctea, o Sol e a Terra nasceram dentro de um desses poços. As simulações de computador que reproduzem o universo em grande escala, com filamentos e vazios, só funcionam com ela.

Nas próximas décadas, três coisas podem mudar o jogo: o Observatório Vera Rubin, que vai mapear bilhões de galáxias e medir as lentes gravitacionais com precisão inédita; os detectores subterrâneos de nova geração; e o telescópio James Webb, que já está refinando os mapas de massa, como na imagem deste artigo, e cujas outras descobertas estão em As descobertas mais impressionantes do telescópio James Webb. Descobrir do que a matéria escura é feita é, hoje, um dos maiores prêmios da física. Enquanto isso, a resposta certa para "o que é matéria escura?" continua sendo a mais honesta: a maior parte da matéria do universo, e não sabemos o que é.

Perguntas frequentes

O que é matéria escura, em uma frase?

É um tipo de matéria que tem gravidade, mas não emite, reflete nem absorve luz, e por isso não aparece em nenhum telescópio. Sabe-se que existe pelo efeito da gravidade dela sobre estrelas, galáxias e a luz; há cerca de cinco vezes mais matéria escura do que matéria comum no universo.

Como os cientistas sabem que a matéria escura existe se nunca a viram?

Por três medidas independentes que dão o mesmo resultado: as estrelas das bordas das galáxias giram rápido demais para a massa visível; os aglomerados de galáxias entortam a luz mais do que a massa visível permitiria; e o padrão da radiação cósmica de fundo só se explica com essa massa extra. No Aglomerado da Bala, a massa invisível ficou separada do gás visível depois de uma colisão.

Qual é a diferença entre matéria escura e energia escura?

Matéria escura puxa: tem gravidade e ajuda a juntar galáxias, e responde por 27% do universo. Energia escura empurra: acelera a expansão do espaço e responde por 68%. Os nomes são parecidos só porque as duas são desconhecidas; os efeitos são opostos.

Do que é feita a matéria escura?

Ninguém sabe. Não é feita de átomos, planetas, estrelas apagadas nem gás, porque tudo isso já foi contado. A hipótese principal é a de partículas novas, ainda não descobertas, que quase não interagem com a matéria normal. Detectores enterrados em minas as procuram há décadas, sem sucesso até 2026.

A matéria escura passa pelo meu corpo?

Se for feita de partículas, sim: bilhões delas atravessam você a cada segundo sem tocar em nada, porque só interagem pela gravidade. Você não sente porque a gravidade de cada partícula é desprezível. O efeito delas só aparece somado em escala de galáxias.

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