Em 12 de novembro de 2014, um aparelho do tamanho de uma máquina de lavar tocou a superfície de um cometa — e imediatamente voltou a subir. Os arpões que deveriam prendê-lo não dispararam. A sonda Philae quicou, flutuou por quase duas horas sobre o cometa, bateu de novo, deu um último pulo e parou num lugar que ninguém sabia qual era.
Foi a primeira vez na história que algo feito por humanos pousou num cometa. E, apesar de tudo ter dado errado, a missão funcionou: o Philae enviou dados por três dias, e a nave-mãe, a Rosetta, acompanhou aquele cometa por mais dois anos.
A história é boa porque é quase o oposto de uma missão perfeita. Vale pela teimosia.
Por que pousar num cometa é tão difícil
Um cometa não é um planeta pequeno. É uma pedra misturada com gelo, de formato irregular, girando, e com quase nenhuma gravidade.
Essa última parte é a que estraga tudo. Na Terra, quando você solta uma coisa, ela cai, bate e fica. Num cometa de poucos quilômetros, a gravidade é tão fraca que um objeto que encosta com qualquer sobra de velocidade simplesmente rebate e sai flutuando, como uma bola de pingue-pongue numa mesa — só que em câmera lentíssima, sem ar para freá-la.
Por isso o Philae não foi projetado para "pousar" no sentido comum. Ele foi projetado para se prender: tinha arpões para disparar contra o solo, parafusos de gelo nos três pés e um pequeno motor no topo que deveria empurrá-lo contra a superfície no instante do contato, como quem segura uma tampa enquanto aperta o parafuso.
Na noite anterior ao pouso, a equipe descobriu que esse motor de cima não ia funcionar. Decidiram descer assim mesmo, confiando nos arpões. Os arpões não dispararam.
O que é o cometa 67P
O alvo tem nome de trava-língua: 67P/Churyumov-Gerasimenko, batizado com o sobrenome dos dois astrônomos soviéticos que o descobriram. No dia a dia, todo mundo chama de 67P.
Quando a Rosetta chegou perto, em agosto de 2014, as fotos revelaram um formato que ninguém esperava: dois lobos de tamanhos diferentes grudados por um pescoço estreito, parecido com um patinho de borracha. Provavelmente são dois corpos que se juntaram devagar, lá no começo do Sistema Solar.
O dia no 67P dura 12,4 horas — ou seja, ele dá uma volta em si mesmo em metade do tempo que a Terra leva. A superfície, vista pela câmera de descida do Philae, é coberta de poeira e detritos que vão de milímetros a metros. A diferença entre cometas, asteroides e meteoros está explicada em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

O pouso que virou três pousos
Os dados contam uma história precisa. O Philae tocou o cometa três vezes, nos seguintes horários (medidos no cometa; o sinal ainda levava mais de 28 minutos para chegar à Terra, via Rosetta):
| Toque | Hora (no cometa) | O que aconteceu em seguida |
|---|---|---|
| 1º | 15h34 | Subiu de novo e ficou 1 hora e 50 minutos "voando", percorrendo cerca de 1 km a 38 cm/s |
| 2º | 17h25 | Pulo menor, agora a cerca de 3 cm/s |
| 3º | 17h32 | Parada final, sete minutos depois do segundo toque |
Olhe a velocidade do primeiro quique: 38 centímetros por segundo. Isso é mais devagar que uma pessoa caminhando sem pressa. Numa gravidade normal, um objeto nessa velocidade cairia na hora. Ali, foi suficiente para mantê-lo no ar por 1 hora e 50 minutos e levá-lo a um quilômetro de distância do ponto original.
O primeiro toque foi dentro da área prevista, numa região batizada de Agilkia. O ponto final, bem longe dali, ganhou depois o nome de Abydos.
Três dias de bateria, e o silêncio
Parar no lugar errado teve uma consequência cruel, e ela é de aritmética simples.
O Philae tinha uma bateria primária, para os primeiros dias, e painéis solares para continuar depois. No local planejado, ele receberia cerca de sete horas de sol a cada dia de 12,4 horas do cometa. No lugar onde foi parar, encostado perto de uma parede rochosa, recebia 1 hora e meia.
Com um quinto da luz prevista, não havia como recarregar nada. A bateria primária durou três dias, e nesses três dias a equipe correu para rodar os experimentos principais — inclusive decidindo, no susto, se valia a pena acionar instrumentos que poderiam fazer o aparelho se mexer de novo. Depois, silêncio.
O Philae ainda acordou brevemente em junho e julho de 2015, quando o cometa se aproximou do Sol e sobrou energia, trocou algumas palavras com a Rosetta e calou de vez.
Encontrado, faltando um mês para o fim
Durante quase dois anos ninguém sabia exatamente onde ele estava. Dados de rádio estreitaram a busca a uma área de algumas dezenas de metros, mas as fotos disponíveis eram distantes demais para resolver a dúvida.
Em 2 de setembro de 2016, a câmera de alta resolução da Rosetta tirou imagens a apenas 2,7 km da superfície — perto o suficiente para distinguir detalhes de 5 centímetros. E lá estava: o corpo de 1 metro do Philae encaixado numa fenda escura, com duas das três pernas visíveis. A orientação em que ele parou explicou, enfim, por que falar com ele tinha sido tão difícil.
Cecilia Tubiana, da equipe da câmera, foi a primeira pessoa a ver as imagens. Patrick Martin, gerente da missão, resumiu o alívio: "Estávamos começando a achar que o Philae ficaria perdido para sempre."
Faltavam menos de 30 dias para o fim de tudo.
O fim: a Rosetta pousa de propósito
Em 30 de setembro de 2016, a ESA encerrou a missão fazendo a Rosetta descer de vez sobre o cometa, numa descida controlada e sem volta, tirando fotos cada vez mais próximas até o impacto.
A razão era energética, não dramática: o cometa estava se afastando do Sol, e os painéis solares da Rosetta já não dariam conta. Em vez de deixar a nave morrer em silêncio, a equipe aproveitou a descida para fotografar de perto os poços ativos da região de Ma'at, por onde o cometa expele poeira.
A decisão de destruir uma sonda de propósito no fim da vida não é exclusividade da Rosetta — é uma prática com motivos bem definidos, contados em Por que a NASA destrói suas sondas de propósito?. E o cometa mais famoso de todos, que a Rosetta não visitou, tem a própria história em Cometa Halley: quando volta (2061) e por que é o mais famoso.




