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Rosetta e Philae: a sonda que pousou num cometa

Em 2014 uma sonda europeia pousou num cometa pela primeira vez. Os arpões falharam, ela quicou por quase 2 horas e sumiu. Só foi reencontrada em 2016.

Publicado em 6 min de leitura
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O núcleo do cometa 67P visto de perto, cinzento e acidentado, com dois lobos de tamanhos diferentes unidos por um pescoço estreito, sobre o fundo preto do espaço
Foto: ESA/Rosetta/MPS for OSIRIS Team MPS/UPD/LAM/IAA/SSO/INTA/UPM/DASP/IDA
Neste artigo
  1. Por que pousar num cometa é tão difícil
  2. O que é o cometa 67P
  3. O pouso que virou três pousos
  4. Três dias de bateria, e o silêncio
  5. Encontrado, faltando um mês para o fim
  6. O fim: a Rosetta pousa de propósito

Em 12 de novembro de 2014, um aparelho do tamanho de uma máquina de lavar tocou a superfície de um cometa — e imediatamente voltou a subir. Os arpões que deveriam prendê-lo não dispararam. A sonda Philae quicou, flutuou por quase duas horas sobre o cometa, bateu de novo, deu um último pulo e parou num lugar que ninguém sabia qual era.

Foi a primeira vez na história que algo feito por humanos pousou num cometa. E, apesar de tudo ter dado errado, a missão funcionou: o Philae enviou dados por três dias, e a nave-mãe, a Rosetta, acompanhou aquele cometa por mais dois anos.

A história é boa porque é quase o oposto de uma missão perfeita. Vale pela teimosia.

Por que pousar num cometa é tão difícil

Um cometa não é um planeta pequeno. É uma pedra misturada com gelo, de formato irregular, girando, e com quase nenhuma gravidade.

Essa última parte é a que estraga tudo. Na Terra, quando você solta uma coisa, ela cai, bate e fica. Num cometa de poucos quilômetros, a gravidade é tão fraca que um objeto que encosta com qualquer sobra de velocidade simplesmente rebate e sai flutuando, como uma bola de pingue-pongue numa mesa — só que em câmera lentíssima, sem ar para freá-la.

Por isso o Philae não foi projetado para "pousar" no sentido comum. Ele foi projetado para se prender: tinha arpões para disparar contra o solo, parafusos de gelo nos três pés e um pequeno motor no topo que deveria empurrá-lo contra a superfície no instante do contato, como quem segura uma tampa enquanto aperta o parafuso.

Na noite anterior ao pouso, a equipe descobriu que esse motor de cima não ia funcionar. Decidiram descer assim mesmo, confiando nos arpões. Os arpões não dispararam.

O que é o cometa 67P

O alvo tem nome de trava-língua: 67P/Churyumov-Gerasimenko, batizado com o sobrenome dos dois astrônomos soviéticos que o descobriram. No dia a dia, todo mundo chama de 67P.

Quando a Rosetta chegou perto, em agosto de 2014, as fotos revelaram um formato que ninguém esperava: dois lobos de tamanhos diferentes grudados por um pescoço estreito, parecido com um patinho de borracha. Provavelmente são dois corpos que se juntaram devagar, lá no começo do Sistema Solar.

O dia no 67P dura 12,4 horas — ou seja, ele dá uma volta em si mesmo em metade do tempo que a Terra leva. A superfície, vista pela câmera de descida do Philae, é coberta de poeira e detritos que vão de milímetros a metros. A diferença entre cometas, asteroides e meteoros está explicada em Meteoro, meteorito, asteroide e cometa: qual é a diferença?.

O núcleo do cometa 67P em preto e branco, mostrando o lobo maior cheio de depressões arredondadas e o lobo menor ligado por um pescoço estreito
O cometa 67P em mosaico de imagens da câmera de navegação da Rosetta, feito em 17 de dezembro de 2014. As emendas entre as fotos individuais aparecem como degraus nas bordas da montagem. Foto: ESA/Rosetta/NAVCAM

O pouso que virou três pousos

Os dados contam uma história precisa. O Philae tocou o cometa três vezes, nos seguintes horários (medidos no cometa; o sinal ainda levava mais de 28 minutos para chegar à Terra, via Rosetta):

Toque Hora (no cometa) O que aconteceu em seguida
1º 15h34 Subiu de novo e ficou 1 hora e 50 minutos "voando", percorrendo cerca de 1 km a 38 cm/s
2º 17h25 Pulo menor, agora a cerca de 3 cm/s
3º 17h32 Parada final, sete minutos depois do segundo toque

Olhe a velocidade do primeiro quique: 38 centímetros por segundo. Isso é mais devagar que uma pessoa caminhando sem pressa. Numa gravidade normal, um objeto nessa velocidade cairia na hora. Ali, foi suficiente para mantê-lo no ar por 1 hora e 50 minutos e levá-lo a um quilômetro de distância do ponto original.

O primeiro toque foi dentro da área prevista, numa região batizada de Agilkia. O ponto final, bem longe dali, ganhou depois o nome de Abydos.

Três dias de bateria, e o silêncio

Parar no lugar errado teve uma consequência cruel, e ela é de aritmética simples.

O Philae tinha uma bateria primária, para os primeiros dias, e painéis solares para continuar depois. No local planejado, ele receberia cerca de sete horas de sol a cada dia de 12,4 horas do cometa. No lugar onde foi parar, encostado perto de uma parede rochosa, recebia 1 hora e meia.

Com um quinto da luz prevista, não havia como recarregar nada. A bateria primária durou três dias, e nesses três dias a equipe correu para rodar os experimentos principais — inclusive decidindo, no susto, se valia a pena acionar instrumentos que poderiam fazer o aparelho se mexer de novo. Depois, silêncio.

O Philae ainda acordou brevemente em junho e julho de 2015, quando o cometa se aproximou do Sol e sobrou energia, trocou algumas palavras com a Rosetta e calou de vez.

Encontrado, faltando um mês para o fim

Durante quase dois anos ninguém sabia exatamente onde ele estava. Dados de rádio estreitaram a busca a uma área de algumas dezenas de metros, mas as fotos disponíveis eram distantes demais para resolver a dúvida.

Em 2 de setembro de 2016, a câmera de alta resolução da Rosetta tirou imagens a apenas 2,7 km da superfície — perto o suficiente para distinguir detalhes de 5 centímetros. E lá estava: o corpo de 1 metro do Philae encaixado numa fenda escura, com duas das três pernas visíveis. A orientação em que ele parou explicou, enfim, por que falar com ele tinha sido tão difícil.

Cecilia Tubiana, da equipe da câmera, foi a primeira pessoa a ver as imagens. Patrick Martin, gerente da missão, resumiu o alívio: "Estávamos começando a achar que o Philae ficaria perdido para sempre."

Faltavam menos de 30 dias para o fim de tudo.

O fim: a Rosetta pousa de propósito

Em 30 de setembro de 2016, a ESA encerrou a missão fazendo a Rosetta descer de vez sobre o cometa, numa descida controlada e sem volta, tirando fotos cada vez mais próximas até o impacto.

A razão era energética, não dramática: o cometa estava se afastando do Sol, e os painéis solares da Rosetta já não dariam conta. Em vez de deixar a nave morrer em silêncio, a equipe aproveitou a descida para fotografar de perto os poços ativos da região de Ma'at, por onde o cometa expele poeira.

A decisão de destruir uma sonda de propósito no fim da vida não é exclusividade da Rosetta — é uma prática com motivos bem definidos, contados em Por que a NASA destrói suas sondas de propósito?. E o cometa mais famoso de todos, que a Rosetta não visitou, tem a própria história em Cometa Halley: quando volta (2061) e por que é o mais famoso.

Perguntas frequentes

Quanto tempo a Rosetta levou para chegar ao cometa?

A sonda foi lançada em 2 de março de 2004 e chegou ao 67P em agosto de 2014 — mais de dez anos de viagem. Ela não foi em linha reta: deu voltas pelo Sistema Solar usando a gravidade de planetas para ganhar velocidade, a técnica do estilingue gravitacional explicada em Sonda Juice passa perto da Terra em 28 de setembro.

Por que estudar cometas?

Porque eles são sobras congeladas da formação do Sistema Solar, guardadas há bilhões de anos longe do calor do Sol. Analisar o gelo e a poeira de um cometa é o mais perto que se chega de examinar o material original de que os planetas se formaram, sem a interferência de bilhões de anos de geologia.

O Philae ainda está lá?

Sim. Ele continua parado na fenda em Abydos, no lobo menor do 67P, sem energia e sem comunicação, viajando junto com o cometa em volta do Sol. A Rosetta também está lá, caída na superfície desde setembro de 2016.

O pouso foi um fracasso, então?

Depende do que se compara. Contra o plano, falhou: os arpões não dispararam, o aparelho parou na sombra e a bateria acabou em três dias em vez de meses. Contra a história, não: foi a primeira vez que algo humano pousou num cometa e transmitiu de volta, e a Rosetta, que era a parte maior da missão, cumpriu dois anos completos de observação. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.

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