Albedo é a parcela da luz que uma superfície devolve em vez de absorver. É um número simples: se uma superfície tem albedo 0,9, ela reflete 90% da luz que chega e engole os outros 10%. Se tem albedo 0,1, faz o contrário. E esse número banal decide coisas enormes — a temperatura de um planeta, a cor da Lua no céu e a velocidade com que o gelo do planeta derrete.
Você já conhece o efeito pela experiência mais brasileira que existe: carro preto estacionado no sol vira forno; carro branco, não. A tinta preta tem albedo baixo e absorve quase toda a luz, virando calor. A branca tem albedo alto e devolve. Mesmo sol, mesmo horário, mesma vaga — temperaturas diferentes por causa de um número.
A escala, do mais claro ao mais escuro
O albedo vai de 0 (absorve tudo) a 1 (reflete tudo). Na prática, nada na natureza chega aos extremos.
Segundo a NASA, neve fresca pode chegar a albedo 0,9, ou seja, devolve 90% da luz do Sol que recebe. No outro extremo da escala, o oceano aberto costuma ficar abaixo de 0,1: absorve mais de 90% da luz que chega e reflete menos de 10%.
Entre esses dois extremos está todo o resto. A agência agrupa as superfícies assim:
| Albedo alto (reflete muito) | Albedo baixo (absorve muito) |
|---|---|
| Neve | Oceano e outros corpos d'água |
| Gelo | Florestas |
| Desertos | Áreas urbanas |
| Nuvens | — |
Repare numa coisa que surpreende quase todo mundo: nuvem é um dos maiores refletores do planeta. A NASA chama as nuvens de um dos fenômenos de albedo mais alto da Terra. Faz sentido quando você lembra do dia nublado: o chão fica mais fresco não porque o Sol parou de brilhar, mas porque boa parte da luz dele bateu no topo das nuvens e voltou para o espaço antes de chegar em você.
O albedo da Terra inteira, em um número
Dá para somar tudo isso e perguntar: de toda a luz do Sol que chega à Terra, quanto volta?
A resposta da NASA é cerca de 29%. Em média, chegam ao topo da atmosfera 340 watts por metro quadrado de energia solar, e 29% disso é refletido de volta ao espaço por nuvens, por partículas no ar e por superfícies claras como neve e gelo marinho. Essa parte não participa de nada: não esquenta o planeta, só vai embora.
O resto se divide assim, segundo a agência: 23% da energia solar que chega é absorvida no caminho, pela própria atmosfera — por vapor d'água, poeira e ozônio — e 48% atravessa e é absorvida pela superfície. Somando os dois, cerca de 71% da energia solar que chega é absorvida pelo sistema Terra.
Para dar escala aos 340 watts por metro quadrado: é pouco mais de três lâmpadas de 100 watts acesas sobre cada quadrado de um metro por um metro da superfície do planeta, já diluindo a média pelo lado que está na noite. O que define a temperatura do planeta é quanto dessa energia fica.
A parte que preocupa: o gelo que acelera o próprio fim
Aqui o albedo deixa de ser curiosidade e vira assunto sério.
Gelo marinho é branco e reflete. Água do mar é escura e absorve. A NASA quantifica o contraste de forma bem direta: com cobertura de gelo, só 30% a 50% da luz solar que chega é absorvida pelo oceano, e o resto volta; sem o gelo, de 85% a 95% é absorvida.
Agora junte as duas pontas. Se um pedaço de mar coberto de gelo derrete, a água escura que aparece ali passa a absorver quase o dobro de energia que absorvia antes. Essa energia esquenta a água. A água mais quente derrete mais gelo ao redor. Mais água escura aparece. E assim por diante.
É o que os cientistas chamam de retroalimentação — um processo que alimenta a si mesmo, como microfone perto da caixa de som: o chiado entra no microfone, sai mais alto na caixa, volta ao microfone mais alto ainda.

A foto que abre esta página mostra o mesmo efeito dentro da própria geleira. São poças de água derretida sobre o gelo da Groenlândia. Segundo a NASA, o acúmulo dessas poças "escurece" a superfície da camada de gelo e leva a mais derretimento — a água parada é mais escura que o gelo em volta e absorve mais.
Por que a Lua é cinza e Vênus é branco
Albedo não é só assunto da Terra. Ele explica diferenças que você vê no céu a olho nu.
A Lua parece prateada, mas é má refletora: a superfície dela tem a cor de asfalto velho e devolve só uma fração pequena da luz que recebe. Ela é brilhante no nosso céu apenas porque é grande, está perto e é iluminada pelo mesmo Sol que ilumina o seu quintal — assunto detalhado, com o número, em Por que a Lua aparece de dia? A explicação simples.
Vênus faz o oposto: as nuvens dele são branquíssimas e devolvem a maior parte da luz solar que chega. Segundo a NASA, ele é o terceiro objeto mais brilhante do céu, depois do Sol e da Lua. E é por isso que o caso dele é tão curioso: mesmo refletindo tanto, Vênus é o planeta mais quente do Sistema Solar, pelo motivo explicado em Por que Vênus é mais quente que Mercúrio?.
O recordista conhecido é uma lua pequena de Saturno. Encélado é coberta de gelo e, segundo a NASA, é o corpo mais reflexivo do Sistema Solar. A consequência térmica é direta e a agência a afirma assim: porque Encélado reflete tanta luz do Sol, a temperatura da superfície é extremamente fria, cerca de 201 graus negativos. A história está em Encélado: a lua de Saturno que joga água no espaço.
| Superfície | Quanto da luz solar é refletido |
|---|---|
| Encélado (lua de Saturno) | o corpo mais reflexivo do Sistema Solar |
| Neve fresca | até 90% |
| Mar polar coberto de gelo marinho | de 50% a 70% |
| Terra inteira, em média | cerca de 29% |
| Mar polar sem gelo | de 5% a 15% |
| Oceano aberto, em geral | menos de 10% |
Como se mede o albedo de um planeta inteiro
Ninguém sai medindo pedaço por pedaço com um aparelho na mão. A medida vem de satélites.
A NASA opera instrumentos que medem, do espaço, quanta luz solar é devolvida por cada trecho da superfície e da atmosfera. O principal conjunto deles se chama CERES (sigla em inglês para "Nuvens e o Sistema de Energia Radiante da Terra"), e é dele que saem os mapas mensais de energia refletida. Outros instrumentos, como o MODIS e o VIIRS, produzem mapas de refletância da superfície.
A ideia é a mesma da fotografia: o satélite olha para baixo e registra quanta luz está voltando. Fazendo isso para o planeta inteiro, todos os dias, por décadas, dá para saber se a Terra está devolvendo mais ou menos luz do que devolvia antes — e isso é um dos termômetros mais diretos do que está acontecendo com o clima. Esse tipo de vigilância contínua é o trabalho descrito em Quantos satélites observam a Terra o tempo todo?.
O albedo no seu dia a dia
O conceito funciona na escala de um planeta e na escala de uma calçada.
Telhado branco esquenta menos a casa que telhado de amianto escuro. Roupa clara é mais confortável no verão de Cuiabá que roupa preta. Asfalto novo, que é quase preto, deixa a rua mais quente que o concreto claro da calçada ao lado — e é parte do motivo pelo qual o centro de uma cidade grande é mais quente que o bairro arborizado, fenômeno conhecido como ilha de calor. A NASA, inclusive, classifica área urbana como superfície de albedo baixo.
É o mesmo número, a mesma física. Muda só o tamanho do pedaço que você está olhando.




