Com uma frota de robôs que boia sozinha no mar. Hoje existem cerca de 3.800 boias de perfilagem espalhadas pelos oceanos do mundo, e cada uma delas faz, sem ninguém por perto, a mesma rotina a cada dez dias: afunda até cerca de 2 quilômetros de profundidade, sobe medindo temperatura e salinidade no caminho e, ao chegar à superfície, transmite tudo por satélite. Juntas, elas entregam em torno de 13.000 perfis por mês — um a cada três minutos, em algum lugar do planeta.
Essa rede se chama Argo, e é a espinha dorsal de qualquer frase do tipo "o oceano esquentou tanto". Antes dela, a temperatura do mar profundo era conhecida por retalhos: onde passava navio de pesquisa, havia medida; onde não passava, não havia nada.
Por que medir a temperatura do mar é tão importante
Porque o oceano é onde o calor do planeta vai parar. Segundo a NASA, cerca de 90% do calor extra acumulado no último século foi para a água, não para o ar. De cada dez unidades de calor que o planeta reteve, nove foram para o mar.
Isso tem duas consequências diretas. A primeira é que a água, ao esquentar, se dilata — e um oceano dilatado ocupa mais espaço, o que empurra o nível do mar para cima. Essa conta está em O nível do mar está subindo? O que o satélite mediu.
A segunda é que a temperatura do mar comanda o clima do continente. É a água morna ou fria do Pacífico que decide se o Sul do Brasil terá chuva demais ou o Nordeste terá seca, pelo mecanismo contado em Como os satélites enxergam o El Niño?.
Ou seja: medir a temperatura do oceano não é curiosidade de oceanógrafo. É previsão de safra, de energia e de enchente.
A boia Argo, passo a passo
O aparelho é um cilindro de uns dois metros, sem motor e sem hélice. Ele não navega: ele afunda e sobe, mudando o próprio volume, como um peixe que enche e esvazia a bexiga natatória. O ciclo é este:
- A boia passa a maior parte do tempo à deriva a 1 quilômetro de profundidade, levada pela corrente, economizando bateria.
- No dia marcado, ela desce até cerca de 2 quilômetros.
- Começa a subir devagar, medindo no caminho: temperatura, salinidade e outros parâmetros, ponto por ponto.
- Na superfície, transmite os dados para um satélite, que repassa a uma estação em terra.
- Afunda de novo e recomeça. Tudo isso a cada dez dias, sem ninguém a bordo.
Dois quilômetros para baixo é uma profundidade em que a pressão passa de 200 vezes a que você sente aqui em cima. A boia tem de aguentar isso centenas de vezes, e sozinha.
O lançamento, esse sim, é feito por gente: as boias são jogadas ao mar de navios de pesquisa, e depois vão para onde a corrente levar.

Uma conta para imaginar o tamanho da frota
Três mil e oitocentas boias parece muito. Dividido pelo tamanho do oceano, é pouquíssimo.
A área oceânica do planeta é de cerca de 361 milhões de quilômetros quadrados. Dividindo pela frota, cada boia é responsável, sozinha, por uns 95 mil quilômetros quadrados de mar — mais ou menos a área do estado de Santa Catarina. É como ter um único termômetro para todo o estado, mudando de lugar a cada dez dias.
(Essa divisão é uma conta nossa, para dar escala; a distribuição real não é uniforme, porque as boias seguem as correntes e se aglomeram em algumas regiões.)
Daí a necessidade de completar a medição com outras coisas.
Os outros três jeitos de medir
A NASA lista três tipos de instrumento dentro d'água, além dos satélites por cima.
| Instrumento | Como funciona | Vantagem |
|---|---|---|
| Boia Argo | mergulha e sobe sozinha a cada 10 dias, até ~2 km | cobre o oceano todo, sem navio |
| Perfilador CTD | descido por cabo do navio; mede condutividade, temperatura e profundidade | o mais preciso; é a referência |
| XBT (batitermógrafo descartável) | sonda jogada do navio em movimento, que mede enquanto afunda e é perdida | barato e rápido; serve na rota comercial |
| Satélite | mede altura e temperatura da superfície | visão global e contínua, mas só da pele do mar |
A sigla CTD vem de conductivity, temperature, depth: condutividade, temperatura e profundidade. A condutividade elétrica da água revela quanto sal há nela — quanto mais sal, melhor ela conduz corrente. É o mesmo princípio que os satélites de salinidade usam por outro caminho, explicado em Como os satélites medem o sal do mar?.
O XBT é o mais curioso dos quatro: é uma sonda descartável, lançada de um navio que nem precisa parar. Ela afunda desenrolando um fio fininho de cobre, manda a medida por esse fio e, quando o fio acaba, é abandonada. Grande parte da série histórica anterior ao Argo veio de XBTs lançados de navios mercantes em rotas comerciais.
E o satélite, por mais poderoso que seja, só enxerga a pele do oceano. Ele mede a temperatura da superfície e a altura da água, não o que acontece a mil metros. Por isso a combinação é obrigatória: sem boia, o satélite não sabe o que há embaixo; sem satélite, a boia não sabe o que há entre uma boia e outra.

Como tudo isso vira um número só
Aqui entra a parte que menos aparece e mais trabalho dá: juntar medidas feitas por aparelhos diferentes, em lugares diferentes, em épocas diferentes, e transformar isso num valor único para o planeta.
A NASA faz isso com um modelo chamado ECCO, que mistura os dados dos instrumentos dentro d'água com os dados de satélite. O modelo preenche os buracos de forma fisicamente coerente — ou seja, respeitando como a água de fato se move — em vez de simplesmente calcular uma média.
O resultado aparece em dois formatos diferentes, e vale saber a diferença:
- Uma série desde 1955, acompanhada pela agência oceânica americana, dos 2.000 metros superiores do mar. Cada ponto dela é uma média de cinco anos, não um ano isolado: o valor marcado em 2022, por exemplo, representa a média de 2020 a 2024. Ela é atualizada uma vez por ano.
- Uma série mensal, de 1992 até hoje, que cobre toda a coluna d'água e combina satélite, instrumentos no mar e modelo.
Nas duas, o calor acumulado é contado em zettajoules, uma unidade que ninguém usa na vida real. O que importa nela não é o valor absoluto, e sim que ele é medido, tem margem de erro declarada e não para de subir — a última medida divulgada é de dezembro de 2024. A agência também marca que 2024 foi o ano mais quente já registrado para o oceano.
Um detalhe honesto e bonito dos gráficos: a faixa de incerteza desenhada neles vai estreitando com o tempo. Isso não é maquiagem; é o retrato de uma rede de medição que melhorou. Nos anos 1960 havia pouca medida e muito chute; hoje há 3.800 robôs trabalhando.
Onde o calor fica guardado
Nem todo o calor vai para o fundo. A maior parte fica nos 700 metros superiores do oceano — a camada que mais interage com a atmosfera e que, por isso, devolve calor para o ar mais rápido.
É também a camada que importa para quase tudo que a gente sente: a formação de tempestade, a temperatura da água na praia, a vida marinha. E é por isso que o derretimento de gelo e o aquecimento da água são assuntos ligados, como mostra O gelo do Ártico e o da Antártida são a mesma coisa?.
Para quem quer o retrato maior — quanta água existe, onde ela está e quanto dela é doce —, o caminho é Quanta água tem a Terra, e quanto dela dá para beber.
De onde veio essa rede
O Argo não existe desde sempre. As primeiras boias foram lançadas no fim de 1999, e foram necessários mais oito anos até a rede atingir a meta original de 3.000 boias em operação, por volta de 2007.
A NASA descreve o programa como a primeira tentativa de monitorar em tempo real os campos de temperatura e salinidade do oceano abaixo da superfície. Antes disso, "em tempo real" não era uma opção: o dado chegava meses depois, quando o navio voltava.
Hoje a frota passa de 3.800 unidades. É, provavelmente, o maior conjunto de instrumentos científicos funcionando ao mesmo tempo em qualquer lugar do planeta — e quase ninguém sabe que ele existe.




