O primeiro homem a ir ao espaço foi o soviético Yuri Gagarin, em 12 de abril de 1961. Ele deu uma volta completa na Terra a bordo da nave Vostok 1, num voo que durou 108 minutos do lançamento ao pouso, e voltou vivo e bem. Tinha 27 anos e pesava 70 quilos, segundo os números registrados na história oficial da NASA. A cabine era uma esfera de 2,3 metros de diâmetro: não sobrava espaço.
O voo começou às 9h07 da manhã no horário de Moscou, o que dá 3h07 da madrugada no horário de Brasília. Quando o Brasil acordou, naquela quarta-feira, a corrida espacial já tinha um vencedor na primeira etapa, e os Estados Unidos ainda não tinham colocado ninguém lá em cima.
Os 108 minutos, passo a passo
Gagarin decolou do cosmódromo de Baikonur, no que hoje é o Cazaquistão, numa região que a história oficial da NASA descreve como "uma cidade que brotou do nada, comparável a Cocoa Beach, na Flórida".
A trajetória foi uma volta só, numa órbita bastante inclinada em relação ao equador. A nave subiu, atravessou a fronteira do espaço — a linha de Kármán, a 100 km de altitude, que é o limite internacionalmente aceito e assunto de Onde começa o espaço? A linha de Kármán, a 100 km — e, dali em diante, Gagarin passou 89 minutos sem peso, flutuando preso ao assento.
Ele praticamente não pilotou. A Vostok 1 era automática, comandada do solo, e o controle manual ficava bloqueado por um código que só seria usado em emergência. A desconfiança era grande: ninguém sabia o que acontece com uma pessoa em ausência de peso, e havia médicos que achavam que o cérebro humano simplesmente não funcionaria naquelas condições.
Depois de uma volta, os retrofoguetes frearam a nave e ela começou a cair. Gagarin pousou perto do rio Volga, a uns 25 quilômetros ao sul da cidade de Saratov — não no mar, como as cápsulas americanas, mas em terra firme, num campo. A primeira pessoa a vê-lo foi, segundo o relato que ficou famoso, uma camponesa com a filha, que levaram um susto com o homem de macacão laranja descendo de paraquedas.
A ficha do voo, em números
Os números abaixo vêm de This New Ocean, a história oficial do Projeto Mercury publicada pela NASA, que por sua vez os tirou dos dados corrigidos publicados pelos soviéticos em 25 de abril de 1961. As conversões para o sistema métrico são nossas.
| Item | Valor |
|---|---|
| Data | 12 de abril de 1961 |
| Hora da decolagem | 9h07 em Moscou = 3h07 de Brasília |
| Duração total | 108 minutos |
| Tempo sem peso | 89 minutos |
| Ponto mais alto da órbita | 203 milhas = 327 km |
| Ponto mais baixo da órbita | 112 milhas = 180 km |
| Inclinação da órbita | 65 graus em relação ao equador |
| Velocidade máxima | 17.400 mph = 28.000 km/h |
| Distância percorrida | 25 mil milhas = 40 mil km |
| Peso do módulo tripulado | 10.417 libras = 4.725 kg |
| Diâmetro da cabine esférica | 7,5 pés = 2,3 metros |
Vale traduzir dois desses números. Os 28 mil km/h equivalem a sair de São Paulo e chegar a Belém em cinco minutos. E a cabine de 2,3 metros de diâmetro é uma esfera do tamanho de um quarto pequeno — só que com um homem de macacão pressurizado, o assento ejetável e todo o sistema de suporte à vida lá dentro.
O detalhe que ficou escondido: ele não pousou dentro da nave
Esta é a parte da história que o público levou anos para conhecer, e ela aparece de passagem na história oficial da NASA, que cita entre as diferenças em relação ao programa americano "as provisões para a ejeção do piloto antes do impacto".
A cápsula esférica da Vostok não tinha como pousar suavemente. Ela caía de paraquedas, mas batia no chão forte demais para um ser humano aguentar. A solução soviética foi direta: ainda a vários quilômetros de altura, Gagarin foi ejetado e desceu com o próprio paraquedas, separado da nave, enquanto ela pousava sozinha.
Isso criou um problema burocrático curioso. As regras da Federação Aeronáutica Internacional, na época, exigiam que o piloto pousasse dentro do veículo para o recorde ser homologado. Por isso a União Soviética omitiu o detalhe por anos, mantendo a versão de que ele pousara na cápsula. Só depois a informação foi confirmada — e, hoje, ninguém discute o feito.

Alan Shepard, 23 dias depois — e por que não é a mesma coisa
Muita gente no Brasil aprendeu que o primeiro homem no espaço foi um americano. Não foi, e a confusão tem explicação.
Alan Shepard voou em 5 de maio de 1961, 23 dias depois de Gagarin, na cápsula Freedom 7. Ele foi o primeiro americano no espaço. Mas o voo dele foi de outro tipo:
| Gagarin (12/04/1961) | Shepard (05/05/1961) | |
|---|---|---|
| Tipo de voo | Orbital: deu uma volta na Terra | Suborbital: subiu e desceu |
| Duração | 108 minutos | 15 minutos e 22 segundos |
| Tempo sem peso | 89 minutos | cerca de 5 minutos |
| Altura máxima | 327 km | 116,5 milhas = 187 km |
| Velocidade máxima | 28.000 km/h | 5.180 mph = 8.340 km/h |
| Pouso | Em terra, ejetado da nave | No mar, dentro da cápsula |
A diferença entre orbital e suborbital é o coração da questão. Num voo suborbital, você sobe acima dos 100 km, passa alguns minutos sem peso e cai de volta, como uma pedra jogada muito alto. Num voo orbital, você precisa de velocidade lateral suficiente para continuar caindo e errando a Terra — e isso exige mais de três vezes a velocidade. Como a energia cresce com o quadrado da velocidade, três vezes mais rápido significa mais de dez vezes mais energia para colocar a mesma pessoa lá em cima.
Shepard precisou de 8.340 km/h. Gagarin precisou de 28.000. Essa é a razão de a história registrar os dois, mas com pesos diferentes. A mesma física explica como se volta de lá, assunto de Como os astronautas voltam para a Terra, passo a passo.
Dois números da NASA para a mesma velocidade
Vale um aviso de honestidade. Procurando a velocidade de Gagarin em páginas da NASA, aparecem dois valores diferentes: uma página de imagem histórica publica 27.400 km/h, enquanto a história oficial This New Ocean publica 17.400 milhas por hora, que convertidas dão 28.000 km/h.
Os dois estão na mesma faixa e a diferença é de 2%. Ela vem de os valores medirem coisas ligeiramente diferentes — velocidade média de órbita contra velocidade máxima atingida — e de arredondamentos sucessivos entre sistemas de medida. Publicamos o número da história oficial, com a conversão feita por nós, e registramos o outro aqui para quem encontrar a diferença por aí.
Como o mundo reagiu
A história oficial da NASA conta a cena do dia seguinte com uma franqueza rara em documento de agência. Os dirigentes da NASA foram chamados ao Congresso americano para explicar o que tinha acontecido, e vários deputados se mostraram "especialmente decepcionados por o nome Gagarin ir entrar para os livros de história". A resposta dos dirigentes foi que aquela corrida específica estava perdida "antes de a agência espacial ter sido fundada".
Houve também quem não acreditasse. Por alguns dias, a falta de testemunhas, as fotos de má qualidade e o fato de nenhum anúncio ter sido feito durante os 108 minutos de voo alimentaram a suspeita de que nada daquilo tinha acontecido. A desconfiança durou poucos dias, segundo o relato da própria NASA, e morreu quando Gagarin apareceu em público, vivo, e o governo soviético divulgou os dados corrigidos do voo, em 25 de abril.
O que aconteceu com Gagarin depois
Ele virou, de um dia para o outro, a pessoa mais famosa do planeta, e viajou o mundo como símbolo soviético. Nunca mais voou ao espaço: era valioso demais para ser arriscado de novo.
Em 27 de março de 1968, num voo de treinamento de rotina com o instrutor Vladimir Seryogin, o caça MiG-15UTI em que estavam caiu perto da cidade de Kirzhach, matando os dois. Gagarin tinha 34 anos. O Escritório de Astronautas da NASA enviou uma mensagem de condolências à Academia de Ciências soviética.
A plataforma de onde ele decolou continua de pé e em uso. Ela é conhecida como "a largada de Gagarin", e em abril de 2011, uma semana antes do cinquentenário do voo, a Rússia lançou dali uma nave Soyuz batizada de "Gagarin", com o nome e o rosto dele pintados no primeiro estágio — é essa a foto que abre este artigo, registrada pela NASA.
Quanto ao Brasil, o primeiro brasileiro a ir ao espaço só chegaria 45 anos depois de Gagarin, e a história dele está em Marcos Pontes: a história do primeiro astronauta brasileiro. E o primeiro homem a pisar em outro mundo demoraria mais oito anos depois da Vostok 1, como contamos em Quem foi o primeiro homem a pisar na Lua?.




